Angola tem vindo a ganhar destaque como destino turístico emergente, afirmando-se pela sua autenticidade, diversidade cultural e potencial ainda por explorar. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, Manuel Lázaro, CEO da Alegrangola SA, partilha a sua visão sobre o papel estratégico do turismo de cruzeiros na projeção internacional do país, destacando oportunidades, desafios e metas para posicionar Angola como referência nas rotas atlânticas.
Angola tem vindo a afirmar-se como destino turístico emergente. Que papel pode o turismo de cruzeiros desempenhar nesta estratégia?
O turismo de cruzeiros atua como um acelerador estratégico para Angola, funcionando como uma “montra” móvel que projeta a imagem do país no mercado internacional de lazer. Recentemente, o governo aprovou um programa focado neste segmento com metas ambiciosas até 2027, visando receitas superiores a 50 milhões de dólares.
O papel deste setor na estratégia turística nacional desdobra-se em quatro eixos principais, como a diversificação económica e receitas diretas com a geração de divisas. Estima-se que 70% dos passageiros que desembarquem nos portos nacionais, com um gasto médio diário de 90 dólares por pessoa em restaurantes, lojas e excursões, têm um impacto no PIB que faz parte da meta de elevar a contribuição do turismo para o Produto Interno Bruto (PIB) de 0,64% (2022) para 2,5% em 2030 e incentiva a promoção da imagem “Visita Angola”
Como aparafusamento à marca nacional, o turismo de cruzeiros serve para validar a nova identidade visual “Visita Angola”, apresentando o país como um destino seguro e competitivo nas rotas africanas. Com a atração de investidores porque muitos cruzeiristas são potenciais empresários que, ao visitarem o país, exploram outras oportunidades de investimento na economia real, promovem a dinamização de infraestruturas portuárias e com essa estratégia, foca na reabilitação e adaptação de três portos chave, como portas de entrada:
- Luanda como centro de turismo cultural e histórico (ex: Fortaleza de São Miguel); . Lobito e a ligação logística importante, potenciada pela chegada de comboios de luxo;
- Namibe, que possui o foco no turismo de natureza e deserto, servindo de base para exploração do sul do país.
Esta nossa estratégia de turismo de cruzeiros, com a criação de uma nova rota lusófona prevista no nosso projeto, há mais de 10 anos, exige o fortalecimento da Cadeia de Valor Local.
As escalas dos navios impulsionam diretamente as Pequenas e Médias Empresas (PME) ligadas ao artesanato, restauração e animação turística, criando emprego imediato fora do setor formal dos grandes hotéis.
As projeções de crescimento (2025-2027) para os navios de cruzeiros são de temporada e roteiros mundiais e os visitantes previstos: 2025–2026 (2.500), 2026–2027 (3.000) para 2027 em diante de 4.000 passageiros.
Como avalia o atual posicionamento de Angola no mapa global dos cruzeiros? Que vantagens competitivas o país pode oferecer face a outros destinos africanos?
O posicionamento de Angola no mapa global de cruzeiros é atualmente o de um “destino emergente de alta autenticidade”. Embora ainda não seja um hub de massa como a África do Sul, o país tem registado um crescimento acelerado e uma mudança de perceção junto dos operadores internacionais, impulsionada por reformas recentes e distinções como a da National Geographic Spain, que elegeu Angola como o Melhor Destino Internacional 2026.
Os pontos fundamentais para avaliar o nosso posicionamento em abril de 2026, com a ascensão nas Rotas Atlânticas, é que Angola deixou de ser apenas uma paragem técnica para se tornar uma escala estratégica nas rotas entre a África do Sul (Cidade do Cabo) e a Europa.
A atratividade, os operadores de luxo como a Nicko Cruises (navio Vasco da Gama) e a Swan Hellenic (SH Diana) já realizam escalas regulares e atracagens simultâneas em Luanda. Essa visibilidade, foi incluída no Top 10 de destinos a visitar da CNN Travel, o que validou a sua segurança e potencial para o mercado global.
As reformas facilitadoras e infraestruturas, sendo promovidas pelo Governo, aponta para um posicionamento atual que é sustentado por uma “janela de oportunidade” política e estrutural, e a abertura de vistos para mais de 90 países, eliminando uma das maiores barreiras históricas à entrada de turistas.
O investimento em terminais que estão em curso, projetos para a construção de terminais marítimos especializados em Luanda, Lobito e Namibe, visando responder às exigências de navios de grande porte.
Pela diferenciação pelo Produto “Nicho”, ao contrário de destinos saturados, Angola posiciona-se como um destino de exclusividade e cultura, com um mix Cultural-Natureza, com a escala no Namibe que oferece acesso ao deserto do Namibe, enquanto Luanda foca no património histórico (Fortaleza de São Miguel, Museu de Antropologia).
O setor de Turismo de Cruzeiros vive um momento de forte expansão com o crescimento da frota da MSC Cruzeiros. Atualmente com 23 navios comtemporâneos, a companhia prepara o lançamento do MSC World Asia para o final deste ano. A nossa parceria, iniciada em 2016, quando a frota contava com apenas 12 navios, acompanha uma trajetória impressionante: a previsão é alcançar 35 navios até 2035, consolidando-a, como hoje – a frota mais jovem e moderna do mundo. Além da sua linha contemporânea, o Grupo reforça sua presença no segmento ultra-luxury com a marca Explora Journeys. Com os navios Explora I e Explora II já em operação, e a chegada do Explora III em agosto, a empresa foca em experiências exclusivas, autênticas e avessas ao turismo de massa.
