“Talvez a lição mais exigente tenha sido perceber que cuidar do outro exige cuidar de mim”

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Marisa Marques é Psicóloga Clínica, com prática dedicada à infância e adolescência, e membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Ao longo do seu percurso tem integrado Psicologia Clínica, Neurodesenvolvimento e Neuropsicologia, defendendo uma intervenção precoce, ética e baseada na evidência. No Editorial “Saúde, Vidas que Cuidam” da Revista Pontos de Vista, destaca a importância de investir desde cedo na saúde mental como pilar de trajetórias mais resilientes, de um envelhecimento mais consciente e de uma sociedade emocionalmente mais preparada para cuidar. Saiba mais!

 A sua carreira tem sido marcada por uma forte ligação à Psicologia Clínica na infância e adolescência. De que forma este percurso moldou a sua visão sobre saúde psicológica ao longo do ciclo de vida?

O meu percurso na Psicologia Clínica e Neurodesenvolvimento da infância e adolescência mudou profundamente a forma como vejo a saúde psicológica e mudou-me a mim também.

Trabalhar com crianças, adolescentes e famílias ensinou-me muito cedo que a saúde mental não começa quando algo “corre mal” na vida adulta. Começa no nascimento, no desenvolvimento, nos primeiros vínculos, nas primeiras experiências de segurança, ou na falta delas, na forma como uma criança é olhada, escutada e compreendida. Começa muito antes de existirem palavras para explicar o sofrimento.

Ao longo dos anos fui percebendo que muitos dos adultos que chegam mais tarde aos consultórios carregam histórias que começaram na infância, emoções que não foram reguladas, necessidades que não foram vistas, contextos que não souberam cuidar. Isso levou-me a olhar para cada criança não apenas pelo que vive hoje, mas pelo adulto que pode vir a ser amanhã.

O contato diário com a infância ensinou-me que ela é um lugar de grande vulnerabilidade, mas também de uma plasticidade extraordinária. Há dor, sim, mas há sobretudo potencial. E é isso que me move: saber que uma intervenção atempada, humana e bem feita pode mudar trajetórias inteiras.

De acordo com aquilo que sei e em que acredito, vejo a saúde psicológica como um processo contínuo que começa na gravidez, atravessa o desenvolvimento, passa pela escola, pela adolescência e segue connosco ao longo da vida. Não acredito em respostas rápidas nem em intervenções isoladas; acredito em processos, em relações, em tempo e em escuta verdadeira.

A aproximação à neuropsicologia, ao neurodesenvolvimento e à investigação em neuromodulação surgiu naturalmente deste caminho, não como um afastamento do lado humano, mas como uma forma de o cuidar melhor. A ciência, para mim, só faz sentido se estiver ao serviço das pessoas.

Trabalho com ciência, mas cuido com presença. E, por mais que cresça como profissional, nunca deixo de ver que, em cada avaliação, está uma criança, uma família e uma história que merecem tempo, respeito e um cuidado genuíno.

 

No contexto deste temático da Revista Pontos de Vista, como define o papel da Psicologia enquanto ciência e prática essencial para quem cuida — seja em contexto familiar, clínico ou comunitário?

A Psicologia, para mim, é uma ciência profundamente humana, que existe para apoiar pais, famílias e profissionais que, diariamente, cuidam do bem-estar emocional dos outros. Enquanto ciência, ajuda-nos a compreender a mente, as emoções e os comportamentos; enquanto prática, vai além da teoria: sustenta quem sustenta e cuida de quem cuida. Num mundo cada vez mais exigente e emocionalmente sobrecarregado, cuidar sem apoio torna-se um risco silencioso.

No contexto familiar, permite aos pais compreenderem melhor os seus filhos — e muitas vezes a si próprios — ajudando a regular expetativas, aliviar culpas e construir relações mais seguras. Em contexto clínico, oferece estrutura, escuta e sentido ao sofrimento. Em contexto comunitário, é essencial na prevenção, na literacia emocional e na criação de redes de suporte que protegem a saúde mental coletiva.

