“As famílias têm um papel fundamental na promoção do bem-estar psicológico porque são o primeiro contexto de socialização e desenvolvimento emocional”

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No âmbito do Dia Internacional da Família, a Revista Pontos de Vista esteve à conversa com Edite de Oliveira, psicóloga e professora na Universidade Nova de Lisboa, para refletir sobre o papel da família na promoção da saúde mental e no desenvolvimento emocional das novas gerações. Numa sociedade marcada por mudanças sociais, exigências profissionais e desafios económicos crescentes, a especialista destaca a importância da família enquanto espaço de segurança, pertença e construção emocional. Ao longo desta entrevista, abordamos os principais desafios psicológicos que as famílias enfrentam atualmente, bem como a relevância dos vínculos afetivos na criação de ambientes emocionalmente saudáveis e resilientes.

Na sua perspetiva, qual é hoje o papel da família na promoção da saúde psicológica dos indivíduos?

A família tem um papel central na saúde psicológica dos indivíduos por ser a primeira base de segurança nas relações. Ao constituir uma base segura favorece a autoestima, sensação de pertença e criação de identidade. Funciona como um núcleo protetor para a diversidade e situações de grande stress.

 

De que forma a família influencia o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes?

A família desempenha um papel central no desenvolvimento emocional das crianças e dos adolescentes uma vez que é a base principal de aquisição, identificação e expressão das emoções. As relações familiares marcadas por uma estrutura afetiva consistente, pela segurança e comunicação aberta permitem que a criança se desenvolva num ambiente de segurança que lhe vai proporcionar o desenvolvimento de uma autoestima positiva. É nesta fase de confiança e segurança que a criança encontra um terreno fértil para se desenvolver de forma plena, criando uma base segura de autorregulação para o futuro.

 

Quais são os principais desafios psicológicos que as famílias enfrentam atualmente?

Atualmente, as famílias confrontam-se com uma combinação de desafios, emocionais, económicos, relacionais, sociais. A sobrecarga de tarefas e as exigências associadas conduzem com facilidade a níveis de stress e desconforto psicológico. Aliado a isto, pressão financeira face a questões habitacionais, mas não só, têm igualmente um impacto direto na saúde mental familiar, aumentando a ansiedade, a insegurança e perda de controlo. Estes fatores geram muitas vezes, discussões e tomadas de decisão precipitadas. As mudanças nas configurações parentais, como famílias monoparentais, reconstituídas ou com guarda partilhada, também exigem adaptação de papéis, limites e expetativas. Tudo isto torna difícil a criação de vínculos emocionais estáveis, segurança e sentido de pertença.

 

Como podem os pais/cuidadores promover um ambiente emocionalmente seguro?

Os pais e educadores promovem um ambiente seguro à criança quando lhe permitem expressar, compreender e regular as suas emoções. A criança precisa de ter uma base segura na família capaz de lhe proporcionar um palco de existência no qual encontre espaço para as suas frustrações, dificuldades, desejos e anseios. É necessário que a criança perceba que os pais e educadores lhe permitam ser ela própria e lhe facultem condições para se desenvolver de forma plena. Onde encontra regras e limites capazes de lhe permitir crescer numa base estrutural de afeto, cuidado e responsabilidade.

Que sinais devem alertar para dificuldades psicológicas no contexto familiar?

Devemos estar atentos a mudanças rápidas e consistentes, tais como mudanças no sono e/ou apetite, isolamento social e falta de interesse nas atividades, por exemplo alterações no rendimento escolar, alterações do humor, irritabilidade constante, tristeza, choro, expressões emocionais descontextualizadas e isoladas, regressões comportamentais, aquisição de comportamentos e atitudes regressivas, por exemplo urinar na cama, necessidade expressiva de proximidade com o adulto, sintomas físicos, medos e ansiedade. Devemos estar atentos às mudanças de um padrão, ou seja, às alterações daquilo que naquela criança era o seu modo habitual de funcionar.

