No mês em que se assinala o Dia Mundial da Saúde, torna-se especialmente pertinente olhar para uma dimensão muitas vezes silenciosa, mas crítica, do mundo profissional: a saúde mental. No setor da contabilidade e fiscalidade, marcado por exigência técnica, prazos rigorosos e elevada responsabilidade, o equilíbrio entre desempenho e bem-estar assume um papel cada vez mais central. Nesta entrevista, Dário Seguro Joaquim, Human Resources Specialist na Finpartner, partilha a sua perspetiva sobre os principais desafios que impactam a saúde mental dos profissionais da área, os riscos associados ao stress e burnout, e as estratégias que podem contribuir para um exercício profissional mais sustentável, humano e equilibrado.
Na vossa perspetiva, quais são hoje os principais fatores que pressionam a saúde mental dos profissionais de contabilidade e fiscalidade, por exemplo prazos, complexidade normativa, carga administrativa, exigência do cliente e responsabilização?
Os profissionais da área, por natureza, estão expostos a um conjunto de pressões que, fruto da exigência da atividade, podem comprometer seriamente o bem-estar de quem a exerce. A concentração de prazos fiscais e contabilísticos em períodos muito curtos, a crescente complexidade normativa que exige atualização permanente, a elevada carga administrativa e a exigência dos clientes, que esperam respostas rápidas e rigorosas em simultâneo, são alguns dos fatores aferíveis aos dias de hoje.
A estes fatores acresce a responsabilidade inerente ao papel, qualquer erro ou incumprimento tem consequências reais, o que torna a vigilância constante uma caraterística quase inevitável. Compreender este contexto é o primeiro passo para encontrar formas de tornar o exercício profissional mais equilibrado e sustentável, tanto para quem trabalha como para as organizações onde se insere.
Em que períodos e tipos de trabalho se sente mais o risco de stress crónico e burnout, e porquê?
Existem períodos no calendário fiscal e contabilístico que são reconhecidamente mais intensos: o encerramento de contas, as campanhas do IRS e do IRC e as declarações periódicas. Os referidos são momentos em que o volume de trabalho aumenta e a margem para imprevistos é naturalmente menor.
O risco de stress crónico e burnout tende a ser maior quando estes picos se sucedem sem espaço de recuperação entre eles, ou quando não há antecipação suficiente para os gerir de forma mais tranquila. Reconhecer estes ciclos com antecedência é, em si mesmo, uma ferramenta valiosa, reconhecendo que momentos se devem prevenir ao contrário de reagir.
Que sinais de alerta consideram mais relevantes para identificar stress e burnout numa fase precoce, tanto em profissionais como em equipas?
Os sinais de alerta são muitas vezes subtis e surgem antes de qualquer crise evidente. A nível individual, podem manifestar-se como irritabilidade invulgar, dificuldade de concentração e esquecimento de tarefas habituais e/ou de fácil execução, sendo de analise mais fácil o diagnosticar de níveis de stress, considerando o burnout algo patológico, de maior complexidade, tanto de análise e como de diagnóstico.
De que forma o stress e o burnout podem tornar-se um entrave real à carreira e à qualidade do serviço, por exemplo em rigor, tomada de decisão, produtividade, erros, absentismo e rotatividade?
O impacto do stress prolongado e do burnout faz-se sentir em várias dimensões. O rigor técnico, que é uma das marcas desta área profissional, pode ser comprometido pela fadiga acumulada aumentam os lapsos, diminuindo a capacidade de revisão crítica e de toma de decisões menos refletidas.
Para além das consequências no desempenho imediato, o desgaste prolongado pode afetar a trajetória profissional de formas mais duradouras: menor disponibilidade para aprender, para assumir novos desafios ou para manter a qualidade das relações profissionais. Nesse sentido, cuidar do bem-estar não é apenas uma questão profissional.
Que hábitos ou crenças do setor podem estar a normalizar o excesso, a urgência permanente e a ideia de que “aguentar” faz parte da profissão, e o que é urgente mudar?
Existe, historicamente, uma crença muito enraizada neste setor de que trabalhar muito é sinal de profissionalismo e compromisso. Acredito que ao invés da quantidade, possamos discutir qualidade e a forma como pretendemos atingir os eventuais padrões de qualidade definidos. Analisar a forma e não o conteúdo poderá ser um bom primeiro passo para uma grande mudança.
O que parece estar a mudar e bem é a consciência coletiva em torno desta questão. As novas gerações de profissionais chegam ao mercado com uma visão diferente do equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e essa perspetiva está a enriquecer a conversa em torno do bem-estar no trabalho. A mudança não precisa de ser abrupta; pode começar por pequenos ajustes na forma como o trabalho é organizado e comunicado.
Como equilibrar a exigência do serviço com limites saudáveis, tanto na organização interna do trabalho como na relação com clientes?
Processos bem organizados, responsabilidades claras e prazos definidos com alguma margem são elementos que facilitam o trabalho de todos e reduzem a ansiedade associada à imprevisibilidade. Sabendo que nem sempre é fácil a aplicação de alguns destes princípios, o trabalho de sapa por forma a formar e sensibilizar as equipas para o cumprimento dos procedimentos, é algo fundamenta o uso de uma das ferramentas mais importantes na gestão: reduzir os “achismos”, decidindo e organizando melhor. Sem o contributo de todos, não será certamente fácil gerir um ecossistema por natureza dinâmico e desafiador.
