Conflito: A arma mais mal aproveitada para potenciar a produtividade das equipas

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Artigo de opinião de Rui Ferreira, especialista em produtividade de equipas,
liderança e comportamento organizacional. Ajuda líderes e organizações a alinhar pessoas, comportamentos e resultados através do mapeamento comportamental, coaching e psicologia positiva.

Na edição anterior desta revista, partilhei uma ideia central que tem orientado o meu trabalho com líderes, equipas e organizações:

“A produtividade de uma equipa é sempre o reflexo da arquitetura dos seus comportamentos.”

Se ainda não teve oportunidade de ler, convido-o(a) a fazê-lo, não como um artigo isolado, mas como o ponto de partida de uma visão mais ampla sobre como alinhar pessoas, comportamentos e resultados.

É exatamente nessa continuidade que surge este tema.

Porque se a produtividade nasce do comportamento, então há um elemento que, mais do que qualquer outro, expõe a qualidade dessa arquitetura: o conflito.

A realidade que todos vivem mas poucos assumem

Se lidera uma equipa, gere um negócio ou trabalha numa organização, provavelmente reconhece pelo menos um destes cenários:

  • Reuniões onde todos concordam mas nada avança;
  • Tensões silenciosas entre colaboradores que se evitam, mas continuam a trabalhar lado a lado;
  • Decisões constantemente reabertas, porque nunca foram verdadeiramente discutidas;
  • Equipas onde o ambiente parece “calmo”… até ao dia em que tudo explode.

Estes não são casos isolados. São o reflexo de algo estrutural.

 

Dados globais mostram que:

  • 85% dos colaboradores experienciam conflito no trabalho;
  • Em média, são gastas 2,8 horas por semana a lidar com conflitos.

Na Europa e em Portugal, embora o enquadramento institucional trate o conflito sobretudo como um risco psicossocial, os efeitos são claros:

  • Aumento do stress;
  • Aumento do absentismo;
  • Rotatividade;
  • Quebra da segurança psicológica;
  • Perda de engagement;
  • Retrabalho e ineficiência operacional.

Mas existe algo ainda mais relevante e muitas vezes invisível: O conflito não desaparece quando é evitado. Ele transforma-se… e começa a corroer a produtividade por dentro.

É aqui que nasce o verdadeiro problema. E é também aqui que nasce a oportunidade.

 

Nem todo o conflito é visível mas todo o conflito tem impacto

Um dos maiores erros na gestão de equipas é assumir que “Se está tudo tranquilo… está tudo bem.”

Não, não está.

O conflito tem níveis e diferentes intensidades:

  • Conflito latente — ainda não verbalizado, mas presente;
  • Conflito percebido — já sentido, mas evitado;
  • Conflito declarado — expresso e visível;
  • Conflito escalado — emocional, relacional e destrutivo.

 

Muitas organizações vivem longos períodos nos dois primeiros níveis até que, de forma aparentemente inesperada, tudo se torna visível, mas não foi de um dia para o outro. Torna-se visível quando vemos:

  • Um colaborador a sair;
  • Depois outro;
  • Depois vários.

 

Não estamos perante um problema pontual. Estamos perante um sinal acumulado de conflitos não trabalhados. Isto tem impacto direto:

  • Na retenção de talento;
  • Na confiança;
  • Na cultura;
  • E inevitavelmente, nos resultados.

O mito da ausência de conflito

Existe uma ideia muito enraizada: equipas produtivas são equipas sem conflito. Nada mais distante da realidade!

Grandes organizações, com elevados desempenhos e produtividade, têm conflitos. A diferença não está na sua ausência, está na forma como são geridos.

Aliás, a evidência mostra algo muito interessante:

  • Conflito de baixa intensidade » estagnação;
  • Conflito com intensidade moderada » melhor desempenho;
  • Conflito elevado e desestruturado » quebra de desempenho individual e coletivo.

