No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, a Revista Pontos de Vista apresenta uma entrevista exclusiva com Aríete Rebelo, fundadora e diretora da INRED Angola — Inovação, Redes de Educação e Desenvolvimento. Esta conversa surge num momento particularmente simbólico e estratégico para o projeto INRED, marcado por uma nova fase de ativação e expansão Angola–Portugal. Ao longo da entrevista, Aríete Rebelo partilha o percurso de maturação do projeto desde a sua criação em 2013, os valores estruturantes da INRED — mutualidade e gestão do conhecimento —, bem como a visão estratégica que sustenta o modelo integrado entre Angola e Portugal.
Como nasceu a ideia de criar a INRED Angola e o que a motivou a empreender na área da formação profissional e consultoria organizacional?
A INRED — Inovação, Redes de Educação e Desenvolvimento — foi criada em 2013, num momento em que já possuía experiência consolidada na gestão do ensino superior e na coordenação de projetos educativos. Apesar de formalmente constituída nessa altura, o projeto não avançou imediatamente no plano operacional, permitindo-me amadurecer a visão e reforçar a preparação estratégica e pessoal necessária. Esse período foi determinante para investir no meu desenvolvimento pessoal e enquanto líder, nomeadamente nas áreas da inteligência emocional e gestão da mudança. Hoje, a INRED surge de forma mais estruturada e alinhada com as necessidades reais do mercado, combinando formação profissional aplicada e consultoria organizacional orientada para impacto e sustentabilidade.
Quais os valores ou princípios que considera mais importantes no trabalho da INRED Angola e como eles se refletem nas ações da empresa?
A INRED assenta em dois pilares estruturantes: a cultura da mutualidade e a gestão do conhecimento. A mutualidade traduz-se na convicção de que o desenvolvimento se constrói em rede, através da cooperação e da partilha responsável. A gestão do conhecimento assegura que o saber adquirido é transformado em valor organizacional, inovação e sustentabilidade. Estes princípios refletem-se na forma como desenhamos percursos formativos progressivos, estruturamos parcerias estratégicas e desenvolvemos intervenções ajustadas às necessidades concretas das empresas e da comunidade.
Como tem equilibrado a experiência profissional entre Angola e Portugal?
A experiência entre Angola e Portugal tem sido determinante na definição do modelo integrado da INRED.
Permite conjugar exigência metodológica e boas práticas internacionais com o conhecimento profundo da realidade angolana.
O projeto integrado encontra-se atualmente em processo de ativação formal em Angola e de criação da estrutura jurídica e operacional em Portugal, seguindo os respetivos trâmites legais e administrativos.
Optámos por uma abordagem faseada e responsável, que garante solidez institucional e sustentabilidade ao modelo binacional. A orientação estratégica privilegia igualmente o espaço da CPLP e dos PALOP, promovendo a circulação de conhecimento entre contextos lusófonos.
Na sua opinião, quais são as maiores lacunas no atual ecossistema de formação profissional em Angola e como a INRED procura responder a essas necessidades?
Uma das maiores lacunas é o desfasamento entre formação e mercado de trabalho. Persistem ofertas excessivamente teóricas e pouco orientadas para aplicação prática. A INRED procura responder a esta realidade através de percursos estruturados por níveis, progressivos, integração com consultoria aplicada e desenvolvimento de competências alinhadas com as necessidades organizacionais, promovendo empregabilidade e desempenho profissional efetivo.
Este ano celebra-se mais um Dia Internacional da Mulher. Qual a importância desta data para si pessoalmente e para as mulheres profissionais que acompanha?
O Dia Internacional da Mulher, a 8 de março, e, no nosso contexto, o Dia da Mulher Angolana, celebrado a 2 de março, convidam-nos a uma reflexão profunda sobre o papel da mulher na construção das nossas sociedades. Apesar dos avanços alcançados, a luta continua, muitas vezes, a ser a de sermos plenamente ouvidas — dar voz à nossa própria voz. Liderar não é apenas ocupar um cargo; é um ato de responsabilidade ética. Exige coragem, coerência e capacidade de assumir vulnerabilidades. Confiança, clareza e humanidade serão cada vez mais determinantes nas organizações, e estas são qualidades profundamente enraizadas na mulher africana, cuja história é marcada pela resiliência e responsabilidade comunitária.
Que desafios ainda identifica para a liderança feminina na área empresarial e no setor da formação profissional em Angola e em Portugal?
Persistem desafios relacionados com o acesso a posições de decisão e com a necessidade de validação constante da competência feminina, tanto em Angola como em Portugal. O desafio atual não é apenas ocupar espaços, mas afirmar modelos de liderança mais conscientes e humanizados. O caminho passa por garantir a contribuição feminina seja reconhecida e plenamente integrada nos espaços de decisão estratégicos.
Pode partilhar um exemplo de uma mulher ou grupo de mulheres que inspirou ou impulsionou um projeto importante no teu percurso?
