No âmbito da edição 149 da Revista Pontos de Vista e do especial editorial “A Nova Agenda das Líderes Lusófonas em 2026”, Paula Bernardino destaca-se como uma voz influente na interseção entre comunicação estratégica, liderança e envolvimento comunitário. Com um percurso internacional entre Portugal e o Canadá, e um papel ativo em instituições como a Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Canadá, afirma-se pela sua capacidade de criar pontes entre culturas, pessoas e oportunidades. A sua liderança, ancorada na empatia, colaboração e propósito, espelha uma nova geração de mulheres que estão a redefinir o impacto e a presença no mundo empresarial e organizacional lusófono.
O seu percurso profissional é marcado por uma forte ligação à comunicação estratégica e liderança. Que momentos ou decisões foram mais determinantes na sua trajetória?
Se olhar para trás, percebo que o meu percurso não foi linear – foi intencional. Houve momentos em que escolhi caminhos menos óbvios, muitas vezes movida por intuição e por um forte sentido de propósito.
A minha ligação à comunicação estratégica formou-se quando trabalhei para empresas globais, com base no Canadá mas sede na Europa, por exemplo em Paris e em Londres. Depois consolidou-se quando comecei a trabalhar mais de perto com organizações e iniciativas comunitárias, nomeadamente através do meu envolvimento na Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Canadá, onde a comunicação assume um papel central na construção de pontes institucionais e empresariais.
Mais recentemente, a minha nomeação para o Conselho da Diáspora Portuguesa, integrando o núcleo do Canadá, veio consolidar esse posicionamento a nível internacional, permitindo-me contribuir para uma visão mais estratégica da diáspora e do seu papel na ligação entre Portugal e o mundo.
A assunção do cargo de Presidente do Conselho de Administração da Caixa Desjardins Portuguesa representou também um momento de grande responsabilidade e visibilidade no meu percurso. Este papel reforçou a minha ligação à comunidade portuguesa em Montreal e trouxe uma dimensão acrescida de liderança institucional, onde a representação, a proximidade e o compromisso com o desenvolvimento da comunidade assumem um papel central. É uma função que exige não apenas visão estratégica, mas também uma presença ativa e consciente junto das pessoas e das organizações que fazem parte deste ecossistema desde 1969.
Paralelamente, ultimamente o meu trabalho no mundo do vinho – através da escrita, curadoria de experiências e participação em eventos vínicos – trouxe uma dimensão ainda mais humana ao meu percurso. O vinho, para mim, é comunicação em estado puro: é cultura, é identidade, é partilha, principalmente os vinhos de Portugal e a sua imensa história vinícola que devemos continuar a contar. E isso moldou profundamente a forma como vejo a liderança.
Na sua perspetiva, quais são hoje os maiores desafios que as líderes enfrentam no contexto empresarial e organizacional lusófono?
Um dos maiores desafios continua a ser interno: a forma como nos permitimos ocupar espaço nos países onde nascemos e vivemos com as nossas raízes portuguesas. Ainda existe, muitas vezes, a necessidade de provar mais, de equilibrar firmeza com aceitação, ambição com empatia.
Outro ponto fundamental é a valorização das redes de contato. Num mundo cada vez mais interligado, o acesso a oportunidades passa, muitas vezes, pela capacidade de criar e nutrir relações estratégicas. É aqui que instituições como as câmaras de comércio desempenham um papel essencial: funcionam como plataformas de ligação, confiança e crescimento, especialmente no espaço lusófono e na diáspora.
No contexto canadiano, existe ainda uma realidade interessante: a integração é, muitas vezes, tão bem-sucedida que se torna quase invisível. E isso, embora positivo, pode também dificultar o reconhecimento da diversidade e do contributo específico das comunidades. Para as líderes lusófonas, o desafio passa também por afirmar essa identidade de forma consciente, sem perder a integração, mas garantindo visibilidade e representação.
Como tem a sua experiência no Canadá influenciado a sua visão sobre liderança e comunicação?
Viver e trabalhar no Canadá é transformador e muito interessante para quem trabalha em comunicação. Trouxe-me uma consciência muito clara de que a diversidade não é apenas um valor – é uma vantagem competitiva. O conhecimento das línguas é essencial, principalmente quem quer ter sucesso na província do Quebeque, onde o francês é a língua principal.
