No âmbito do Dia Internacional da Família, convidámos a Dra. Marisa Marques, Psicóloga Clínica especializada em Infância, Adolescência e Neuropsicologia, para refletir sobre o papel da família na promoção da saúde psicológica. Numa abordagem centrada no neurodesenvolvimento e na importância das relações, destaca a família como o primeiro e mais determinante contexto emocional, onde se constroem as bases da forma como sentimos, pensamos e nos relacionamos ao longo da vida. Saiba mais na Revista Pontos de Vista!
Na sua perspetiva, qual é hoje o papel da família na promoção da saúde psicológica dos indivíduos?
Na minha perspetiva, a família atualmente assume um papel central e profundamente estruturante na promoção da saúde psicológica, aliás na saúde em geral, como um todo. Mais do que um contexto de suporte, é o primeiro lugar onde a nossa saúde emocional acontece e onde, de uma forma silenciosa, mas consistente, se definem as bases da relação de nós mesmos para connosco e para com o mundo.
É nas interações simples, repetidas, e muitas vezes quase invisíveis do dia a dia das relações familiares, que se constroem as bases da regulação emocional, da autoestima e da forma como cada um de nós aprende a sentir, a pensar e a relacionar-se. A forma como respondemos a um choro, como acolhemos um erro ou como escutamos um silêncio vai moldando, de forma contínua, o desenvolvimento e o neurodesenvolvimento, ao longo de toda a vida. Muito antes de qualquer intervenção clínica, já existe uma história desenvolvimental, inclusive emocional, em construção dentro de cada família.
Hoje, com o funcionamento social atual, este papel torna-se ainda mais exigente. As famílias vivem sob uma pressão constante, entre múltiplas exigências profissionais, económicas e sociais, associado a azafama, ao pouco tempo e pouca disponibilidade emocional. Há, na maioria dos casos, uma intenção genuína de fazer bem, mas essa intenção é embrulhada, muitas vezes, pelo cansaço, culpa e falta de suporte.
E isso não se vê, mas sente-se … Sente-se em crianças mais ansiosas e reativas, com menor tolerância à frustração. Sente-se em adolescentes mais vulneráveis, emocionalmente desorganizados, a oscilar entre a necessidade de apoio e a urgência de autonomia. Sente-se em adultos com dificuldade em parar, sentir e regular, muitas vezes em modo piloto automático, sem espaço para integrar emocionalmente a sua experiência.
Assim, a família emerge como um ponto absolutamente crítico. Pode ser considerada como o principal fator de proteção, quando oferece segurança emocional, comunicação, suporte e previsibilidade. Ou, em caso que se encontra fragilizada, tornar-se um contexto que amplifica a instabilidade e a vulnerabilidade psicológica, sendo um fator de risco. Ou seja, as mesmas paredes e os mesmos braços que acolhem também podem, em determinadas circunstâncias, intensificar o mal-estar e serem aniquiladores.
Neste sentido, sinto que devemos clarificar que não se trata de querer famílias perfeitas, até porque a perfeição, além de irrealista, é emocionalmente estéril, mas sim procurar e encontrar promover famílias disponíveis. Famílias que conseguem estar, mesmo quando falham. Famílias que reconhecem o erro, pedem desculpa e procuram reparar depois do conflito. Que saibam validar emoções, orientar comportamentos e criam previsibilidade num mundo cada vez mais exigente e, muitas vezes, imprevisível. É justamente nessa presença consistente, mesmo ainda que imperfeita, que temos a oportunidade de construir uma verdadeira segurança emocional.
A criança e, mais tarde, o adolescente e o adulto não vão procurar figuras que nunca falham; vão pretender escolher, precisamente, relações que, mesmo perante a falha, não se quebram. Relações que mostram, na vida real, que é possível discutir, magoar, reconstruir e seguir em frente. E esta experiência de reparação constitui um dos pilares mais sólidos da saúde psicológica ao longo da vida.
