É com enorme satisfação que a Revista Pontos de Vista acompanha o percurso de Évora na sua candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, reconhecendo o papel determinante que projetos diferenciadores e sustentáveis desempenham na afirmação cultural e territorial da região. Neste contexto, o Dark Sky Alqueva destaca-se como um projeto singular à escala europeia, ao conjugar preservação ambiental, valorização científica, turismo sustentável e identidade cultural. Liderado por Apolónia Rodrigues, este projeto pioneiro transforma o céu noturno do Alentejo num ativo estratégico, promovendo uma nova forma de experienciar o território, onde a contemplação, o conhecimento e a sustentabilidade se cruzam.
De que forma o Dark Sky® Alqueva contribui para a valorização cultural e identitária do Alentejo, em particular na ligação com Évora?
O Dark Sky® Alqueva é o primeiro destino do mundo certificado como Starlight Tourism Destination (2011), reconhecimento atribuído pela Fundação Starlight, entidade apoiada pela UNESCO e pela UNWTO. Esta certificação não é meramente promocional, resulta de critérios técnicos relacionados com qualidade do céu, estabilidade e transparência da atmosfera, controlo de poluição luminosa, monitorização e governança territorial.
O território certificado integra vários municípios do Alentejo, incluindo Évora, criando uma malha intermunicipal que articula património natural e património histórico. Évora, classificada como Centro Histórico de Évora, representa a dimensão material da herança europeia, o Dark Sky® acrescenta a dimensão imaterial e cósmica dessa herança.
O projeto reforça traços identitários do Alentejo: baixa densidade populacional, vastidão paisagística, reduzida intrusão luminosa e relação histórica com ciclos naturais. Ao transformar a noite num ativo estratégico, posiciona a região como território onde natureza, cultura e ciência convergem.
Considera que a preservação do céu noturno pode ser entendida como património cultural? Porquê?
Dados científicos sustentam esta posição:
Segundo o World Atlas of Artificial Night Sky Brightness (Falchi et al., 2016), mais de 80% da população mundial vive sob céus poluídos por luz artificial, e na Europa essa percentagem ultrapassa os 90%.
Cerca de um terço da humanidade já não consegue observar a Via Láctea a olho nu.
Esta realidade representa uma perda cultural mensurável. O céu noturno foi instrumento de navegação, organização agrícola, orientação arquitetónica e matriz simbólica das civilizações. A sua invisibilidade progressiva constitui erosão de património imaterial.
Do ponto de vista ecológico, a poluição luminosa afeta insetos polinizadores, aves migratórias e ritmos circadianos humanos. Assim, a proteção do céu noturno é simultaneamente cultural, ambiental e de saúde pública.
Que papel pode o Dark Sky® desempenhar no contexto da candidatura de Évora Capital Europeia da Cultura 2027?
A designação de Évora Capital Europeia da Cultura 2027 afirma-se a partir do conceito estruturante de Vagar, entendido não apenas como desaceleração do tempo, mas como prática crítica de atenção, contemplação e reconexão com os ritmos naturais, sociais e culturais do território. Vagar propõe uma inversão das lógicas de produção acelerada, privilegiando experiências imersivas, sustentáveis e profundamente enraizadas no contexto local.
Neste enquadramento, o Dark Sky® Alqueva posiciona-se como um dispositivo territorial e conceptual privilegiado para expandir e materializar este princípio.
Ao deslocar o foco para o céu noturno e para paisagens de baixa poluição luminosa, o Dark Sky®:
- promove uma experiência do tempo alargado, onde a observação do cosmos convoca uma relação direta com escalas temporais não humanas;
- descentraliza a programação cultural, ativando zonas rurais e evitando a concentração exclusiva no espaço urbano de Évora;
- estabelece uma plataforma híbrida entre arte contemporânea, ciência e sustentabilidade ambiental.
É neste contexto que se insere o projeto DIVE, integrado no BidBook da candidatura, concebido como um dispositivo de ligação entre território e céu noturno através da prática da astrofotografia.
