“Não acredito em liderança sem valores, nem em valores que não se traduzam em ação concreta”

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No mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, a Revista Pontos de Vista dedica o seu tema de março à Liderança Feminina que Transforma Organizações. É neste contexto que damos voz a Lurdes Gonçalves, CEO da START.SOCIAL, uma líder que alia método, proximidade e visão estratégica à intervenção social e cívica. Numa conversa marcada pela autenticidade, partilha como as suas raízes em Loures, a experiência no terreno e um percurso feito de compromisso e responsabilidade moldaram uma liderança feminina focada na transformação sustentável das organizações e das comunidades.

Costuma dizer-se que o lugar onde nascemos não nos define, mas molda-nos. De que forma Loures influenciou a pessoa que é hoje?

Loures foi o meu primeiro laboratório de vida.

Loures moldou-me profundamente. Cresci num território onde convivem realidades muito diferentes — urbano e rural, tradição e modernidade, dificuldades e uma enorme capacidade de superação. Essa diversidade ensinou-me, desde cedo, que não existem soluções simples para problemas complexos e que é preciso ouvir antes de decidir.

Mas Loures também me ensinou responsabilidade.

Ao longo da minha vida profissional, cívica e pública, fui percebendo que conhecer o território não é apenas viver nele — é sentir que temos um dever para com ele. Quando acompanhamos de perto os desafios das famílias, das associações, das escolas, dos idosos e dos jovens que procuram oportunidades, percebemos que não basta comentar: é preciso agir com método, com proximidade e com compromisso.

E isso acompanha-me todos os dias.

Identidade e Raízes

Cresceu numa família humilde, ligada às hortas e ao trabalho do campo. Que aprendizagens dessa infância ainda a acompanham no dia a dia?

Loures deu-me raízes. Cresci numa família humilde, ligada à terra, onde aprendi o valor do trabalho, da persistência e da palavra dada. Os meus avós, pessoas da terra, ensinaram-me muito. Tive uma infância feliz, simples, mas cheia de ensinamentos. Aprendi que nada cresce sem cuidado, sem tempo e sem trabalho consistente.

Desde cedo compreendi o valor do esforço diário, da disciplina e da responsabilidade. Na agricultura não há improviso, há preparação, respeito pelos ciclos e paciência. Essa visão acompanha-me até hoje. Seja na gestão de projetos, na liderança de equipas ou na intervenção cívica, sei que os resultados sólidos não nascem de decisões precipitadas, mas de planeamento, acompanhamento e compromisso.

Aprendi também algo essencial: a humildade. A terra ensina-nos que dependemos uns dos outros, que ninguém constrói nada sozinho e que o sucesso coletivo é sempre mais forte do que qualquer conquista individual.

No meu dia a dia — seja na gestão de organizações, na política local ou no setor social levo sempre comigo essa aprendizagem: é preciso semear hoje para colher resultados no futuro, e não há atalhos para o que é bem feito.

Essa infância deu-me resiliência, sentido de dever e respeito pelas pessoas que trabalham todos os dias e não conseguem muitas vezes viver dignamente. E isso nunca se esquece.

 

Valores e Liderança

Quando fala da sua “veia empreendedora” e da sua fé, como é que essas duas dimensões se cruzam nas decisões que toma?

Costumo dizer que herdei a veia empreendedora do meu pai, e a fé da minha mãe.

Para mim, fé e empreendedorismo não são dimensões opostas, complementam-se. A fé dá-me valores e princípios, uma bússola ética que orienta todas as minhas decisões.

Recorda-me que cada decisão tem impacto na vida das pessoas e que liderar é, antes de mais, servir com responsabilidade.

A veia empreendedora dá-me iniciativa, capacidade de arriscar com prudência e vontade de transformar ideias em ação. Gosto de construir soluções, de organizar processos, de encontrar caminhos onde outros veem obstáculos.

Quando tomo decisões, cruzo estas duas dimensões: ousadia com responsabilidade, inovação com ética, visão com humanidade. Não acredito em liderança sem valores, nem em valores que não se traduzam em ação concreta.

É esse equilíbrio que procuro manter — e que levo para tudo aquilo em que me envolvo.