A evidência científica acompanha esta leitura clínica: a qualidade das relações familiares influência diretamente o desenvolvimento emocional, o funcionamento executivo e a saúde mental ao longo de todo o ciclo de vida.
Por isso, falar de promoção de saúde psicológica implica, necessariamente, olhar para a família como sistema e como agente ativo de desenvolvimento e de prevenção. É na família que tudo começa e é, muitas vezes, na família que tudo pode ser transformado.
De que forma a família influencia o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes?
Na minha perspetiva, a família influencia o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes de forma contínua, profunda e, muitas vezes, silenciosa.
É na relação com as figuras parentais que a criança aprende, pela primeira vez, a lidar com o seu mundo interno. Não o aprende através de explicações teóricas, mas através das experiências que vive na infância e ao longo da vida: na forma como é acolhida quando chora, como o adulto reage à sua frustração e no espaço que lhe é dado para existir emocionalmente. É aqui que tudo começa: na qualidade do olhar, do toque e da resposta.
Quando uma criança cresce num ambiente onde as suas emoções são reconhecidas, nomeadas e validadas, vai construindo, de forma progressiva, a capacidade de se compreender e de se regular. Aprende que pode sentir sem se perder, que pode errar sem deixar de ser aceite e que emoções intensas não são sinal de perigo, mas algo que pode ser compreendido, pensado e partilhado.
Quando, pelo contrário, cresce num contexto onde as emoções são ignoradas, minimizadas ou rejeitadas, a experiência é outra. Aos poucos, deixa de confiar no que sente e começa a duvidar da sua própria experiência interna, podendo tornar-se mais reativa, mais fechada ou mais ansiosa. Isto não acontece porque “não sabe comportar-se”, mas porque não teve espaço para aprender a reconhecer e regular o que vive por dentro. Em vez de sentir que as emoções têm um lugar, sente que precisa de as esconder, controlar ou afastar.
Na adolescência, tudo se intensifica: as emoções ganham mais força, a identidade está em construção e a necessidade de autonomia cresce. À superfície, o adolescente parece afastar-se: discute mais, fecha-se, reivindica espaço e aproxima-se dos pares. Mas, mesmo nesse movimento, a família continua a ser a principal referência emocional. É aí que procura, muitas vezes sem o dizer, segurança, validação e limite.
Há um ponto-chave que não pode ser ignorado: as crianças e os adolescentes não aprendem apenas com o que lhes dizemos; aprendem, sobretudo, com o que vivem. Observam tudo e absorvem tudo. A forma como os adultos lidam com o stress, com o erro, com o conflito, com a tristeza ou com o cansaço torna-se modelo. A família é, na prática, um sistema vivo de aprendizagem emocional. Não é perfeita, nem precisa de o ser; precisa de ser suficientemente segura para permitir sentir, falhar, reparar e crescer. Uma família que reconhece as suas limitações, que pede desculpa, que ajusta e tenta de novo, está a ensinar algo essencial: que as relações podem sobreviver ao conflito.
Estamos a falar da base emocional que vai sustentar ou fragilizar a forma como aquela criança, mais tarde, vai viver consigo própria, com os outros e com o mundo. É nessa base, construída no dia a dia, que se joga uma parte decisiva da saúde psicológica ao longo da vida.
Quais são os principais desafios psicológicos que as famílias enfrentam atualmente?
Hoje, as nossas famílias enfrentam desafios psicológicos que são, em simultâneo, mais complexos, mais cumulativos e, muitas vezes, profundamente invisíveis. Não estamos perante famílias “menos capazes”, mas perante famílias mais expostas, mais exigidas e, em muitos casos, menos apoiadas.
Vivemos num contexto de exigência constante, onde tudo acontece ao mesmo tempo. As famílias não estão apenas ocupadas, estão emocionalmente sobrecarregadas. E esta sobrecarga tem um custo muito grande.
