No Dia Internacional da Família, importa recordar algo simples e profundamente verdadeiro: antes de qualquer escola, profissão ou sociedade, é na família que aprendemos a sentir, a pensar e a relacionar-nos. A família é o primeiro “ambiente psicológico” de cada indivíduo — e continua a ser, ao longo da vida, um dos mais determinantes. À Revista Pontos de Vista Daniel Mira, psicólogo Diretor Clínico da equipa PsiVita, promovendo esta uma abordagem integrada e personalizada no apoio às famílias, composta por especialistas em Psicologia Clínica do Adulto, Psicologia Clínica Infantil, Neuropsicologia e Coaching, através de consultas em Português e Inglês, com gabinetes em Loures, Lisboa e Oeiras.
Qual é hoje o papel da família na promoção da saúde psicológica?
A família continua a ser o principal fator protetor da saúde mental. É nela que se constroem os primeiros modelos internos de segurança, confiança e regulação emocional. Uma família funcional não é perfeita — é suficientemente estável, previsível e afetivamente disponível para permitir que cada membro exista com autenticidade. A tónica deve ser posta no suficientemente bom, em detrimento de um perfecionismo angustiante. A ideia da parentalidade suficientemente boa, como proposta por Donald Winnicott.
Como influencia o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes?
Através da qualidade das relações. Sabe-se que crianças que crescem com cuidadores responsivos desenvolvem maior capacidade de autorregulação, empatia e resiliência. A forma como um adulto manifesta as suas emoções e responde às emoções de uma criança molda, literalmente, a forma como o seu cérebro aprende a lidar com o mundo.
Quais os principais desafios psicológicos atuais?
Alguns dos desafios enfrentados pelas famílias atualmente são: a sobrecarga emocional, stress financeiro, falta de tempo, isolamento social e exposição digital excessiva. Muitas famílias vivem em “modo sobrevivência”, sem tempo nem espaço para conexão emocional.
Como promover um ambiente emocionalmente seguro?
Através de uma presença consistente, validação emocional e comunicação aberta. Um ambiente seguro não elimina conflitos — permite que eles sejam vividos sem medo de rejeição ou abandono. Isto é particularmente relevante na fase da adolescência, em que surge uma maior exploração da identidade e afirmação da individualidade, processos que implicam maior insegurança e vulnerabilidade.
Quais os sinais de alerta para as dificuldades psicológicas?
As dificuldades psicológicas geralmente são acompanhadas de mudanças persistentes no humor, isolamento, irritabilidade, alterações no sono ou apetite, dificuldades escolares ou regressões comportamentais. Muitas vezes, a criança expressa no comportamento aquilo que a família sente no silêncio.
Qual a importância das primeiras relações familiares?
É fundamental. As primeiras relações são a base do que poderá ser uma vinculação segura ou insegura, que irá influenciar todas as relações futuras. A primeira relação que desenvolvemos é com o nosso cuidador principal, seja a mãe, o pai, os avós ou qualquer outra pessoa. O modelo dessa relação inicial irá servir de referência para outras relações. Sentir-se visto, protegido e compreendido é o alicerce do desenvolvimento saudável.
Como apoiar durante a adolescência?
Equilibrando autonomia e presença. O adolescente precisa de espaço para se diferenciar, mas também de saber que existe uma base segura a que pode regressar. Mais do que controlar, importa acompanhar. A consistência é critica, já desde a pré-adolescência, a criança e o jovem precisa de saber claramente quais são as regras da casa e da família que são negociáveis (as condições da negociação), e quais não são negociáveis.
Quais os impactos de conflitos familiares nos jovens?
Na minha prática, gosto de diferenciar entre confrontos e conflitos. Confrontos não são, por si, prejudiciais — a questão está na forma como são geridos. Em qualquer relação, os confrontos são naturais e até desejáveis, no sentido em que duas pessoas podem-se confrontar com pontos de vista, opiniões ou interpretações diferentes. O confronto é na realidade o encontro da diferença. Qualquer confronto pode escalar para um conflito, mas não é obrigatório que aconteça. Ambientes marcados por hostilidade, intolerância à diferença, silêncio emocional ou imprevisibilidade aumentam o risco de ansiedade, depressão, dificuldades relacionais e comportamentos de risco.
Como os fatores económicos e sociais afetam a família?
