Num contexto industrial cada vez mais exigente, onde a competitividade deixou de assentar apenas no custo e passou a depender de conhecimento técnico, eficiência energética e capacidade de adaptação, setores críticos como energia, oil & gas e indústria pesada exigem soluções robustas, fiáveis e cada vez mais sustentáveis — um desafio que abre espaço à inovação e à especialização. Nesta entrevista à Pontos de Vista, Bruno Valverde Cota, CEO da OPTIMISTIC, reflete sobre o papel da indústria portuguesa no panorama global, os desafios da transição energética — com destaque para o hidrogénio — e a forma como a inovação, a manutenção e a eficiência energética se tornaram pilares estratégicos para garantir competitividade e continuidade operacional.
Como olha para a capacidade da indústria portuguesa competir em mercados internacionais altamente técnicos?
A indústria portuguesa tem hoje condições reais para competir globalmente, sobretudo quando assenta em engenharia especializada e capacidade de adaptação. O que vemos é uma evolução clara: passámos de fornecedores locais para parceiros tecnológicos com visão internacional. O talento existe, o know-how também. O desafio está em projetar essa capacidade para mercados exigentes e altamente regulamentados.
Que fatores distinguem uma empresa industrial que consegue ganhar confiança fora do seu mercado de origem?
Confiança constrói-se com consistência técnica, cumprimento de prazos e capacidade de resposta. Em setores críticos, como Energia ou Oil & Gas, os clientes procuram parceiros que garantam flexibilidade e fiabilidade absoluta. A personalização das soluções e o acompanhamento pós-venda são igualmente determinantes.
Até que ponto conhecimento técnico, especialização e capacidade de resposta são hoje vantagens competitivas decisivas?
São absolutamente centrais. A competitividade industrial deixou de ser apenas uma questão de preço. Hoje, quem domina o conhecimento técnico e consegue responder rapidamente às necessidades específicas do cliente tem uma vantagem clara. É isso no nosso caso que permite transformar projetos complexos em soluções eficientes.
Que papel pode ter uma empresa como a OPTIMISTIC na afirmação da engenharia industrial portuguesa além-fronteiras?
O nosso papel é demonstrar, na prática, que a engenharia portuguesa pode competir ao mais alto nível. A OPTIMISTIC posiciona-se como uma empresa que combina precisão mecânica com inteligência digital, contribuindo para uma nova geração de indústria mais eficiente e sustentável. Somos a única empresa do nosso sector a expor nas duas maiores feiras de energia a nível global, a Gastech e a ADIPEC, o que muito nos orgulha e é uma demonstração que Portugal tem capacidade para competir com grandes multinacionais do setor com mais de 100 anos de actividade.
Que importância têm compressores, ventiladores e sopradores no funcionamento de setores industriais críticos?
São equipamentos absolutamente essenciais. Estão no centro dos processos industriais, desde refinação a produção química ou mineração, entre outros. Sem sistemas de compressão eficientes, simplesmente não há continuidade operacional.
Como pode a otimização de sistemas de compressão contribuir para reduzir consumos energéticos e custos operacionais?
Através de engenharia otimizada e controlo digital. Hoje conseguimos monitorizar e ajustar o desempenho em tempo real, reduzindo perdas energéticas e aumentando eficiência. Em muitos casos, é possível atingir reduções significativas no consumo energético.
Que erros continuam a ser frequentes quando as empresas desvalorizam manutenção e eficiência?
O maior erro é encarar os equipamentos como ativos estáticos. A ausência de manutenção preventiva e diagnóstico leva a falhas, paragens e custos muito superiores no médio prazo. A indústria ainda reage demasiado, quando deveria antecipar. Nós temos as soluções e trabalhamos em conjunto com os nossos clientes demonstrando as vantagens de uma manutenção preventiva. Mas também dispomos de soluções avançadas de reparação através de engenharia inversa.
Porque é que a eficiência energética deve ser encarada como decisão estratégica?
Porque impacta diretamente a competitividade. Reduz custos, melhora desempenho e contribui para objetivos ambientais. Deixou de ser uma opção técnica para passar a ser um fator estratégico.
Como olha para o papel do hidrogénio no futuro da transição energética?
