“O setor da saúde atravessa atualmente um período de desorganização e ausência de resposta eficaz”

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No editorial “Saúde, Vidas que Cuidam” da Revista Pontos de Vista, Isabel Andrade, Coordenadora da ADV Consulting e Consultora Empresarial, partilha uma visão clara, firme e profundamente humanista sobre os desafios e oportunidades que marcam o setor da saúde rumo a 2026. Num momento que define como de consolidação estratégica e especialização na área da Saúde, Isabel Andrade defende uma atuação mais ágil, articulada e centrada nas pessoas, sublinhando a urgência de respostas estruturadas para os constrangimentos do sistema e destacando uma ideia-chave para o futuro: humanização — porque só com proximidade, competência e compromisso será possível garantir cuidados de saúde mais acessíveis, dignos e sustentáveis para todos.

Olhando para o percurso do seu projeto/empresa até ao momento, como define a fase em que se encontra atualmente?

Atualmente, o projeto encontra-se numa fase muito produtiva de redefinição estratégica e consolidação. A decisão de direcionar a área do Direito para o setor da Saúde revelou-se particularmente acertada, permitindo uma maior especialização, foco e criação de valor. Esta fase tem sido marcada por um crescimento consistente, maior alinhamento com as necessidades reais do mercado e desenvolvimento de soluções mais adequadas e eficazes para as instituições de saúde.

 

Quais foram os principais marcos ou conquistas alcançadas recentemente que melhor refletem o impacto do vosso trabalho na área da saúde?

Mesmo sem grande visibilidade pública, os resultados do nosso esforço são evidentes na melhoria do acesso a cuidados de saúde, no reforço das equipas técnicas e na promoção de práticas mais qualificadas e humanas. Este trabalho contínuo e dedicado tem ajudado a colmatar lacunas estruturais do Sistema Nacional de Saúde, demonstrando que ações discretas, quando bem orientadas, geram grandes impactos.

 

De que forma a vossa missão se mantém relevante e alinhada com as necessidades reais das pessoas que cuidam e que são cuidadas?

A nossa missão mantém-se relevante por estar diretamente alinhada com as necessidades reais na Saúde como das pessoas que deles dependem. Continuamos a atuar de forma exclusiva na área da saúde com Cuba, uma parceria estratégica que tem permitido responder a carências concretas do sistema nacional, garantindo apoio técnico, formação e reforço de recursos humanos qualificados.

Ao mesmo tempo, reconhecemos que a eficácia desta missão exige maior celeridade e articulação institucional. Desejamos uma atuação mais ágil por parte da Ordem dos Médicos e um envolvimento mais atento do Governo às realidades vividas no terreno, de modo a criar condições que permitam uma resposta mais rápida, eficiente e ajustada às necessidades do país. Acreditamos que apenas com este alinhamento será possível maximizar o impacto do nosso trabalho e assegurar cuidados de saúde mais acessíveis, humanos e sustentáveis.

 

O setor da saúde atravessa uma fase de profundas mudanças. Quais considera serem hoje os maiores desafios estruturais que enfrentamos?

Mais do que uma fase de mudanças estruturais, o setor da saúde atravessa atualmente um período de desorganização e ausência de resposta eficaz. A realidade demonstra um sistema “sem rei nem roque”, onde persistem falhas graves de planeamento e de acesso. Quem não tem possibilidade de recorrer ao setor privado enfrenta esperas de meses, ou mesmo anos, por uma simples consulta, o que compromete seriamente o direito à saúde.

A inexistência de médicos de família para uma parte significativa da população é outro dos desafios centrais e mais preocupantes. Esta situação cria desigualdades profundas e coloca uma pressão insustentável sobre os serviços existentes. É profundamente triste assistir diariamente a esta realidade, que afeta tanto os utentes como os profissionais de saúde, e que exige respostas urgentes, estruturadas e verdadeiramente alinhadas com as necessidades do país.

 

Que oportunidades emergem deste novo contexto, tanto a nível nacional como internacional?