Um dos principais desafios é, precisamente, a falta de disponibilidade emocional real. Há presença física, mas nem sempre há presença psicológica. Os dias são rápidos, as rotinas são densas e o espaço para escutar, validar e acompanhar emocionalmente vai ficando reduzido, fragilizando a qualidade das relações, a regulação emocional e a vinculação.
Outro desafio central é o aumento do stress parental. Muitos pais vivem numa tensão constante entre querer fazer bem e sentir que nunca é suficiente, pressionados por múltiplos fatores e frequentemente sem uma rede de suporte adequada. Esta exigência contínua gera cansaço, irritabilidade, menor disponibilidade e tolerância emocional e maior dificuldade em responder de forma consistente às necessidades dos filhos.
Quando o stress parental se mantém elevado e sem apoio, torna-se um fator de risco, impactando não só a nossa saúde mental, mas também a capacidade de co-regulação emocional de que as crianças e adolescentes dependem frequentemente. Neste cenário, a criança deixa de saber com o que pode contar da nossa parte, e isso fragiliza a sua segurança interna.
A exposição digital precoce e intensa é outro desafio crítico.
Hoje assistimos a uma exposição exacerbada das crianças e adolescentes a estímulos tóxicos, a comparação social e informação emocional para o qual nem sempre têm maturidade para processar. Isto tem um impacto soberbo nas capacidades cognitivas, na atenção, sono, autoestima, regulação emocional e construção da identidade. E em simultâneo, muitos de nós sentimos dificuldade em estabelecer limites consistentes, sobretudo quando estamos também sobrecarregados e recorremos, compreensivelmente, aos ecrãs como estratégia de gestão do dia a dia.
Não podemos ignorar, também, o impacto das mudanças nas estruturas familiares e nas redes de suporte. Famílias mais isoladas, menos tempo em comunidade e menor suporte intergeracional levam a um aumento da solidão parental e, consequentemente, a uma redução nos recursos disponíveis para lidar com as exigências quotidianas. É neste lugar que as emoções acumulam-se e acabam por emergir de forma mais intensa, como em irritabilidade, conflito, afastamento ou, mesmo, em sofrimento silencioso. E isto tem revelado que momentos de presença genuína, comunicação aberta e partilha emocional funcionam como fatores de proteção fundamentais para todos os membros da família.
No fundo, o que vemos hoje não são famílias que “não sabem”, mas sim famílias aprisionadas a níveis de exigência que, muitas vezes, ultrapassam os recursos disponíveis. E é precisamente por isso que se torna essencial mudar o nosso foco: menos julgamento, mais suporte; menos exigência abstrata, mais ferramentas concretas.
Porque, quando apoiamos verdadeiramente as famílias, de forma real, acessível e consistente, estamos a intervir diretamente não só no desenvolvimento saudável das crianças, mas também na saúde mental de todos os seus membros.
Como podem os pais/cuidadores promover um ambiente emocionalmente seguro?
Promover um ambiente emocionalmente seguro não significa fazer tudo certo, significa estar de forma suficientemente disponível, consistente e consciente.
A segurança emocional constrói-se na relação e constrói-se todos os dias, nas pequenas coisas. Começa na forma como estamos presentes. Num quotidiano exigente, criar momentos de presença real, mesmo que curtos, faz uma diferença imaginável. Estar sem distrações, escutar com atenção e demonstrar interesse genuíno pelo que a criança e/ou adolescente sente e pensa.
Outro elemento central é a validação emocional. Validar não é concordar com tudo, nem retirar limites; é reconhecer a emoção como legítima. É dizer, de forma explícita ou implícita: “o que estás a sentir faz sentido”. Quando a criança se sente compreendida, a intensidade emocional tende a diminuir e abre-se espaço para refletir, organizar e adequar o comportamento.
Importa clarificar: ambientes emocionalmente seguros não são permissivos. Pelo contrário, assentam em limites claros, consistentes e previsíveis. Os limites organizam, dão estrutura e transmitem segurança. É no equilíbrio entre validação e orientação que a criança aprende que pode sentir tudo.
