“Uma organização forte é, acima de tudo, feita de pessoas comprometidas, respeitadas e alinhadas com a sua missão”

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Na 149ª edição da Revista Pontos de Vista, damos voz a uma liderança que reflete a transformação silenciosa, mas profunda, que atravessa hoje a indústria. À frente da Cristalmax, Ana Margarida Silva personifica uma nova geração de líderes que alia rigor estratégico, proximidade humana e uma visão clara de futuro. A sua trajetória destaca-se pela capacidade de adaptação, pela valorização do conhecimento e pela aposta contínua na inovação como motor de competitividade. Mais do que gerir uma organização, lidera com propósito — promovendo eficiência, sustentabilidade e uma cultura empresarial centrada nas pessoas.

Como descreve o seu percurso até assumir a liderança executiva da Cristalmax e o que mais marcou a sua evolução profissional ao longo destes anos?

O meu percurso foi construído de forma progressiva, com uma base na área financeira que me permitiu adquirir uma compreensão aprofundada da estrutura, sustentabilidade e gestão de risco do negócio. Ao longo dos anos, fui assumindo responsabilidades crescentes dentro da organização, o que me proporcionou uma visão transversal da empresa — desde a operação à definição estratégia.

O que mais marcou a minha evolução profissional foi, sem dúvida, a capacidade de adaptação aliada a uma aprendizagem contínua. Trabalhar numa indústria como a do vidro, altamente técnica e exigente, desafiou-me constantemente a sair da minha zona de conforto e a desenvolver uma liderança próxima, informada e orientada para a inovação. Destaco igualmente o contato com equipas multidisciplinares, que foi determinante para consolidar uma abordagem de gestão mais humana, colaborativa e orientada para resultados sustentáveis.

 

Que aprendizagens considera terem sido mais determinantes na transição da área financeira para a liderança global da empresa?

A área financeira deu-me uma base muito sólida — assente no rigor, na disciplina e na orientação para resultados. No entanto, rapidamente percebi que liderar uma empresa exige mais do que competências técnicas.

Uma das principais aprendizagens foi a importância de ouvir e criar ligação com as pessoas. Inspirar equipas, alinhar objetivos e comunicar de forma clara tornou-se essencial.

Aprendi também que nem todas as decisões são apenas baseadas em dados. Muitas vezes, é necessário confiar na intuição, perceber o contexto e ter coragem para decidir, mesmo em situações de incerteza.

Por outro lado, foi fundamental desenvolver uma visão mais ampla do negócio — conhecer melhor a operação, o mercado e as tendências de um setor em constante evolução.

 

Que legado pretende construir através da Cristalmax e da Fundação Máximo Silva?

A nível empresarial, o meu objetivo é consolidar a Cristalmax como uma referência no setor do vidro, não só pela qualidade dos produtos e serviços, mas também pela capacidade de inovar e responder aos desafios da construção sustentável. Quero contribuir para uma empresa mais preparada para o futuro, assente na tecnologia, no conhecimento e nas pessoas, com uma cultura baseada na responsabilidade, na ética e no compromisso.

Relativamente à Fundação Máximo Silva, procuro criar um impacto positivo na sociedade — apoiar a comunidade, gerar oportunidades e contribuir para uma maior inclusão. Acredito profundamente que as empresas devem desempenhar um papel ativo na transformação social.

 

Que objetivos ainda procura alcançar nos próximos anos, tanto a nível empresarial como pessoal?

Do ponto de vista empresarial, o foco passa por continuar a reforçar a aposta na inovação, na digitalização e na eficiência energética, posicionando a Cristalmax na vanguarda do setor. Pretendemos crescer de forma sustentada, explorar novos mercados e consolidar parcerias estratégicas.

É também uma prioridade continuar a investir nas pessoas — atrair talento, desenvolver competências e fortalecer uma cultura organizacional alinhada com os desafios do futuro.

A nível pessoal, procuro continuar a evoluir enquanto líder e enquanto pessoa. Isso implica manter uma atitude de aprendizagem constante, equilíbrio entre a vida profissional e pessoal e, acima de tudo, continuar a contribuir de forma positiva para os contextos em que estou inserida.

 

O que distingue, na sua perspetiva, uma empresa industrial preparada para crescer com consistência e diferenciação?

Uma empresa industrial preparada para crescer de forma consistente distingue-se, antes de mais, pela capacidade de aliar visão estratégica a rigor operacional. Não basta crescer — é necessário crescer com solidez, com processos bem estruturados e com uma cultura organizacional alinhada com os objetivos de longo prazo.