Ao longo do meu percurso fui inspirada por várias mulheres africanas que marcaram o espaço lusófono. Figuras como Graça Machel, pelo seu compromisso com a educação, a ética e o desenvolvimento humano, representam uma referência de liderança consciente e transformadora. Em Angola, muitas mulheres nas áreas académica, empresarial e social têm igualmente desempenhado um papel determinante na construção de modelos de liderança mais responsáveis e humanizadas. São essas referências que reforçam a minha convicção de que as mulheres africanas lideram com resiliência, sentido comunitário e profundo compromisso com o desenvolvimento. Destaco também redes informais de mulheres profissionais que promovem partilha de conhecimento e apoio mútuo, fundamentais para a consolidação de projetos empreendedores.
Está a preparar o lançamento entre Portugal e Angola da empresa entre Março e Junho de 2026, os objetivos e o impacto esperado?
Prevemos iniciar as primeiras ações de formação ainda no decurso do primeiro semestre, de forma progressiva e estruturada, com uma oferta criteriosa e ajustada ao mercado. Está igualmente prevista a participação da INRED na Feira Internacional de Angola (FILDA), em Julho, com o objetivo de divulgar o projeto e estabelecer parcerias estratégicas. O impacto esperado assenta na criação de uma plataforma sustentável de formação e consultoria no espaço lusófono, promovendo circulação do conhecimento e reforço institucional.
Quais são os principais desafios logísticos ou estratégicos que antevê para um projeto binacional dessa natureza?
Os desafios prendem-se sobretudo com o alinhamento legal, administrativo e estratégico entre dois contextos distintos. Optámos conscientemente por não acelerar processos, garantindo que cada etapa esteja devidamente consolidada institucional antes da expansão.
Como estão a articular a cooperação com stakeholders em ambos os países?
A cooperação desenvolve-se através de parcerias com instituições formativas, empresas e redes colaborativas. No contexto empresarial, a INRED prevê igualmente formações à medida, associadas a um modelo de consultoria de formação. Este modelo inicia-se com o diagnóstico das necessidades específicas da organização, definição de objetivos estratégicos e desenho de intervenções alinhadas com a realidade empresarial. A formação é entendida como instrumento de transformação organizacional, incluindo acompanhamento e avaliação de impacto.
A INRED Angola tem um site / presença digital estruturada, quais são os principais conteúdos e recursos que gostaria de destacar?
O site institucional e o sistema de gestão formativa integrados Angola–Portugal encontram-se em fase de construção.
As redes sociais da INRED Angola – Facebook, Instagram e LinkedIn, sob a designação inredangola111 — já estão ativas e funcionam como plataformas de partilha de visão, conteúdos estratégicos e divulgação de iniciativas. Optámos por construir primeiro as bases — legais, estruturais e operacionais, tanto em Angola como em Portugal — para depois escalar de forma sustentada, também no plano digital.
Como utiliza o canal online para reforçar a missão e atrair parcerias?
Os canais digitais são utilizados como instrumentos de posicionamento institucional, partilha de conhecimento e aproximação de parceiros estratégicos, reforçando a identidade da Inred e a sua proposta de valor.
Que tipo de conteúdos ou funcionalidades gostaria de lançar em 2026?
Está prevista a consolidação institucional e o lançamento progressivo das plataformas digitais com áreas reservadas para participantes, recursos pedagógicos, acompanhamento pós-formação e integração com o sistema de gestão formativa.
A dimensão social será igualmente fortalecida através do projeto Rede Ativa – INRED, que pretende mobilizar professores e docentes universitários reformados para ações sociais junto da comunidade, nomeadamente em centros de acolhimento juvenil.
Qual a visão da INRED Angola para 2026? Quais as metas mais ambiciosas?
Consolidar a INRED como referência em formação profissional aplicada e consultoria estratégica no espaço lusófono.
A nossa missão sintetiza-se numa ideia clara: “Transformar conhecimento em desenvolvimento sustentável.”
Que oportunidades emergentes encontra no campo da formação profissional?
A digitalização, a sustentabilidade, a empregabilidade juvenil e o alinhamento com quadros nacionais de qualificações representam oportunidades estratégicas relevantes.
Quais são os principais desafios que espera superar em 2026?
Os principais desafios passam pela consolidação institucional, fortalecimento de parceria e garantia de qualidade na expansão do projeto.
Como avalia o papel da formação profissional na promoção de empregabilidade em Angola?
A formação profissional é um instrumento essencial de promoção da empregabilidade e inclusão económica.
Quando alinhada com as necessidades reais do mercado e políticas públicas, contribui significativamente para o desenvolvimento sustentável do país.
Que conselho partilharia com jovens profissionais ou empreendedores?
Invistam em conhecimento, autoconhecimento e trabalho em rede, porque compreender o contexto local e agir com visão de longo prazo é determinante para construir projetos sólidos e sustentáveis em contextos africanos.


