“Nunca quis parecer aquilo que não sou”

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Num momento especial em que a revista assinala 150 edições e 16 anos de percurso, celebramos histórias que refletem dedicação, autenticidade e visão no mundo dos negócios. Sónia Melo, fundadora do projeto Chez Sónia – Azores Private Chef, é disso exemplo, de como a paixão pode evoluir para um conceito diferenciador e altamente personalizado no universo da gastronomia. Mais do que cozinhar, Sónia Melo cria experiências. Leva a cozinha até casa dos clientes e transforma cada refeição num momento único, onde a proximidade, a escuta e a atenção ao detalhe são tão importantes quanto os sabores apresentados.

 

Para quem ainda não a conhece, como surgiu o projeto “Chez Sónia” e o que a motivou a seguir o caminho de Private Chef?

O nome e projeto “Chez Sónia” nasce de um percurso muito pessoal, que começou há cerca de 18 anos, com um blog de culinária. Na altura, cozinhar era uma forma de partilha, de descoberta e também de superação. O que começou por ser uma curiosidade foi ganhando espaço e consistência, até se transformar numa paixão e, mais tarde, numa profissão.

O serviço de Private Chef surgiu de forma natural. Percebi que havia aqui um enorme potencial para criar experiências gastronómicas mais íntimas e personalizadas, levando a cozinha até à casa dos clientes. Mais do que servir uma refeição, a ideia era criar momentos. Momentos à mesa, com tempo, história, sabor e hospitalidade.

 

Quais foram os principais desafios no início da sua jornada e como os superou?

Um dos maiores desafios da minha caminhada foi explicar o próprio conceito de Private Chef. Durante muito tempo, existia a ideia de que este serviço era algo inacessível, demasiado formal ou reservado apenas para um público muito específico. Foi necessário comunicar, educar e mostrar que uma experiência de Private Chef pode ser sofisticada, sim, mas também próxima, descontraída e adaptada a diferentes contextos.

Outro desafio foi construir uma marca praticamente do zero, num mercado onde este conceito ainda não estava muito desenvolvido. Tive de aprender a gerir comunicação, clientes, orçamentos, logística, compras, planeamento, execução e, claro, expetativas. No fundo, tive de perceber que ser chef privada é muito mais do que cozinhar. É ser gestora, anfitriã, comunicadora e, muitas vezes, solucionadora de problemas em tempo real.

Com persistência, autenticidade e muito trabalho, consegui superar. Nunca quis parecer aquilo que não sou.

 

De que forma a comunicação influencia a relação com os seus clientes?

A comunicação é essencial no meu trabalho. Antes de qualquer experiência, há sempre uma fase de conversa, escuta e interpretação. Cada cliente tem gostos, expetativas, restrições alimentares, memórias, preferências e até receios diferentes. Saber ouvir é tão importante como saber cozinhar.

Considera que a sua marca pessoal é um fator-chave para o sucesso do seu negócio? Porquê?

Sim, sem dúvida. No meu caso, a marca pessoal e o negócio estão muito ligados. O cliente não contrata apenas um menu; contrata uma experiência conduzida por mim. A forma como comunico, recebo, cozinho e conto uma história faz parte da identidade do nosso projeto.

Não tento criar uma imagem artificial. Tento transmitir aquilo que sou: alguém que gosta de receber, de cozinhar com alma e de criar experiências memoráveis. Num serviço como este, essa confiança na pessoa por detrás da marca é tem mesmo que existir.

 

Como utiliza a comunicação, digital ou presencial, para diferenciar os seus serviços?

No digital, procuro mostrar não apenas o resultado, mas também o conceito por detrás do serviço. Uso as redes sociais, o site e outros canais para explicar o que é uma experiência de Private Chef, desmistificar ideias erradas e mostrar que cada serviço é pensado ao detalhe.

Presencialmente, a comunicação acontece de forma ainda mais natural. Está na forma como acolho os clientes, como explico um prato, como falo dos ingredientes ou como adapto o ritmo do serviço ao ambiente da mesa.

Mesmo num negócio mais personalizado, como define o seu estilo de liderança?

Defino como próximo, intuitivo e muito assente no exemplo. Mesmo sendo um negócio personalizado, há sempre várias pessoas e fatores envolvidos: clientes, fornecedores, parceiros, espaços, equipas de apoio em alguns eventos e, naturalmente, a gestão de todo o processo.

Gosto de liderar com clareza, mas também com sensibilidade. Acredito que liderar não é impor; é orientar, antecipar, resolver e inspirar confiança.

 

Que competências considera essenciais para liderar com sucesso atualmente?

Acredito que hoje é essencial ter coerência, saber comunicar, escutar e adaptar. A liderança atual exige inteligência emocional, capacidade de decisão, organização e empatia. Não basta ter uma boa ideia ou dominar uma técnica. É preciso saber lidar com pessoas, contextos e imprevistos.

 

Como gere expetativas e cria experiências memoráveis para os seus clientes?

Tem de ser através de uma comunicação muito clara desde o início. Explico o conceito, o que está incluído, como funciona o serviço, quais são as possibilidades e também os limites. Essa transparência evita mal-entendidos e cria uma relação de confiança.

Para criar experiências memoráveis, procuro ir além do prato. A comida é central, mas há muitos outros elementos: o ritmo do serviço, a apresentação, a conversa, a ligação aos produtos locais, o ambiente e a forma como os clientes se sentem. Uma experiência memorável não é apenas aquilo que se come; é aquilo que se recorda depois.