Vejo diariamente como diferentes perspetivas enriquecem a tomada de decisão. Aprendi a valorizar o silêncio (não sempre fácil) tanto quanto a palavra, a escuta tanto quanto a ação.
Falo também por experiência própria: sempre fui uma pessoa direta, pouco diplomática por natureza, e ao longo do tempo tive de aprender a ajustar essa forma de comunicar. Não para deixar de ser quem sou, mas para ser mais eficaz. Esse equilíbrio entre autenticidade e adaptação é um desafio constante – sobretudo para mulheres em contextos onde ainda existem expetativas muito definidas sobre como devemos comunicar e liderar.
A comunicação tornou-se, para mim, mais intencional, mais inclusiva. E a liderança mais consciente.
Que diferenças mais marcantes identifica entre a cultura organizacional canadiana e a portuguesa?
Há uma diferença muito visível na forma como o poder é exercido. No Canadá, a liderança tende a ser mais horizontal, mais acessível, mais baseada na confiança. Em Portugal, ainda sentimos, em alguns contextos, um peso maior da formalidade, de burocracia e da hierarquia.
Mas há algo que valorizo profundamente na cultura portuguesa: a proximidade, a capacidade de criar relações genuínas. É algo que encontro no meu trabalho institucional e comunitário no Canadá.
De que forma a comunidade lusófona no Canadá pode contribuir para uma nova geração de líderes globais?
A comunidade lusófona no Canadá está numa posição privilegiada. Através de organizações como a Câmara de Comércio e de redes mais amplas – como o Conselho da Diáspora Portuguesa, do qual faço parte no núcleo do Canadá – temos a capacidade de criar plataformas de ligação entre empresários, líderes e instituições.
Vivemos entre culturas — e isso permite-nos formar líderes com uma visão híbrida, capazes de navegar diferentes contextos com autenticidade e estratégia.
Considera que a diáspora portuguesa tem hoje um papel estratégico na projeção internacional da liderança feminina?
Sem dúvida. E vejo isso muito claramente no trabalho que desenvolvemos na comunidade: mulheres que lideram projetos, empresas, iniciativas culturais – muitas vezes com uma visibilidade que ultrapassa fronteiras.
Mas há também uma dimensão histórica que não podemos ignorar. Portugal, ao longo da sua história, teve mulheres fortes e influentes em vários setores – figuras que, mesmo em contextos desafiantes, marcaram presença e abriram caminho. Hoje, continuamos a ter mulheres líderes, inspiradoras, que se destacam nas mais diversas áreas. Essa continuidade é extremamente importante, porque cria referências reais para as novas gerações. Temos um dever de as fazer conhecer às gerações mais novas e continuar a falar delas.
Curiosamente, essa questão da referência e modelo tornou-se muito evidente para mim quando trabalhei numa empresa inglesa. Lembro-me de ficar impressionada com o nível de confiança e ambição das minhas colegas britânicas – havia uma segurança quase natural na forma como se posicionavam. Com o tempo, percebi que isso estava, em parte, ligado ao chamado “efeito Margaret Thatcher” – elas tiveram a experiência de uma líder que, independentemente das opiniões que possa suscitar, marcou profundamente uma geração de mulheres ao mostrar que era possível chegar ao topo.
No Canadá, por exemplo, nunca tivemos uma mulher a liderar o país como primeira-ministra eleita – apenas uma num pequeno momentos interino – e isso também tem impacto na forma como as referências se constroem. Nos Estados Unidos, essa realidade é ainda mais evidente que nunca elegeram uma mulher Presidente do país. A ausência de certos exemplos no topo influencia, consciente ou inconscientemente, a forma como as mulheres projetam o seu próprio potencial.
A diáspora tem essa capacidade única de amplificar e, ao mesmo tempo, manter ligação às raízes. Isso cria uma narrativa poderosa e muito relevante no contexto global.
É precisamente aqui que a diáspora ganha um papel estratégico: ao viver em diferentes contextos, podemos cruzar referências, ampliar perspetivas e, acima de tudo, tornar-nos nós próprias exemplos visíveis de liderança feminina. E isso tem um efeito multiplicador muito poderoso.
O tema desta edição destaca colaboração, empatia e propósito. De que forma estes pilares têm influenciado o seu estilo de liderança?
São pilares centrais no meu dia a dia, tanto no contexto institucional como nos projetos que desenvolvo.
A colaboração é essencial no trabalho associativo e comunitário. A empatia é fundamental quando lidamos com pessoas de diferentes contextos culturais.
