“O sistema fiscal cada vez mais digital e obriga as empresas a investir em tecnologia e em qualificação”

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Mais do que um documento de política fiscal, o OE 2026 representa um sinal ao tecido empresarial sobre estabilidade, previsibilidade e condições de crescimento. Para analisar os impactos concretos das novas medidas na contabilidade, na gestão e na tomada de decisão empresarial, a Revista Pontos de Vista conversou com Daniel Rocha Cardoso, Contabilista Certificado e fundador da FA Accounting & Management. Num ano em que planear será tão importante quanto cumprir, esta entrevista oferece uma reflexão clara sobre o que muda — e o que deve mudar — na forma como as empresas encaram a fiscalidade, a gestão financeira e o crescimento sustentável em 2026.

Qual foi a sua primeira leitura global do Orçamento de Estado 2026 enquanto consultor de contabilidade e gestão?

A minha leitura inicial foi a de um Orçamento marcado por prudência e tentativa de equilíbrio entre consolidação orçamental e estímulo à atividade económica. Num contexto europeu ainda sensível a instabilidade geopolítica, volatilidade de mercados e desafios estruturais de competitividade, o OE 2026 procura transmitir previsibilidade. Contudo, do ponto de vista da gestão empresarial, a questão central não é apenas o anúncio das medidas, mas a sua consistência, estabilidade e clareza interpretativa. Para as empresas, confiança é sinónimo de previsibilidade. E essa previsibilidade constrói-se com normas claras, estabilidade fiscal e coerência ao longo do tempo.

 

Considera que este Orçamento responde às necessidades reais das empresas portuguesas?

Responde parcialmente. Há preocupação com investimento, capitalização e rendimento disponível, mas as necessidades estruturais das empresas portuguesas — sobretudo das PME — continuam a centrar-se na simplificação administrativa, redução da complexidade fiscal e estabilidade normativa. Muitas empresas não precisam apenas de incentivos adicionais; precisam de um enquadramento que lhes permita planear com segurança a médio prazo. A competitividade depende tanto da carga fiscal como da clareza do sistema. Sempre que o enquadramento é complexo ou sujeito a alterações frequentes, a incerteza aumenta e o investimento retrai-se.

 

Que medidas lhe parecem mais relevantes para o dia a dia da gestão empresarial?

As medidas com impacto em IRC, incentivos ao reinvestimento e mecanismos de capitalização são particularmente relevantes. Também assumem importância alterações que afetem pagamentos por conta, tributações autónomas, dedutibilidade de gastos e regimes de reporte. Estes aspetos têm impacto direto na liquidez e na rentabilidade. Para muitas empresas, a gestão de tesouraria é crítica. Pequenas alterações no calendário fiscal ou nos mecanismos de dedução podem representar diferenças significativas na disponibilidade financeira e na capacidade de investimento.

 

Existe alguma alteração que, na sua opinião, possa gerar maior complexidade ou incerteza para os empresários?

Qualquer medida que introduza novos regimes com critérios técnicos exigentes ou condicionados a regulamentação posterior pode gerar incerteza. A experiência demonstra que normas excessivamente detalhadas, com múltiplas exceções ou dependentes de interpretação administrativa, criam zonas cinzentas. A incerteza jurídica tem um custo económico real: leva empresas a adiar decisões, reforçar provisões ou adotar estratégias conservadoras.

Que efeitos práticos antevê na gestão financeira e fiscal das empresas em 2026?

Antevejo maior necessidade de planeamento fiscal estruturado. As empresas terão de simular cenários, rever políticas internas e ajustar modelos de financiamento. A função financeira assumirá um papel ainda mais estratégico, articulando gestão operacional com planeamento tributário. A monitorização permanente do impacto fiscal das decisões passará a ser indispensável, especialmente em empresas com margens mais reduzidas.

 

O Orçamento incentiva suficientemente o investimento, a capitalização e o crescimento sustentável?

Existem sinais positivos, sobretudo na valorização da capitalização e no estímulo ao reinvestimento. Contudo, o investimento empresarial depende de confiança e estabilidade. Medidas eficazes são aquelas que permanecem no tempo e cuja aplicação é simples e transparente. O crescimento sustentável exige coerência fiscal, enquadramento estável e políticas alinhadas com objetivos de competitividade e inovação.

