Num contexto económico marcado pela velocidade da informação, pela volatilidade dos mercados e pela crescente sofisticação dos investidores, a capacidade de transformar dados em decisões estratégicas tornou-se uma vantagem competitiva decisiva. É precisamente neste cruzamento entre research, investimento e pensamento estratégico que se posiciona a VMF Research, fundada por Vasco Marques de Freitas. Com quase duas décadas de experiência nos mercados financeiros e um percurso ligado à gestão de ativos, investimento privado e análise macroeconómica, partilha a sua visão à Revista Pontos de Vista sobre os desafios da tomada de decisão em ambientes complexos, o papel do research na estratégia empresarial, o impacto transformador da inteligência artificial e as grandes tendências estruturais que deverão moldar o futuro do investimento.
Como descreve o seu percurso profissional até à criação da VMF Research, e que experiências foram determinantes para consolidar a sua abordagem à investigação, investimento e análise estratégica?
Descreveria o meu percurso como uma tentativa contínua de compreender, acompanhar e, sempre que possível, antecipar as grandes tendências dos mercados financeiros globais. Ao longo de quase duas décadas trabalhei no setor da gestão de ativos, mantendo em paralelo uma atividade própria como investidor em empresas cotadas e privadas. Fui acionista de um dos principais wealth managers independentes em Portugal durante uma fase de forte crescimento, em que os ativos sob gestão e acompanhamento evoluíram de cerca de 40 milhões para mais de 1.400 milhões de euros. Vendi também a minha participação na holding que controlava essa sociedade, e que à data detinha uma carteira diversificada e internacional de participadas, com cerca de 300 milhões de euros de volume de negócios anual agregado. Hoje, o meu foco está nas áreas onde identifico maior potencial de crescimento e transformação estrutural: investimentos alternativos, ativos reais, tokenização e projetos empresariais com capacidade de criar valor de forma diferenciada. A VMF Research nasce desse percurso e de uma convicção simples: na alocação de capital, a vantagem começa pela qualidade do processo.
O que motivou o lançamento da VMF Research, que lacuna concreta identificou no mercado e que tipo de valor pretende entregar a investidores, empresas e decisores?
A VMF Research nasceu da interseção de duas tendências estruturais. A primeira é a crescente importância dos ativos alternativos na construção de carteiras de investimento mais diversificadas e eficientes. Entre eles, private equity, private debt, metais preciosos e outros recursos naturais, real estate e, progressivamente, ativos digitais. A segunda é a ascensão do self-directed investor: o investidor individual tem hoje mais e melhores ferramentas para controlar a forma como investe, mas também maior responsabilidade pelas consequências das suas decisões. Neste contexto, a oportunidade que identifiquei foi clara: existe muita “opinião” sobre mercados, mas pouco research independente que mostre, com transparência, como um investidor profissional pensa, constrói teses, avalia riscos e muda de opinião quando os factos mudam. A VMF Research foi criada para reduzir essa distância, elevar a literacia financeira dos seus subscritores e dar-lhes acesso a um processo de investimento exigente, disciplinado e em permanente evolução, porque os mercados também evoluem.
Quais foram os principais desafios na fase inicial do projeto, em termos de posicionamento, credibilidade e construção de confiança, e como os superou?
O maior desafio foi não ser confundido com “mais uma newsletter.” A ambição nunca foi comentar apenas o ruído do dia, mas construir uma plataforma de research independente, com padrões institucionais e vocação global. Por isso, a VMF Research nasceu em inglês, a língua dos mercados financeiros globais. A confiança constrói-se com consistência, transparência e, acima de tudo, accountability. É por isso que publicamos vários Portfólios Modelo, permitindo aos subscritores acompanhar as nossas teses de investimento, o racional que as sustenta, os ajustamentos efetuados e a evolução dos resultados ao longo do tempo. Acredito que a credibilidade não deve ser proclamada. Deve ser conquistada, testada e defendida ao longo do tempo.
Na sua perspetiva, qual é a diferença entre “informação” e “insight” no contexto dos mercados financeiros, e o que é necessário para transformar dados em decisão útil?