A diferenciação resulta da capacidade de antecipar tendências, investir de forma inteligente e, sobretudo, criar valor acrescentado para o cliente. Isso implica qualidade, fiabilidade, cumprimento rigoroso de prazos e uma abordagem cada vez mais orientada para soluções, e não apenas para produto.

Adicionalmente, as empresas mais bem preparadas são aquelas que conseguem integrar tecnologia, talento e sustentabilidade de forma equilibrada, garantindo agilidade sem comprometer a consistência.

 

Que papel tem a inovação no reforço da competitividade da Cristalmax?

A inovação é um pilar central na estratégia da Cristalmax. Num setor altamente técnico e competitivo como o do vidro, inovar não é uma opção, mas uma necessidade contínua.

Esta aposta reflete-se a vários níveis: no desenvolvimento de produtos com melhor desempenho térmico e acústico, na otimização dos processos produtivos e na adoção de tecnologias que aumentam a eficiência e reduzem o desperdício.

Mas, para além da vertente tecnológica, a inovação também está na forma como abordamos o mercado — com maior proximidade ao cliente, com soluções mais integradas e com uma capacidade de resposta mais ágil. É esta combinação que nos permite reforçar a nossa competitividade e afirmar a nossa posição no setor.

 

Como se equilibra investimento em tecnologia com exigência operacional, produtividade e qualidade?

O equilíbrio entre investimento em tecnologia e exigência operacional exige uma abordagem estratégica e sustentada. A tecnologia deve ser vista como um meio para melhorar a eficiência, a qualidade e a capacidade de resposta.

É fundamental garantir que cada investimento está alinhado com objetivos claros e que a organização está preparada para o integrar de forma eficaz. Isso implica formação das equipas, adaptação de processos e assegurar uma implementação bem acompanhada.

Quando bem aplicada, a tecnologia contribui para aumentar a produtividade, reduzir erros, melhorar a rastreabilidade e elevar os padrões de qualidade. O principal desafio está em garantir que esta integração decorre sem comprometer a estabilidade da operação, o que exige planeamento rigoroso e uma liderança próxima.

 

De que forma soluções como o vidro de elevado desempenho e sistemas de rastreabilidade digital podem transformar a relação com o cliente e com o mercado?

Soluções de elevado desempenho, como o vidro com propriedades térmicas e acústicas avançadas, permitem responder de forma mais eficaz às exigências atuais da construção, nomeadamente em termos de eficiência energética e conforto. Isso posiciona a empresa não apenas como fornecedora, mas como parceira técnica no desenvolvimento de projetos.

A rastreabilidade digital, por sua vez, transforma a forma como nos relacionamos com o cliente, oferecendo maior transparência, controlo e confiança em todas as etapas — da produção à entrega e à aplicação em obra.

Ao combinar produtos de alto valor acrescentado com tecnologia de acompanhamento, reforçamos a credibilidade da empresa, melhoramos a experiência do cliente e construímos relações mais próximas e duradouras. Em essência, trata-se de evoluir de uma abordagem puramente transacional para uma parceria baseada em confiança contínua.

A Cristalmax dá mais um passo decisivo rumo ao futuro com o lançamento do CMAXGLASSTRACE, um sistema avançado de rastreabilidade para vidro isolante que incorpora QR Codes exclusivos no perfil intercalar e em cada unidade produzida. Esta inovação permite acesso imediato a informações técnicas detalhadas — desde desempenho térmico e fator solar (g-value) até isolamento acústico, classificação de segurança, certificações e Declaração de Desempenho (DoP), incluindo ainda orientações para instalação, manutenção e desconstrução.

 

Que importância atribui ao papel do vidro na eficiência energética e na construção de edifícios mais sustentáveis?

O vidro desempenha hoje um papel central na eficiência energética dos edifícios. Longe de ser apenas um elemento estético, tornou-se um componente técnico essencial para o desempenho térmico e para o conforto dos espaços.

Soluções como o vidro duplo ou triplo, com controlo solar e isolamento térmico reforçado, permitem reduzir significativamente as perdas de energia, contribuindo para edifícios mais eficientes e com menor pegada ambiental. Ao mesmo tempo, a entrada de luz natural melhora o bem-estar dos utilizadores e reduz a necessidade de iluminação artificial.

Neste contexto, o vidro afirma-se como um elemento-chave na construção sustentável, alinhado com as exigências regulamentares e com a crescente consciência ambiental do setor.

 

Como olha para a evolução da procura por soluções mais eficientes, transparentes e alinhadas com princípios de economia circular?

