A Ilusão da Separação

Data:

Por Ligia Koijen Ramos, CEO da In2motivation

O erro silencioso que está a comprometer a liderança, o bem-estar e o crescimento

Há uma pergunta que nenhuma empresa quer ouvir, mas que todos os líderes precisam de fazer:

Estamos a resolver problemas… ou a criá-los noutro sítio?

Não é provocação. É neurociência.

O cérebro humano tem uma tendência fascinante, e perigosa, chamada decomposição funcional: isolar partes de um sistema complexo para as analisar separadamente. É o que nos permitiu construir aviões, mapear o genoma e criar cirurgias de precisão. É também o que nos faz gerir empresas como se fossem máquinas, quando são, na verdade, sistemas vivos.

A diferença entre uma máquina e um sistema vivo não é de grau.

É de natureza.

O mapa não é o território, e o organograma não é a empresa

Existe uma frase atribuída a Alfred Korzybski que nunca envelhece: “O mapa não é o território.”

Quando olhamos para um organograma e vemos departamentos separados, acreditamos que estamos a ver a realidade. Mas estamos a ver uma representação, conveniente para a gestão, perigosamente incompleta para a tomada de decisão.

Na física quântica, há um fenómeno chamado entanglement, emaranhamento. Duas partículas, uma vez conetadas, permanecem correlacionadas independentemente da distância. O que acontece a uma, influencia a outra, instantaneamente.

Nas organizações, acontece o mesmo.

Uma decisão sobre processos influencia o estado emocional das equipas. O estado emocional influência a qualidade da comunicação. A comunicação influencia a perceção que o cliente tem da marca. E essa perceção influencia os resultados, que alimentam novas pressões, que geram novas decisões.

Não é uma linha. É um campo.

E quando tratamos este campo como uma sequência de pontos isolados, não estamos apenas a simplificar. Estamos a criar pontos cegos que aparecem como “problemas inexplicáveis”.

O que António Damásio descobriu, e que as empresas ainda não perceberam

Em 1994, o neurocientista António Damásio publicou O Erro de Descartes, um livro que deveria estar na formação de todos os líderes.

A sua tese central: a razão sem emoção não torna as decisões melhores. Torna-as impossíveis.

Damásio estudou pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial, a região que integra emoção e razão. Estes indivíduos mantinham inteligência intacta, memória funcional, capacidade analítica. Mas eram incapazes de tomar decisões simples do quotidiano. Passavam horas a comparar opções de restaurantes. A vida desfazia-se em pormenores.

A conclusão é radical: o processamento emocional não perturba o raciocínio, é parte estrutural dele.

Agora transportemos isto para uma equipa.

Uma equipa que opera em estado de ameaça crónica, pressão excessiva, ambiguidade, falta de reconhecimento, não toma decisões piores porque tem menos talento. Toma decisões piores porque o sistema límbico está a consumir recursos cognitivos que deveriam estar disponíveis para o córtex pré-frontal.

Em linguagem simples: quando as pessoas estão em modo de sobrevivência, o pensamento estratégico desliga-se. E nenhum processo, nenhuma tecnologia, nenhuma campanha de comunicação externa compensa este défice interno.

Liderança como ecologia, não como engenharia

Existe uma metáfora que uso frequentemente: um líder não é um arquiteto. É um jardineiro.

O arquiteto desenha estruturas rígidas, construídas exatamente como planeou. O jardineiro cria condições, luz, água, solo, e observa o que emerge.

Esta distinção tem implicações práticas enormes.

A neurociência social demonstrou que o cérebro humano é fundamentalmente um órgão social. Processa exclusão social nas mesmas regiões que processa dor física. Responde a ameaça de status com a mesma intensidade que responde à ameaça física.

O modelo SCARF por David Rock identifica cinco domínios que ativam resposta de ameaça ou recompensa: Status, Certeza, Autonomia, Relacionamento e Justiça.

Qualquer decisão que comprometa um destes domínios, mesmo que racionalmente justificada, ativa respostas defensivas que reduzem a capacidade cognitiva das equipas.

Isto significa que a liderança não é sobre o que o líder decide. É sobre o ambiente neurológico que o líder cria.

E ambientes não se gerem por decreto. Cultivam-se por coerência.

Bem-estar não é spa. É homeostase.

Quando se fala em bem-estar empresarial, há um reflexo quase imediato: fruta no escritório, yoga às sextas, dias de flexibilidade.

Não é que estas coisas sejam erradas. É que confundem sintoma com sistema.

A fisiologia é clara: o organismo humano tende naturalmente para a homeostase, o equilíbrio dinâmico que permite funcionar de forma adaptativa. Quando este equilíbrio é constantemente perturbado sem tempo de recuperação, o sistema entra em carga alostática, um estado de desgaste acumulado que compromete imunidade, cognição e comportamento.

Hans Selye distinguiu dois tipos de stress: eustress (funcional, que ativa e desenvolve) e distress (disfuncional, que desgasta e paralisa). A diferença não está na intensidade da pressão, está na perceção de controlo e no tempo de recuperação.