Neste momento, infelizmente, ainda não identificamos mudanças significativas que permitam falar de oportunidades concretas emergentes. Portugal dispõe de um excelente Serviço Nacional de Saúde, com profissionais altamente dedicados, mas que necessita de ser gerido por pessoas competentes, responsáveis e, acima de tudo, humanas.

A verdadeira oportunidade passa por uma liderança mais próxima da realidade no terreno. É fundamental que os decisores se desloquem aos hospitais e centros de saúde, que vivenciem o quotidiano dos utentes, para compreenderem verdadeiramente os desafios existentes. O país precisa de menos burocracia e de mais ação concreta por parte dos governantes, tanto a nível nacional como local.

Relativamente ao contexto internacional, opto por não aprofundar, pois acredito que Portugal reúne todas as condições necessárias para melhorar significativamente o seu próprio sistema de saúde, desde que exista vontade política, compromisso e uma gestão eficaz focada nas pessoas.

 

Na sua perspetiva, que papel devem ter as organizações privadas e os projetos inovadores na resposta às lacunas dos sistemas públicos de saúde?

As organizações privadas e os projetos inovadores devem assumir um papel complementar e estratégico na resposta às lacunas existentes nos sistemas públicos de saúde. Para tal, é fundamental o reforço de parcerias público-privadas na área da saúde, à semelhança do que já acontece noutros setores. Existem alguns exemplos em Portugal — como, salvo erro, o Hospital de Cascais —, mas estas iniciativas continuam a ser insuficientes face às necessidades reais do sistema.

Neste modelo, o Estado deve manter a titularidade e a responsabilidade pelo financiamento dos serviços através do Serviço Nacional de Saúde, assegurando a equidade e o acesso universal. As entidades privadas, por sua vez, podem contribuir com uma gestão mais eficiente das infraestruturas e dos cuidados clínicos, promovendo inovação, qualidade e rapidez na resposta aos utentes. Quando bem estruturadas e devidamente reguladas, estas parcerias podem representar uma solução eficaz para melhorar o funcionamento do SNS sem comprometer os seus princípios fundamentais. Qualquer colaboração entre o setor público e o privado só faz sentido se contribuir para reduzir tempos de espera, eliminar desigualdades e assegurar que o critério de acesso aos cuidados de saúde seja a necessidade clínica e não a capacidade financeira dos cidadãos. O foco deve estar sempre na defesa do interesse público e na proteção do direito universal à saúde.

 

Num tempo marcado pela tecnologia e pela inovação, como garantir que o cuidado continua a ser humano, próximo e centrado na pessoa?

Esta é uma questão extremamente pertinente e que levanta preocupações reais, que muitos de nós já sentimos na primeira pessoa. Num contexto cada vez mais marcado pela tecnologia, é essencial garantir que o cuidado em saúde não perde a sua dimensão humana. O contato direto entre médico e doente deve ser sempre preservado, pois é nessa relação que se constrói a confiança, a empatia e a compreensão verdadeira das necessidades de cada pessoa.

O calor humano, o carinho e até um simples sorriso fazem parte do processo terapêutico e têm um impacto significativo no bem-estar dos utentes. A tecnologia é, sem dúvida, uma ferramenta valiosa para apoiar o diagnóstico, a monitorização e a eficiência dos cuidados, mas nunca pode substituir o contacto humano. Deve servir para aproximar e melhorar o cuidado, e não para o tornar distante ou impessoal. O desafio está precisamente em encontrar esse equilíbrio, principalmente para os jovens médicos que poucos o fazem.

 

Que importância atribui ao bem-estar dos profissionais de saúde e de que forma isso se reflete nos resultados do vosso projeto?

O bem-estar dos profissionais de saúde é absolutamente central e reflete-se diretamente na qualidade dos cuidados prestados. No âmbito do nosso projeto, que passa pela importação de médicos, enfermeiros e tarefeiros provenientes de Cuba, esta dimensão humana garantida.

Estes profissionais trazem consigo uma forte cultura de proximidade, baseada no contacto pessoal, carinhoso, atento e direto com o utente. Quando os profissionais se sentem valorizados, respeitados e integrados, conseguem exercer a sua função com maior dedicação, empatia e compromisso. Isso traduz-se em melhores resultados clínicos, maior confiança por parte dos utentes e numa experiência de cuidado mais humana e digna.