 

Olhando para trás, que momentos da sua infância ou juventude considera determinantes para a construção da sua resiliência?

Crescer na zona norte de Loures marcou-me profundamente. Ali existe uma identidade muito própria, mais rural, mais comunitária, onde as pessoas ainda se conhecem pelo nome e a palavra dada tem peso.

A vivência ligada às hortas, ao trabalho da terra e ao ritmo das estações ensinou-me disciplina, paciência e respeito pelos ciclos da vida. Aprendi que nem tudo acontece quando queremos, mas que tudo exige cuidado e consistência. Essa aprendizagem construiu a minha resiliência.

Foi ali que percebi que resiliência não é dureza é persistência com humanidade.

A escola para mim foi o meu elevador social, foi a janela aberta para o mundo, que possibilitou o meu crescimento e me deu oportunidade de fazer o que gosto.

 

O facto de os seus filhos terem crescido, estudado e vivido no mesmo concelho reforçou a sua ligação ao território? De que forma?

Sim, reforçou ainda mais essa ligação, especialmente porque viveram essa dualidade que Loures tem entre a zona norte, com a sua identidade própria, e as áreas mais urbanas do concelho.

Ao mesmo tempo, ao acompanhá-los nas escolas e nas suas atividades, percebi também os desafios concretos, acessibilidades, oportunidades, o associativismo, as necessidades de investimento equilibrado entre o norte e a zona oriental do concelho.

Isso deu-me uma visão mais completa e mais responsável. Não falo de Loures como observadora. Falo como alguém que viveu, educou, trabalhou e construiu aqui o seu projeto de vida.

E quando temos essa ligação, o compromisso deixa de ser teórico, passa a ser pessoal.

 

Pertence à geração que viveu profundas transformações tecnológicas e sociais. Como descreve essa travessia entre o “antes” e o “agora”?

A minha geração viveu a transição do analógico para o digital, passando de um mundo em que o contacto presencial era regra para um universo global e imediato. Lembro-me de muitas noites a fazer trabalhos à mão, papel e caneta, sem internet, sem redes sociais, sem telemóveis. Aprendemos a adaptar-nos a todas estas mudanças já em idade adulta, integrando novas tecnologias, novos hábitos e novas formas de comunicar, enquanto mantínhamos valores e métodos que nos foram ensinados desde cedo.

Essa travessia ensinou-nos duas coisas essenciais: capacidade de aprendizagem contínua e equilíbrio. Sabemos valorizar a proximidade humana, mas também compreendemos a importância da inovação. Não temos medo da mudança, mas também não confundimos velocidade com progresso.

Ter vivido o “antes” dá-nos perspetiva. E viver o “agora” exige-nos responsabilidade. Essa combinação ajuda-me a decidir com prudência, mas sem medo de avançar.

 

A adaptação constante tornou-se uma competência essencial. Como a aplica hoje na sua vida profissional e cívica?

Para mim, adaptação não é reagir a cada circunstância — é preparar cenários e saber ajustar sem perder princípios.

Na gestão, significa modernizar processos, integrar tecnologia, promover eficiência e criar equipas flexíveis. Na vida cívica, significa ouvir novas gerações, compreender novas realidades sociais e antecipar necessidades futuras.

Mas há algo que não muda: os valores. Podemos adaptar métodos, ferramentas e estratégias — mas não podemos adaptar a ética, a responsabilidade ou o compromisso com as pessoas e com a transparência.

Essa estabilidade de princípios permite-me navegar na mudança com serenidade.

 

Sente que a Geração X é, por vezes, pouco visível entre gerações mais novas e mais velhas? Porquê?

Sim, muitas vezes ficamos numa espécie de “zona intermédia”. Não somos a geração da fundação das instituições nem a geração da disrupção digital nativa.

Mas talvez seja precisamente aí que está a nossa força. Somos a geração da ponte. Conseguimos dialogar com quem tem experiência institucional e com quem traz novas exigências e novas linguagens.

Essa capacidade de mediação é hoje fundamental. Num tempo de polarizações e ruído, precisamos de quem saiba equilibrar, traduzir e construir consensos.