A evolução é clara e irreversível. Existe uma procura crescente por soluções que conciliem desempenho técnico, estética e sustentabilidade. Os clientes — sejam eles promotores, arquitetos ou consumidores finais — estão hoje mais informados e exigentes.

A transparência, tanto no sentido literal como figurado, é cada vez mais valorizada: produtos que permitem maior ligação com o exterior, mas também empresas que comunicam de forma clara o impacto dos seus processos e materiais.

Por outro lado, os princípios da economia circular estão a ganhar relevância, com maior foco na durabilidade, reutilização e reciclabilidade dos materiais. O vidro, sendo um material 100% reciclável, tem aqui uma vantagem competitiva importante, desde que integrado em processos produtivos eficientes e responsáveis.

 

De que forma a indústria pode contribuir de forma mais ativa para os objetivos ambientais e energéticos?

A indústria tem um papel determinante e uma responsabilidade acrescida neste domínio. Contribuir de forma ativa implica agir em várias frentes.

Em primeiro lugar, através da inovação — desenvolvendo produtos com melhor desempenho energético e menor impacto ambiental. Em segundo, pela otimização dos processos produtivos, reduzindo consumos energéticos, emissões e desperdícios.

Mas não menos importante é a colaboração ao longo da cadeia de valor: trabalhar em conjunto com arquitetos, engenheiros, construtores e decisores para promover soluções mais sustentáveis desde a fase de projeto.

A adoção de práticas transparentes, a certificação e a medição de impacto são também fundamentais para garantir credibilidade e evolução contínua

 

Que tendências considera mais relevantes para o futuro do setor?

O setor do vidro está a evoluir rapidamente, impulsionado por exigências ambientais, avanços tecnológicos e novas necessidades do mercado.

Destacaria, desde logo, o reforço da eficiência energética como prioridade absoluta, com soluções cada vez mais sofisticadas. A digitalização e a automação dos processos produtivos serão igualmente determinantes para aumentar a competitividade e a qualidade.

Outra tendência relevante é a integração de funcionalidades no próprio vidro — como controlo solar inteligente ou soluções que combinam desempenho técnico com design.

Por fim, a sustentabilidade continuará a ser um eixo central, com maior foco na economia circular, na redução da pegada carbónica e na transparência ao longo de toda a cadeia de valor.

O futuro do setor passará por empresas que consigam alinhar inovação, responsabilidade ambiental e proximidade ao cliente, respondendo de forma ágil e consistente aos desafios de um mercado em constante transformação

 

Que significado tem, para si, liderar enquanto mulher uma empresa industrial com esta dimensão e histórico?

Liderar uma empresa industrial com a dimensão e o histórico da Cristalmax é, antes de mais, uma grande responsabilidade — independentemente do género. No entanto, enquanto mulher, reconheço que esse percurso tem também um significado simbólico importante.

É um sinal de evolução do setor e da própria sociedade, mostrando que a liderança assenta na competência, na visão e na capacidade de mobilizar pessoas. Para mim, é também uma oportunidade de contribuir para uma mudança de paradigma, onde a diversidade é vista como uma mais-valia.

Procuro exercer uma liderança autêntica, próxima e orientada para resultados, assente numa abordagem equilibrada entre exigência, empatia e visão estratégica.

 

Que desafios reconhece às mulheres que pretendem afirmar-se em setores industriais e tecnológicos?

Apesar dos avanços, os setores industriais e tecnológicos continuam, em muitos casos, a ser maioritariamente masculinos, o que pode representar desafios adicionais para as mulheres.

Desde logo, a necessidade de afirmar credibilidade num contexto onde ainda existem alguns preconceitos, ainda que muitas vezes subtis. A isto soma-se o desafio de conciliar diferentes dimensões da vida. Ainda assim, acredito que este cenário tem vindo a evoluir, muito impulsionado pelo exemplo de mulheres que ocupam hoje posições de liderança e abrem caminho para as gerações futuras.

É essencial continuar a promover ambientes inclusivos, igualdade de oportunidades e uma cultura assente no mérito.

 

Como se constrói uma cultura empresarial baseada em confiança, compromisso, reconhecimento e desenvolvimento humano?

A cultura empresarial não se impõe — constrói-se diariamente, através de atitudes, decisões e sobretudo, exemplos.

A confiança nasce da transparência e da coerência entre o que se diz e o que se faz. O compromisso desenvolve-se quando as pessoas sentem que fazem parte de um projeto com propósito e direção clara.

O reconhecimento é essencial para valorizar o contributo individual e coletivo, e não se resume a recompensas financeiras — passa também por feedback, oportunidades de crescimento e valorização.

