“O trabalho duro mantém uma empresa viva. A gestão eficaz faz uma empresa crescer”

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Ana Moedas tem dedicado o seu percurso a ajudar empresários a sair da operação e a assumirem plenamente o papel de líderes. Hoje, enquanto business coach, trabalha lado a lado com empresas em diferentes fases de maturidade, apoiando-as na construção de estruturas sólidas, equipas autónomas e resultados previsíveis. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilha aprendizagens-chave do seu percurso, reflete sobre os desafios das PME em Portugal e explica como a implementação de sistemas, métricas e estratégias claras pode transformar negócios — e, sobretudo, libertar líderes.

Que momentos do seu percurso foram mais determinantes para a líder e coach que é hoje?

Ao longo de mais de 25 anos, com um percurso nacional e internacional nas áreas de vendas, marketing, desenvolvimento de negócio e liderança, tive a oportunidade de liderar iniciativas de crescimento em diferentes setores e contextos empresariais.

Quando regressei a Portugal, deparei-me com uma realidade muito marcada pelo enorme esforço dos empresários, muitas vezes sem a estrutura, os métodos e os sistemas necessários para transformar esse esforço em resultados consistentes.

Essa constatação despertou em mim um interesse ainda maior por modelos de gestão que permitem criar empresas mais organizadas, sustentáveis e preparadas para crescer.

A realidade portuguesa mostra-nos que muitas PMEs encerram no primeiro ano de atividade e muitas outras não conseguem ultrapassar os primeiros cinco anos. Quando conheci a ActionCOACH, identifiquei-me de imediato com a sua metodologia, com os resultados comprovados e com o propósito de criar abundância no mercado através de negócios mais fortes e líderes mais preparados.

Hoje, o meu foco está em ajudar líderes a libertarem-se da operação para que possam assumir verdadeiramente o seu papel: liderar o crescimento do negócio com visão, estrutura e confiança.

 

O que aprendeu ao longo de 25 anos sobre o que separa “trabalho duro” de “gestão eficaz”?

O trabalho duro mantém uma empresa viva. A gestão eficaz permite-lhe crescer.

Esta é, talvez, uma das maiores distinções que fui observando ao longo do tempo. Muitos empresários trabalham mais horas do que qualquer outro elemento da equipa. Esforçam-se, resolvem problemas, respondem a tudo, estão em todas as frentes. Mas o esforço, por si só, não substitui um sistema.

A verdadeira alavancagem de um negócio assenta em quatro pilares fundamentais: sistemas, equipa, métricas e uma estratégia clara de vendas e marketing.

Sem estes elementos, o empresário vive permanentemente em modo de urgência. Muitas vezes, como me dizem, sente-se o “bombeiro de serviço”. Quando estas alavancas estão bem implementadas, o negócio torna-se mais previsível, mais estável e muito mais capaz de crescer com consistência.

 

Que legado procura construir ao trabalhar com empresários e equipas em fases diferentes de maturidade?

O legado que procuro construir passa por ajudar empresários a desenvolver empresas que geram lucro de forma consistente, funcionam sem depender exclusivamente do dono e criam valor para clientes, equipas e comunidade.

Quando uma empresa deixa de estar refém do caos e passa a operar com estrutura, clareza e método, todos beneficiam: o empresário, que ganha liberdade e capacidade de decisão; a equipa, que trabalha com mais direção e responsabilidade; e o mercado, que passa a contar com organizações mais sólidas e sustentáveis.

No fundo, a minha missão é essa: contribuir para a criação de empresas mais fortes e de líderes mais livres.

 

Porque é que tantas PME ficam presas ao dono?

Porque muitas empresas nascem a partir de um talento técnico e não de uma estrutura de gestão.

O fundador sabe produzir, vender o seu serviço ou desenvolver o seu produto, mas raramente começa com processos claros de vendas, gestão de equipa, organização interna ou planeamento estratégico.

À medida que o negócio cresce, tudo acaba por passar pelo dono: decisões, clientes, problemas e até pequenas tarefas operacionais. Esse é, muitas vezes, o primeiro grande sinal de bloqueio: a empresa cresce, mas a dependência em relação ao líder cresce ainda mais.

 

Que mudanças concretas costuma implementar para criar processos independentes da pessoa-chave?

O primeiro passo é sempre o diagnóstico. Antes de falar em soluções, é fundamental perceber como o negócio funciona realmente, identificar os principais bloqueios, compreender os desafios atuais e reconhecer também as crenças limitadoras que estão a travar o crescimento.

A par disso, trabalho muito a mentalidade do líder, porque a forma como pensamos reflete-se diretamente na forma como gerimos. A vida, tal como o negócio, é muitas vezes um espelho.

Tudo começa com uma tomada de consciência. Só depois é possível construir um plano claro, ajustado à realidade da empresa e alinhado com os objetivos que se pretendem alcançar.

 

O que considera essencial para uma delegação bem feita?

Delegar não é apenas distribuir tarefas. Delegar bem implica três elementos essenciais: clareza quanto ao resultado esperado, autonomia para executar e responsabilização com base em métricas.

Quando estes três fatores existem, a delegação deixa de ser encarada como perda de controlo e passa a ser uma verdadeira alavanca de crescimento. O líder deixa de estar preso ao detalhe e ganha espaço para se concentrar no que realmente faz avançar o negócio.