A forma como nós adultos lidamos com o conflito é igualmente determinante. O conflito não é um problema, por si só, porque faz parte de qualquer relação viva. O que faz a diferença é a capacidade de reparação: reconhecer o erro, pedir desculpa e voltar à relação. Estes momentos transmitem uma mensagem essencial: a relação não se perde com a falha. Ensina-se, na prática, que é possível magoar e cuidar, errar e reconstruir, tudo ao mesmo tempo e no mesmo espaço.
Para além disso, os adultos são o principal modelo emocional. As crianças aprendem muito mais com o que observam do que com o que lhes dizemos. A forma como lidamos com o stress, o cansaço, a frustração ou a tristeza tornam-se referências. Quando conseguimos falar do que sentimos, tentamos regular e pedimos ajuda estamos, na verdade, a ensinar às crianças como é viver com as próprias emoções.
Além disso, o nosso estado emocional enquanto cuidadores influencia diretamente nas relações e na segurança emocional que proporcionamos às crianças. Por isso é que se diz tanto que cuidar de nós mesmos não é um luxo é uma condição prioritária para que depois possamos cuidar melhor de quem depende de nós.
Por último, quero reforçar que a segurança emocional não significa ausência de erro, nem que temos tudo sob o nosso controlo. Significa presença, consistência e capacidade de regressar à relação, mesmo depois da falha e do caos.
No fundo, um ambiente emocionalmente seguro é aquele em que “posso ser quem sou, sentir o que sinto e continuo a ser aceite”, e é a partir dessa base, simples, mas profundamente transformadora, que tudo o resto se constrói.
Que sinais devem alertar para dificuldades psicológicas no contexto familiar?
Na verdade, as dificuldades psicológicas no contexto familiar raramente surgem de forma abrupta. Instalam-se de forma subtil e progressiva, quase silenciosa, na nossa rotina. Mais do que procurar sinais “graves”, o que peço é que tenhamos atenção a mudanças no comportamento, na forma de sentir e na qualidade das relações.
Em crianças, essas mudanças podem manifestar-se através de alterações comportamentais, maior irritabilidade, choro frequente, regressões no desenvolvimento, alterações no sono ou na alimentação, dificuldades de separação ou aumento da reatividade emocional. Na maioria das vezes, estes sinais não dizem apenas respeito à criança, mas refletem aquilo que está a ser vivido no contexto relacional.
Nos adolescentes, o sofrimento tende a expressar-se de forma diferente, podendo surgir maior isolamento, afastamento progressivo da família, alterações de humor mais intensas, desmotivação, diminuição do rendimento escolar, comportamentos de risco ou dificuldade em comunicar e verbalizar emoções. Na adolescência, por norma, o sofrimento não é comunicado, é vivido em silêncio.
Nos adultos, os sinais são muitas vezes mais normalizados e, por isso, menos visíveis: cansaço persistente, irritabilidade, menor tolerância emocional, sensação de sobrecarga, dificuldade em desligar ou em estar verdadeiramente presente. E a verdade é que quando estamos em sofrimento, isso repercute-se, inevitavelmente, na nossa dinâmica familiar.
Existem também sinais ao nível da própria relação: comunicação reduzida ou crítica constante, ausência de momentos de partilha, conflitos frequentes sem resolução ou afastamento emocional progressivo.
A ausência de reparação após o conflito é particularmente relevante. Não é o conflito em si que fragiliza as relações, mas a dificuldade em restabelecer a ligação depois dele. E quando a nossa casa se torna emocionalmente pesada, imprevisível e evitada, quando todos sentem que precisam de “andar em bicos de pés”, há um impacto direto na relação e, acima de tudo, na segurança emocional de todos os elementos.
Mas atenção, nenhum destes sinais, isoladamente, define uma dificuldade psicológica. O que faz a diferença é a intensidade, a frequência, a duração e, sobretudo, o impacto no funcionamento e no bem-estar.
