A Revista Pontos de Vista destaca neste mês de Março lideranças femininas que estão a transformar a forma como as organizações pensam, decidem e evoluem. Nesta edição, a entrevistada é Patrícia Dourado, Diretora-Geral, Contabilista Certificada e Mentora Empresarial, uma líder que alia rigor técnico, visão estratégica e consciência humana na gestão. Ao longo desta entrevista, exploramos o significado de liderar enquanto mulher no atual contexto empresarial, os desafios enfrentados ao longo do percurso, o impacto real da liderança feminina na cultura organizacional e o papel determinante da inteligência emocional, relacional e coletiva na construção de empresas mais saudáveis e com elevadas performances.
Março é um mês particularmente simbólico no que respeita à reflexão sobre o papel da mulher na sociedade. O que significa, para si, liderar enquanto mulher no contexto empresarial atual?
Liderar enquanto mulher, hoje, é ocupar espaço com consciência, presença e responsabilidade. Não é repetir modelos antigos de poder, é ter coragem para os redesenhar. Para mim, liderança é a capacidade de criar clareza, direção e movimento, integrando pessoas, números e propósito. É decidir com critério, mas também com leitura humana. Uma empresa é um sistema vivo: estratégia, cultura, finanças e emoção estão interligadas. Os resultados não nascem apenas dos indicadores, nascem da qualidade das decisões, da maturidade das relações e da coerência entre visão e ação. E é aqui que a liderança ganha profundidade: quando serve o todo, não o ego.
A liderança feminina é frequentemente associada a caraterísticas como empatia, escuta ativa e colaboração. De que forma estas dimensões estão presentes no seu estilo de liderança?
Estão na base da minha forma de gerir. A empatia, para mim, não é suavidade: é lucidez aplicada às relações. A liderança tem como base a inteligência emocional e, como pilares, a inteligência relacional e a inteligência coletiva. Uma mulher líder, quando assume a sua verdade, consegue ver o melhor de cada colaborador, ver grandeza até quando a própria pessoa ainda não a reconhece em si. As empresas hoje necessitam menos de “mais conhecimento” e mais de intuição apurada, emoção bem vivida, orgulho gerado e sentido, porque isso torna-se a alma do negócio. Se existe inteligência artificial, dentro das organizações temos de desenvolver, com a mesma seriedade, a inteligência relacional e coletiva, assente numa base sólida de inteligência emocional como regulador do “eu” individual. A escuta ativa é uma ferramenta estratégica: escutar também é uma forma de cuidar, da empresa e das pessoas que a compõem. Permite diagnósticos mais assertivos do que não aparece nos relatórios, antecipa tensões e desbloqueia potencial. A colaboração transforma equipas em ecossistemas de performance. E é aí que nasce a autonomia: quando números e pessoas deixam de estar separados.
Ao longo do seu percurso profissional, quais foram os principais desafios que enfrentou enquanto mulher em funções de liderança? E que aprendizagens retirou dessas experiências?
O maior desafio foi não me diminuir para caber em organizações que já não servem o tempo em que vivemos. Houve momentos em que precisei sustentar visão, limites e decisões em ambientes ainda muito orientados para controlo e hierarquia rígida. Defender uma visão de ecossistema nos negócios — onde coexistem valores como verdade, integridade, amor (no sentido de humanidade e respeito), inteligência emocional e relacional, obrigou-me a percorrer um caminho longo. Mas foi esse caminho que me permitiu inspirar líderes, ao longo de 18 anos, para uma gestão mais sustentável. A minha base é Contabilidade e Administração, com especialização em Fiscalidade, mas fui integrando formação contínua em inteligência emocional, gestão, filosofia, neurociência, comunicação, consciência sistémica e certificada em coaching. Uso ferramentas como a astrologia e numerologia para momentos de decisão estratégica. Isto é bastante usado nos Estados Unidos. Muitos decisores analisam o todo. Aprendi que autoridade verdadeira nasce da coerência interna. Que sensibilidade e firmeza não são opostas, são complementares. E que liderar é escolher o que é certo para o sistema, mesmo quando isso exige desconforto, rutura ou coragem.
Na sua perspetiva, como se manifesta a liderança feminina nas organizações? Acredita que existem diferenças significativas na forma de liderar?
