Num contexto em que a liderança feminina assume um papel cada vez mais determinante na construção de organizações mais equilibradas, resilientes e sustentáveis, a reflexão sobre percursos, decisões e impacto torna-se essencial. A promoção da igualdade de oportunidades não é apenas um imperativo social — é também um fator crítico de qualidade na tomada de decisão e na criação de valor a longo prazo. É neste enquadramento que a Revista Pontos de Vista convidou Francisca Guedes de Oliveira, Administradora do Banco de Portugal, cujo percurso se distingue por uma liderança consciente, simplificação, valorização da informação e o papel transformador das instituições na sociedade.
Que momentos do seu percurso profissional considera mais determinantes para a líder que é hoje?
Considero que os momentos mais determinantes do meu percurso profissional começam, desde logo, na formação académica. A escolha do curso, da faculdade e, posteriormente, a decisão de avançar para o doutoramento foram opções absolutamente estruturantes. Na altura, essa decisão estava muito ligada à perspetiva de seguir uma carreira académica, mas acabou por ter um impacto muito mais amplo, porque me deu uma base de conhecimento, de método e de exigência que viria a ser decisiva em todas as etapas seguintes do meu percurso.
A formação académica deu-me, acima de tudo, solidez. Solidez técnica, capacidade analítica, disciplina intelectual e um modo de trabalhar assente no rigor, na profundidade e na procura de soluções bem fundamentadas. Ao longo da vida profissional, fui percebendo que as chamadas competências transferíveis são, naturalmente, muito importantes (a capacidade de adaptação, de comunicação, de trabalhar em equipa, de liderar em contextos complexos), mas, no meu caso, a base técnica sólida foi absolutamente fundamental. Foi ela que me deu segurança para entrar em contextos novos, aprender rapidamente, tomar decisões com confiança e acrescentar valor em projetos muito distintos entre si.
Mais tarde, houve experiências profissionais que tiveram um papel particularmente marcante na forma como fui consolidando a minha identidade profissional. Destacaria, em primeiro lugar, a participação no Conselho de Administração da EDP Renováveis. Foi uma experiência de enorme exigência, não apenas pela dimensão e relevância da organização, mas também pelo contexto estratégico em que se insere um setor tão decisivo como o da energia. Permitiu-me desenvolver uma visão mais integrada da gestão e reforçar a capacidade de decisão em ambientes exigentes.
Destacaria também, no contexto da AICEP, o comissariado da Expo 2020 Dubai, que foi uma experiência muito transformadora. Pelo seu grau de complexidade, pela dimensão internacional, pela necessidade de articulação entre múltiplos atores e pela exigência de representar o país num palco global, foi um desafio particularmente rico do ponto de vista profissional e humano. Exigiu não apenas capacidade de planeamento e organização, mas também resiliência, diplomacia, gestão de equipas, foco em resultados e uma grande capacidade de adaptação.
Diria que foram precisamente esses contextos, distintos entre si mas igualmente desafiantes, que mais contribuíram para moldar a profissional que sou hoje. Ambos me proporcionaram uma enorme aprendizagem, permitiram-me consolidar ferramentas de trabalho e aprofundar competências que considero essenciais: a capacidade de decidir, de mobilizar equipas, de lidar com a complexidade e de manter sempre uma visão clara do objetivo. Foram experiências que marcaram de forma muito profunda a minha personalidade profissional e que ajudaram a definir a forma como hoje encaro a liderança.
De que forma a experiência acumulada em áreas ligadas à regulação, supervisão, proteção do consumidor e literacia financeira foi moldando a sua visão sobre liderança e impacto institucional?
Creio que a experiência acumulada em áreas como a regulação, a supervisão, a proteção do consumidor e a literacia financeira tem sido importante, desde logo, por me dar uma base técnica muito sólida. São temas que exigem rigor, sentido de responsabilidade e uma noção muito clara do impacto real das decisões. Essa experiência é fundamental porque dá consistência ao trabalho e sustenta a forma como se constroem projetos, se mobilizam equipas e se tomam decisões.
Mas diria que a minha visão sobre liderança e impacto institucional foi sendo moldada não apenas pelos temas em si, mas também, e talvez sobretudo, pelas instituições por onde passei, pelas pessoas com quem tive o privilégio, e por vezes o desafio, de trabalhar, e pelos resultados que fomos alcançando em conjunto.