O hidrogénio será um elemento-chave, sobretudo em aplicações industriais onde a eletrificação não é suficiente. Mas exige soluções técnicas robustas e eficientes. Está a fazer o seu caminho e nós a participar ativamente nessa construção.
Que importância têm os sistemas de compressão na cadeia de valor do hidrogénio?
São fundamentais. O hidrogénio exige compressão em várias fases do processo, o que coloca desafios técnicos relevantes ao nível de materiais, segurança e eficiência.
Que desafios técnicos existem com novas fontes de energia?
Maior exigência operacional, condições extremas e necessidade de precisão. Trabalhar com hidrogénio ou captura de carbono implica engenharia altamente especializada.
Como pode a engenharia contribuir para a descarbonização?
Tornando os processos mais eficientes. A redução de emissões passa tanto por novas energias como acima de tudo pela otimização dos sistemas existentes. Não se pode cortar radicalmente com os sistemas que existem, é um processo evolutivo que demora o seu tempo.
Que importância tem a internacionalização na estratégia da OPTIMISTIC?
É central. Desde o início que assumimos uma vocação global. Exportamos 99% da nossa produção. Hoje estamos presentes em vários mercados como Médio Oriente, India, Europa de Leste, Europa Central, Portugal e Espanha e continuamos a expandir a nossa atividade, nomeadamente na Ásia, mas também América do Sul e África.
Como avalia mercados como Angola?
São mercados com enorme potencial, sobretudo ao nível energético e industrial. Exigem presença local ou parcerias estratégicas e capacidade de adaptação.
Que desafios surgem em geografias diferentes?
Logística, enquadramento regulatório e diferenças técnicas. Mas também são oportunidades para aprender e criar soluções mais robustas.
Como se constrói confiança internacional?
Com proximidade, conhecimento técnico e consistência na execução.
Como pode a engenharia contribuir para objetivos ESG?
De forma concreta, através da eficiência energética e redução de emissões. Equipamentos mais eficientes têm impacto direto no desempenho ambiental.
Como se equilibra sustentabilidade e produtividade?
Com tecnologia. Hoje é possível ser mais sustentável e mais eficiente ao mesmo tempo.
Os clientes estão mais atentos a estes temas?
Claramente. Existe uma maior consciência do impacto energético e ambiental. Hoje se não tivermos consciência da centralidade no Cliente não conseguimos fazer face às suas necessidades. Na Optimistic ouvimos o Cliente e as suas necessidades e ideias, estabelecemos várias soluções para a mesma necessidade e em conjunto com o Cliente avançamos para o design, engenharia e produção. Lutamos todos os dias para termos Clientes totalmente satisfeitos.
Que papel têm inovação e manutenção na fiabilidade?
São fundamentais. A inovação permite evoluir, a manutenção garante continuidade.
Como ajuda a monitorização?
Permite antecipar falhas e otimizar desempenho. Passamos de uma lógica reativa para preditiva.
Qual a importância da rapidez de resposta?
É crítica. Em indústria, tempo de resposta é valor.
Como se cria valor como parceiro técnico?
Criamos valor acompanhando o cliente desde as fases mais iniciais do projeto, muitas vezes ainda durante a engenharia conceptual e FEED, antes mesmo da definição do equipamento. A OPTIMISTIC posiciona-se como parceira de engenharia, ajudando a otimizar processos, reduzir riscos e aumentar eficiência ao longo de todo o ciclo de vida operacional. É esta proximidade técnica e visão de longo prazo que gera relações de confiança duradouras.
Que visão esteve na origem da OPTIMISTIC?
Desde o início, a visão não foi apenas criar uma empresa de equipamentos industriais. Foi construir uma organização capaz de resolver problemas críticos da indústria, onde a falha não é uma opção e onde cada decisão tem impacto direto na operação dos clientes.
Havia também uma leitura clara: muitas indústrias estavam excessivamente focadas no custo inicial e pouco na performance ao longo do tempo. Vimos aí uma oportunidade — reposicionar a engenharia não como um custo, mas como um investimento em eficiência, continuidade operacional e redução de risco.
