Para esta edição especial de março da Revista Pontos de Vista no Feminino, conversámos com Airosa Bento, Principal Chief Executive Officer da Understading Code, uma líder cuja trajetória se distingue pela solidez técnica, visão estratégica e forte sentido de responsabilidade institucional. Com uma experiência marcada pela fundação e liderança de organizações em Angola e Portugal, bem como pelo seu papel ativo na promoção do desenvolvimento empresarial no espaço da lusofonia, Airosa Bento partilha uma perspetiva clara e exigente sobre o que significa liderar no contexto atual. Para si, a liderança feminina não se afirma por concessão, mas por mérito, preparação e impacto concreto na construção de instituições mais justas, resilientes e sustentáveis.
Como define a liderança feminina no contexto atual das organizações?
“A liderança feminina não pede espaço — constrói instituições mais fortes, mais justas e mais preparadas para o futuro.”
Defino a liderança feminina como uma liderança sustentada em mérito, preparação técnica sólida e responsabilidade institucional. Num ambiente organizacional cada vez mais exigente, a liderança feminina afirma-se quando alia competência, visão estratégica e coerência entre valores e decisões. Não se trata de representação simbólica, mas de contribuição qualificada para a construção de instituições mais estruturadas, mais resilientes e mais sustentáveis. Reconhecer o talento feminino não é uma questão de estatística, mas de justiça organizacional e responsabilidade institucional.
De que forma a liderança feminina contribui para a transformação e sustentabilidade das organizações?
A liderança feminina contribui para a transformação organizacional quando eleva padrões internos e estrutura processos com visão de longo prazo. Transformar implica passar da informalidade para a clareza, da improvisação para o método e do curto prazo para a estratégia. Na minha experiência como fundadora da AAL Monteiro, Lda, da Escola de formação T&HC Academy – Angola e da Understading Code – Portugal, e enquanto Vice-Presidente da Câmara de Comércio e Indústria da Lusofonia e das Diásporas, tenho observado que mulheres em posições de liderança tendem a investir de forma consistente na capacitação das equipas, na estabilidade cultural e na coerência institucional. Sustentabilidade não é discurso — é consistência aplicada ao longo do tempo.
Quais considera serem os principais desafios que as mulheres ainda enfrentam em cargos de liderança?
O principal desafio continua a ser a demonstração consistente de competência. Em muitos contextos, mulheres em posições de decisão enfrentam maior escrutínio inicial. Isso exige preparação robusta, firmeza decisional e maturidade emocional. A autoridade não se impõe; constrói-se com resultados, disciplina e coerência. O verdadeiro desafio não é apenas aceder ao cargo, mas consolidar liderança com estabilidade e impacto duradouro.
Que caraterísticas ou competências considera essenciais para uma liderança feminina eficaz e transformadora?
Independentemente do género, liderança eficaz exige:
- Coerência ética
- Clareza estratégica
- Capacidade de decisão responsável
- Inteligência emocional aplicada à gestão
- Estruturação de equipas com propósito;
A liderança feminina torna-se verdadeiramente transformadora quando assume também uma dimensão multiplicadora: desenvolve outras líderes, estrutura oportunidades e fortalece a continuidade institucional.
De que modo a diversidade de género na liderança impacta a cultura organizacional e os resultados das empresas?
Equipas de liderança plurais ampliam a capacidade de análise estratégica, reduzem o risco de pensamento homogéneo e enriquecem decisões complexas. Quando o talento feminino é integrado com base em competência, a organização beneficia de maior equilíbrio relacional, sensibilidade cultural e capacidade de adaptação. Diversidade, quando sustentada em mérito, não fragmenta — fortalece.
Na sua experiência, que mudanças positivas observou em organizações lideradas por mulheres?
Tenho observado que lideranças femininas orientadas por valores e mérito tendem a:
- Investir consistentemente na formação e capacitação das equipas
- Estabilizar culturas organizacionais
- Reforçar a coerência entre discurso institucional e prática
- Desenvolver novas lideranças em vez de centralizar decisões.
Essas práticas geram confiança interna e contribuem para resultados sustentáveis.
Qual o papel das organizações na promoção da igualdade de género e no desenvolvimento de lideranças femininas?
As organizações têm responsabilidade ativa na criação de ambientes onde o mérito possa emergir com transparência. Isso implica critérios claros de progressão, processos estruturados de mentoria, avaliação consistente e cultura de responsabilização. Promover igualdade não significa criar privilégios, mas assegurar que o talento não seja limitado por preconceito ou informalidade estrutural.
Que conselhos deixaria às mulheres que aspiram a posições de liderança?
Invistam continuamente no desenvolvimento pessoal e na vossa preparação técnica e estratégica. Cultivem clareza sobre a vossa identidade profissional. Definam com convicção os vossos valores e respeitem-nos nas decisões. Procurem mentoria qualificada. Compreendam que liderança exige disciplina, responsabilidade e resiliência. Não aguardem validação externa para evoluir. Preparem-se para merecer o lugar que desejam ocupar. Competência abre portas; carácter e consistência mantêm-nas abertas.
Que significado tem para si o Dia Internacional da Mulher no contexto da liderança e do mundo corporativo?
Para mim, este dia representa um momento de avaliação institucional e de maturidade organizacional. Mais do que celebrar, importa refletir com seriedade. Devemos perguntar: Estamos a reconhecer mérito com objetividade e critérios claros? Estamos a criar condições reais para o desenvolvimento sustentável do talento feminino? Estamos a estruturar sistemas transparentes de progressão e responsabilização? Estamos a formar líderes capazes de assegurar continuidade e estabilidade? O progresso mede-se pela qualidade das estruturas implementadas, pela coerência das decisões e pela capacidade de transformar princípios em prática. Celebrar é importante. Estruturar é essencial.
Que mensagem final gostaria de deixar sobre o futuro da liderança feminina nas organizações?
A transformação das organizações dependerá cada vez mais da qualidade da sua liderança. A lusofonia tem diante de si uma oportunidade histórica de afirmar um modelo próprio de governação humana — assente em mérito, valores e responsabilidade institucional. A liderança feminina, quando sustentada em competência e propósito, não representa apenas uma conquista individual. Representa a capacidade de uma sociedade reconhecer o valor do seu talento e de construir instituições mais maduras, resilientes e sustentáveis. Essa é a liderança que verdadeiramente transforma.