 

De que forma as alterações fiscais podem influenciar decisões como investimento, contratação ou reorganização empresarial?

A fiscalidade influencia diretamente a análise custo-benefício de qualquer decisão estratégica. Um incentivo ao investimento pode acelerar aquisição de ativos produtivos; benefícios à contratação podem reduzir risco associado ao reforço de equipas; alterações na tributação de lucros ou dividendos podem condicionar políticas de distribuição e reinvestimento. Em certos casos, mudanças fiscais podem motivar reorganizações societárias ou ajustamentos na estrutura de financiamento. A fiscalidade é um instrumento que molda decisões empresariais de forma concreta.

 

Acredita que os empresários estão preparados para interpretar e aplicar estas mudanças de forma eficaz?

Nem sempre. A maioria dos empresários está focada na operação e no mercado. A leitura técnica da legislação fiscal exige tempo e conhecimento especializado. Sem acompanhamento profissional adequado, há risco de perda de oportunidades ou de incorreta aplicação das normas. A complexidade crescente reforça a necessidade de apoio técnico estruturado.

 

O OE 2026 reforça a importância do contabilista como consultor estratégico?

Claramente. Quanto maior a densidade normativa, maior a necessidade de interpretação qualificada. O contabilista assume um papel central na tradução da lei para decisões concretas. Deixa de ser apenas o profissional do cumprimento declarativo para se afirmar como parceiro estratégico na definição de políticas financeiras, fiscais e organizacionais.

 

Como pode o contabilista ajudar as empresas a antecipar riscos e identificar oportunidades num contexto legislativo em mudança?

Através de planeamento antecipado, análises comparativas, simulação de cenários e revisão periódica de enquadramentos fiscais. O contabilista deve transformar normas em estratégia prática, alertando para riscos potenciais e propondo soluções ajustadas. A antecipação é hoje uma vantagem competitiva.

 

O Orçamento de Estado 2026 cria condições para acelerar a digitalização da contabilidade e da gestão?

A consolidação de obrigações eletrónicas, integração de dados fiscais e exigência de reporte digital reforça a necessidade de modernização dos processos internos. A digitalização melhora controlo, eficiência e transparência. O sistema fiscal cada vez mais digital obriga as empresas a investir em tecnologia e em qualificação.

 

As PME são adequadamente consideradas nas medidas previstas no OE 2026?

Existe intenção de apoiar as PME, mas muitas vezes o acesso efetivo aos incentivos depende de capacidade técnica e financeira que nem todas possuem. O peso administrativo continua a ser proporcionalmente mais oneroso para estruturas pequenas. A verdadeira diferenciação positiva para PME passa por simplificação real e estabilidade.

 

O enquadramento legal atual favorece ou dificulta a inovação no setor?

Há instrumentos que incentivam inovação e investimento tecnológico, mas a burocracia e a instabilidade podem funcionar como travão. A inovação precisa de rapidez, segurança jurídica e clareza de procedimentos. Quando a norma é excessivamente complexa, o risco aumenta e a iniciativa retrai-se.

 

Que papel terão os consultores na sustentabilidade e crescimento das empresas portuguesas?

Terão um papel cada vez mais determinante. Num contexto de mudança constante, o consultor é um elemento de estabilidade estratégica. Ajuda a estruturar decisões, mitigar riscos e potenciar incentivos. A sustentabilidade empresarial depende cada vez mais de planeamento técnico consistente e acompanhamento contínuo.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos empresários sobre a importância de uma contabilidade próxima, rigorosa e orientada para a gestão, num contexto marcado pelas mudanças do Orçamento de Estado 2026?

Num cenário de crescente complexidade legislativa, a contabilidade deve ser encarada como instrumento de gestão e não apenas como obrigação fiscal. Uma contabilidade próxima, rigorosa e estratégica permite antecipar impactos, aproveitar incentivos e tomar decisões com base em informação fiável. Em 2026, mais do que cumprir, será essencial planear. E planear exige análise, acompanhamento técnico e visão de médio prazo.

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