Acredito que a Psicologia é uma ciência de responsabilidade social. Não existe apenas para intervir na crise, mas para capacitar, prevenir e humanizar os sistemas onde as pessoas vivem e cuidam. No fundo, lembra-nos algo fundamental: ninguém cuida bem dos outros se estiver emocionalmente esgotado, e é aqui que a Psicologia faz a diferença real.

 

Fala-se cada vez mais em envelhecimento ativo e consciente. Na sua perspetiva, de que forma a promoção da saúde psicológica na infância e adolescência influencia diretamente a qualidade de vida na idade adulta e no envelhecimento?

Para mim, falar de envelhecimento saudável sem falar de infância é olhar apenas para o fim do caminho e ignorar onde ele realmente começou. O envelhecimento ativo e consciente constrói-se muito antes da idade adulta: nasce nas bases emocionais, cognitivas e relacionais desenvolvidas na infância e na adolescência.

Quando uma criança aprende a reconhecer emoções, a regulá-las, a pedir ajuda e a lidar com a frustração, está a construir competências que a acompanham ao longo da vida. Essas competências tornam-se fatores de proteção na idade adulta e no envelhecimento: maior capacidade de adaptação, relações mais seguras e menor risco de ansiedade, depressão e isolamento.

A adolescência é um período crítico na construção da identidade, da autoestima e do sentido de pertença. Intervir aqui, de forma consciente e baseada na evidência, é prevenir padrões de sofrimento que muitas vezes reaparecem décadas mais tarde sob a forma de desgaste emocional ou doença mental.

Sabemos que o cérebro mantém plasticidade ao longo da vida, mas é na infância e adolescência que as fundações são mais moldáveis. Investir em saúde psicológica precoce não é apenas tratar dificuldades atuais; é promover trajetórias mais resilientes e saudáveis.

Por isso acredito que envelhecer bem começa cedo, quando cuidamos da saúde mental das crianças e adolescentes como um investimento essencial na qualidade de vida futura, individual e coletiva.

 

Quais considera serem hoje as boas práticas fundamentais em Psicologia Clínica para garantir dignidade, bem-estar emocional e qualidade de vida, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade?

Para mim, boas práticas em Psicologia Clínica começam numa escolha diária: como estou com o outro. Antes de qualquer técnica ou diagnóstico, começa na capacidade de parar, escutar e reconhecer a pessoa à minha frente com tudo o que traz e com tudo o que já viveu.

Em contextos de maior vulnerabilidade, aprendi que dignidade é não apressar processos, não simplificar dores e não ocupar o lugar da pessoa com respostas prontas. A avaliação é importante e a ciência orienta-me, mas sei que rigor sem humanidade afasta e humanidade sem rigor falha. O equilíbrio entre os dois sustenta uma prática ética e verdadeira.

A relação terapêutica é onde tudo começa. Criar um espaço seguro, onde alguém pode existir sem se justificar ou se defender, é o que torna a mudança possível. E aprendi também que ninguém se cuida sozinho: o cuidado só é real quando é partilhado com famílias, escolas e outros profissionais.

Talvez a lição mais exigente tenha sido perceber que cuidar do outro exige cuidar de mim. Reconhecer limites, parar quando é preciso e continuar a crescer faz parte das boas práticas, por respeito a quem confia em mim.

No fundo, boas práticas não são fórmulas. São escolhas conscientes feitas com presença, ética e verdade.

 

Como vê a articulação entre Psicologia Clínica e Neuropsicologia na prevenção, avaliação e intervenção ao longo do desenvolvimento humano?

Para mim, Psicologia Clínica e Neuropsicologia nunca foram áreas separadas. São duas formas de olhar a mesma pessoa, e eu preciso das duas para a compreender por inteiro. Não consigo falar de sofrimento emocional sem pensar no cérebro em desenvolvimento, e não consigo olhar para funções cognitivas sem considerar a história emocional e relacional que as sustenta.