A instabilidade financeira, precariedade laboral, horários de trabalho muito extensos, e desigualdades sociais geram stress crónico, que compromete a disponibilidade física e emocional dos cuidadores. Assim, o contexto pode influenciar diretamente a qualidade das relações.
Que mudanças recentes impactam mais?
A aceleração do ritmo de vida, o aumento do custo de vida, a digitalização das relações e a transformação dos modelos familiares. Hoje há mais diversidade — o que é positivo — mas também maior exigência e menos suporte comunitário. Antigamente dizia-se que era preciso uma aldeia para criar uma criança, as famílias eram maiores, viviam mais próximas e, frequentemente, os avós tinham mais disponibilidade para apoiar os filhos com a criação dos netos. Atualmente, as famílias tendem a ser mais pequenas, viver mais dispersas, com os seus elementos mais isolados e os avós a trabalhar cada vez até mais tarde. Este contexto tende a aumentar a pressão sobre os pais.
Quando se deve procurar apoio psicológico?
Quando falamos em apoio psicológico para as crianças, jovens ou para os pais, podemos pensar em prevenção e intervenção. Em prevenção, identificam-se as necessidades ou fragilidades e desenvolvem-se estratégias que ajudem a prevenir crises ou ruturas. Quando o sofrimento se torna persistente ou começa a interferir de forma significativa no funcionamento diário, poderá ser necessária uma intervenção estruturada que ajude a reduzir a tensão, o mal-estar ou conflito com maior brevidade. Procurar ajuda não é sinal de falha — é um ato de responsabilidade e cuidado. Também é importante referir que a psicologia, não é apenas para quem tem uma queixa clínica (depressão, ansiedade, burn-out), mas também numa lógica de coaching psicológico ou desenvolvimento pessoal. Cada vez mais temos pessoas que nos procuram para desenvolver competências interpessoais, de comunicação, de assertividade, de gestão de conflitos, ou orientação profissional.
Existem estratégias para fortalecer vínculos familiares?
Tempo de qualidade, escuta ativa, rituais familiares, expressão emocional e capacidade de reparação após conflitos. Relações saudáveis constroem-se na repetição de pequenos momentos. Não são precisos grandes gestos ou eventos, sabe-se que pequenos rituais familiares (noite de cinema em casa, pequeno-almoço especial de fim de semana), repetidos consistentemente desempenham um papel significativo no desenvolvimento e manutenção dos vínculos familiares.
Que papel identifica nos profissionais de saúde mental?
Ajudar a família a compreender os seus padrões, melhorar a comunicação e desenvolver estratégias mais adaptativas. O terapeuta não substitui a família — ajuda-a a funcionar melhor.
Quais as responsabilidades das famílias no bem-estar psicológico?
Garantir proteção, cuidado emocional e condições para o desenvolvimento saudável. Isto inclui não apenas suprir necessidades básicas, mas também promover um ambiente de respeito e segurança psicológica. A família deve sempre ser a base segura, a partir da qual os seus elementos partem para a exploração do mundo e da vida. A família é o ecossistema primário onde cada ser humano surge, e se desenvolve, um espaço em que cada elemento inevitavelmente contribui com os seus elementos positivos e negativos. Em que influencia e é influenciado.
Existe sensibilização suficiente?
Ainda não. Apesar de maior abertura para falar de saúde mental e do desenvolvimento humano, persiste uma falta de literacia psicológica e de acesso a recursos. Investir nas famílias é investir na sociedade.
Que mensagem pode apresentar para as famílias?
Nenhuma família é perfeita — e não precisa de o ser. O que verdadeiramente importa não identificar ou mesmo evitar erros, mas a capacidade de reparar, de escutar e de voltar a aproximar-se. Somos pais imperfeitos a criar filhos imperfeitos para viver num mundo imperfeito, a meta não é a perfeição, mas sim a aceitação e a aprendizagem para lidar com as imperfeições.
A família é o lugar onde aprendemos que podemos falhar e, ainda assim, continuar a pertencer, ainda assim, ser amados.
Num mundo cada vez mais exigente e acelerado, talvez o maior presente que uma família pode oferecer seja simples — presença, tempo e disponibilidade emocional.
Porque é nesse espaço que se constrói algo invisível, mas essencial: a base psicológica sobre a qual cada pessoa irá viver toda a sua vida.