Uma organização que não gere estes ciclos não está a ser exigente. Está a depreciar o seu ativo mais estratégico.

O Gallup State of the Global Workplace Report de 2023 estima que o baixo sentido de pertença custa à economia global 8,8 biliões de dólares em produtividade perdida. Não porque as pessoas sejam preguiçosas, porque os sistemas onde operam não criam condições para que o seu potencial emerja.

Bem-estar é design organizacional, nunca generosidade.

A comunicação externa é sempre um diagnóstico, não uma estratégia

Aqui está uma ideia que raramente é dita desta forma: a comunicação externa não projeta uma imagem. Revela um sistema.

Os neurónios-espelho, descobertos por Giacomo Rizzolatti, ativam-se tanto quando realizamos uma ação como quando observamos outra pessoa a realizá-la. São a base neurológica da empatia e da leitura social.

O que isto significa é que os seres humanos são extraordinariamente sensíveis à autenticidade, não porque sejam sofisticados, mas porque são biológicos. Detetamos incongruência antes de a conseguir verbalizar.

Quando uma marca comunica “proximidade”, mas cada interação é fria e burocrática, o cliente sente algo que não sabe nomear. Uma espécie de atrito invisível que o afasta, mesmo que o produto seja bom.

Em PNL, chamamos a isto incongruência ecológica: quando a mensagem verbal não alinha com a mensagem não-verbal do sistema inteiro, como os colaboradores respondem por email, como um responsável reage numa reclamação, como o CEO se comporta numa crise.

A comunicação externa é o resultado inviável de tudo o que acontece internamente. Podemos melhorar a embalagem. Mas não podemos melhorar a mensagem se o sistema que a gera estiver desalinhado.

O paradoxo da especialização: saber mais e ver menos

Vivemos a era da especialização, e ela trouxe-nos capacidades extraordinárias. Mas há um efeito lateral que a filosofia, identificou há décadas: quanto mais nos focamos numa parte, menos conseguimos perceber o todo.

A neurociência, chama isto de o “interpreter”: o módulo que inventa narrativas coerentes a partir de informação fragmentada, mesmo que sejam falsas.

Nas organizações, é o que acontece quando departamentos especializados otimizam métricas sem visibilidade do impacto sistémico.

O marketing melhora a conversão. As operações cortam custos. O serviço ao cliente absorve o impacto. Os colaboradores esgotam-se. Os resultados parecem razoáveis, até à reputação colapsar ou o turnover explodir.

Cada parte “ganhou”. O sistema perdeu.

A integração não é o oposto da especialização. É a condição para que produza valor real.

Uma nova competência: pensamento gravitacional

O que proponho não é o abandono do rigor analítico. É a adição de uma nova competência, o que chamo de pensamento gravitacional.

Na física, a gravidade não age sobre objetos isolados. Age sobre o espaço entre eles. É uma propriedade do campo, não das partículas.

O pensamento gravitacional nos negócios significa desenvolver a capacidade de perceber o campo, as relações invisíveis entre elementos, e não apenas os elementos em si.

Na prática, significa fazer perguntas diferentes antes de decidir: se alterarmos este processo, que estado emocional vai emergir na equipa? Se comunicarmos esta promessa ao mercado, temos internamente a estrutura para a sustentar? Se aumentarmos a pressão aqui, que consequências aparecem noutros pontos, três meses depois?

Estas perguntas não tornam a gestão mais lenta. Tornam-na mais precisa, porque eliminam o custo invisível das consequências não antecipadas.

No fim, nunca foram três temas

Liderança. Bem-estar. Comunicação externa.

Tratá-los como áreas separadas não é só uma simplificação organizacional. É um erro epistemológico. É usar o mapa errado para navegar num território complexo.

A neurociência mostrou-nos que comportamento é emergente, resulta de estados, e estados de contextos. A filosofia mostrou-nos que o todo tem propriedades que as partes não têm. A física mostrou-nos que a relação tem propriedades próprias.

Nenhuma destas perspetivas nos permite tratar o sistema como partes isoladas. E, no entanto, é exatamente assim que a maioria das organizações ainda opera.

A mudança que proponho não é uma nova metodologia. É uma mudança de perceção.

Ver o sistema inteiro, com as suas relações, com a sua gravidade, com as suas consequências invisíveis.

Porque é a partir desta visão que emerge um tipo diferente de liderança: mais consciente das condições que cria, mais atenta ao que o sistema revela, mais capaz de agir com precisão, em vez de reagir com urgência.

E, paradoxalmente, mais humana.

Não apesar de ser mais eficaz.

Por isso mesmo.

Este artigo faz parte de uma série mensal na revista Pontos de Vista sobre liderança, sistemas e o que move as organizações.

Partilhar

Revista Digital

Revista Pontos de Vista Edição 150

Popular

Mais Artigos deste tipo