Informação é matéria-prima. Insight é informação organizada por um processo, testada contra a realidade e transformada em juízo acionável. Nos mercados financeiros, o problema raramente é falta de dados. O verdadeiro problema é distinguir o sinal do ruído e perceber que nem todo o sinal é investível. Para transformar dados em decisão útil, é preciso começar pelos objetivos: que decisão queremos melhorar, qual o horizonte temporal, que risco estamos dispostos a aceitar e que evidência poderia alterar a nossa visão? Só depois faz sentido procurar padrões, relações e divergências entre aquilo que um ativo vale, aquilo que o mercado está disposto a pagar por ele e aquilo que poderá alterar essa perceção no futuro. Um bom insight não é uma explicação elegante sobre o passado. É uma leitura suficientemente robusta para nos ajudar a pensar probabilisticamente sobre o futuro.
Que princípios metodológicos considera essenciais para garantir research robusto, rigoroso e acionável, mesmo quando existe pressão por rapidez e respostas imediatas?
O research robusto começa antes da recolha de dados: começa na formulação do problema e das hipóteses que queremos testar. Se a pergunta estiver errada, a sofisticação analítica pouco resolve. No meu processo de investimento uso cinco pilares: fundamentais, technicals, sentimento, macro e liquidez. A robustez nasce da interação entre essas lentes, não da dependência excessiva de uma só. Mas o ponto decisivo é tratar cada tese como uma hipótese em permanente teste, não como uma convicção imutável. Por isso valorizo muito o exercício de Advogado do Diabo: testar premissas, procurar evidência contrária e identificar o que poderia invalidar a nossa conclusão. A rapidez é importante, mas pressa e velocidade não são a mesma coisa. Uma análise séria deve terminar com uma tese clara, riscos identificados e condições objetivas para mudar de opinião.
Ao longo da sua carreira, quais os erros mais comuns que tem observado em investidores, empresários e organizações quando tomam decisões críticas de investimento, e o que recomenda para evitar análises superficiais ou conclusões enviesadas?
O erro mais comum é acreditar que decidimos de forma puramente racional. Não decidimos. Investidores, empresários e organizações estão sujeitos a vieses comportamentais, individuais e coletivos, sobretudo em momentos críticos. O viés da confirmação favorece a procura seletiva de informação que valida a tese que já se pretende defender. A aversão à perda tende a prolongar decisões erradas, porque reconhecer o erro custa mais do que deveria. Nas organizações, o groupthink pode ser ainda mais perigoso: quando o desejo de consenso elimina o contraditório, a análise deixa de procurar a verdade e passa a proteger a narrativa dominante. A melhor defesa é um processo robusto: hipóteses claras, contraditório, gestão de risco e critérios objetivos para mudar de opinião. Esse é um dos objetivos centrais da VMF Research: mostrar aos investidores como um processo disciplinado pode melhorar a qualidade da decisão.
Que papel deve ter o research na tomada de decisão estratégica, e como garantir que a análise informa a decisão em vez de apenas validar escolhas já feitas?
O research deve ser uma ferramenta de decisão, não uma peça de validação. O seu papel é estruturar o problema, clarificar opções, quantificar trade-offs, testar pressupostos e tornar explícitos os riscos de cada caminho. Para isso, precisa de independência e de entrar no processo antes de a decisão estar emocional ou politicamente tomada. Quando apenas confirma uma escolha prévia, perde valor. Quando desafia pressupostos, revela alternativas e melhora a disciplina de alocação de capital, o research deixa de ser suporte à decisão e passa a ser vantagem estratégica.
Como alinhar dados e análise com objetivos de negócio de forma clara, e que perguntas estratégicas devem ser respondidas antes de iniciar um trabalho de investigação?