Eu costumo usar, mesmo comigo mesma, uma pergunta muito simples, mas muito reveladora: “Como é que nos sentimos dentro da nossa casa?”. Se na resposta existe tensão constante, afastamento, incompreensão ou exaustão emocional, é importante parar e olhar para o que está a acontecer.
Reconhecer precocemente não é alarmismo, é cuidado. E pedirmos ajuda, quando necessário, não é sinal de falha, mas um passo fundamental para reorganizar, proteger e reconstruir a saúde emocional da família.
Qual a importância das primeiras relações familiares no desenvolvimento da criança?
Como venho a tentar demonstrar desde o início da entrevista, as primeiras relações familiares constituem a base sobre a qual se constrói todo o desenvolvimento psicológico da criança. É aqui (através do cuidado, resposta e presença) que a criança começa a organizar o seu mundo interno. Antes mesmo de compreender cognitivamente o que vive, já está a sentir, a interpretar e a integrar experiências emocionais que irão moldar a forma como se percebe a si própria, aos outros e ao mundo.
É neste contexto que se formam os primeiros vínculos.
Quando a relação é consistente, sensível e responsiva, a criança desenvolve um sentimento de segurança interna, uma “base emocional” que lhe permite explorar, aprender, errar e regressar à relação sempre que necessita. Aprende que o mundo pode ser um lugar seguro, que as suas necessidades encontram resposta e que as emoções podem ser partilhadas e reguladas.
Por outro lado, quando estas relações são marcadas por imprevisibilidade, ausência emocional ou inconsistência, a criança pode desenvolver sentimentos de insegurança, dificuldades na confiança, maior ansiedade e desafios ao nível da regulação emocional. Não porque exista algo de errado com a criança, mas porque a base que deveria sustentar a sua organização emocional não foi suficientemente estável.
Importa compreender que, nos primeiros anos de vida, a criança não se regula sozinha, ela regula-se a partir da relação connosco.
A capacidade de autorregulação desenvolve-se a partir da co-regulação: da forma como acolhemos, nomeamos e ajudamos a organizar aquilo que a criança ainda não consegue fazer de forma autónoma. É neste processo repetido, ao longo do tempo, que o cérebro emocional da criança se desenvolve, estrutura e matura.
Além disso, são as primeiras relações influenciam diretamente áreas fundamentais do desenvolvimento, como o funcionamento executivo, a linguagem emocional, a empatia e a construção da autoestima.
E atenção, não é necessário que o adulto responda sempre de forma “perfeita” isso é irrealista. O que faz toda a diferença é a consistência global da relação e a capacidade de reparar quando ocorrem falhas. É esta combinação entre presença, responsividade e reparação que constrói segurança.
No fundo, as primeiras relações familiares não são apenas importantes são estruturantes. Importa ainda sublinhar que estas experiências não se limitam somente ao início da vida, mas prolonga-se no tempo. Porque é o lugar onde a criança aprende, pela primeira vez, se o mundo é um espaço onde pode confiar, sentir e existir. E é essa aprendizagem silenciosa, mas profundamente enraizada, que sustenta tudo o que vem a seguir.
Que impacto têm conflitos familiares no desenvolvimento psicológico dos jovens?
Os conflitos familiares fazem parte de qualquer relação. Não são, por si só, mas é algo inevitável e, em muitos casos, até necessários ao desenvolvimento.
O impacto dos conflitos no desenvolvimento psicológico das crianças e adolescentes não depende propriamente da sua existência, mas da forma como são vividos e, sobretudo, de como são resolvidos.
Quando os conflitos ocorrem num contexto onde existe respeito, comunicação e capacidade de reparação, estás acabam por funcionar como experiências estruturantes. A criança aprende que é possível discordar sem perder a relação, expressar emoções sem ser rejeitado e atravessar momentos difíceis mantendo o vínculo. Aprende, na prática, competências essenciais: tolerância à frustração, regulação emocional, negociação e empatia.