 

Quais são os pilares fundamentais na gestão do seu negócio?

Diria que são organização, qualidade, personalização, comunicação e sustentabilidade financeira. Num negócio como o meu, cada serviço é diferente, o que exige uma gestão muito cuidada.

É necessário planear menus, compras, deslocações, timings, custos, fornecedores, logística e preparação. Ao mesmo tempo, é preciso manter uma identidade forte e garantir que a experiência corresponde à expetativa criada.

 

Como equilibra a criatividade culinária com a eficiência e sustentabilidade do negócio?

Esse é um dos maiores desafios. A criatividade é essencial, mas precisa de estar alinhada com a realidade do negócio. Um menu pode ser bonito e interessante, mas também tem de ser viável em termos de tempo, custo, execução e contexto.

Procuro trabalhar com produtos locais e sazonais sempre que possível e evitar desperdício. Também tento criar menus que sejam especiais, mas exequíveis. A sustentabilidade de um negócio não está apenas nos ingredientes; está também na forma como se gere tempo, energia, recursos e expetativas.

 

Que ferramentas ou estratégias utiliza para manter a consistência e qualidade do serviço?

Utilizo fichas técnicas, listas de compras, controlo de custos, menus estruturados e uma comunicação muito detalhada com o cliente antes de cada serviço. A consistência nasce da preparação.

Também valorizo muito a experiência acumulada. Cada serviço ensina alguma coisa. Há sempre detalhes a melhorar, processos a afinar e aprendizagens a integrar.

 

Na sua opinião, qual é a ligação entre comunicar bem e liderar eficazmente?

Não acredito numa liderança eficaz sem boa comunicação. Comunicar bem é dar orientação, criar confiança e alinhar expetativas. Uma liderança pouco clara gera insegurança; uma comunicação transparente gera tranquilidade.

No meu trabalho, isto é particularmente importante porque cada cliente entra numa experiência muito personalizada. Quando comunico bem, consigo liderar o processo de forma natural, desde o primeiro contato até ao fim do serviço.

 

Pode partilhar um exemplo em que a comunicação foi determinante para o sucesso de uma experiência ou projeto?

Há vários exemplos, mas penso sobretudo nos serviços em que os clientes chegam com muitas ideias, muitos pratos ou expetativas muito diferentes entre si. Nestes casos, a comunicação é determinante para orientar a escolha, explicar o que faz sentido, ajustar quantidades e construir um menu equilibrado.

Já aconteceu ter de explicar a um cliente que havia comida a mais para o número de pessoas ou que determinado menu poderia tornar a experiência demasiado pesada. Esta conversa, quando feita com cuidado e profissionalismo, não é uma limitação; é uma forma de proteger a experiência. No final, o cliente percebe que não se trata apenas de vender mais, mas de criar o melhor momento possível.

 

Que tendências identifica no setor da gastronomia personalizada e experiências privadas?

Vejo uma procura crescente por experiências autênticas, privadas e feitas à medida. As pessoas querem mais do que uma refeição fora de casa. Querem viver algo diferente, com significado e conforto.

Há também uma valorização crescente dos produtos locais, da sazonalidade, das histórias por detrás dos pratos e de experiências mais exclusivas.

 

Como vê a evolução do papel do Private Chef nos próximos anos?

Acredito que vai continuar a crescer e a ganhar reconhecimento. Cada vez mais, um Chef privado será visto não apenas como alguém que cozinha, mas como um criador de experiências, um curador gastronómico e um elo entre o cliente e a cultura local.

Vejo também uma evolução no sentido de serviços mais personalizados, mais conscientes e mais integrados no turismo de qualidade. Penso que podemos ter um papel muito importante na valorização dos destinos.

 

Que conselho daria a quem pretende iniciar um negócio próprio na área da gastronomia?

Que comece com verdade, mas também com estrutura. A paixão é fundamental, mas não chega. É preciso estudar, planear, fazer contas, perceber o mercado, comunicar bem e estar preparado para trabalhar.

Diria também para não copiar caminhos. Construam uma identidade própria, respeitem o cliente, valorizem o vosso trabalho e não tenham medo de começar pequeno. Muitas vezes, os projetos mais consistentes crescem passo a passo.

 

O que a continua a inspirar diariamente no seu trabalho?

Inspira-me o contato com as pessoas, os produtos, as histórias e as memórias criadas. Inspira-me perceber que uma refeição pode marcar uma viagem, uma celebração ou um momento especial na vida de alguém.

Também me inspira a possibilidade de continuar a crescer. A cozinha ensinou-me que estamos sempre a aprender. Há sempre algo novo: uma técnica a melhorar, uma história para contar ou uma forma diferente de receber. E, acima de tudo, inspira-me saber que aquilo que começou de forma simples transformou-se num projeto com identidade, reconhecimento e alma.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores nesta edição especial?

Gostaria de deixar uma mensagem de valorização da autenticidade. Num mundo empresarial cada vez mais rápido, competitivo e digital, acredito que aquilo que nos diferencia continua a ser profundamente humano: a forma como comunicamos, lideramos, recebemos e criamos confiança.

O sucesso de um negócio não se constrói apenas com números ou estratégias. Constrói-se também com verdade, consistência, capacidade de adaptação e respeito pelas pessoas.

Quando fazemos com verdade, nada acontece por acaso. E é essa a grande aprendizagem do meu percurso.

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Revista Pontos de Vista Edição 150

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