Num contexto profissional cada vez mais exigente, a Saúde Mental assume-se como um tema incontornável para os contabilistas certificados. À frente da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco tem acompanhado de perto os desafios que marcam a classe, desde o impacto profundo da pandemia até à crescente pressão fiscal e legislativa. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, a bastonária reflete sobre o antes e o depois de 2020, analisa os fatores que contribuem para o stresse e burnout na profissão e destaca as medidas, conquistas e iniciativas que a Ordem tem vindo a desenvolver para promover o bem-estar dos seus membros.
De que forma a Ordem dos Contabilistas Certificados tem acompanhado as questões relacionadas com a Saúde Mental dos seus membros?
As questões relacionadas com a Saúde Mental e estes profissionais estão cada vez mais na ordem do dia. Mas é evidente que existiu um antes e um depois de 2020, que coincidiu com a pandemia. Nessa altura, os contabilistas certificados foram os «ventiladores» das empresas, fazendo chegar os apoios pelos quais muitas desesperavam. Este esforço hercúleo deixou, naturalmente, marcas. No Dia do Contabilista, celebrado a 21 de setembro de 2021, que curiosamente coincidiu com a inauguração da representação permanente da OCC, em Portalegre, tivemos oportunidade de apresentar as conclusões de um estudo sobre o bem-estar dos contabilistas, que permitiu fazer um balanço das consequências de mais de um ano de trabalho e vida pessoal em contexto pandémico. 3 506 contabilistas certificados participaram e as ilações, de forma genérica, superaram as melhores expetativas iniciais. Os resultados recolhidos indicam que, pese embora a dureza dos meses que todos vivemos, soubemos resistir e adaptarmo-nos às adversidades e ao exponencial aumento do volume de trabalho, com uma entrega sem limites. Estudos como este são um privilegiado barómetro para tomar o pulso à profissão e aos profissionais e adotar novas orientações e soluções para melhorar o que causa insatisfação e desconforto aos contabilistas certificados. Só tendo uma fotografia o mais nítida possível da situação das pessoas é possível delinear uma estratégia tendo em vista melhorar as condições de vida dos profissionais e, consequentemente, das suas famílias.
Considera que o stresse e o burnout são desafios crescentes na profissão de contabilista certificado? Quais os principais fatores que contribuem para esta realidade?
Esta é uma profissão muito exigente. Quem a desempenha, sabe disso e os que estudam para a exercer devem ter a plena noção desse facto. Mas, naturalmente, o excesso de obrigações fiscais e contributivas, aliado a um calendário fiscal que carece de muitos acertos e otimizações não facilita a tarefa. Se juntarmos a isto a elevada responsabilidade e a pressão dos clientes, é evidente que os desafios e as dificuldades são intensas e permanentes.
Que impacto têm as constantes alterações legislativas e os prazos fiscais exigentes na estabilidade emocional e no equilíbrio entre vida profissional e pessoal?
Esses são sempre os principais problemas identificados pelos profissionais, a par, naturalmente, do intermitente funcionamento dos portais para o cumprimento das obrigações fiscais e contributivas, estou a falar, nomeadamente, da Autoridade Tributária e da Segurança Social. Felizmente, nestes últimos anos, a Ordem conseguiu importantes conquistas em benefício dos seus membros. Foi por isso que, após um prolongado e aturado processo negocial, se consagrou o justo impedimento e as férias fiscais, dois avanços cruciais na gestão de prazos e na prevenção de penalizações. Foram duas conquistas de enorme alcance. Foram passos de gigante, mas ainda não são suficientes. O caminho tem de continuar a ser feito.
A elevada responsabilidade técnica associada à profissão pode potenciar estados de ansiedade? Como é possível mitigar esse risco?
Sem dúvida. Mas a responsabilidade técnica é o preço a pagar pela exigência e importância da profissão. Mas a otimização dos calendários fiscais e a planificação atempada e realista da carga operacional, acredito que contribuirá para moderar os níveis de ansiedade. Para além do mais, a dimensão da inteligência artificial deverá ser olhada como uma nova era que já está a transformar a contabilidade, retirando volume de trabalho acessório e aumentando o papel estratégico dos contabilistas. Esta é uma revolução na forma como se trabalha e devemos tirar o melhor partido dela.
Que iniciativas ou programas a Ordem disponibiliza atualmente para promover o Bem-Estar e a Saúde Mental dos seus associados?
Esta é, como já disse, uma profissão muito intensa e absorvente, mas há vida para além do trabalho. De há oito anos a esta parte a Ordem promove eventos que aproximam os profissionais e as suas famílias, criando tempo para tempo de descanso de qualidade. É o caso do Dia do Contabilista, do Festival do Contabilista e das Festas de Natal da Ordem. São eventos em que aliamos valores como a amizade e a camaradagem. E o balanço destas iniciativas é que a classe é hoje mais solidária, mais unida e tem práticas mais frequentes de entreajuda.
Que boas práticas recomenda aos profissionais para prevenirem o burnout e promover uma rotina de trabalho mais saudável?
Os profissionais de contabilidade enfrentam picos intensos e o seu trabalho é altamente pormenorizado. Uma planificação mais ajustada ao trabalho de forma a reduzir a pressão e criar uma rotina mais sustentável, a par com a introdução da automatização de tarefas repetitivas, são passos que podem ajudar. Para além disso, diminuir a carteira de clientes e aumentar o rendimento, subindo as avenças, é a receita que os profissionais devem, se possível, adotar no seu trabalho. Os resultados não surgirão da noite para o dia, mas o importante é persistir nesta lógica.
De que forma as organizações e os escritórios de contabilidade podem criar ambientes de trabalho mais sustentáveis e humanizados?
Os contabilistas que trabalham sozinhos terão de encontrar as suas próprias estratégias. Mas para os que trabalham inseridos em micro, pequenas e até médias empresas é importante que exista uma cultura organizacional focada na pessoa humana e no seu bem-estar. E é aqui que entra o papel determinante das lideranças, ou seja, dos empresários. Numa área marcada por prazos rígidos e elevada responsabilidade, pequenas mudanças estruturais fazem toda a diferença no bem-estar e na retenção de talento.
Que papel pode a formação contínua desempenhar na gestão do stresse e no reforço da resiliência profissional?
A formação é um pilar inabalável, tanto para estes profissionais, como na estratégia diária da Ordem, enquanto instituição que regula a profissão. Acredito que profissionais mais preparados e robustos, em todas as dimensões, saberão responder de forma mais capaz e qualificada a um ambiente profissional cada vez mais incerto. Aproveito a oportunidade para falar de um novo patamar na evolução profissional: o “Contabilista 3.0”. Resulta da transição de um perfil tradicional para um perfil digital, estratégico e orientado para o valor acrescentado, muito além do cumprimento fiscal e dos lançamentos. É uma clara mudança de página na profissão que a concretizar-se mudará muita coisa. É um objetivo que, para ser materializado em toda a sua plenitude, não depende apenas da Ordem, mas no qual estamos muito apostados e não desistiremos até que seja uma realidade.
Que mensagem gostaria de deixar aos contabilistas certificados neste Dia Mundial da Saúde?
A mensagem é muito simples: não desistam da profissão que amam e abraçaram. Em caso de dificuldade, procurem a Ordem, falem com outros colegas e, acima de tudo, partilhem os vossos problemas. A identificação é o primeiro passo para a sua resolução. A Ordem continuará a desenvolver todos os esforços para, diariamente, trazer mais e melhor qualidade de vida aos seus membros. Só com pessoas saudáveis e numa situação de bem-estar físico e mental podemos ter um país mais produtivo e mais próspero.