Mas quando os ambientes são marcados por tensão constante, crítica, hostilidade ou afastamento emocional fragilizam o sentimento de segurança. A criança pode começar a viver em estado de alerta, sem saber o que esperar, sem sentir estabilidade suficiente para se organizar internamente. Assim nasce a ansiedade, na irritabilidade, na dificuldade em regular emoções, na impulsividade ou, pelo contrário, no retraimento. Sente-se em comportamentos de risco, dificuldades nas relações ou numa sensação persistente de insegurança emocional. Depois também há um impacto mais silencioso, mas profundamente relevante: a forma como as crianças passam a interpretar as relações.
Não é o conflito que fragiliza, é o que acontece depois dele. Quando não há reconexão, quando não há espaço para explicar, validar e reconstruir, a criança fica emocionalmente “sozinho” na experiência. E essa solidão emocional tem um impacto significativo no desenvolvimento.
Por outro lado, quando existe capacidade de reparar, reconhecer o erro, pedir desculpa, voltar à relação. O conflito deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade de crescimento. Ensina-se que as relações são imperfeitas, mas podem ser seguras.
Importa também reconhecer que as crianças não são apenas observadoras são participantes e, muitas vezes, mediadores de conflitos familiares. Em contextos de maior instabilidade, podem assumir responsabilidades emocionais que não lhes pertencem, tentando regular o ambiente ou proteger outros membros da família, o que aumenta a sua sobrecarga interna.
No fundo, os conflitos familiares não têm um impacto único, eles podem construir ou fragilizar, dependendo da forma como são vividos. Se forem acompanhados por respeito, contenção emocional e reparação, tornam-se experiências que fortalecem. Ou então por instabilidade, ausência de regulação e falta de reconexão, tornam-se fatores de risco para o desenvolvimento psicológico.
Por isso, mais do que evitar o conflito, o que importa é aprender a vivê-lo de forma emocionalmente segura. Porque é na forma como lidamos com o difícil que ensinamos o essencial.
De que forma fatores económicos e sociais afetam o equilíbrio familiar?
Os fatores económicos e sociais têm um impacto direto, e muitas vezes silencioso, no equilíbrio emocional e no funcionamento das famílias.
Não se trata apenas de condições externas, mas da forma como essas condições entram dentro de casa e influenciam o clima emocional, a disponibilidade dos cuidadores e a qualidade das relações.
A instabilidade financeira, a incerteza profissional ou a pressão económica prolongada não afetam apenas decisões práticas, mas também o estado emocional dos adultos. Geram preocupação constante, aumentam os níveis de stress e reduzem a capacidade de presença e de regulação emocional. Um adulto em sobrecarga tem, naturalmente, mais dificuldade em escutar, em ter paciência, em responder de forma consistente.
Por outro lado, contextos de maior desigualdade social expõem crianças e adolescentes a experiências de instabilidade, insegurança e, muitas vezes, maior vulnerabilidade emocional. A pressão associada ao desempenho escolar, à comparação social ou à necessidade de corresponder a determinados padrões também contribui para esse desequilíbrio.
Mas uma vez mais não são apenas os fatores económicos que determinam o funcionamento familiar, é a forma como são vividos e geridos dentro da relação. Existem famílias em contextos difíceis que conseguem manter ligação, suporte e presença emocional. E existem famílias com condições estáveis que, ainda assim, enfrentam fragilidades relacionais. Ou seja, os fatores externos não definem, por si só, a qualidade da relação, mas influenciam significativamente os recursos disponíveis para a sustentar.
Por isso, falar de equilíbrio familiar implica necessariamente alargar o olhar. Não basta focarmo-nos na dinâmica interna, é essencial considerar o contexto em que a família está inserida.