E numa sociedade que precisa de equilíbrio e visão de longo prazo, essa combinação é um ativo importante.

 

Que diferenças nota entre a forma como a sua geração encara o trabalho, o compromisso e a mudança face às gerações atuais?

A minha geração foi educada para a responsabilidade e para a consistência. Crescemos com a ideia de que o trabalho exige esforço contínuo, compromisso e capacidade de resistência.

As gerações mais novas trazem uma consciência muito forte de propósito e equilíbrio pessoal, o que é positivo e necessário. Mas acredito que o ideal está no encontro dessas visões: responsabilidade com propósito, compromisso com inovação.

Vejo a mudança como algo natural, mas que deve ser sustentado por planeamento e visão de longo prazo. Não basta querer mudar — é preciso saber como, quando e com que impacto.

E é esse equilíbrio que procuro trazer para tudo o que faço.

 

O seu percurso cruza voluntariado, educação, economia social, gestão pública e liderança. Houve um fio condutor desde o início ou ele foi-se construindo com o tempo?

Olhando para trás, percebo que o fio condutor sempre esteve lá — mesmo quando eu própria ainda não o via com clareza.

Sempre fui movida por um sentido de responsabilidade social e por uma inquietação construtiva: a vontade de melhorar contextos, criar oportunidades e organizar soluções que façam diferença na vida das pessoas. O voluntariado foi o primeiro passo natural. A educação trouxe-me consciência do impacto transformador do conhecimento. A economia social ensinou-me que é possível aliar sustentabilidade à missão. A gestão pública deu-me dimensão estratégica e responsabilidade institucional.

Cada etapa acrescentou ferramentas, mas o propósito manteve-se: trabalhar para fortalecer comunidades e preparar o futuro com método e compromisso.

Não foi um percurso feito por acaso. Foi-se consolidando com a experiência, com as responsabilidades assumidas e com a convicção crescente de que liderar é servir com competência, visão e proximidade.

Hoje vejo esse percurso como uma preparação, não apenas profissional, mas humana, para assumir desafios maiores com serenidade e sentido de dever.

 

Comunidade e Impacto Social

A START.SOCIAL celebra 25 anos em Abril. Que balanço faz deste percurso e do impacto gerado nas comunidades?

Tudo começou às portas de Lisboa, em Sacavém, numa das maiores bolsas de pobreza do Concelho de Loures.

Celebrar 25 anos da START.SOCIAL é, acima de tudo, celebrar pessoas. Pessoas que acreditaram, que participaram, que confiaram e que ajudaram a construir respostas para os seus próprios territórios.

Ao longo destes anos, aprendemos que o desenvolvimento comunitário não se faz com soluções avulsas nem com respostas de curto prazo. Faz-se com diagnóstico rigoroso, trabalho em rede, planeamento e acompanhamento contínuo. O impacto mede-se nas histórias concretas: famílias apoiadas, jovens capacitados, redes locais fortalecidas e instituições que passaram a cooperar em vez de trabalhar isoladamente.

A START.SOCIAL tem sido uma referência: uma verdadeira incubadora de projetos de impacto, um espaço onde as ideias ganham forma, onde a inovação social encontra método e onde a sustentabilidade deixa de ser discurso para passar a ser prática. Para nós, sustentabilidade significa equilibrar missão e viabilidade financeira. Não basta ter propósito; é necessário garantir estrutura, planeamento e rigor na gestão. A gestão responsável passa por criar projetos que transformam vidas e, simultaneamente, asseguram a continuidade da própria instituição. Só assim é possível gerar impacto duradouro.

Este percurso teve também momentos de grande exigência. Em 2011, em plena crise financeira, assumimos o investimento de cerca de um milhão de euros na construção de respostas sociais estruturantes. Foi uma decisão difícil, num contexto adverso, que exigiu coragem, rigor e visão de longo prazo — mas era necessária para garantir sustentabilidade futura.

Outro momento particularmente desafiante foi durante a crise epidemiológica da COVID-19. Tivemos de encerrar equipamentos, reorganizar serviços e adaptar metodologias num tempo muito curto. Ainda assim, mantivemos equipas no terreno para garantir apoio alimentar, entrega de medicação e acompanhamento psicológico. Estivemos na linha da frente para que ninguém ficasse para trás. Foi um período exigente, ao qual respondemos com organização, dedicação e sentido de missão.

