Num setor em rápida evolução, marcado pela inovação tecnológica, pela crescente complexidade regulatória e por um mercado cada vez mais global, a advocacia ibérica enfrenta o desafio de se modernizar sem perder a sua essência. Fundadora da ASSP LEGAL e Vice-Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados, Ana Sofia de Sá Pereira sublinha uma ideia central: a tecnologia transforma, mas não substitui o papel do advogado enquanto garante de confiança, ética e justiça. Paralelamente, a liderança feminina ganha espaço e relevância, afirmando-se cada vez mais como expressão natural de competência no setor jurídico.
Quem é Ana Sofia de Sá Pereira e como destaca o seu percurso profissional?
Sou advogada, fundadora da ASSP LEGAL – Sociedade de Advogados, e tenho construído um percurso assente em rigor técnico, independência e serviço. A advocacia é, para mim, uma profissão de liberdade, responsabilidade e intervenção cívica. Conciliei a prática forense e a consultoria jurídica com uma participação ativa na vida institucional da Ordem dos Advogados, atualmente como Vice-Presidente do Conselho Superior.
O meu percurso tem sido marcado pela advocacia civil, societária, contratual e contenciosa, mas também por uma preocupação constante com a dignificação da profissão, a defesa do Estado de Direito e a valorização dos advogados enquanto agentes indispensáveis da Justiça. Quando nos aproximamos do Dia do Advogado, celebrado a 19 de maio, essa reflexão ganha especial significado: ser advogado é defender pessoas, empresas, direitos e instituições, com independência, lealdade e coragem.
Quais são hoje os principais desafios e transformações da advocacia ibérica?
A advocacia ibérica enfrenta desafios comuns: pressão económica sobre os serviços jurídicos, aceleração tecnológica, crescente complexidade regulatória, relevância acentuada e crescente da internacionalização das relações económicas e uma exigência cada vez maior dos clientes quanto à rapidez, previsibilidade e qualidade da resposta.
Mas há também um desafio mais profundo: preservar a identidade da advocacia. A tecnologia pode apoiar, a gestão pode melhorar processos e a comunicação pode aproximar os advogados da sociedade, mas nada substitui a independência, o juízo crítico e a responsabilidade pessoal do advogado perante o cliente e perante a Justiça.
Portugal e Espanha partilham uma cultura jurídica rica, mas precisam de reforçar a cooperação, a circulação de conhecimento e a capacidade de resposta a clientes que já não pensam apenas dentro de fronteiras nacionais. A advocacia que se afirmará unirá tradição jurídica, sofisticação técnica e visão estratégica.
Como vê a evolução da profissão nos próximos anos, perante inovação, tecnologia e novas exigências regulatórias?
Vejo uma profissão mais tecnológica, mais especializada e mais escrutinada. A inteligência artificial, a automação documental e as plataformas digitais vão transformar a organização interna dos escritórios e a forma como se presta aconselhamento jurídico. Contudo, a tecnologia não eliminará a advocacia; eliminará formas rotineiras, pouco qualificadas e pouco diferenciadas de exercer a profissão.
O advogado do futuro terá de ser jurista, estratega, comunicador e gestor de risco. Terá de compreender dados, mercados, regulação, reputação, compliance e impacto social. Mas terá igualmente de defender aquilo que não pode ser automatizado: a confiança, a prudência, a ética, a ponderação e a capacidade de ler a dimensão humana de cada conflito.
A inovação na advocacia não pode ser confundida com desregulação. O Estatuto da Ordem dos Advogados e as regras deontológicas continuam a ser essenciais para garantir independência, dignidade profissional e proteção do cidadão. Modernizar não é descaraterizar.
Que evolução tem observado na liderança feminina no mundo jurídico?
A evolução é evidente, mas ainda incompleta. Há hoje mais mulheres qualificadas, visíveis e preparadas para liderar sociedades de advogados, instituições, equipas jurídicas e projetos académicos. A presença feminina deixou de ser uma exceção estatística. O que ainda está em causa é a naturalização plena da autoridade feminina.
Muitas mulheres chegaram ao topo por mérito, resiliência e trabalho silencioso, frequentemente com exigências acrescidas de demonstração de competência. O próximo passo é deixar de discutir a liderança feminina como curiosidade e passar a reconhecê-la como parte normal da excelência profissional.
Para isso, são decisivos critérios objetivos de avaliação, redes profissionais equilibradas, conciliação real, transparência nas oportunidades e uma cultura institucional que não penalize a ambição feminina. A liderança não deve ser masculina nem feminina: deve ser competente. Mas, enquanto existirem assimetrias de acesso, a visibilidade das mulheres continua a ser necessária.
Que momentos ou decisões mais consolidaram a sua carreira?
