Construímos empresas. Esquecemo-nos de construir líderes inteiros e felizes. Sobre liderança, felicidade e o que verdadeiramente sustenta o bem-estar dentro de uma organização

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Por Nidia Avelino, Mentora / Oradora na Design by Nidia Teodoro

Há dez anos que trabalho com obras, conheço o cheiro do cimento fresco, sei reconhecer pelo som se um trabalho está a ser bem executado e aprendi, à minha custa, que nenhuma estrutura se segura sem fundações, sem aquilo que ninguém vê, nenhuma das paredes que mostramos depois, com tanto orgulho, fica de pé. E isto não é só sobre obras!

A obra mais difícil que fiz nestes dez anos não foi nenhuma das casas que entreguei aos clientes. Foi a obra que durante demasiado tempo adiei, construir-me a mim mesma, a obra dentro de mim, a reconstrução interna que tive de começar quando o meu próprio corpo me parou, depois de anos a liderar a partir de fundações que sabia frágeis e fingia robustas.

Escrevo esta primeira coluna sobre liderança, felicidade e bem-estar empresarial, e acredito com a convicção que só se ganha pela experiência, que tudo o que tenho para dizer sobre estes três assuntos começa exatamente neste ponto: dentro do próprio líder.

 

O líder que ninguém constrói

Olho hoje para muitas das empresas portuguesas que conheço e vejo um padrão que me toca de perto. Investe-se em estratégia, em tecnologia, em marca, em cultura de equipa. Constroem-se estruturas impressionantes, com indicadores, dashboards e planos a três anos, mas esquece-se, no meio de tudo isso, de construir o líder.

A pessoa inteira que está atrás do cargo. A mulher ou o homem que toma cinquenta decisões por dia com um corpo cansado, um sono interrompido e uma vida pessoal que ficou em pausa há tanto tempo que já é difícil dizer quando começou. Os relatórios não medem isto. As reuniões de gestão não falam disto. E, no entanto, é a partir daqui que se decide quase tudo o resto.

Falamos de felicidade empresarial como se fosse um destino para os outros. Para os colaboradores. Para a equipa. Para aquela camada da organização que se gere com programas, com benefícios, com inquéritos de clima. E esquecemo-nos de uma verdade incómoda, ninguém consegue sustentar bem-estar para uma organização inteira a partir do próprio esgotamento.

Não é por má-fé. É por uma confusão antiga entre estar disponível e estar presente. Entre liderar pelo exemplo e liderar até cair. Entre dar tudo aos outros e não sobrar nada para si.

 

A fundação que ninguém vê

Conheço esta confusão por dentro. Geri equipas com o sono interrompido durante semanas, se não mesmo meses. Tomei decisões importantes sob exaustão acumulada. Coloquei-me sempre em último, convencida de que era assim que se construía uma empresa, de que nada se consegue sem este esforço hercúleo, afinal é esta a crença que nos ensinam desde crianças, nas escolas, é o que a sociedade nos exige. Foi assim até que o corpo cobrou. E quando cobrou, não foi só a mim que afetou, foi tudo aquilo que tinha sido construído à volta da minha disponibilidade permanente, foi à minha família, aos meus filhos.

Foi nesse processo de me recompor que percebi o que devia ter percebido muito antes, cuidar de mim própria não é um luxo, nem uma forma de egoísmo, nem uma pausa entre tarefas mais importantes. É uma decisão estratégica. Talvez a mais importante das que tomo enquanto líder.

Felicidade dentro de uma empresa começa quase sempre num lugar pouco confortável de admitir, na relação que cada líder tem consigo próprio, no que ele ou ela aceita ou não aceita exigir-se, nos limites que sabe ou não sabe colocar-se, no espaço que reserva ou não reserva para se reconstruir.

Isto não se aprende em formação, aprende-se ao parar. E parar é, para muitos de nós que lideramos, a coisa mais difícil de aprender.

 

O que muda quando o líder se constrói também a si

Da minha própria reconstrução e dos anos que se seguiram, ao acompanhar outros empresários e líderes, fui percebendo três movimentos que distinguem, na prática, quem cuida do bem-estar das suas equipas de forma estrutural e quem o faz apenas à superfície.

O primeiro tem a ver com o ritmo. Bem-estar não convive bem com a urgência permanente. Quando tudo é sempre para ontem, quando o líder responde a emails às duas da manhã e isso é valorizado, mesmo que de forma subtil, não há benefício, programa ou sessão de yoga ao fim do dia que compense. O ritmo de uma empresa é dado por quem lidera e vivido por quem constrói. Tratá-lo como um recurso de gestão, e não como uma fatalidade, é uma das decisões mais maduras que um líder pode tomar.

O segundo é o exemplo silencioso. As pessoas, dentro das equipas, não fazem o que lhes dizemos, fazem o que veem. Se quem lidera almoça à secretária a olhar para o telemóvel, é o que a equipa também fará. Se volta de férias com cara de quem nem férias teve, ninguém na empresa acredita que pode descansar a sério. Cuidar de si próprio em frente da equipa, sem performance e sem teatro, é um dos atos de liderança mais subestimados que conheço.

O terceiro é mais subtil, mas é talvez o mais importante. Tem a ver com construir uma cultura onde as pessoas não precisem de gastar energia a esconder quem são para conseguirem caber. Onde as diferenças, de ritmo, de processamento, de circunstância de vida, de etapa pessoal, sejam tratadas como informação útil e não como problema a contornar. Esse esforço invisível de adaptação permanente é, na minha experiência, um dos maiores drenos de bem-estar dentro das organizações. E é, simultaneamente, o que menos aparece nos inquéritos de clima, porque ninguém tem a coragem de o nomear.

 

Voltar às fundações

Há uma frase que repito sempre que me convidam a falar sobre estes temas, e que volto a escrever aqui porque sintetiza o que aprendi: construímos casas, construímos empresas, construímos carreiras, construímos equipas, de forma sustentável, para que não se esgotem recursos, mas esquecemo-nos quase sempre de construir, com o mesmo cuidado, aquilo que está debaixo de tudo isso, nós próprios.

Não há programa de bem-estar empresarial que substitua um líder que se conhece, que descansa, que cuida do seu próprio interior, que não confunde dedicação com desgaste. Tudo o resto vem depois disto. E só faz sentido quando assenta numa fundação verdadeira.

A felicidade dentro das nossas empresas não vai melhorar enquanto continuarmos a tratá-la como um destino para os outros. Vai melhorar quando, cada um de nós que lidera, decidir começar pelo princípio.

 

Pela obra que nunca podemos terceirizar.

Construirmo-nos a nós próprios, com propósito, com sentido, afinal somos nós os primeiros que temos de ser sustentáveis

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