Apoiar famílias não passa apenas por trabalhar competências emocionais. Passa também por criar condições externas que permitam que essas competências existam. No fundo, quando as famílias têm mais suporte, mais tempo e mais estabilidade, têm também mais disponibilidade emocional para cuidar, regular e estar.
E isso faz toda a diferença porque o equilíbrio familiar não se constrói apenas dentro de casa, constrói-se na relação entre o que acontece dentro e aquilo que o mundo lá fora exige.
Quando deve uma família procurar apoio psicológico?
Procurar apoio psicológico não deve ser visto como último recurso, mas como uma forma consciente de cuidar da relação e da saúde emocional da família.
Muitas famílias chegam à intervenção quando o desgaste já é elevado: os conflitos repetem-se, a comunicação falha, surgem tensão, afastamento ou exaustão emocional. No entanto, a ajuda pode ser procurada antes, quando as dificuldades deixam de ser pontuais e começam a afetar o bem-estar familiar.
Mudanças no comportamento de crianças ou adolescentes, aumento dos conflitos, sobrecarga dos adultos, momentos de transição, perdas, separações ou fases de maior exigência emocional podem ser sinais importantes para procurar orientação.
A intervenção psicológica cria um espaço de reflexão e reorganização, ajudando a compreender o que está a acontecer, identificar padrões, melhorar a comunicação e construir estratégias mais ajustadas. Procurar ajuda não significa falhar enquanto família; significa reconhecer que há algo que merece ser cuidado.
Qual o papel dos profissionais de saúde mental no apoio às famílias?
Os profissionais de saúde mental têm um papel essencial no apoio às famílias, não apenas quando surgem dificuldades, mas também na prevenção e no fortalecimento das relações.
O nosso trabalho passa por compreender a família como um sistema, com a sua história, dinâmicas, recursos e vulnerabilidades. Cabe-lhes ajudar a dar sentido ao que está a acontecer, promover a reflexão e apoiar a reorganização das relações de forma mais consciente e ajustada.
Na intervenção familiar, cria-se um espaço seguro de escuta, ajudam os pais a compreender melhor o comportamento dos filhos e apoiam crianças e adolescentes a reconhecer e expressar o que sentem. Além disso, promovem competências importantes na parentalidade, regulação emocional, comunicação e gestão de conflitos.
A intervenção precoce é também fundamental, pois permite identificar sinais de risco, apoiar momentos de transição e evitar que as dificuldades se agravem.
Assim, o papel dos profissionais não é substituir a família, mas apoiar, orientar e potenciar os seus recursos, ajudando-a a funcionar de forma mais saudável, segura e equilibrada.
Que mensagem gostaria de deixar às famílias neste Dia Internacional da Família?
Neste Dia Internacional da Família, a mensagem que deixo é simples, mas profundamente importante: não precisam de ser perfeitos, precisam de estar.
Num mundo cada vez mais exigente, acelerado e cheio de pressão, é fácil sentir que nunca se faz o suficiente. Que falta tempo, energia, paciência. Mas, na verdade, aquilo que mais sustenta uma família não é a perfeição das respostas, é a consistência da presença. São os pequenos momentos, a escuta sem distrações, o acolhimento num dia difícil, a capacidade de reparar depois de um conflito, é aí que tudo acontece.
Cuidar de uma família não é evitar erros, é saber regressar à relação depois deles. É construir, dia após dia, um espaço onde cada pessoa se sinta vista, compreendida e aceite, mesmo nas suas imperfeições.
Famílias saudáveis não são aquelas que não têm dificuldades, mas aquelas que conseguem reconhecê-las e procurar caminhos.
Por isso, neste dia, mais do que celebrar uma ideia de família ideal, importa valorizar as relações reais com tudo o que têm de desafiante e de profundamente humano.
Se houver ligação, há caminho. Se houver presença, há base. Se houver relação, há possibilidade de transformação. Porque, no fundo, é na família que tudo começa. E é, muitas vezes, na família que tudo pode recomeçar.