Na relação com os clientes, a transparência sobre os ciclos de trabalho e os prazos de entrega de informação pode ser, por si só, uma forma de gerir expetativas de forma mais saudável. Quando existe uma compreensão mútua sobre o que é possível e em que condições, a relação profissional tende a ser mais equilibrada e menos reativa.
Que medidas concretas e aplicáveis recomendam para reduzir pressão e risco, sem comprometer desempenho, por exemplo planeamento de picos, gestão de prazos, redistribuição de carga, automatização, revisão de processos e priorização?
As medidas mais eficazes são certamente todas aquelas que atuam na origem dos problemas. Em primeiro lugar, o planeamento antecipado dos picos de trabalho: mapear o calendário fiscal e contabilístico com meses de antecedência, distribuir tarefas de forma equitativa e criar planos de contingência para situações imprevistas. Em segundo lugar, a revisão e simplificação de processos internos, eliminando redundâncias e automatizando o que pode ser automatizado.
A automatização de tarefas é um caminho com grande potencial — não para substituir o trabalho humano, mas para libertar tempo e energia para o que possa aportar maior valor. A priorização consciente, saber distinguir o urgente do importante, é também uma competência que faz diferença no dia a dia de quem trabalha sob pressão constante, contando com os colaboradores mais experientes num papel de acompanhamento e tutoria de todos os profissionais com menos anos de atividade no setor.
Como pode a tecnologia ajudar a prevenir desgaste e libertar tempo, e em que situações pode também aumentar stress, disponibilidade constante e hiperexigência?
A tecnologia, e em particular os avanços recentes em inteligência artificial, representa uma oportunidade real para transformar a forma como o trabalho é feito no setor. A automatização de tarefas de menor valor acrescentado, reconciliações, validações, lançamentos de rotina liberta o profissional para se concentrar na análise, no aconselhamento e na relação com o cliente, tornando o trabalho mais interessante e menos desgastante.
A IA tem também o potencial de capacitar os profissionais de forma mais abrangente, apoiando a tomada de decisão e antecipando situações que de outra forma exigiriam muito mais tempo e esforço. O desafio está na transição: introduzir estas ferramentas de forma gradual, com a formação adequada, é fundamental para que a tecnologia seja vivida como um apoio e não como uma fonte adicional de pressão.
Que papel devem ter líderes e gestores na criação de equipas mais saudáveis, e que rotinas simples podem fazer diferença no dia a dia?
A liderança tem um papel incontornável no bem-estar das equipas, não tanto através de grandes iniciativas formais, mas pelo exemplo e pela atenção no dia a dia. Um líder que valoriza o equilíbrio, que reconhece o esforço, que está disponível para ouvir e que cria espaço para que os seus colaboradores se expressem está, de forma consistente, a contribuir para um ambiente mais saudável.
Rotinas simples podem fazer uma diferença significativa: clareza nas expetativas, reconhecimento do trabalho bem feito e convicção para comunicar e ajustar quando algo não está a funcionar. Desde modo, contextos mais alinhas e fluidos contribuem para a ambientes organizacionais mais saudáveis.
Que iniciativas consideram importantes ao nível da classe e do ecossistema do setor, empresas, associações e parceiros, para promover literacia em saúde mental, prevenção e redução do estigma?
É encorajador constatar que o tema da saúde mental está hoje na agenda de muitas organizações e associações profissionais de uma forma que há alguns anos seria impensável. Esta sensibilização crescente é, em si mesma, um passo muito importante para a criação e dinamização de iniciativas.
Certamente não existirá um cardápio geral a aplicar a todos os contextos, devendo as várias entidades diagnosticar e abordar as temáticas e práticas a sensibilizar, não focando e esgotando os seus esforços apenas na execução sem contexto.
Que mecanismos internos ou protocolos consideram mais eficazes para apoiar quem está em sofrimento, garantindo confidencialidade e ajuda real, por exemplo canais de apoio, acompanhamento, flexibilização e plano de recuperação?
A confidencialidade e a ausência de estigma são os pilares de qualquer mecanismo de apoio eficaz.
Do ponto de vista prático, os mecanismos mais eficazes combinam diferentes camadas de apoio e suporte. Não focando ou enumerando alguns dos possíveis mecanismos, importa refletir sobre o seguinte: o mais importante é que mecanismos sejam reais, conhecidos por todos e acessíveis sem burocracia desnecessária, respondendo de forma prática e concretas, cumprido os princípios pelos quais são criados.
Para fechar, que 3 compromissos práticos deixariam ao setor para 2026, para promover bem-estar e sustentabilidade profissional, e que mensagem gostariam de deixar aos contabilistas que hoje sentem exaustão?
Deixar três compromissos práticos para todo um setor seria algo certamente ambicioso. Deixo, porém, três premissas pessoais que acredito serem uma boa reflexão na ótica da gestão de uma organização:
A primeira é o de investir na organização do trabalho. Processos bem pensados e responsabilidades claras criam ambientes mais tranquilos e serviços mais rigorosos. Reduzir a improvisação e o trabalho reativo é, ao mesmo tempo, uma forma de cuidar das pessoas e de melhorar a qualidade do que é entregue.
A segunda é o de abraçar a tecnologia com tempo e com formação. As ferramentas existem e o seu potencial é real mas a adoção precisa de ser feita de forma cuidada, garantindo que quem as vai usar sente a utilidade das mesmas.
A terceira é o de continuar a conversa, a saúde mental já não é um tema tabu.
Aos profissionais que hoje sentem exaustão, gostaria de deixar uma palavra simples: o que sentem é válido, e reconhecê-lo é já um ato de coragem. “Aquilo a que resistimos, persiste”. Procurem ajuda.