Na Católica Porto Business School, por exemplo, trabalhei num contexto em que o impacto da liderança tinha uma dupla dimensão. Por um lado, uma dimensão mais interna, centrada na gestão do corpo docente: garantir oportunidades, percursos relevantes, bem-estar e evolução com base no mérito, junto de quem é a alma da instituição. Por outro, uma dimensão mais externa, ligada à direção dos mestrados, onde o foco estava em assegurar a melhor formação possível, com exigência, qualidade e uma experiência que realmente marcasse os alunos.
Hoje, no Banco, a proteção do consumidor e a literacia financeira obrigam-me a pensar o impacto de uma forma simultaneamente individual e sistémica. Ou seja, importa garantir que o cliente bancário está devidamente protegido e informado, mas também ter presente a relação com o setor, a confiança no sistema e a reputação institucional. É um exercício constante de equilíbrio entre diferentes perspetivas e responsabilidades.
No fundo, cada etapa do meu percurso me mostrou contextos diferentes e foi contribuindo para a minha visão do que é liderar: gerir com foco no impacto, ter sempre as pessoas no centro e preservar a reputação das instituições.
Que legado gostaria de deixar nesta fase da sua trajetória profissional?
Se pensar em legado, há dois temas para os quais gostaria genuinamente de deixar um contributo sólido nesta fase do meu percurso.
O primeiro é o da simplificação. Simplificar regulação, processos e reportes, sem nunca comprometer o rigor da supervisão ou a proteção do cliente. Creio que uma das grandes responsabilidades das instituições é precisamente saber distinguir entre complexidade necessária e complexidade excessiva. E, nesse sentido, gostaria de contribuir para um quadro em que a informação essencial seja mais clara e transparente, os processos mais ágeis e as exigências feitas às instituições se concentrem no que é efetivamente indispensável para garantir a estabilidade do sistema e a proteção do cliente bancário.
O segundo é o da organização e valorização da informação. Numa instituição como o Banco, a qualidade da informação, a forma como é estruturada, partilhada e utilizada, é decisiva para a qualidade da decisão e para a eficácia da ação institucional. Gostaria de ajudar a consolidar uma cultura em que a informação seja não apenas abundante, mas sobretudo útil, bem organizada, fiável e orientada para a missão. E em que o esforço pedido a quem reporta seja proporcional, justificado e gerido da forma mais eficiente possível.
Se pudesse deixar esse contributo, o de uma instituição mais simples, mais clara, mais eficiente e mais inteligente na forma como usa a informação, sentiria que tinha ajudado a reforçar não apenas o funcionamento interno do Banco, mas também a qualidade da sua relação com o sistema financeiro e com os cidadãos.
Que objetivos continua a procurar alcançar, tanto a nível pessoal como institucional?
Do ponto de vista institucional, o meu principal objetivo continua a ser contribuir da melhor forma possível para a prossecução da missão do Banco. Isso significa não apenas garantir que o trabalho que desenvolvemos tem qualidade, rigor e utilidade, mas também procurar fazê-lo de uma forma que mobilize equipas, valorize as pessoas e deixe um impacto positivo em quem trabalha comigo. Para mim, o contributo institucional mede-se tanto pelos resultados que se alcançam como pela forma como esses resultados são construídos, com sentido de responsabilidade, espírito de missão e capacidade de envolver os outros num propósito comum.
A nível pessoal, o objetivo que continuo a procurar alcançar é o de aprender permanentemente. Aprender com as pessoas, com os contextos, com os projetos em que me envolvo e também com as decisões que tomo, sobretudo com as mais exigentes. O meu crescimento profissional e pessoal resulta dessa disponibilidade contínua para evoluir e ganhar novas ferramentas.
A minha passagem pelo Banco tem sido particularmente importante nesse percurso. Tem-me permitido evoluir muito e consolidar um conjunto de competências, tanto técnicas como comportamentais, que considero muito valiosas. Por um lado, aprofundando conhecimentos em áreas complexas e exigentes; por outro, reforçando capacidades de liderança, de gestão, de decisão e de relação institucional. Estou certa de que esta aprendizagem será fundamental para as etapas seguintes do meu percurso.
No fundo, diria que procuro continuar a crescer em duas dimensões que, para mim, estão profundamente ligadas: contribuir de forma útil e sólida para a instituição em que trabalho e, ao mesmo tempo, continuar a evoluir como profissional e como pessoa, para poder assumir novos desafios com mais preparação, mais consciência e mais capacidade de gerar valor.