A decisão de fundar e consolidar a minha própria sociedade de advogados foi determinante. Criar uma estrutura profissional implica risco, visão, disciplina e uma enorme resistência. Obriga-nos a responder perante clientes, equipas, instituições e perante a nossa própria exigência.
Também foram decisivas as funções desempenhadas na Ordem dos Advogados. A vida institucional dá uma perceção muito clara dos problemas reais da profissão: as dificuldades dos jovens advogados, a necessidade de proteger a independência, a importância da disciplina, a relação com os tribunais, a defesa das garantias dos cidadãos e o valor da autorregulação.
Por fim, destaco a aposta contínua na formação académica e científica. A advocacia não pode viver apenas da prática. Precisa de estudo, atualização e pensamento crítico. Esta combinação entre prática forense, gestão, intervenção institucional e investigação jurídica tem sido essencial.
Que competências são essenciais para os advogados num mercado competitivo e global?
A primeira competência continua a ser o domínio rigoroso do Direito. Sem base técnica sólida, tudo o resto é aparência. Mas hoje isso já não basta. É necessário pensamento estratégico, capacidade de comunicação, domínio de línguas, literacia tecnológica, compreensão económica dos problemas e sensibilidade para a gestão de risco.
O advogado deve saber ouvir o cliente, compreender o setor em que atua, antecipar conflitos, negociar com firmeza e escrever com clareza. Num mercado global, a reputação constrói-se não apenas pela visibilidade, mas pela consistência, pela ética e pela qualidade do serviço prestado.
Há ainda uma competência central: independência inteletual. O advogado não deve dizer apenas o que o cliente quer ouvir; deve dizer o que juridicamente deve ser dito. Essa lealdade crítica é uma das formas mais elevadas de proteção do cliente.
Que impacto terão a diversidade, a visibilidade e a inspiração nas novas gerações?
Têm impacto relevante quando não se limitam à retórica. A diversidade, a visibilidade e a inspiração são importantes se abrirem caminhos concretos, se mostrarem exemplos reais e se ajudarem as novas gerações a perceber que há várias formas legítimas de construir uma carreira jurídica de excelência.
Para os jovens profissionais, é fundamental verem percursos diferentes, modelos de liderança diferentes e narrativas que não reduzam o sucesso a uma única fórmula. A advocacia precisa de talento plural: mulheres e homens, diferentes origens sociais, diferentes estilos de liderança, diferentes áreas de prática.
Estas iniciativas também aproximam a advocacia da sociedade. Num tempo em que os cidadãos e as empresas procuram profissionais de confiança, a visibilidade responsável permite mostrar quem somos, como pensamos e que valores orientam o nosso exercício. Sempre dentro dos limites deontológicos próprios da profissão, sem publicidade agressiva, sem promessas de resultados e com respeito pela dignidade da advocacia.
Que conselhos daria às jovens advogadas que ambicionam liderar?
Diria, antes de mais, que estudem muito e que não tenham pressa de parecer líderes antes de serem profissionais sólidas. A autoridade constrói-se com trabalho, preparação, consistência e coragem. Não nasce de títulos, nasce da capacidade de responder nos momentos difíceis.
Aconselharia também que não confundam elegância com submissão, nem firmeza com agressividade. Uma mulher pode ser sofisticada, cordial e institucional sem abdicar de autoridade. Pode liderar com serenidade e, ainda assim, ser absolutamente intransigente na defesa dos seus princípios, da sua equipa e dos seus clientes.
É igualmente importante escolher bem os contextos profissionais, criar redes sérias e não aceitar culturas que normalizem a desvalorização. A carreira constrói-se com mérito, mas também com escolhas. E uma das escolhas mais importantes é não abdicar da própria voz.
Que prioridades ou tendências marcarão a agenda da advocacia ibérica?
A agenda da advocacia ibérica será marcada por tecnologia, regulação, internacionalização, sustentabilidade empresarial, cibersegurança, proteção de dados, inteligência artificial, litigância complexa e novas formas de organização do trabalho. Mas será igualmente marcada por uma disputa essencial: a defesa da advocacia como profissão independente e indispensável ao Estado de Direito.
A prioridade deve ser valorizar o advogado, garantir condições dignas de exercício, reforçar a formação contínua, proteger o segredo profissional, assegurar que a tecnologia serve a Justiça e não a fragiliza, e aproximar a profissão dos cidadãos e das empresas.
No Dia do Advogado, a 19 de maio, devemos recordar que a advocacia não é apenas uma atividade profissional. É uma função constitucionalmente relevante, garantia dos direitos de todos e voz necessária perante o poder. A advocacia ibérica terá futuro se souber ser moderna sem deixar de ser livre, competitiva sem deixar de ser ética, e próxima dos clientes sem abdicar da sua dignidade.