 

Qual a importância das primeiras relações familiares no desenvolvimento da criança?

Na perspetiva da psicologia do desenvolvimento, as primeiras relações familiares são fundamentais porque constituem o primeiro contexto em que a criança adquire confiança e segurança para agir. As respostas consistentes dos adultos ajudam a criar essa base segura. Se nos reportarmos à teoria da vinculação de John Bowlby verificamos que a vinculação segura está ancorada na estruturação de laços emocionais estáveis traduzidos por respostas sincronizadas entre as necessidades da criança e as respostas que se encontram no meio. À medida que a relação se vai estruturando, a criança adquire segurança no meio para expressar as suas emoções. Um meio afetivo que acolhe as suas necessidades e lhe permite desenvolver a estrutura mental para que o desenvolvimento e a aprendizagem se façam com sucesso.

 

Como podem os pais apoiar o desenvolvimento saudável durante a adolescência?

Os pais podem apoiar o desenvolvimento saudável durante a adolescência mantendo uma relação de proximidade emocional combinada com limites claros e consistentes. Nesta fase, os adolescentes procuram maior autonomia, contudo continuam a precisar de adultos disponíveis, previsíveis e interessados naquilo que vivem. É importante a escuta ativa constante, o adolescente necessita de ser escutado e compreendido nas suas experiências, emoções, interesses e transformações. Escutar sem julgamento, mostrar interesse genuíno pelas suas experiências, validar as emoções, mas tudo isto acompanhado com regras coerentes sobre responsabilidades, horários e perspetivas. É importante nesta fase proporcionar escolhas baseadas no comportamento e na reflexão, permitindo ter responsabilidades em relação às consequências.

 

De que forma fatores económicos e sociais afetam o equilíbrio familiar?

Os fatores económicos e sociais podem afetar diretamente o equilíbrio familiar porque afetam a regulação emocional. As dificuldades económicas advindas por exemplo do desemprego, dos encargos familiares ou outras exigências, nomeadamente custos adicionais com saúde e/ou educação aumentam o nível de stress, a tensão emocional e os conflitos, provocando desta forma, o equilíbrio das rotinas diárias e a disponibilidade emocional e relacional entre os membros da família. Ao mesmo tempo, fatores sociais como o isolamento, a ausência de redes de apoio, as condições habitacionais precárias ou contextos de discriminação podem intensificar níveis de insegurança e sobrecarga emocional.

 

Que mudanças recentes têm maior impacto nas dinâmicas familiares?

Em termos de mudanças no mundo contemporâneo, podemos destacar a pressão económica advinda do aumento do custo da habitação, da inflação e instabilidade laboral que levam muitos jovens a permanecer cada vez mais tempo em casa dos pais ou então voltar. A digitalização permanente, com redes sociais múltiplas, que dificultam a comunicação direta entre os familiares e aumenta a comunicação por dispositivos com recurso à inteligência artificial como mecanismo e ferramenta de apoio para todas as áreas humanas. Por outro lado, as mudanças geracionais e demográficas, famílias cada vez mais com menos filhos e com um fosso geracional muito grande. As novas tipologias de família, monoparental, unipessoal, reconstruída, alargada. Todas estas condições têm um forte impacto nas dinâmicas familiares.

 

Quando deve uma família procurar apoio psicológico?

Uma família deve procurar apoio psicológico quando as dificuldades emocionais ou relacionais começam a ser persistentes, intensas e a interferir com o bem-estar e o funcionamento diário. Podemos identificar sinais importantes tais como, conflitos frequentes e difíceis de resolver, comunicação hostil, silêncio prolongado ou incompreensão constante, sofrimento emocional num ou mais membros da família (tais como ansiedade, tristeza persistente ou irritabilidade). Também é relevante procurar ajuda quando há mudanças comportamentais preocupantes em crianças ou adolescentes, como o isolamento, a descida no rendimento escolar, alterações marcadas no sono ou no apetite, ou regressões no desenvolvimento.