Para assinalar estes 25 anos, iremos publicar um livro comemorativo. Não será uma simples cronologia de acontecimentos, mas um retrato do impacto real que a START.SOCIAL teve na vida das pessoas e das comunidades, através de testemunhos e relatos de transformação. Queremos que seja um livro com rosto, com voz e com memória viva.

Mais do que celebrar o passado, pretendemos inspirar todos aqueles que estão na mesma jornada que nós — dirigentes, técnicos, voluntários e comunidades — mostrando que é possível gerar mudança sustentável quando existe método, compromisso e coragem para decidir.

O balanço é de orgulho, mas também de responsabilidade. Vinte e cinco anos representam consistência, mas reforçam a exigência de continuar a inovar e a preparar respostas sólidas para os desafios do futuro.

Continuamos a sonhar com uma instituição sólida, autónoma, inovadora e ambientalmente responsável. Uma organização preparada para os desafios sociais, mas também para os desafios ambientais e de sustentabilidade que hoje fazem parte de qualquer projeto sério de desenvolvimento.

A marca START.SOCIAL são as pessoas. São as que dão vida à instituição, as que garantem a qualidade da intervenção, que sustentam a cultura organizacional e que transportam diariamente os nossos valores para o terreno. Porque, no fim, são sempre as pessoas que fazem a diferença — e é por elas que tudo vale a pena.

Aprendi que transformar comunidades exige método, persistência e visão de longo prazo. E isso não se improvisa.

 

Liderar projetos de desenvolvimento comunitário exige transparência e visão. Que princípios nunca abdica enquanto líder?

Para mim, liderança não é protagonismo. É criar condições para que as pessoas e as comunidades cresçam com autonomia e confiança.

E quando estes princípios estão presentes, a autoridade deixa de ser imposta, nunca abdico de cinco princípios fundamentais: ética, transparência, responsabilidade, participação e visão estratégica.

A ética e a coerência são a base de qualquer liderança. O que defendemos tem de estar alinhado com o que fazemos. A transparência nas decisões é essencial — as pessoas têm direito a compreender os critérios, os objetivos e os limites das escolhas que são feitas. A responsabilidade implica assumir resultados, aprender com os erros e prestar contas.

A participação é igualmente central. Acredito numa liderança que escuta, envolve e constrói soluções em conjunto. E, por fim, a visão estratégica: não basta resolver o problema imediato; é preciso antecipar impactos e preparar o futuro.

É verdade que a exposição pública, por vezes, coloca estes princípios à prova e pode gerar pressão ou confronto. Mas os princípios não podem ser condicionados pelo contexto nem pelo desempenho de funções públicas. São a nossa âncora. Ao longo do meu percurso, nunca me deixei condicionar quando estavam em causa valores fundamentais.

Porque liderar não é procurar aplauso. É manter coerência, mesmo quando isso exige firmeza.

 

O combate à pobreza e à exclusão social tem sido uma constante no seu trabalho. O que ainda falta fazer em Portugal nesta área?

Portugal tem uma rede social extraordinária, profundamente enraizada nos territórios e composta por profissionais altamente dedicados. Mas se queremos dar um salto qualitativo no combate à pobreza e à exclusão, precisamos de evoluir estruturalmente o modelo que sustenta essa intervenção.

Há quatro dimensões essenciais que exigem reflexão e ação consistente.

Primeiro, o modelo de financiamento. A intervenção social exige estabilidade, previsibilidade e planeamento plurianual. Modelos excessivamente fragmentados, burocráticos ou de curto prazo limitam a capacidade de inovação e dificultam a sustentabilidade das organizações. Se queremos respostas estruturais, precisamos de enquadramentos financeiros mais estáveis, orientados para impacto e resultados de médio e longo prazo.

Segundo, a valorização da liderança feminina. O setor social é maioritariamente operacionalizado por mulheres — técnicas, cuidadoras, educadoras, assistentes sociais — mas a liderança nem sempre reflete essa realidade. É importante investir na capacitação, na renovação e em modelos de governação mais preparados para promover diversidade e igualdade de oportunidades.