 

Quais são os erros mais frequentes quando um empresário tenta planear, mas continua a viver em urgência?

O erro mais comum é confundir planeamento com uma simples lista de intenções. Um plano estratégico eficaz exige prioridades claras, prazos definidos e métricas que permitam acompanhar o progresso. Sem isso, o plano transforma-se apenas num documento bonito, mas sem impacto real no dia a dia da empresa.

O verdadeiro planeamento é aquele que orienta decisões diárias, define objetivos concretos e ajuda a transformar visão em execução.

 

Como transforma objetivos ambiciosos em planos executáveis?

Transformando ambição em estrutura.

Na ActionCOACH utilizamos o ABOS, ActionCOACH Business Operating System, um modelo estruturado, prático e comprovado, construído com base em seis etapas essenciais para o crescimento empresarial. Este sistema ajuda as empresas a escalar com rentabilidade, a desenvolver equipas de alto desempenho e a criar um negócio capaz de funcionar sem a presença constante do dono em todas as decisões.

Quando os processos estão claros e são acompanhados, a empresa deixa de depender da memória ou do improviso. Passa a depender de sistema.

E quando os objetivos são traduzidos em ações mensuráveis, a equipa percebe com clareza o que tem de acontecer, semana após semana, para que os resultados apareçam.

 

Que indicadores considera críticos para criar previsibilidade?

Depende sempre do tipo de negócio, mas existem alguns indicadores universais que ajudam a criar previsibilidade e capacidade de decisão, como o número de leads gerados, a taxa de conversão em vendas, o número de transações, o valor médio por venda e a margem de lucro.

Quando estes números são acompanhados de forma regular, a gestão deixa de assentar em perceções ou intuição e passa a basear-se em dados concretos. É isso que permite corrigir rotas, antecipar problemas e tomar decisões com mais segurança.

 

O que faz uma equipa passar de “cumprir tarefas” para “assumir o negócio”?

Clareza e responsabilidade.

Quando as pessoas percebem de que forma o seu trabalho impacta os resultados da empresa e quando existem indicadores claros sobre aquilo que é esperado, o nível de compromisso muda profundamente.

As equipas precisam de saber o que se espera delas, como o seu desempenho é avaliado e qual é o impacto real do seu contributo no negócio. Quando isso acontece, deixam de executar apenas tarefas e passam a assumir um papel ativo nos resultados.

 

Que práticas usa para aumentar compromisso e autonomia?

Muitas das práticas mais eficazes são, na verdade, bastante simples: reuniões regulares focadas em resultados, definição clara de indicadores por função e valorização dos progressos e conquistas ao longo do percurso.

Quando as equipas conseguem ver evolução concreta e percebem que o seu trabalho produz impacto, o envolvimento aumenta de forma natural. O compromisso cresce quando existe direção, acompanhamento e reconhecimento.

 

Como lida com a resistência à mudança?

Na maioria dos casos, a resistência não é à mudança em si, mas à incerteza que ela provoca.

Por isso, o primeiro passo é comunicar com clareza o porquê da mudança, os benefícios que ela pode trazer e a forma como esse processo será acompanhado.

Quando as pessoas compreendem o propósito, sentem-se envolvidas e percebem que existe direção, a resistência tende a diminuir. A clareza e a comunicação continuam a ser dois fatores decisivos em qualquer processo de transformação.

 

Que desafios sente que as mulheres enfrentam quando lideram equipas?

Muitas mulheres em posições de liderança continuam a enfrentar uma dupla expetativa.

Por um lado, espera-se firmeza, assertividade e capacidade de decisão. Por outro, persiste muitas vezes uma pressão social associada à conciliação, ao equilíbrio e a um determinado modelo de presença.

Ainda assim, estamos a assistir a uma evolução muito positiva. Cada vez mais vemos liderança feminina afirmada pela competência, pela visão estratégica, pela capacidade de mobilizar equipas e pela consistência dos resultados.

 

O que ajuda a tornar a igualdade de oportunidades mais real nas empresas?

A igualdade de oportunidades torna-se efetiva quando as decisões são tomadas com base em desempenho, mérito e resultados.

Isso exige critérios claros de progressão, transparência nos processos de avaliação e acesso real ao desenvolvimento de competências de liderança.

Quando as organizações trabalham com métricas e critérios objetivos, em vez de perceções ou vieses, a igualdade deixa de ser apenas uma intenção e passa a traduzir-se em prática.

 

Três prioridades para elevar a gestão das PME em Portugal?

Se tivesse de escolher três prioridades essenciais para elevar a gestão das PME em Portugal, destacaria três: maior literacia em gestão e liderança, decisões baseadas em métricas e dados, e criação de sistemas que permitam às empresas crescer com consistência.

Quando estes pilares existem, as empresas tornam-se mais sólidas, mais lucrativas e muito mais sustentáveis.

Empreender exige coragem. Mas crescer exige método.

Quando uma empresa tem clareza estratégica, métricas e sistemas de execução, deixa de ser apenas um negócio que sobrevive e passa a ser uma organização verdadeiramente preparada para crescer de forma consistente.

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Revista Pontos de Vista Edição 150

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