Devemos referir que situações de crise tais como separações, luto, doença grave, violência doméstica ou grandes mudanças familiares são igualmente momentos em que o apoio profissional pode ser essencial. De uma forma geral, a procura de ajuda é indicada sempre que a família sente que já tentou resolver os problemas por si própria, mas continua a haver sofrimento ou desgaste emocional significativo.

 

Que estratégias podem ajudar a fortalecer os vínculos familiares?

O tempo de qualidade em conjunto é essencial, seja através de refeições partilhadas, atividades de lazer ou rotinas familiares consistentes, pois reforça a ligação emocional. Outra estratégia é a resolução saudável de conflitos, em que se evita a agressividade e se procura negociar soluções de forma colaborativa.

A demonstração de afeto e reconhecimento, como elogios, apoio emocional e pequenos gestos de cuidado, também fortalece os laços. Por fim, a criação de regras claras e consistentes, combinadas com flexibilidade adequada à idade, contribui para um ambiente previsível e seguro, favorecendo relações familiares mais estáveis e próximas.

 

Qual o papel dos profissionais de saúde mental no apoio às famílias?

Para trabalhar as dinâmicas familiares, aconselha-se a psicoterapia familiar. O trabalho passa por promover uma comunicação mais eficaz, ajudar na resolução de conflitos, fortalecer a regulação emocional e apoiar famílias em situações de crise como separações, luto, doença ou problemas comportamentais em crianças e adolescentes. Além disso, esta abordagem pode contribuir para identificar fatores de risco e proteção, orientar estratégias de coping mais saudáveis e reforçar a coesão familiar, funcionando muitas vezes como mediador neutro que facilita mudanças positivas e sustentáveis no funcionamento da família.

Que responsabilidades têm as famílias na promoção do bem-estar psicológico?

As famílias têm um papel fundamental na promoção do bem-estar psicológico porque são o primeiro contexto de socialização e desenvolvimento emocional. Entre as principais responsabilidades está a garantir um ambiente de segurança emocional, onde exista afeto, compromisso e ausência de violência, permitindo que cada membro se sinta aceite e valorizado.

As famílias também têm a responsabilidade de promover uma comunicação aberta e respeitosa, incentivando a expressão de emoções e a escuta ativa entre os seus membros. Outro aspeto importante é o apoio ao desenvolvimento saudável, especialmente em crianças e adolescentes, através de limites claros, orientação consistente e incentivo à autonomia progressiva.

Por fim, a família tem também a responsabilidade de reforçar vínculos positivos, promover hábitos saudáveis e criar um contexto relacional que favoreça o equilíbrio emocional e social de todos os seus membros.

 

Considera que existe suficiente sensibilização para os direitos das famílias?

Podemos dizer que existe cada vez mais sensibilização para os direitos das famílias, sobretudo no que diz respeito à proteção das crianças, igualdade de género, diversidade familiar e acesso a serviços de apoio. No entanto, essa sensibilização ainda é desigual e nem sempre se traduz em conhecimento claro ou em acesso efetivo a esses direitos.

Muitas famílias, ainda desconhecem apoios disponíveis, enfrentam dificuldades burocráticas ou vivem em contextos socioeconómicos que limitam a sua capacidade de exercer plenamente esses direitos. Por outro lado, as assimetrias sociais e culturais e sociais refletem a forma como esses direitos familiares são compreendidos e valorizados. Por isso, apesar de haver um progresso significativo, é necessário continuar a investir em espaços de diálogo sobre os direitos das famílias.

 

Que mensagem gostaria de deixar às famílias neste Dia Internacional da Família?

A família não é feita de perfeição, mas de presença. É nela que encontramos o colo que nos sustenta e o amor que nos alimenta. É sentir que nada nos falta e que tudo nela encontramos!

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Revista Pontos de Vista Edição 150

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