Acreditamos que cuidar de quem cuida é essencial para construir um sistema de saúde mais eficaz, sustentável e verdadeiramente centrado na pessoa.

 

Considera que cuidar de quem cuida será um dos grandes temas estratégicos até 2026?

Sem dúvida, cuidar de quem cuida será um dos grandes temas estratégicos durante 2026 e espero que continue a ser uma prioridade nos anos seguintes.  Não podemos ter profissionais de saúde exaustos, desmotivados ou sem apoio adequado não conseguem prestar cuidados de qualidade, independentemente dos recursos disponíveis. Serve para médicos portugueses ou estrangeiros, como é obvio!

No nosso projeto, temos confirmado que valorizar e apoiar os profissionais — médicos, enfermeiros e tarefeiros — resulta diretamente em cuidados mais próximos, humanos e eficazes para os utentes. O bem-estar daqueles que cuidam é, portanto, um fator crítico para a sustentabilidade do sistema de saúde, para a eficiência dos serviços e para a confiança da população. Ignorar este tema seria comprometer toda a cadeia de cuidado.

 

Quando projeta o seu projeto/empresa em 2026, onde gostaria que estivesse posicionada?

Em 2026, gostaría que o nosso projeto estivesse consolidado como uma referência na disponibilização de profissionais de saúde em Portugal, assegurando que os centros de saúde e as urgências hospitalares contassem com o número suficiente de médicos, enfermeiros e outros profissionais qualificados para colmatar as carências existentes.

 

Que objetivos estratégicos considera prioritários alcançar nos próximos dois anos?

O nosso objetivo não é apenas expandir o projeto, mas garantir um impacto real e mensurável no acesso a cuidados de saúde, reduzindo tempos de espera, aliviando a pressão sobre o sistema e proporcionando uma experiência de cuidado mais humana e eficiente para todos os utentes. Acreditamos que, com um planeamento estratégico e foco nas necessidades concretas do país, podemos contribuir para um SNS mais equilibrado e capaz de responder às exigências durante vários anos.

 

Existem novas áreas, serviços ou parcerias que estejam a ser perspetivadas como parte desse crescimento?

Sim, claro! Estamos a perspetivar novas áreas de atuação e parcerias estratégicas, especialmente com as câmaras municipais, com foco nas regiões do interior do país. Acreditamos que as pessoas não podem ser esquecidas apenas por não estarem no litoral, e é justamente nessas localidades mais pequenas que vemos uma necessidade urgente de reforço de profissionais de saúde.

O nosso objetivo é continuar a desenvolver projetos diretamente em colaboração com os municípios, garantindo que cada comunidade tenha acesso a cuidados de saúde de qualidade, próximos e atempados. Esta abordagem reforça o impacto social do nosso trabalho e posiciona o projeto como um agente de equilíbrio na distribuição de recursos de saúde por todo o território nacional.

 

Que mensagem gostaria de deixar a todos os profissionais, empreendedores e decisores que diariamente constroem “vidas que cuidam”?

Gostaria de deixar uma mensagem de reconhecimento e incentivo: o trabalho de cada profissional, empreendedor e decisor que diariamente contribui para cuidar da vida das pessoas é fundamental e merece todo o nosso respeito e admiração.

Cada gesto de dedicação, cada esforço, cada decisão tomada com responsabilidade e humanidade faz a diferença na vida de quem recebe cuidados.

É também urgente reforçar a atenção aos nossos idosos, garantindo lares seniores de qualidade, com cuidados de saúde adequados, onde se sintam amados, respeitados e valorizados e não apenas um final de vida. Cada idoso merece envelhecer com dignidade, conforto e proximidade humana.

 

Se tivesse de resumir o futuro da saúde numa palavra ou ideia-chave, qual seria e porquê?

Humanização. Humanizar o futuro da saúde, com profissionais prontos para levar cuidado real a quem dele precisa.”

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