Opinião por Claudia Gesto, MENTORA DE CARREIRA NO FEMININO
Há momentos em que vale a pena parar e reconhecer o que foi construído. A Revista Pontos de Vista chega à edição 150; dezasseis anos de presença contínua no ecossistema empresarial português. É um momento que merece reconhecimento. E é com enorme satisfação que inicio aqui uma colaboração regular, neste espaço que, ao longo de dezasseis anos, tem dado voz a quem transforma organizações e carreiras.
E é sobre trabalho, e sobre como nos relacionamos com ele, que vou falar hoje.
BEM-ESTAR: RESPONSABILIDADE PARTILHADA, DECISÃO INDIVIDUAL
Nas últimas décadas, as organizações investiram em programas de bem-estar: flexibilidade horária, iniciativas de saúde mental, ambientes mais humanos. Este investimento tem um valor real; uma empresa que cuida do contexto cria condições para que as pessoas trabalhem melhor, com menos desgaste e mais sentido. Ignorar isso seria demasiado simplista.
Mas há um limite que nenhum programa consegue ultrapassar. Conheço mulheres profissionais experientes, com carreiras sólidas, em empresas que fazem tudo certo no papel, que chegam ao fim do dia exaustas, sem propósito, a perguntar: “É mesmo isto?” A empresa criou o contexto, mas não lhes pôde dar a resposta.
Porque essa resposta não vive nos benefícios de uma política de RH. Vive numa decisão pessoal que muitas pessoas nunca chegam a tomar.
BEM-ESTAR COMEÇA POR UMA DECISÃO,
NÃO POR UM PROGRAMA
A felicidade no trabalho depende, em grande parte, de uma variável que está fora do alcance de qualquer empresa: o alinhamento entre o que fazes e o que és.
Esse alinhamento não se instala por decreto. Exige autoliderança.
Autoliderança é a capacidade de te conheceres com suficiente clareza para tomares decisões sobre a tua vida profissional e não apenas de reagires ao que o mercado ou a organização te pedem. É saber distinguir o que é cansaço passageiro do que é desalinhamento estrutural. É reconhecer quando uma função já não te serve, mesmo que continue a pagar bem. É ter critério para decidir, em vez de deixar que as circunstâncias decidam por ti.
Isto não é motivação. É estrutura.
O PARADOXO DA PROFISSIONAL
COMPETENTE E INSATISFEITA
Existe um perfil que reconheço com frequência no meu trabalho como mentora: a mulher com 40 ou 50 anos que construiu uma carreira sólida, que cumpriu todos os critérios de sucesso que lhe ensinaram, e que se encontra, apesar disso tudo, profundamente insatisfeita.
Não é ingratidão nem fraqueza. É o custo de ter seguido durante demasiado tempo uma rota desenhada por outros, sem a questionar.
O problema não é a empresa. O problema é a ausência de uma decisão consciente sobre o que se quer realmente, e a tendência de substituir essa decisão por mais trabalho, mais conquistas, mais validação externa.
Quando essa mulher pára e se pergunta “o que é que eu quero?”, não está em crise. Está, finalmente, a liderar-se a si própria.
AUTOLIDERANÇA NÃO É INDIVIDUALISMO. É RESPONSABILIDADE
Há um equívoco frequente quando se fala de autoliderança: confundí-la com egocentrismo ou com uma postura de “cada um por si”. Não é isso.
Autoliderança é reconhecer que, mesmo numa empresa com um ambiente excelente, existe uma dimensão que nenhuma organização pode gerir por ti: o teu alinhamento interior. O contexto ajuda. Mas a decisão sobre o que queres e o que te realiza é apenas tua.
Uma líder que se lidera bem é mais capaz de liderar outros. Uma profissional que conhece os seus limites com clareza é mais eficaz do que uma que ignora os sinais que o seu corpo e a sua mente lhe enviam há meses. Uma pessoa que decide conscientemente sobre a sua carreira contribui com mais intencionalidade do que alguém que está simplesmente a cumprir funções.
O bem-estar organizacional começa, inevitavelmente, no bem-estar individual. E esse começa numa decisão.
A PERGUNTA QUE TRANSFORMA
No trabalho que faço com a Mentoria NOVA ROTA – um programa de mentoria para mulheres em transição ou redefinição de carreira – a pergunta que mais frequentemente provoca mudança real não é “o que é que correu mal?”. É: “O que é que eu quero, com critério e clareza, para a próxima fase da minha vida profissional?”
É uma pergunta simples. E é, para muitas pessoas, muito difícil de responder.
Porque responder a ela exige parar. Exige honestidade. Exige estar disposta a que a resposta seja inconveniente.
Mas é essa resposta, e a decisão que vem a seguir, que é a base de qualquer bem-estar profissional duradouro. O contexto que a empresa oferece pode facilitar muito esse caminho. Mas não o pode percorrer por ti.
Se hoje tivesses de responder com honestidade: a tua insatisfação no trabalho vem do contexto que a empresa criou, ou de uma decisão que ainda não tomaste?
O bem-estar no trabalho que realmente fica não é aquele que te é dado. É aquele que escolheste.