E o propósito é aquilo que me guia – seja na promoção de iniciativas empresariais, seja na valorização da cultura através do vinho.
Considera que a liderança feminina está a transformar a cultura organizacional? Se sim, de que forma?
Sim, sobretudo ao introduzir novas formas de liderar baseadas na escuta, na inclusão e na inteligência emocional.
Vejo isso muito claramente nas redes em que estou inserida – mulheres que estão a redefinir o que significa liderar, trazendo mais consciência e mais equilíbrio para dentro das organizações.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que, apesar das pequenas vitórias que temos vindo a conquistar, o trabalho está longe de estar concluído. Ainda é necessário continuar a abrir espaço para mais mulheres em posições de liderança, para que essa transformação seja mais profunda, consistente e representativa.
A mudança está em curso – mas precisa de continuidade, intenção e, sobretudo, de mais exemplos visíveis que inspirem e normalizem uma liderança mais diversa.
A comunicação estratégica é uma ferramenta essencial na liderança. Qual o seu papel na construção de organizações mais sustentáveis e humanas?
A comunicação estratégica está no centro de tudo o que faço – seja na Câmara de Comércio, seja na Caixa Desjardins Portuguesa, ou seja nos projetos editoriais e vínicos com que colaboro.
É através dela que criamos alinhamento, que construímos confiança e que damos sentido às ações. Comunicar bem é, no fundo, cuidar das relações – e isso é a base de qualquer organização sustentável.
Num contexto global cada vez mais exigente, como podem as líderes equilibrar performance, bem-estar e impacto social?
Talvez a pergunta seja: como não equilibrar?
Durante muito tempo, fomos levadas a acreditar que tínhamos de escolher. Hoje sabemos que esse modelo não é sustentável. A performance sem bem-estar esgota. O impacto sem consistência perde-se.
No meu próprio percurso, aprendi que o equilíbrio perfeito não existe – e que um equilíbrio imperfeito também é válido. O mais importante é a flexibilidade: a capacidade de ajustar, de reavaliar prioridades e de aceitar que nem todos os dias serão iguais.
Esse equilíbrio constrói-se com consciência, mas também com permissão – a permissão de adaptar, de falhar, de recalibrar. Porque, no fim, liderar também é saber navegar a imperfeição com intenção.
Que legado gostaria de deixar enquanto líder e profissional?
Gostaria de ser lembrada como alguém que criou pontes – entre pessoas, entre culturas, entre oportunidades.
Se através do meu trabalho na comunidade, na comunicação e no universo do vinho consegui gerar ligações com significado, então esse será o meu verdadeiro legado.
Para terminar: que mensagem gostaria de partilhar com outras líderes no espaço lusófono?
Que não se diminuam para caber.
Há espaço para liderar com identidade, com sensibilidade e com visão. E há uma força enorme quando nos reconhecemos umas nas outras – especialmente na diáspora, onde tantas vezes construímos caminhos longe de casa.
No fim, é isso que fica: as ligações que construímos e o impacto que deixamos.
PAULA BERNARDINO,
MCM, CSR-P, SCMP® MC
Profissional em Gestão de Comunicação Estratégica (SCMP) com mais de 20 anos de experiência, Paula possui conhecimentos especializados em comunicação corporativa estratégica e relações públicas, adquiridos ao longo do seu trabalho em grandes empresas globais e organizações sem fins lucrativos. Ganhou o prémio «Melhor Artigo – Profissional» na Conferência CCI Milão sobre Comunicação Corporativa de 2020 pelo seu estudo «Envolver os Colaboradores através de Programas de Responsabilidade Social Corporativa», realizado em julho de 2020. Recebeu a designação de Master Communicator (MC) da IABC Canadá, a Associação Internacional de Comunicadores Empresariais, em 2024.
É docente no programa de Relações Públicas da Universidade McGill. É também formadora no Instituto de Desenvolvimento Profissional da Universidade de Ottawa, no programa de Comunicação e Marketing.
Paula integrou o conselho de administração da Desjardins Seguros em 2021. É também membro do conselho de administração da Caixa Desjardins Portuguesa, cooperativa financeira sediada em Montreal, desde 2009, onde foi nomeada presidente em 2022.
Foi nomeada para o Conselho da Diáspora Portuguesa em 2024 e integrou o conselho de administração da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Canadá em 2025.