O DIVE desenvolve-se em dois momentos complementares:
- Durante 2026, realiza-se um processo de captação de imagens em todo o território do Dark Sky® Alqueva, abrangendo os seus 11 concelhos. Este trabalho constrói um arquivo visual que documenta a relação entre paisagem, comunidades e céu estrelado, revelando múltiplas camadas do território em diálogo com o cosmos.
- Em 2027, no contexto da programação de Évora_2027, o projeto materializa-se através de uma exposição distribuída, com apresentação em Évora e nos restantes 10 concelhos do Dark Sky, reforçando a lógica de descentralização e coesão territorial.
Desta forma, o DIVE traduz o Vagar numa prática concreta de observação prolongada e de construção de memória visual, onde o tempo lento da captação e contemplação se torna elemento central da criação artística.
No plano estratégico europeu, esta abordagem contribui para:
- um modelo inovador de governação cultural alinhada com princípios ambientais, onde a proteção do céu noturno se torna ativo cultural;
- o reforço das agendas de transição energética, biodiversidade e sustentabilidade, através da redução da poluição luminosa e da valorização dos ecossistemas noturnos;
- a afirmação de Alqueva como laboratório europeu de práticas culturais em território de baixa densidade.
A dimensão noturna e ambiental constitui, assim, um fator distintivo de Évora_2027 no panorama europeu, posicionando-a como referência na articulação entre cultura, ecologia e novas formas de experienciar o tempo.
Quais têm sido os principais impactos do projeto ao nível dos no turismo sustentável e da economia local?
O astroturismo é um segmento em expansão global. Relatórios internacionais de turismo de natureza indicam que:
- O turismo de natureza cresce consistentemente acima da média do turismo convencional.
- O nicho de astroturismo tem registado crescimento anual significativo, impulsionado por procura de experiências autênticas e sustentáveis.
Visitantes deste segmento tendem a apresentar maior permanência média e maior gasto por estadia, sobretudo em destinos rurais.
No caso do Alqueva, os impactos incluem:
- Desestacionalização da procura.
- Diversificação de produtos (observação guiada, fotografia noturna, experiências vínicas sob as estrelas).
- Valorização do alojamento rural.
- Criação de emprego qualificado em mediação científica.
O modelo de rede certificada garante que o valor económico permanece no território.
De que forma existe e pode ser feito o equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento turístico?
O equilíbrio entre preservação ambiental e desenvolvimento turístico concretiza-se através de uma abordagem integrada que articula regulação técnica, monitorização contínua e envolvimento comunitário. Neste sentido, pretende-se a implementação de critérios rigorosos de iluminação pública, nomeadamente a redução do fluxo luminoso, a utilização de temperaturas de cor adequadas e a adoção de luminárias full cut-off, com o objetivo de minimizar a poluição luminosa e proteger a integridade do céu noturno.
Paralelamente, é assegurada a monitorização contínua da qualidade do céu através de equipamentos específicos, como o Sky Quality Meter implantado no Observatório Oficial Dark Sky® Alqueva, permitindo avaliar e ajustar continuamente as condições ambientais do território. Este processo é complementado por ações consistentes de sensibilização junto das comunidades locais, promovendo uma cultura partilhada de valorização do património natural.
Adicionalmente, o planeamento da capacidade de carga turística assume um papel central, prevenindo fenómenos de massificação e garantindo uma experiência sustentável e equilibrada para visitantes e residentes.
Desta forma, a sustentabilidade afirma-se não apenas como um princípio ético orientador, mas como o próprio fundamento e fator distintivo do produto turístico.
Quais os desafios e oportunidades para o Dark Sky® Alqueva nos próximos anos?
Nos próximos anos, o desenvolvimento do Dark Sky® Alqueva enfrenta um conjunto de desafios estruturais que exigem uma abordagem estratégica e integrada. Entre eles, destaca-se a crescente pressão da poluição luminosa associada à expansão de novas infraestruturas e à realização de eventos, que pode comprometer a integridade do céu noturno. A este fator acresce a questão da qualidade do ar e da transparência atmosférica, dimensões críticas para a observação astronómica que vão além da simples ausência de luz artificial. A presença de partículas em suspensão (PM2.5 e PM10), poeiras e aerossóis intensifica a dispersão da luz (skyglow) e reduz a nitidez do céu, sendo estes fenómenos agravados por alterações climáticas, eventos extremos e episódios de poeiras saharianas.
