“Precisamos criar ambientes onde a ambição feminina não seja vista como excesso, mas como visão”

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Tássia Carvalho, Diretora Financeira do InterContinental Luanda Miramar, também partilha connosco a sua visão firme e estratégica sobre o papel da liderança feminina nas áreas financeiras. Numa reflexão profunda sobre governação, sustentabilidade e tomada de decisão, destaca como a competência técnica, a disciplina e a integridade são pilares inegociáveis numa função estrutural para qualquer organização. Ao longo da entrevista à Revista Pontos de Vista, reafirma que solidez financeira e sensibilidade organizacional não se opõem — complementam-se e fortalecem o futuro das instituições.

A área financeira é tradicionalmente vista como exigente e estratégica. Como tem sido afirmar a sua liderança feminina neste contexto?

A área financeira é um dos pilares estruturais de qualquer organização. Não gere apenas números — define prioridades, sustenta decisões estratégicas e protege a sustentabilidade do negócio.

Afirmar a minha liderança neste contexto exigiu preparação técnica irrepreensível, disciplina e coragem para assumir responsabilidade em momentos decisivos. Nunca procurei afirmar-me pelo género, mas pela consistência, pela competência e pela integridade.

A autoridade constrói-se quando as decisões são fundamentadas, quando o rigor é inegociável e quando a ética orienta cada escolha. Enquanto mulher, trago uma visão integrada: consigo interpretar indicadores com precisão, mas também compreender pessoas, dinâmicas e cultura organizacional. Essa combinação tem sido determinante no meu percurso.

 

De que forma a diversidade de género nas lideranças contribui para decisões mais equilibradas e sustentáveis?

A diversidade eleva a qualidade da decisão estratégica.

Quando homens e mulheres participam de forma equilibrada nos espaços de liderança, ampliam-se perspetivas, aprofundam-se análises e fortalece-se a leitura do risco e do impacto a longo prazo.

Nas finanças, onde cada decisão pode redefinir trajetórias institucionais, a diversidade de género deixa de ser um tema de representação para se afirmar como um activo estratégico. A complementaridade de visões introduz maior maturidade, maior consciência e maior capacidade de antecipação.

Organizações que integram essa diversidade tornam-se mais fortes, mais visionárias, melhor preparadas e mais coesas. Não se trata apenas de inclusão — trata-se de robustez estrutural.

A diversidade, quando verdadeiramente integrada, não divide a liderança. Amplia-a. E é nessa ampliação que reside a sustentabilidade das decisões e a solidez do futuro.

 

Na sua experiência, que competências da liderança feminina fazem a diferença na gestão financeira de uma organização hoteleira?

No setor hoteleiro, a função financeira exige muito mais do que controlo orçamental. Exige uma leitura transversal e profunda do negócio, onde operação, estratégia comercial e experiência do cliente estão interligadas e se influenciam mutuamente.

A gestão financeira, neste contexto, requer visão sistémica, disciplina de governação e uma comunicação estratégica clara e mobilizadora. Não basta analisar números — é necessário compreendê-los no contexto da realidade operacional e transformá-los em decisões que sustentem crescimento com consistência.

A liderança feminina acrescenta frequentemente uma capacidade apurada de escuta, de alinhamento e de integração entre departamentos. Essa inteligência relacional permite criar pontes onde antes existiam silos, promovendo cooperação, responsabilidade partilhada e foco comum.

Essa combinação entre rigor técnico e sensibilidade organizacional permite integrar controlo e dinamismo, disciplina e adaptabilidade. O resultado não é apenas desempenho imediato, mas crescimento sustentado, cultura fortalecida e organizações mais preparadas para evoluir com solidez.

 

Como concilia rigor, resultados e sensibilidade humana no seu dia a dia profissional?

Rigor e humanidade não são opostos — são complementares.

Exijo excelência, cumprimento de metas e responsabilidade. Mas lidero com respeito. Para mim, o respeito é inegociável. É o fundamento de qualquer equipa forte.

Empoderar é delegar com confiança. É reconhecer talento, desenvolvê-lo e criar oportunidades reais de crescimento. Muitas vezes, identificar potencial antes que a própria pessoa o reconheça é um dos papéis mais nobres da liderança.

Acredito que equipas valorizadas produzem resultados mais sólidos e sustentáveis.