Outro pilar importante foi a ambição de afirmar a engenharia portuguesa como um padrão internacional. Mostrar que, a partir de Portugal, é possível desenvolver soluções competitivas para setores exigentes como energia, oil & gas ou indústria pesada, com níveis elevados de qualidade e inovação. Com o tempo, essa visão foi evoluindo. Hoje integra também a dimensão digital, a eficiência energética e a sustentabilidade. Mas o princípio de base mantém-se:
não se trata apenas de fabricar ou fornecer equipamentos — trata-se de garantir desempenho real, todos os dias, nos contextos mais exigentes.
No fundo, a OPTIMISTIC nasceu da ideia de que a indústria não tem de se adaptar às limitações — pode superá-las através de melhor engenharia e melhor execução.
Que significado tem ser PME Líder 2025?
É um reconhecimento importante da nossa consistência e desempenho. Somos PME líder em vários parâmetros, o que nos orgulha muito. TOP 5% Nacional, TOP 10 Nacional do setor de máquinas e equipamentos industriais e TOP 10 da região de Lisboa considerando todos os setores.
Como se lidera uma empresa industrial num contexto de transformação energética, pressão competitiva e expansão internacional?
Lidera-se, antes de mais, aceitando que o contexto mudou estruturalmente. A indústria deixou de operar num ambiente previsível — hoje, a volatilidade faz parte do modelo. No Grupo Optimistic olhamos para este desafio a partir de três dimensões.
Primeiro, resiliência operacional. Durante anos, o foco esteve na eficiência e na redução de custos. Isso continua a ser importante, mas já não é suficiente. Hoje, a prioridade é garantir continuidade — mesmo quando há disrupções energéticas, logísticas ou geopolíticas. Isso implica cadeias de abastecimento mais robustas e uma abordagem mais estratégica à operação.
Segundo, valor energético. A transformação energética não é apenas uma agenda ambiental — é uma questão de competitividade. Cada solução que desenvolvemos tem de contribuir para maior eficiência, menor consumo e redução de emissões. No fundo, deixámos de vender apenas equipamento industrial; passámos a entregar performance energética e previsibilidade ao cliente.
Terceiro, execução global disciplinada. Crescer internacionalmente não é apenas entrar em novos mercados. É conseguir executar com consistência em diferentes geografias, culturas e enquadramentos regulatórios. Isso exige processos sólidos, talento preparado e uma cultura organizacional que se mantém coerente à medida que a empresa escala.
No final, a liderança industrial tornou-se mais exigente e mais transversal. Já não é apenas engenharia ou gestão — é a combinação de engenharia, finanças, tecnologia e leitura geopolítica.
E talvez o ponto mais importante seja este: hoje, não lidera melhor quem tenta prever tudo o que vai acontecer. Lidera melhor quem constrói organizações capazes de funcionar bem, mesmo quando o contexto muda de forma inesperada.
Como vê a OPTIMISTIC no futuro?
Vejo a Optimistic a evoluir de uma empresa de engenharia industrial para uma plataforma integrada de performance industrial.
O futuro da indústria não vai ser definido apenas por quem fabrica melhor, mas por quem consegue garantir eficiência contínua, previsibilidade operacional e impacto energético mensurável. É exatamente aí que queremos estar.
Vamos continuar a crescer internacionalmente, mas com um princípio muito claro: não crescer por escala, crescer por relevância. Queremos estar presentes onde conseguimos realmente criar valor — seja em setores como energia, oil & gas, ou nas novas cadeias ligadas ao hidrogénio e à transição energética.
Ao mesmo tempo, vejo a OPTIMISTIC cada vez mais posicionada na interseção entre engenharia e tecnologia. A integração de digitalização, monitorização em tempo real e modelos preditivos será central. O equipamento físico continuará a ser importante, mas o verdadeiro diferencial estará na inteligência que o acompanha.
Internamente, o foco será construir uma organização ainda mais sólida — com talento altamente qualificado, cultura de exigência e capacidade de execução consistente em qualquer geografia.
No fundo, vejo a OPTIMISTIC como uma empresa que não reage ao futuro — ajuda a construí-lo.
Uma empresa onde a engenharia continua a ser o núcleo, mas onde a ambição é muito maior: liderar a forma como a indústria pensa eficiência, fiabilidade e sustentabilidade nos próximos anos.