Na prática, esta integração ajuda-me a ver mais cedo o que está a acontecer e a intervir antes que a dor se transforme em padrão. A Neuropsicologia dá-me clareza e estrutura; a Psicologia Clínica dá-me relação, contexto e humanidade. É este equilíbrio que permite intervenções mais ajustadas, respeitando o ritmo, as capacidades e a história de cada pessoa.

No fundo, integrar estas duas áreas é recusar separar o cérebro da pessoa. É cuidar da mente sem perder a relação. E é nesse encontro entre ciência e presença que sinto que o cuidado se torna verdadeiramente humano.

 

Quais os principais desafios que identifica atualmente na saúde mental de crianças e adolescentes, e que impacto esses desafios poderão ter nas gerações futuras se não forem devidamente acompanhados?

Hoje sinto que as crianças e os adolescentes estão a crescer num contexto emocionalmente muito exigente, muitas vezes mais rápido do que aquilo que o seu desenvolvimento interno consegue acompanhar. Um dos maiores desafios que observo é a dificuldade crescente na regulação emocional. As crianças que sentem muito, mas não sabem ainda como lidar com o que sentem, e adolescentes que carregam níveis elevados de ansiedade, pressão e autoexigência.

Vejo também um aumento claro de quadros de ansiedade, depressão, dificuldades atencionais e problemas de comportamento, muitas vezes associados a ambientes altamente estimulantes, a rotinas pouco reguladas, à exposição precoce e contínua ao digital e a contextos familiares igualmente sobrecarregados. Há menos tempo para brincar, para abrandar, para errar, e mais exigência para corresponder, produzir e adaptar-se.

Outro desafio importante é a fragilização dos vínculos. Muitos jovens crescem com adultos bem-intencionados, mas cansados, emocionalmente exaustos e com pouco espaço interno para escutar. Quando não há contenção emocional suficiente, a criança aprende a lidar sozinha com aquilo que ainda não consegue compreender e isso tem custos.

Se estes desafios não forem acompanhados de forma consciente e atempada, o impacto nas gerações futuras pode ser profundo. Crianças emocionalmente desreguladas tornam-se adultos mais vulneráveis ao sofrimento psicológico, à exaustão, à dificuldade em manter relações seguras e a padrões de coping menos adaptativos. O risco não é apenas individual; é também social.

Acredito que estamos num ponto crítico. Ou investimos seriamente na prevenção, na intervenção precoce e no apoio às famílias e aos contextos educativos, ou continuaremos a ver o sofrimento a reaparecer mais tarde, de forma mais complexa e mais difícil de reparar.

Cuidar da saúde mental das crianças e dos adolescentes hoje é um ato de responsabilidade para com o futuro. Não se trata apenas de tratar sintomas, mas de proteger trajetórias de vida, garantindo que as próximas gerações crescem com mais recursos emocionais, mais consciência e mais capacidade de viver de forma saudável e equilibrada.

 

Qual é o papel da família e da escola na construção de uma saúde psicológica sólida e promotora de bem-estar ao longo da vida?

A família é o primeiro lugar onde a criança aprende a sentir, a confiar e a regular-se. É no vínculo com os cuidadores que nascem a segurança emocional, a autoestima e a forma como aprende a relacionar-se consigo e com os outros. Não falo de famílias perfeitas, mas de famílias suficientemente disponíveis, capazes de escutar, reparar e pedir ajuda. Quando a família está apoiada, torna-se um dos maiores fatores de proteção ao longo da vida.

A escola é o primeiro grande espaço social da criança. É ali que se constroem pertença, competências sociais e valor pessoal. Uma escola atenta à dimensão emocional não substitui a família. Pode sim complementar, acolher, sinalizar e criar condições para que a criança cresça de forma segura. O seu papel na prevenção e na identificação precoce de dificuldades é fundamental.

Quando família e escola caminham juntas, a criança ganha coerência e segurança. A comunidade entra como terceiro pilar: redes de saúde e apoio que lembram que o bem-estar psicológico é uma responsabilidade coletiva.

No fundo, promover saúde mental é criar uma rede de cuidado. Quando família, escola e comunidade se alinham, não estamos só a responder a dificuldades, estamos a construir bases sólidas para vidas mais seguras e saudáveis.