Os dados não mudam em função dos nossos objetivos. O que muda, e muda tudo, é a pergunta que lhes fazemos. Por isso, antes de iniciar qualquer trabalho de investigação, é essencial clarificar que decisão queremos melhorar, qual o horizonte temporal, que variáveis movem o resultado e que evidência teria força suficiente para alterar a nossa visão. Esse princípio aplica-se tanto ao research que publico para investidores através da VMF Research como ao trabalho que desenvolvo com empresários em processos de venda total ou parcial de empresas, ou de captação de capital, seja via capital próprio ou dívida. Os contextos mudam, mas o fio condutor é o mesmo: transformar informação dispersa numa tese clara, defensável e útil para a ação. Sem objetivos claros, os dados produzem volume e ruído. Com método, transformam-se em sinal e decisão.
Que fatores considera críticos para a qualidade dos dados e da interpretação, por exemplo fontes, contexto, consistência, validação, e como se constrói confiança nos resultados?
A confiança nos resultados nasce menos de uma certeza absoluta e mais de um processo que pode ser explicado, repetido e revisto. Aproximo-me do research como uma aplicação prática do método científico: formular hipóteses, testá-las contra a evidência, aceitar que podem estar erradas e atualizar a leitura quando os factos mudam. Nos mercados, isso é crucial, porque ciclos, expectativas, liquidez, tecnologia e geopolítica estão em permanente movimento. O que deve ser consistente não é a opinião. É o processo. É isso que procuramos tornar visível na VMF Research: não apenas a conclusão, mas o caminho intelectual que a produziu.
Como comunica conclusões complexas a diferentes públicos, garantindo compreensão, alinhamento e ação, sem perder rigor analítico?
A complexidade não deve ser escondida, mas também não deve ser entregue ao leitor em bruto. Tem de ser traduzida. Comunicar bem não é simplificar até à banalização. É revelar a arquitetura do raciocínio de uma forma que diferentes públicos consigam acompanhar. O meu ponto de partida é sempre o enquadramento: qual é o problema, porque importa, que forças estão em tensão e que evidência merece atenção. Só depois avanço para a tese, os riscos, os cenários alternativos e as implicações práticas. Na VMF Research, aplicamos este princípio à interpretação dos mercados financeiros globais, um sistema complexo, dinâmico e interdependente. Ao tornar o nosso processo de investimento transparente e contínuo no tempo, procuramos mostrar o que pensamos, porque pensamos dessa forma e o que teria de acontecer para mudarmos de opinião. É assim que procuramos transformar complexidade em research rigoroso, diferenciado e acionável.
Como mede o impacto do research e da análise na criação de valor, e que indicadores ou evidências considera mais sólidos para demonstrar retorno e eficácia?
Uma das grandes virtudes dos mercados financeiros é a objetividade dos resultados. Podemos discutir narrativas, cenários e opiniões, mas, no fim, a performance mede-se. E aquilo que é medido é gerido. Na VMF Research, essa convicção está refletida nos nossos Portfólios Modelo, cuja performance é monitorizada e analisada mensalmente. Isso permite acompanhar não apenas as recomendações, mas também a qualidade do processo que as gera: o racional das teses, os ajustamentos efetuados, os erros, os acertos e a evolução face ao mercado. Desde maio de 2024, temos vindo a construir um track record já bastante relevante, com recomendações que geraram retornos expressivos em diferentes áreas, incluindo metais preciosos, exposições geográficas como a Coreia do Sul e exposições setoriais como a biotecnologia. Naturalmente, retornos passados não garantem resultados futuros. Mas um track record público cria disciplina, transparência e accountability.
Quais são, na sua visão, as grandes tendências estruturais que irão marcar os mercados financeiros nos próximos anos?