Prefiro falar de integração, não de oposição. A liderança feminina tende a trazer uma leitura mais sistémica: pessoas, processos, cultura, impacto e tempo longo no mesmo mapa. Muitas mulheres não separam resultados de relações, nem estratégia de humanidade. Isso não é fragilidade, é sofisticação de gestão. Eu sou um exemplo desta integração: venho da área dos números, sou contabilista certificada, lidero há 15 anos a Douradotoc, e trabalho diariamente com métricas, decisões e estratégia. Mas sei que números sem cultura geram curto prazo; e cultura sem estratégia não se sustenta. Liderar é saber unir as duas dimensões.
De que forma tem procurado gerar impacto real na sua organização e no setor em que atua? Pode partilhar exemplos concretos de transformação ou inovação que tenham resultado da sua visão estratégica?
O meu trabalho tem sido elevar o nível de consciência na gestão. Ajudar líderes a usarem números como bússola estratégica e não apenas como obrigação fiscal. Traduzir dados em decisões e decisões em estruturas mais saudáveis. Isso tem-se refletido em reorganizações financeiras mais sólidas, modelos de gestão mais claros, equipas mais alinhadas e líderes mais presentes. Em paralelo, através da mentoria e de projetos com mulheres, acompanho transformações profundas: mulheres que passam de exaustão e dispersão para clareza, direção e liderança “de dentro para fora”. E hoje observo algo significativo: cada vez mais homens procuram também esta visão, porque compreenderam que o verdadeiro salto está em sermos líderes da nossa vida, e a partir daí liderarmos o negócio com maturidade.
Considera que as empresas portuguesas estão hoje mais preparadas para valorizar e promover a liderança no feminino? Que mudanças ainda considera essenciais?
Há progresso, mas ainda muito ao nível do discurso. Falta coragem para fazer mudanças estruturais. Alguém tem de abrir caminho, e eu acredito que o exemplo é uma forma de liderança. É necessário redesenhar estruturas, critérios de avaliação, modelos de progressão e, sobretudo, a “cultura invisível” que ainda penaliza estilos de liderança mais humanos e integradores. Valorizar liderança feminina não é criar exceções inspiradoras — é construir sistemas justos, onde competência, visão estratégica e maturidade emocional contam tanto quanto resultados imediatos.
Acredita que a presença de mais mulheres em cargos de decisão influencia a cultura organizacional? Em que sentido?
Influencia profundamente. Traz mais atenção à qualidade das relações, à comunicação, à sustentabilidade das decisões e ao impacto humano da gestão.
Não por idealismo, mas por leitura sistémica da realidade. Isso reduz ruído interno, aumenta cooperação e melhora a capacidade de adaptação das organizações. E com o tempo melhora também os resultados, porque sistemas saudáveis têm melhores performances. Uma empresa pode ter excelentes números no curto prazo e estar doente por dentro. A liderança feminina tende a ver isso mais cedo, e a intervir antes do colapso.
Que papel desempenham a colaboração, a empatia e o propósito na construção de organizações mais sustentáveis e humanizadas?
São pilares de performance estratégica. Sem colaboração, há fragmentação. Sem empatia, há desgaste e perda de talento. Sem propósito, há execução sem sentido e sem futuro. Organizações sustentáveis são aquelas que sabem porque existem, para onde vão e como querem crescer. Isto é gestão moderna, consciente e responsável. O resto é apenas sobrevivência de curto prazo — e a longo prazo, paga-se caro.
Que conselhos daria a jovens mulheres que aspiram a assumir posições de liderança nas suas áreas de atuação?
Invistam em competência real e em consistência. Desenvolvam visão, estrutura interna e capacidade de decisão. Não negoceiem a vossa integridade para caberem em sistemas pequenos. Aprendam a ler pessoas, contextos e ciclos, liderança é tanto técnica como consciência. E construam redes, não apenas carreiras. Ninguém lidera sozinha.
A liderança é um ato relacional: é influência com responsabilidade.
Olhando para o futuro do trabalho, que tipo de liderança considera que será mais necessária — e qual o contributo específico que as mulheres podem trazer para esse novo paradigma?
Vamos precisar de líderes com visão integrativa, sistémica, inteligência emocional, inteligência relacional, capacidade de decidir em complexidade e coragem para abandonar modelos obsoletos. A inteligência artificial vai acelerar processos, mas o diferencial competitivo será humano. O contributo das mulheres será precisamente essa integração entre estratégia, humanidade e consciência de longo prazo, criando inteligência coletiva e ecossistemas sustentáveis nesta Nova Era dos Negócios. Não para substituir um modelo por outro, mas para elevar o nível da própria liderança nas organizações e na sociedade. No fim, os números serão sempre consequência. A consciência é a causa.