Na START.SOCIAL, a liderança tem sido maioritariamente assegurada por mulheres, com base no mérito, na competência e na capacidade de gestão. Não por quotas simbólicas, mas por reconhecimento de talento, responsabilidade e resultados. Acredito profundamente que igualdade não é retórica: é garantir que as mulheres tenham as mesmas oportunidades de liderar, decidir e transformar.

Ainda existem desigualdades salariais e barreiras subtis à progressão em vários setores da sociedade. Defender os direitos das mulheres é também defender modelos de governação mais justos, mais equilibrados e mais representativos da realidade. A liderança deve ser determinada pelo mérito e pela preparação — nunca pelo género.

Promover lideranças femininas é fortalecer organizações, diversificar perspetivas e melhorar a qualidade das decisões.

Terceiro, a profissionalização das direções. O compromisso social é essencial, mas deve ser acompanhado por competências sólidas de gestão, planeamento estratégico, controlo financeiro e avaliação de impacto. A sustentabilidade das instituições depende de lideranças preparadas e de modelos de governação transparentes e responsáveis.

Quarto, os recursos humanos e a valorização profissional. O setor enfrenta escassez de profissionais em áreas críticas, elevada exigência emocional e níveis remuneratórios que nem sempre correspondem à responsabilidade assumida. Não podemos exigir qualidade nas respostas sociais sem investir na dignidade e estabilidade de quem está na linha da frente.

Paralelamente, há uma questão estruturante: cada território tem as suas próprias dinâmicas sociais, as suas bolsas de vulnerabilidade e os seus recursos específicos. Uma abordagem excessivamente centralizada dificilmente conseguirá responder com eficácia a realidades tão diversas. É fundamental reforçar a capacidade de diagnóstico, decisão e articulação ao nível local, dando às autarquias e às redes sociais um papel mais estratégico e operativo.

As organizações sociais que estão diariamente no terreno devem ser encaradas como parceiras na definição das políticas públicas e não apenas como executoras. A prevenção da pobreza exige proximidade, articulação e responsabilidade partilhada.

Temos pessoas competentes e territórios resilientes. Falta consolidar um modelo mais coerente, mais descentralizado e mais estratégico.

E isso é possível — com visão, compromisso e coragem reformista.

 

A participação cívica é uma das suas bandeiras. Como incentivar mais pessoas a envolverem-se ativamente na vida pública?

A participação não acontece por acaso — constrói-se.

Em primeiro lugar, é essencial investir seriamente em literacia política junto dos mais novos. Não se trata de partidarização, mas de educação para a cidadania ativa: compreender como funcionam as instituições, como se tomam decisões públicas, como se participa em orçamentos participativos, como se acompanha e fiscaliza a implementação de políticas. Sem este conhecimento, não podemos esperar que os jovens se envolvam de forma efetiva na vida cívica.

Em segundo lugar, acredito profundamente na mentoria geracional. A minha geração pode ser uma ponte entre experiência e inovação. Precisamos de criar espaços onde jovens, adultos e seniores dialoguem, partilhem conhecimento e construam soluções em conjunto. A democracia fortalece-se quando há troca entre gerações, não competição.

Os desafios que enfrentamos nos territórios — habitação, envelhecimento, serviços públicos, coesão social, sustentabilidade financeira e qualidade da democracia local — são interdependentes e acumulativos. Exigem mais do que respostas imediatas: exigem preparação, método e confiança mútua entre instituições e cidadãos.

É nesse espírito que estou a desenvolver uma nova iniciativa cívica em Loures, que visa transformar a participação numa prática contínua, estruturada e com impacto real. O movimento parte de uma ideia simples: as melhores decisões públicas envolvem quem vive o território desde o início. Preparar o futuro significa antecipar problemas, planear soluções e avaliar impactos — e fazer isso com as pessoas é garantir que a participação não seja apenas formalidade.

