No âmbito do Dia Internacional da Família, importa recentrar o debate público sobre o papel estruturante da família enquanto núcleo vital da sociedade. Mais do que uma unidade social, a família é o primeiro território emocional do indivíduo — o espaço onde se aprende a sentir, a comunicar, a vincular e a existir em relação com o outro. É, por isso, determinante na promoção da saúde mental, no desenvolvimento psicológico e no bem-estar global ao longo da vida. É neste contexto que a Revista Pontos de Vista volta a falar com a nossa especialista e parceira Domingas Tavares Francisco, Socióloga | Terapeuta Integrativa e Sistémica e Fundadora e Diretora Geral do Colégio Luar do Saber em Angola. Saiba mais!
Na sua perspetiva, qual é hoje o papel da família na promoção da saúde psicológica dos indivíduos?
Atualmente, a família perdeu esse lugar primordial de segurança emocional e de acolhimento. Deveria ser o começo da conversa, do acompanhamento, do incentivo, todavia, os traços que norteiam as componentes educativas de grande parte das famílias, ainda, estão muito centrados nas metas, no desempenho escolar e na “preparação para o futuro” dos filhos. A compreensão e a gestão das emoções ainda são um quadro sem cor e muito distante da realidade.
De que forma a família influencia o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes?
De forma muito objetiva, a família será sempre a base, é a estrutura, é onde a vida pessoal, social e a visão sobre o mundo têm início. A influência familiar começa com o comportamento modelo, com o ambiente predominante, com as palavras mais proferidas e com a forma como as questões emocionais são geridas.
Quais são os principais desafios psicológicos que as famílias enfrentam atualmente?
O enigma que envolve as dimensões psicológicas e emocionais não são novas no seio familiar. Aliás, são o seu maior desafio, na minha ótica. Compreender o papel de cada emoção e o impacto que elas têm na personalidade de cada criança é, sem sombra de dúvidas, o “calcanhar de aquiles” de grande parte das famílias. Os adultos, as crianças, assim como os adolescentes assimilam de forma dissemelhante a frustração, a raiva, o medo, a irritabilidade ou a coragem. Por esse motivo, o olhar para essas questões deve ser singular e enquadrado, tanto no ambiente familiar predominante, como nos aspetos de personalidade do indivíduo.
Como podem os pais/cuidadores promover um ambiente emocionalmente seguro?
Esse trabalho começa, em primeiro lugar, na segurança emocional e acolhimento que os educadores exercem sobre si mesmos. Os pais e educadores são produtos de ambientes, na maior parte dos casos, emocionalmente inseguros, com níveis de repressão e de obediência cega muito vincados. Hoje, enquanto pais, o desafio maior será autorregularem-se, enquanto ajudam os seus filhos (as) a compreenderem a função de cada emoção e sentimento. Habitualmente, os filhos com comportamentos desafiantes são, quase que automaticamente, referenciados para acompanhamento psicológico. Contudo, são poucos os casos em que os seus progenitores são seguidos por um terapeuta ou psicólogo.
Que sinais devem alertar para dificuldades psicológicas no contexto familiar?
A ausência de comunicação fluída, amorosa e assertiva, a falta de contato nos olhos, a inexistência de abraços sinceros e demorados, a privação de convivência espontânea e sem qualquer expetativa ou cobrança, crianças e adultos constantemente doentes, sobrecarga, exaustão física e emocional, dificuldades em dormir são alguns dos sinais fortes de desconforto psicológico no seio familiar.
Qual a importância das primeiras relações familiares no desenvolvimento da criança?
São a base, são o primeiro olhar que as crianças levarão para o mundo. São o alicerce da construção dos valores, do reforço de determinados aspectos da personalidade, são a maior verdade na vida de uma criança. Antes de ir para o mundo, antes de se relacionar com o outro, a criança inicia a sua vida social em casa, com aqueles que tem como referência, portanto, as primeiras relações familiares são o início da vida social de todo o indivíduo.
Como podem os pais apoiar o desenvolvimento saudável durante a adolescência?
O acompanhamento saudável de um adolescente começa na primeira infância, onde existe maior maleabilidade comportamental e a possibilidade de se construir vínculos mais fortes. Quando há uma quebra na transição para a fase da adolescência, o risco de afastamento é maior. Todavia, ao adotar uma postura empática e de não julgamento, o pai ou mãe podem ter uma oportunidade de reconstruir esses laços, no sentido de atenuar o caos.
Que impacto têm os conflitos familiares no desenvolvimento psicológico dos jovens?
Têm um impacto tremendo e, em muitos casos, irreversível. Afetam, de forma direta, o modo do jovem relacionar-se consigo mesmo e com os outros. Interfere grandemente no modo como o jovem adulto vai para a vida lá fora, no relacionamento amoroso, nas amizades, no trabalho. Os conflitos podem atuar como um reforço de traços de personalidade desafiantes, podem desencadear ou acelerar estados de ansiedade, depressão e até mesmo violência. Quando a base é construída de forma desregulada e desestruturada, o topo tem maior probabilidade de se manter instável.
De que forma fatores económicos e sociais afetam o equilíbrio familiar?
A saúde mental da família também passa pelo equilíbrio económico, social e financeiro, especialmente, em sociedades capitalistas e altamente globalizadas como a nossa, que dependem fortemente do poder de compra para sobreviver. Fatores como estes afetam a perceção de segurança individual, social e grupal, afetam a noção de crescimento e de continuidade geracional, afetam o agora e o futuro e, em alguns casos, chegam mesmo a impedir o avanço e a concretização de sonhos e de autorrealização pessoal, familiar e profissional.