Paralelamente, coloca-se a necessidade de investimento contínuo em sistemas de monitorização e tecnologia, bem como o reforço de mecanismos de coordenação multinível entre municípios, de forma a garantir uma gestão coerente e eficaz em todo o território.
Neste contexto, emergem também oportunidades estratégicas relevantes. A integração da monitorização da qualidade do ar como componente estruturante do modelo Dark Sky® permite consolidar uma abordagem mais holística e cientificamente robusta. Simultaneamente, o território pode afirmar-se como um laboratório europeu de boas práticas em ambiente noturno, alinhado com as agendas de sustentabilidade e transição climática, potenciando a captação de financiamento europeu dedicado a estas áreas.
A projeção internacional associada à Évora Capital Europeia da Cultura 2027 constitui ainda um vetor de amplificação decisivo, posicionando o Dark Sky® Alqueva num contexto global de inovação cultural e ambiental.
Deste modo, a transparência atmosférica deixa de ser apenas uma variável técnica e passa a assumir-se como um elemento estratégico central na valorização e sustentabilidade do território.
Qual a mensagem que deixará para as gerações futuras em relação à importância do céu noturno?
Nas últimas décadas, a humanidade perdeu uma parte substancial da visibilidade do céu noturno, consequência direta da expansão desregulada da iluminação artificial e da crescente pressão ambiental sobre os territórios. Em vastas áreas do planeta, a Via Láctea deixou de ser visível a olho nu, transformando aquilo que foi, durante milénios, uma referência universal da experiência humana num fenómeno inacessível para uma grande parte da população. Se esta trajetória se mantiver, as próximas gerações crescerão privadas de uma relação direta com o cosmos, empobrecendo não apenas a experiência sensorial, mas também dimensões culturais, científicas e simbólicas fundamentais.
Proteger o céu noturno não é, portanto, um exercício de nostalgia ou de conservação passiva, trata-se de uma ação estratégica que cruza políticas culturais, ambientais e científicas. O céu constitui um bem comum global, indivisível e cumulativo, cuja degradação resulta de decisões locais com impactos globais. A poluição luminosa, uma vez instalada, propaga-se para além das fronteiras administrativas, tornando indispensável uma abordagem coordenada e sustentada no tempo.
Neste sentido, a preservação do céu noturno deve ser entendida como um compromisso intergeracional: garantir às gerações futuras o acesso a um património natural e cultural que moldou o pensamento humano, a orientação no território, a construção de mitologias e o desenvolvimento da ciência. Mais do que proteger a escuridão, trata-se de salvaguardar a possibilidade de continuar a olhar para o céu como espaço de conhecimento, inspiração e consciência do lugar da humanidade no universo.
Qual o seu contributo (do céu notumo) para literacia científica e ambiental?
A experiência direta do céu noturno constitui uma ferramenta privilegiada para a promoção da literacia científica e ambiental, ao permitir uma aprendizagem situada, sensorial e acessível a diferentes públicos. A observação do firmamento facilita a compreensão de princípios básicos de astronomia, ao mesmo tempo que oferece um contexto concreto para explicar fenómenos como a dispersão da luz e os impactos da poluição luminosa.
Simultaneamente, esta experiência introduz conceitos fundamentais de eficiência energética e o que representa o objetivo quase zero poluição luminosa, evidenciando a relação entre práticas de iluminação e sustentabilidade, e contribui para sensibilizar para questões mais amplas, como a qualidade do ar e as alterações climáticas, que influenciam diretamente a visibilidade e a integridade do céu noturno.
Neste quadro, o desenvolvimento de projetos de ciência-cidadã e a integração de programas educativos em contexto escolar reforçam esta dimensão pedagógica, promovendo uma participação ativa das comunidades e consolidando uma cultura científica mais informada, crítica e ambientalmente consciente.
Na sua perspetiva, como projetos como o Dark Sky® Alqueva ajudam a reposicionar o interior do país como um território de inovação cultural e sustentabilidade?