Um aspeto central desta visão é pensar as cidades como espaços inteligentes, inclusivos e cuidadosos. Cidades que promovem bem-estar para crianças e idosos, que apoiam famílias, que facilitam aprendizagem contínua e mobilidade segura, e que integram inovação tecnológica com responsabilidade social. O desenvolvimento urbano deve ser parte da democracia prática: se conseguimos ouvir e envolver as pessoas, podemos desenhar cidades mais justas, educativas, sustentáveis e socialmente responsáveis.

Este projeto não se coloca contra ninguém. É um movimento a favor:

Ÿ de decisões públicas com impacto real;

Ÿ de maior proximidade entre instituições e cidadãos;

Ÿ de políticas social e financeiramente sustentáveis;

Ÿ de cidades que cuidam de todas as gerações;

de transparência, explicação e responsabilidade na governação;

Ÿ de uma democracia praticada todos os dias, nos territórios e nas escolhas concretas.

Acredito numa política serena, exigente e próxima, que não vive de slogans, mas de processos claros. Onde as pessoas não são apenas destinatárias das políticas, mas parte ativa da sua construção. Não basta abrir períodos formais de consulta: é necessário criar mecanismos contínuos de envolvimento, com retorno claro sobre o impacto das contribuições.

As pessoas participam quando sentem que são ouvidas e quando percebem que a sua intervenção tem consequência real. A democracia local não pode ser episódica. Tem de ser um exercício permanente de confiança, proximidade e responsabilidade partilhada.

E acredito verdadeiramente que Loures tem a maturidade, diversidade e talento suficientes para dar este passo e transformar a participação cívica numa prática de todos os dias, alinhada com a construção de cidades inteligentes e cuidadoras.

 

A escrita e o debate público fazem parte da sua intervenção. O que a motiva a continuar a escrever e a intervir?

Escrevo e intervenho porque acredito que a palavra transforma realidades. Não é apenas um exercício de opinião; é uma forma de partilhar conhecimento, provocar reflexão e estimular ação.

Através da escrita consigo aproximar diferentes perspetivas, cidadãos, técnicos, associações, decisores e criar pontes entre experiências e soluções concretas. O debate público é, para mim, uma ferramenta de cidadania ativa: permite expor ideias, confrontá-las com outras, construir consensos e identificar caminhos que de outra forma ficariam por explorar.

Continuo a escrever e a intervir porque sei que a transformação começa com compreensão e diálogo, e porque acredito que os territórios, as instituições e as pessoas só evoluem quando são desafiados a pensar e a participar.

 

Quando pensa no futuro, que legado gostaria de deixar às pessoas e aos territórios com que se cruza?

O que me move todos os dias é o compromisso com as pessoas do meu Concelho. Ao longo da minha vida, tive a oportunidade de trabalhar tanto na iniciativa privada, como pública, onde aprendi na prática como as decisões públicas impactam diretamente a vida das pessoas e dos territórios.

O legado que desejo deixar não é apenas resultado do meu trabalho pessoal, mas de uma vasta equipa de mulheres e homens, da capacidade de criar processos que envolvam e empoderem as pessoas. Quero que cada comunidade que participe nos projetos que lidero sinta que foi ouvida, que contribuiu e que ganhou autonomia para construir soluções próprias.

No futuro, gostaria que se lembrassem de mim como alguém que não prometeu milagres, mas que preparou o futuro com método, responsabilidade e proximidade. Que deixou territórios mais coesos, organizações mais fortes e cidadãos mais confiantes e participativos.

O que realmente importa é que as pessoas sintam que a política e a intervenção cívica podem ser instrumentos de mudança concreta, e que participar faz diferença. Esse é o legado que me move todos os dias: transformar experiências, fortalecer comunidades e preparar o futuro com as pessoas, não apenas para elas.

Quero que Loures seja um Concelho onde as pessoas confiem nas instituições, onde as comunidades se sintam fortalecidas e onde cada ação pública seja feita com proximidade, método e transparência.

E acima de tudo, quero deixar claro que estou disponível para as “gentes” do meu Concelho: para ouvir, dialogar, envolver-me e trabalhar com todos aqueles que querem preparar um futuro melhor para Loures.

O futuro não se improvisa. Prepara-se. E prepara-se com as pessoas.

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