 

Num número em que estará também presente a Bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que relevância atribui ao papel das ordens profissionais e das sociedades científicas na defesa da qualidade da intervenção psicológica?

Para mim, as ordens profissionais e as sociedades científicas são uma base essencial para garantir que a Psicologia é exercida com responsabilidade. Não as vejo apenas como entidades reguladoras, mas como estruturas que protegem as pessoas, a ética e a qualidade do nosso trabalho.

Num momento em que a saúde mental está mais exposta e, por vezes, simplificada em excesso, estas instituições ajudam a separar o que é prática séria do que pode colocar pessoas em risco. A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem um papel muito importante nesse equilíbrio: orienta, define padrões e sustenta os profissionais para que possam trabalhar com rigor e segurança.

As sociedades científicas mantêm-nos em movimento. São espaços onde a prática é questionada, atualizada e enriquecida pela evidência. Obrigam-nos a pensar melhor, a estudar mais e a não nos acomodarmos.

Enquanto profissional, sinto que estas estruturas nos dão pertença e direção. Num campo tão sensível como a Psicologia, a qualidade da intervenção não pode depender apenas da boa intenção individual, precisa de compromisso coletivo.

É por isso que valorizo profundamente o papel destas instituições: ajudam-nos a crescer sem perder o essencial, o cuidado sério e responsável pelas pessoas.

Considera que a Psicologia tem hoje o reconhecimento necessário nas políticas públicas de saúde? O que ainda precisa de ser feito para reforçar esse lugar?

Sinto que a Psicologia ganhou visibilidade nas políticas públicas, mas ainda não ocupa o lugar que merece. Fala-se mais de saúde mental e isso é importante, mas nem sempre vejo essa consciência traduzida em investimento real, respostas consistentes e integração efetiva nos cuidados de saúde.

Ao longo do meu trabalho, continuo a sentir que a Psicologia é muitas vezes chamada quando a crise já está instalada. Falta reconhecer o seu papel preventivo. Cuidar da saúde mental não é um extra; é uma base. E essa ideia ainda não está totalmente refletida nas decisões políticas.

Na prática, vejo colegas altamente qualificados a trabalhar com recursos limitados e respostas fragmentadas, sobretudo em áreas sensíveis como a infância, a adolescência e o apoio às famílias. Falta integração contínua da Psicologia nos cuidados primários, nas escolas e nas respostas comunitárias.

O caminho, para mim, é claro: investir mais cedo, de forma sustentada e baseada na evidência. Reforçar equipas, garantir condições dignas e valorizar a intervenção preventiva. Mas também mudar a forma como pensamos saúde mental, perceber que não é apenas ausência de doença, é capacidade de viver, relacionar-se e adaptar-se ao longo da vida.

A Psicologia tem ferramentas e impacto comprovado. O que falta é transformar esse valor em políticas consistentes. Porque investir em Psicologia é, no fundo, investir em pessoas e no futuro que queremos construir.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos profissionais de Psicologia — e à sociedade em geral — sobre a importância de investir, desde cedo, na saúde mental como pilar de um envelhecimento mais digno, saudável e consciente?

A mensagem que deixo é simples: a saúde mental começa cedo. Muito cedo. Começa na forma como uma criança é olhada, escutada e acompanhada, na segurança que sente e na presença de adultos disponíveis.

Aos meus colegas de Psicologia, deixo um reconhecimento: o nosso trabalho nem sempre é visível, mas é profundamente transformador. Cada espaço seguro que criamos está a construir adultos mais conscientes e capazes de envelhecer com dignidade,  mesmo quando o resultado não se vê de imediato.

À sociedade, deixo um convite à responsabilidade. Investir em saúde mental é cuidar antes da crise, com continuidade e intenção. Envelhecer bem não é apenas viver mais anos; é chegar mais inteiro.

Se queremos um futuro mais humano, precisamos de começar agora. Porque cuidar da saúde mental das crianças de hoje é cuidar da qualidade de vida de todos amanhã.

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