“O setor da contabilidade e consultoria continua a ser marcado por estruturas muito tradicionais”

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Neste número de Março da Revista Pontos de Vista, voltamos a ter a presença de Estela Justino, fundadora da Star Accounting. No âmbito das celebrações do Dia Internacional da Mulher, Estela partilha uma reflexão profunda sobre liderança feminina, igualdade no contexto empresarial e os desafios enfrentados enquanto mulher num setor tradicionalmente conservador. Ao longo desta entrevista, a fundadora da Star Accounting revela uma liderança que conjuga estratégia com sensibilidade humana, destacando a diversidade, a inclusão e o propósito como pilares fundamentais para organizações mais sustentáveis, inovadoras e preparadas para o futuro.

O Dia Internacional da Mulher convida-nos à reflexão. Enquanto líder e fundadora da Star Accounting, que significado atribui a esta data no atual contexto empresarial?

O Dia Internacional da Mulher é um momento de reconhecimento, mas sobretudo de responsabilidade. No contexto empresarial atual, esta data lembra-nos que a igualdade não é apenas um princípio, mas um motor de competitividade e inovação. Para mim, representa a oportunidade de inspirar outras mulheres, de reforçar o valor da diversidade nas organizações e de demonstrar que liderança e sensibilidade podem e devem caminhar lado a lado. Na Star Accounting, este dia simboliza também os 9 anos de um percurso construído com rigor, proximidade e a convicção de que o talento feminino tem um impacto transformador nas empresas.

 

A liderança feminina é frequentemente associada a competências como empatia, escuta ativa e colaboração. De que forma estas caraterísticas se manifestam no seu estilo de liderança?

Acredito profundamente na liderança que combina estratégia com humanidade. Para mim, a empatia materializa-se na capacidade de compreender as pessoas além dos números e dos resultados. A escuta ativa é um exercício diário que me permite tomar decisões mais informadas, promover confiança e criar um ambiente onde todos se sentem valorizados. A colaboração, por sua vez, é o que dá vida às melhores ideias. Na Star Accounting, incentivei desde o início um modelo de trabalho onde cada voz conta e onde a proximidade com a equipa e os clientes é central.

 

Na sua experiência, como a presença de mulheres em cargos de decisão tem vindo a transformar a cultura organizacional e os modelos tradicionais de gestão?

A presença de mulheres na liderança tem acelerado uma transformação estrutural nas organizações. Vejo cada vez mais empresas a adotar modelos mais flexíveis, inclusivos e orientados para propósito. As mulheres trazem consigo uma visão que privilegia a sustentabilidade, a transparência e a relação humana, caraterísticas que têm redefinido o que significa liderar no século XXI. Nas organizações onde participo e observo, constato que a diversidade na tomada de decisão gera maior equilíbrio, mais inovação e uma cultura empresarial mais consciente.

 

Quais foram os principais desafios que enfrentou ao longo do seu percurso enquanto mulher líder no setor da contabilidade e consultoria? E que aprendizagens retirou desses momentos?

O setor da contabilidade e consultoria continua a ser marcado por estruturas muito tradicionais. Enquanto mulher e fundadora, enfrentei o desafio de conquistar credibilidade num ambiente onde a liderança feminina ainda era vista como exceção. Houve momentos de exigência extrema, mas foram precisamente esses momentos que me ensinaram a importância da resiliência, da consistência e da autenticidade. Aprendi também que liderar não é sobre ser perfeita, mas sobre ser verdadeira e manter uma visão clara, mesmo quando o caminho não é óbvio.

 

Acredita que as organizações estão hoje mais preparadas para promover uma liderança inclusiva e equitativa? O que ainda precisa de evoluir?

Vejo uma evolução significativa, com maior consciencialização e esforços reais para promover ambientes de trabalho mais equitativos. No entanto, ainda existe um caminho a percorrer. É necessário transformar políticas em práticas, reforçar a meritocracia e garantir que as mulheres têm acesso efetivo a oportunidades de progressão. A mudança cultural leva tempo, mas acredito que estamos num ponto de viragem e que as organizações que investirem em inclusão estarão mais preparadas para o futuro.

 

Como equilibra visão estratégica e sensibilidade humana na gestão da sua equipa e na relação com clientes?

A estratégia define o rumo; a sensibilidade humana define a forma. Sempre acreditei que o verdadeiro equilíbrio surge quando se lidera com propósito. Procuro garantir que cada decisão estratégica esteja alinhada com os valores da equipa e com as necessidades dos clientes. O resultado é uma relação de confiança duradoura, onde as pessoas sabem que têm em mim uma líder exigente, mas também alguém que as apoia, ouve e valoriza.

 

Que impacto considera que a liderança feminina pode ter na construção de organizações mais sustentáveis e inovadoras?

A liderança feminina tem uma visão ampla e integradora, fundamental para a sustentabilidade. As mulheres tendem a analisar o impacto das decisões a longo prazo e a considerar dimensões humanas, sociais e ambientais. Isso traduz-se em modelos de negócio mais responsáveis, inovadores e orientados para o futuro. Acredito que, à medida que mais mulheres ocuparem espaços de liderança, veremos organizações mais equilibradas, mais conscientes e mais adaptáveis.

 

Que conselhos daria a jovens mulheres que aspiram a cargos de liderança, especialmente em áreas tradicionalmente mais técnicas ou conservadoras?

Diria que procurem construir a sua própria identidade de liderança, sem tentar replicar modelos antigos.

Que invistam na sua formação, na sua autoconfiança e na capacidade de se fazerem ouvir. E que mantenham a coragem de ocupar lugares onde antes não havia espaço para elas. A liderança é um caminho exigente, mas profundamente gratificante e cada nova geração tem a responsabilidade e a oportunidade de redefinir o que significa liderar.

 

O futuro do trabalho exige novas competências e novas formas de liderar. Que tendências antecipa para os próximos anos no que respeita à liderança feminina?

Vejo a liderança feminina a ganhar um papel ainda mais central num contexto que requer adaptação constante, inteligência emocional e visão estratégica.

Acredito que as líderes do futuro serão cada vez mais orientadas por dados, mas guiadas por valores. Vejo também um aumento na valorização de competências como a comunicação, a flexibilidade e a capacidade de construir equipas diversas. A liderança feminina será, sem dúvida, um pilar fundamental na transformação das organizações.

 

Se tivesse de definir, numa frase, o que significa “liderar com propósito”, que mensagem deixaria às leitoras e leitores da Revista Pontos de Vista?

Liderar com propósito é alinhar resultados com valores, inspirando pessoas a crescer enquanto fazemos crescer a organização.

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