Uma liderança forte não diminui os outros — eleva-os.

 

A liderança feminina ainda enfrenta estereótipos. Que mudança positiva tem observado nos últimos anos?

Tenho observado uma evolução consistente e, sobretudo, irreversível. A competência está cada vez mais a impor-se como o verdadeiro critério de legitimidade, sobrepondo-se gradualmente a perceções ultrapassadas.

Hoje, mais mulheres ocupam posições estratégicas com segurança, preparação e autoridade natural. Já não somos uma exceção pontual — somos uma presença estruturante nos espaços onde as decisões são tomadas.

Essa transformação não aconteceu por acaso. É resultado de trajetórias marcadas por resiliência, excelência e determinação. Cada mulher que assume um cargo de responsabilidade contribui para redefinir padrões e alargar horizontes.

Persistem desafios culturais, naturalmente. Mas a mudança já não é superficial — é estrutural. E essa mudança revela organizações mais maduras, mais conscientes e mais alinhadas com o mérito como princípio orientador.

 

Que importância atribui à presença de mulheres em áreas estratégicas como as finanças?

A presença de mulheres em áreas estratégicas como as finanças é, acima de tudo, uma questão de qualidade e solidez institucional.

As áreas estratégicas moldam o rumo das organizações. São espaços onde se definem prioridades, se avaliam riscos e se tomam decisões com impacto estrutural. Quanto mais abrangente e qualificada for a diversidade nesses centros de decisão, maior será a capacidade de análise, de antecipação e de adaptação.

A integração equilibrada de talento — incluindo talento feminino — contribui para uma liderança mais completa, mais consciente e melhor preparada para contextos complexos e exigentes.

Não se trata apenas de representatividade. Trata-se de assegurar que as organizações beneficiam de todo o potencial disponível, fortalecendo a governação, a visão estratégica e a sustentabilidade a longo prazo.

Organizações que sabem integrar diferentes perspetivas nos seus núcleos de decisão tornam-se naturalmente mais fortes e mais preparadas para o futuro.

 

O que considera essencial para preparar mais mulheres para cargos de decisão e responsabilidade?

Preparação técnica é o alicerce. Conhecimento dá segurança. Competência constrói autoridade.

Mas preparar mulheres para liderar não pode ser um exercício isolado. É igualmente essencial preparar as organizações para as reconhecer, escutar e integrar nos seus centros de decisão.

Não basta abrir portas — é preciso transformar as estruturas por dentro.

Precisamos criar ambientes onde a ambição feminina não seja vista como excesso, mas como visão. Onde assumir responsabilidade não seja um ato de resistência, mas um passo natural. Onde as mulheres possam negociar o seu valor com serenidade e ocupar o seu espaço com firmeza.

O talento existe. A capacidade existe. A determinação existe.

O que muitas vezes falta é um ecossistema organizacional preparado para legitimar essa força, torná-la visível e permitir que floresça.

Preparar mulheres para liderar é, na verdade, preparar o futuro das organizações. Porque quando uma mulher cresce, não cresce sozinha — eleva padrões, abre caminho e redefine possibilidades para as que vêm a seguir.

 

Que conselho deixaria a jovens profissionais que desejam construir uma carreira sólida na área financeira?

Antes de tudo, invistam seriamente em conhecimento técnico. A área financeira não perdoa improviso. A credibilidade constrói-se com competência sólida, atualização contínua e consistência ao longo do tempo.

Mas não se limitem à técnica. Procurem compreender o negócio na sua totalidade — estratégia, operação, risco, cultura organizacional. Um verdadeiro profissional de finanças não analisa apenas números; interpreta contextos, antecipa cenários e contribui ativamente para decisões que moldam o futuro.

Sejam disciplinadas, estrategas e resilientes. A carreira constrói-se passo a passo, com dedicação silenciosa e resultados sustentados.

E não diminuam a vossa ambição para se ajustarem às expetativas alheias. Ocupar espaços de responsabilidade exige coragem, mas também preparação e integridade. Liderança não é um título — é a consequência natural da competência aliada ao caráter.

Lembrem-se: a excelência não é um momento extraordinário. É um compromisso diário com padrões elevados, com ética inquestionável e com a vontade permanente de evoluir.

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