Projetos como o Dark Sky® Alqueva operam uma mudança estrutural na narrativa sobre o interior. Tradicionalmente, o interior foi descrito a partir de indicadores de défice, baixa densidade populacional, envelhecimento demográfico, menor concentração de infraestruturas. O Dark Sky® Alqueva inverte essa lógica ao transformar aquilo que parecia limitação (baixa densidade luminosa e humana) numa vantagem competitiva estratégica.
Estamos perante um exemplo de inovação baseada em recursos endógenos. Não se trata de importar modelos urbanos ou industriais, mas de capitalizar ativos territoriais específicos: qualidade ambiental, vastidão paisagística, baixa poluição luminosa e relação cultural com o território.
- A) Inovação territorial
e especialização inteligente
No contexto das políticas europeias de especialização inteligente (RIS3), os territórios são incentivados a desenvolver vantagens comparativas sustentáveis. O Dark Sky® Alqueva responde exatamente a esse princípio: posiciona o Alentejo como território especializado em astroturismo, ciência ao ar livre e gestão sustentável da noite.
Esta estratégia tem três impactos estruturais:
- Criação de nichos de mercado de alto valor acrescentado (astroturismo qualificado, experiências científicas, fotografia especializada).
- Fixação de talento nas áreas de comunicação em ciência, turismo sustentável e tecnologias ambientais.
Diferenciação internacional clara, difícil de replicar por territórios urbanos densamente iluminados.
- b) Sustentabilidade como motor
económico, não como custo
Em muitos contextos, sustentabilidade é apresentada como restrição regulatória. No caso do Dark Sky® Alqueva, ela é o próprio produto.
A qualidade ambiental, ausência de poluição luminosa, boa transparência atmosférica, baixa densidade urbana, converte-se em valor económico. Isto demonstra que o interior pode competir não pela quantidade de infraestruturas, mas pela qualidade dos seus ecossistemas.
Este modelo é particularmente relevante num momento em que:
- O turismo europeu procura experiências autênticas e de natureza.
- A transição energética e a eficiência luminosa são prioridades da União Europeia.
- A valorização da biodiversidade integra agendas climáticas e culturais.
- c) Interior como laboratório
de políticas públicas inovadoras
O Dark Sky® Alqueva funciona como laboratório de boas práticas:
- Regulação técnica de iluminação pública.
- Cooperação intermunicipal estruturada.
- Monitorização contínua de qualidade do céu.
- Articulação entre cultura, ciência e economia.
Esta governação multinível demonstra que territórios de baixa densidade podem ser mais ágeis na implementação de políticas inovadoras, precisamente por operarem em escalas territoriais mais controláveis.
- d) Reconfiguração simbólica
do interior
Existe também uma dimensão simbólica profunda. O interior deixa de ser associado a atraso ou isolamento e passa a ser associado a:
- Qualidade ambiental.
- Autenticidade cultural.
- Inovação sustentável.
- Experiência imersiva e diferenciadora.
A noite, historicamente invisível como recurso, torna-se elemento identitário distintivo. O território passa a ser reconhecido internacionalmente não apesar da sua baixa densidade, mas por causa dela.
- e) Integração com dinâmicas europeias contemporâneas
No contexto de Évora enquanto Capital Europeia da Cultura 2027, esta reposição estratégica ganha ainda maior relevância.
O interior alentejano posiciona-se como:
- Espaço de convergência entre património histórico e inovação ambiental.
- Plataforma de cruzamento entre arte contemporânea e ciência.
Exemplo europeu de desenvolvimento cultural sustentável em território rural.
Este enquadramento coloca o Alentejo não na periferia, mas no centro das discussões europeias sobre transição ecológica, identidade cultural e modelos alternativos de desenvolvimento.
- f) Mudança de paradigma
de desenvolvimento
O contributo mais relevante do Dark Sky Alqueva é paradigmático:
- Mostra que crescimento não implica urbanização intensiva.
- Demonstra que baixa densidade pode ser ativo estratégico.
- Prova que cultura, ciência e ambiente podem gerar economia de forma integrada.
Trata-se de um modelo replicável noutros territórios rurais europeus, mas com a vantagem de o Alentejo ter sido pioneiro.
O interior deixa, assim, de ser território de compensação e passa a ser território de referência.