Vejo quatro grandes tendências estruturais. A primeira é a migração gradual de uma arquitetura de investimento dominada por ações e obrigações para uma abordagem em que os ativos alternativos ganham peso: private equity, private debt, real estate, recursos naturais, metais preciosos e, progressivamente, criptoativos. A segunda é a tokenização, que poderá tornar muitos destes ativos mais fracionáveis, transparentes e acessíveis. Estou envolvido em projetos nesta área, incluindo uma residência universitária num mercado com desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, capaz de gerar cash flows relativamente estáveis e pouco sensíveis ao ciclo económico. Tradicionalmente, ativos desta natureza estavam reservados a investidores institucionais ou a particulares com elevado património. A tokenização poderá mudar essa realidade. A terceira tendência é a inteligência artificial, em particular a Agentic AI. A IA criará um choque de abundância em certas tarefas cognitivas, com efeitos deflacionários em inúmeros setores, mas também continuará a gerar escassez em vários domínios. Este tem sido, aliás, um dos temas sobre os quais mais tenho publicado research. A quarta tendência é aquela que costumo apelidar de “Rise of the Self-Directed Investor.” O investidor individual terá cada vez mais ferramentas para construir carteiras sofisticadas a baixo custo e aceder a oportunidades que, durante muito tempo, estiveram reservadas a investidores institucionais ou a particulares com elevado património. Mas esta democratização traz consigo uma contrapartida inevitável: maior autonomia exige maior responsabilidade. Exige literacia, método e capacidade de decisão. É precisamente esse gap que a VMF Research procura preencher, através de research independente, Portfólios Modelo e acompanhamento contínuo dos mercados.
Que impacto têm tecnologias como IA e automação no research e na análise estratégica, e onde identifica os maiores riscos, por exemplo falsa certeza, erro escalável ou perda de pensamento crítico?
A IA já está a acelerar profundamente o research, mas a verdadeira rutura será a Agentic AI. Deixaremos de falar apenas de modelos que respondem a perguntas e passaremos a lidar com sistemas capazes de executar tarefas complexas, organizar informação, comparar cenários, construir modelos, testar hipóteses e apoiar fluxos de trabalho inteiros. Para empresas como a VMF Research, isto é transformador: permite lidar com cargas de trabalho que, até há pouco tempo, exigiriam equipas substancialmente maiores e profissionais altamente qualificados. Mas essa capacidade não elimina a necessidade de julgamento humano. Pelo contrário, torna-o ainda mais valioso.
Modelos poderosos podem produzir falsas certezas, amplificar erros e dar uma aparência de rigor a pressupostos frágeis. No fim, continuam a ser modelos. Se o input for mau, o output será mau. É o velho princípio do GIGO: garbage in, garbage out. Por isso, acredito que o papel humano será cada vez mais o de maestro ou curador desta nova capacidade de trabalho: formular boas perguntas, validar fontes, testar premissas, interpretar contexto e decidir quando confiar, quando corrigir e quando rejeitar a resposta da máquina.
Que oportunidades vê para empresas e investidores que apostam numa cultura analítica sólida, e que conselho deixaria a quem quer construir carreira na área de research e análise estratégica?
A maior oportunidade está em perceber que a análise não serve para acumular informação. Serve para melhorar o processo de tomada de decisão. Empresas com cultura analítica sólida compreendem melhor os seus mercados, alocam melhor recursos, comunicam melhor com investidores e evitam ser arrastadas por modas sem fundamento. Investidores com método não deixam de errar, mas estão mais bem preparados para aprender com esses erros, porque trabalham com teses claras, riscos definidos, capacidade de revisão e maior disciplina perante ciclos, ruído e volatilidade. A quem quer construir carreira na área do research, deixaria três conselhos. Primeiro, estudem ciclos longos. Segundo, construam um processo próprio e testem-no contra a realidade. Terceiro, escrevam.
A escrita é implacável: revela rapidamente se estamos perante pensamento claro ou apenas intuição mal-organizada. Também fundei a VMF Research por uma razão pessoal: estruturar melhor o meu próprio pensamento e tornar mais disciplinada a minha jornada enquanto investidor profissional. O resultado é uma plataforma de research independente, não orientada para a distribuição de produtos financeiros, mas para a procura de oportunidades com um binómio risco/retorno atrativo. Parte desse trabalho pode ser acompanhado gratuitamente no site da VMF Research e no Substack VMF’s Market View. Porque, no fim, investir melhor começa muito antes da decisão de comprar ou vender. Começa na forma como pensamos.