 

Agora visualize a importância deste enquadramento, ou da falta dele nas Pequenas e Médias Empresas, em que o problema, o desafio é vivido com muito mais proximidade.

Ou seja, nas equipas e organizações, o problema não é o conflito. É não saber onde ele deixa de ser produtivo.

 

E mais:

Se alguém lhe disser que vai “eliminar conflitos” na sua organização… desconfie.

Porque isso significaria eliminar:

  • Diversidade de pensamento;
  • Espírito crítico;
  • Valores vividos, tanto na forma, como na intensidade;
  • Cultura e evolução organizacional.

O que nos cabe, enquanto líderes, não é evitar o conflito.

É saber utilizá-lo.

 

Quando o conflito passa a ser uma ferramenta estratégica

Existem diferentes formas de lidar com o conflito:

  • Orientadas ao processo;
  • Orientadas à tarefa;
  • Orientadas ao poder ou status;
  • Orientadas aos valores e relações.

E é precisamente nas relações que o impacto se torna mais profundo. Porque é aqui que colidem:

  • Valores;
  • Perceções;
  • Expetativas;
  • Formas de comunicar.

Mas também é aqui que se cria valor.

 

Quando conseguimos:

  • Identificar as forças individuais e da equipa;
  • Compreender diferenças;
  • Antecipar pontos de fricção;
  • Prever possíveis colisões;
  • Alinhar perfis com funções.

O conflito deixa de ser um problema e passa a ser uma ferramenta de desenvolvimento. E conseguimos trabalhar isto através dos oito passos do mapeamento comportamental!

A verdadeira viragem: usar o conflito a favor da produtividade

Trabalhar conflitos não é resolvê-los. É saber identificá-los, compreendê-los e utilizá-los.

“Nós não resolvemos conflitos.
Aprendemos a lidar com eles e a extrair o melhor, minimizando o pior.”

 

Quando bem trabalhado, o conflito permite:

  • Aumentar o autoconhecimento individual e coletivo;
  • Melhorar o alinhamento entre função e perfil;
  • Desenvolver líderes mais facilitadores do que controladores;
  • Promover escuta ativa e responsabilidade partilhada;
  • Envolver as equipas na construção das soluções.
  • E acima de tudo: transformar tensão em progresso.

A relação entre conflito e desempenho não é linear, está no equilíbrio.

 

E esse equilíbrio constrói-se com:

  • Preparação antes do conflito surgir;
  • Comunicação ajustada a cada perfil;
  • Clareza de objetivos;
  • Alinhamento entre competências e função;
  • Acompanhamento contínuo.

 

O conflito faz parte… a competência está em saber utilizá-lo

O conflito está presente em todas as dimensões da vida organizacional:

  • Ideias;
  • Decisões;
  • Valores em ação;
  • Relações.

E isso não é negativo, é humano. A diferença está na forma como lidamos com ele, saber gerir o conflito é uma competência transversal, mas torna-se crítica na liderança.

Porque é ao nível da liderança que o conflito ganha direção ou perde controlo.

O conflito faz parte de qualquer equipa. Mas é a liderança que define se essa tensão causa bloqueio nos resultados ou impulsiona o crescimento. Será precisamente sobre os desafios da liderança nas equipas e organizações que irei aprofundar mais no artigo da próxima edição da revista Pontos de Vista.

 

Para saber mais

Se este tema conecta consigo e com a sua realidade, convido-o a acompanhar o meu trabalho e conteúdos, onde aprofundo estas e outras dimensões da produtividade das equipas.

 

 

Referências e enquadramento

Conteúdo desenvolvido com base em estudos, modelos e referências nas áreas de comportamento organizacional, gestão de conflito e produtividade das equipas, incluindo:

  • Livro Comportamento Organizacional;
    • CPP Global Human Capital Report – Workplace Conflict;
    • Manual de Comportamento Organizacional e Gestão — Capítulo 11: Conflito e Negociação.

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Revista Digital

Revista Pontos de Vista Edição 150

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