Por fim, o desenvolvimento humano exige investimento contínuo nas pessoas: formação, capacitação e criação de condições para que cada colaborador possa evoluir. Uma organização forte é, acima de tudo, feita de pessoas comprometidas, respeitadas e alinhadas com a sua missão.

 

Que mensagem gostaria de deixar a outras mulheres que desejam construir um percurso sólido na gestão e na indústria?

Diria, acima de tudo, que acreditem no seu valor e nas suas capacidades. O percurso pode não ser sempre linear, mas cada etapa traz aprendizagem e crescimento.

É importante investir na formação, procurar desafios e não ter receio de sair da zona de conforto. A confiança constrói-se com experiência, mas também com atitude.

Procurar referências, criar redes de apoio e valorizar o trabalho em equipa são igualmente fatores determinantes.

E, acima de tudo, manter a autenticidade. Não é necessário adaptar-se a modelos predefinidos para liderar com sucesso — há espaço para diferentes estilos de liderança, e essa diversidade é precisamente o que enriquece as organizações.

 

Como articula a liderança empresarial com a dimensão social e comunitária da Fundação Máximo Silva?

Vejo estas duas dimensões como intrinsecamente complementares. A liderança empresarial não deve estar dissociada do contexto social em que a empresa se insere. Pelo contrário, acredito que uma organização forte é aquela que reconhece o seu papel na comunidade e atua de forma consciente, responsável e comprometida.

Através da Fundação Máximo Silva, conseguimos estruturar e amplificar esse compromisso, orientando recursos e iniciativas para áreas onde podemos gerar impacto positivo. Esta articulação permite-nos ter uma visão mais integrada — onde o crescimento económico caminha lado a lado com o desenvolvimento social.

No fundo, trata-se de alinhar propósito com ação, garantindo que aquilo que fazemos enquanto empresa tem também um reflexo positivo na sociedade.

Em última análise, trata-se de alinhar propósito com ação — assegurando que a nossa atividade empresarial se traduz também num contributo efetivo para a sociedade.

 

Que importância tem, para si, o papel das empresas na criação de impacto social real nos territórios onde operam?

As empresas assumem hoje um papel absolutamente central na construção de sociedades mais equilibradas, inclusivas e sustentáveis. Mais do que agentes económicos, são, inevitavelmente, agentes sociais com capacidade de influência e transformação. O impacto social começa no território onde atuamos: na criação de emprego, no apoio à comunidade, na valorização das pessoas e na adoção de práticas ambientalmente responsáveis. Pequenas ações consistentes podem gerar transformações significativas ao longo do tempo.

Acredito que este envolvimento não deve ser visto como uma obrigação, mas como uma responsabilidade inerente a quem integra um ecossistema. Quando as empresas assumem este papel de forma genuína, contribuem para comunidades mais fortes — e isso reflete-se também na sua própria sustentabilidade.

 

De que forma a responsabilidade social pode deixar de ser complementar e passar a integrar verdadeiramente a identidade de uma organização?

A responsabilidade social deixa de ser complementar quando passa a fazer parte da estratégia e da cultura da organização, e não apenas de iniciativas pontuais. Tudo começa com uma liderança comprometida, que integra estes valores nas decisões do dia a dia. Implica também definir objetivos claros, medir o impacto e envolver toda a organização nesse propósito. Quando a responsabilidade social faz parte da identidade, reflete-se na forma como se gere, se produz, se lidera e se comunica, bem como nas relações com colaboradores, clientes, parceiros e comunidade.

No essencial, deixa de ser “o que fazemos além do negócio” para passar a ser “a forma como fazemos o negócio”.

 

Como gostaria que a Cristalmax e a Fundação fossem reconhecidas no futuro?

Gostaria que fossem reconhecidas como entidades que criaram valor de forma consistente, responsável e com propósito.

A Cristalmax, como uma empresa de referência — inovadora, sustentável, tecnologicamente avançada e, acima de tudo, confiável — capaz de crescer com solidez sem nunca perder de vista os seus princípios e o compromisso com as pessoas. A Fundação Máximo Silva, pelo impacto real e positivo que gera na comunidade, distinguindo-se não apenas pela dimensão das suas iniciativas, mas sobretudo pela sua relevância e continuidade.

Em ambos os casos, o reconhecimento mais importante será aquele que vem das pessoas — colaboradores, parceiros e comunidade — que sentem que fazem parte de um projeto com propósito e significado. ▪

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Revista Pontos de Vista Edição 150

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