Que mudanças recentes têm maior impacto nas dinâmicas familiares?
São inúmeras, são gritantes, estão visíveis, mas em certa medida normalizadas. A (des)estruturação do mercado de trabalho introduziu alterações profundas nas distintas formas de organização da vida familiar: a imposição de horários de trabalho cada vez mais longos; a cultura do “presentismo”; o aumento das famílias monoparentais e reconstituídas; a desvalorização do trabalho doméstico (e a falta de apoio a pessoas dependentes); as desigualdades salariais e de oportunidades entre homens e mulheres; os processos de migração; a diminuição dos rendimentos das famílias; o fraco e desigual alcance das políticas sociais públicas.
Quando deve uma família procurar apoio psicológico?
Indivíduo algum deveria procurar apoio psicológico somente quando há sinais. Essa atitude está, de tal modo, normalizada que quem chega a procurar por um(a) psicólogo(a) é rotulado como fraco ou incapaz. A nossa mente e corpo não estão preparados para a carga física e emocional que temos vindo estandardizar. Tão pouco, a nossa educação prevê o acompanhamento emocional de forma naturalizada. Por esses motivos e outros, a psicoterapia deveria ser parte do currículo escolar e profissional. Todavia, diria que uma família (todos os seus elementos) deve procurar por esse género de acompanhamento quando há sinais evidentes de falta de comunicação, desequilíbrio emocional, violência, falta de empatia ou qualquer outra alteração das estruturas e normal funcionamento dos seus processos internos.
Que estratégias podem ajudar a fortalecer os vínculos familiares?
As problemáticas que, na atualidade, envolvem as famílias e as suas dinâmicas internas são demasiado profundas, aflitivas e extenuantes que, do meu ponto de vista, não se compadecem com estratégias simplicistas. O tema é grave e urgente.
A família é a base, é onde tudo começa; tudo o que dela nasce, vai para o mundo, do jeito que for e afeta todos os setores da vida pública e social. A família não precisa de estratégias; aquele casal que um dia se juntou e se multiplicou deveria conseguir responder algumas destas questões com coerência, verdade e sem hesitação: para quê que continuamos a coabitar? o que é que realmente nos move como família? o que é que nos distingue como família? de onde viemos e para onde queremos caminhar? somos verdadeiramente felizes ou só estamos a cumprir expetativas alheias? Toda a família deveria ter um plano de vida comum, pelo qual todos os seus membros convergem, de igual modo, para o concretizar. Definir um plano de vida emocional, material, financeiro, de valores e profissional deveria ser a base de ação de todos os elementos, miúdos e graúdos, adaptado, evidentemente, ao nível de perceção de cada um.
A estratégia não pode ser só pagar as contas e ter um teto, isso chama-se sobreviver ao caos.
Qual o papel dos profissionais de saúde mental no apoio às famílias?
Estes profissionais exercem, acima de tudo, um papel de suporte e de regulação emocional e comportamental, ao ajudarem na compreensão dos mecanismos internos que afetam a mente humana e que, por sua vez, interferem na conduta individual e social dos seus elementos. São também um excelente barómetro, na medida em que, com as suas ferramentas e técnicas, atuam na construção de uma visão mais esclarecida, consciente e ajustada a cada realidade familiar.
Do meu ponto de vista, deveriam ser os primeiros a serem consultados, em casos de falta de regulação emocional ou outro género de obstáculos que as famílias vão enfrentando ao longo da sua convivência. Diria que são um excelente ponto de discernimento.
Que responsabilidades têm as famílias na promoção do bem-estar psicológico?
Todos os profissionais, pessoas, amigos que conhecemos nasceram de uma família. E a forma como foram educados, o ambiente em que foram criados, as palavras que ouviram ressoam, com maior ou menor intensidade na sua vida social e pessoal e, notadamente, na sua autoimagem, no modo como encaram os desafios e as oportunidades.
Que género de homem ou mulher quero, um dia, colocar no mundo? Se os educadores perceberem a responsabilidade que têm em mãos, certamente, que adaptariam as suas estratégias educativas.
A responsabilidade é enorme, pois é a partir dela que toda a nossa sociedade é edificada
Considera que existe suficiente sensibilização para os direitos das famílias?
Estamos na era do conhecimento e da acessibilidade informacional. Apesar disso, também estamos na era da desinformação, das interpretações enviesadas, de lutas ego e partidárias.
A família saiu do centro e passou a ser acessório. Quando o objetivo passa a ser individual, da procura pela realização pessoal, onde os planos de vida familiar não encontram espaço para coexistir, toda a informação sobre os direitos das famílias perde força e visibilidade. A questão central não é ausência de informação ou sensibilização e, sim, as ambições pessoais que se sobrepuseram às das famílias.
Que mensagem gostaria de deixar às famílias neste Dia Internacional da Família?
É simples, mas complexa e altamente libertadora: construam um plano de vida comum, onde cada elemento, encontre espaço para integrar as suas aspirações pessoais. Aprendam a ouvir as crianças, elas são um excelente laboratório de autodesenvolvimento e de autoconhecimento.
Não vivam para cumprir expetativas, não vivam somente para pagar contas ou para “economizar para o futuro”. Criem memórias, abracem-se, não se agarrem tantos às regras. A vida é sobre fluidez, amor e empatia. Não se percam de vista.