Temos também os desafios de competitividade, porque apesar do otimismo, o posicionamento ainda enfrenta concorrência regional forte (África do Sul e Namíbia) e desafios internos, por isso a pertinência de desenvolver uma logística com a necessidade de consolidar a cadeia de serviços em terra (transportes de qualidade para excursões, guias multilingues).
As estatísticas atuais, embora o turismo de lazer tenha crescido 20% em 2025, diz que o volume total de cruzeiristas (cerca de 1.500 num mês de época alta) ainda é modesto, comparado com as metas globais para 2030. O que posso afirmar pelo conhecimento do negócio dos cruzeiros, é que Angola está a transitar de um destino “desconhecido” para um destino “desejado”.
O país já provou ter o produto; o foco agora está na capacidade operacional para receber navios maiores de forma recorrente é o que queremos projetar para 2028/29.
Recentemente, recebeu o convite da CLIA para conhecer o Cruise Port Compass. Qual a importância deste tipo de iniciativas para Angola?
O evento Cruise Port Compass, é uma iniciativa da Cruise Lines International Association (CLIA) que reúne especialistas para apoiar portos no fortalecimento das suas operações e na atração de novas escalas e que que reúne especialistas para apoiar portos no fortalecimento das suas operações e na atração de novas escalas. No nosso ponto de vista a importância estratégica para o país divide-se em quatro áreas fundamentais:
No networking e atração de armadores, estes eventos reúnem os decisores das maiores companhias de cruzeiros (como a MSC, Norwegian e Royal Caribbean). É o local onde Angola pode vender rotas: convencer os armadores a incluírem Luanda, Lobito e Namibe nos seus itinerários fixos, e não apenas em escalas esporádicas.
A nossa missão é apresentar garantias e demonstrar que o país é um destino seguro e que as reformas, como a isenção de vistos, são reais e permanentes (este é o nosso foco na Alegrangola, desde 2016).
De que forma o Guia de Desenvolvimento Portuário pode ajudar a estruturar melhor os portos angolanos?
A adoção de Normas Internacionais em Eventos como o Cruise Port Compass fornece o “manual de instruções” para o sucesso da eficiência portuária como aprender a gerir o fluxo de milhares de turistas, sem comprometer a operação comercial de carga dos portos. E promove, também, a sustentabilidade e alinha os novos terminais em construção com as metas globais de descarbonização, uma exigência crescente das companhias.
Considera que Angola está preparada, do ponto de vista técnico e operacional, para integrar este tipo de programas internacionais?
Este projeto fomenta o Empreendedorismo Local e, alinhado com a estratégia angolana para 2027, visa triplicar o número de navios e quadruplicar o de turistas. Participar nestes eventos internacionais ajuda a qualificar a oferta e entender o que o cruzeirista de luxo procura (ex: guias multilingues, artesanato certificado, gastronomia gourmet), permitindo que as PME locais se preparem adequadamente.
Pretendemos fomentar as parcerias internacionais e facilitar acordos entre agências de viagens angolanas (como a TravelGest ou LeluTour) e operadores globais para a criação de pacotes exclusivos, defendendo a promoção da “Marca Angola”.
Com o país a ser eleito como o Melhor Destino Internacional 2026 por publicações como a National Geographic Spain, Miami serve de palco para consolidar a reputação e mostrar que Angola está pronta para receber grandes eventos (como a recente visita do Papa Leão XIV ou cruzeiros de 2.000 passageiros como o Norwegian Dawn).
Um projeto desta envergadura gera uma importante captação de receitas para o país, e viabilizar a meta de atingir os 50 milhões de dólares em receitas turísticas diretas até 2027.
Quais são os principais desafios ao nível das infraestruturas portuárias em Angola?
Para que Angola se torne um porto de escala obrigatório e competitivo na África Austral, existem quatro desafios operacionais críticos que o país está atualmente a trabalhar para superar a Conetividade e Logística Terrestre com o transporte de turistas, embora os portos recebam bem os navios, a frota de autocarros de turismo modernos e de alta qualidade ainda é limitada para desembarques simultâneos de mais de 1.000 passageiros.
Existe uma escassez de guias profissionais fluentes em línguas como o alemão, mandarim ou francês, essenciais para os cruzeiros de luxo europeus e asiáticos. Temos de considerar a eficiência nos Terminais Portuários e a convivência com a carga atualmente, os turistas desembarcam muitas vezes em zonas partilhadas com contentores e maquinaria pesada. A conclusão dos terminais marítimos exclusivos (previstos para 2027) é fundamental para garantir o conforto e a segurança dos passageiros e um contrato com um armador, neste caso a MSC.
Que tipo de experiências únicas Angola pode oferecer aos passageiros de cruzeiros? Como garantir uma integração harmoniosa entre porto, cidade e comunidade local?
Os processos fronteiriços apesar da isenção de vistos, o tempo de processamento documental à chegada (“clearance”) ainda precisa de ser mais ágil para não “roubar” horas preciosas das excursões em terra.
No nosso ponto de vista é essencial uma intervenção importante no Saneamento e na Infraestrutura Urbana, nos acessos aos Pontos Turísticos, com a melhoria das vias de acesso e do saneamento nas áreas envolventes aos monumentos (especialmente em Luanda); além disso, é crucial para que a experiência visual do turista seja positiva, desde que sai do navio até ao destino final.
Também no que toca à gestão de resíduos nos portos de cruzeiros modernos exigem-se sistemas avançados de recolha e tratamento de resíduos dos navios, algo que Angola precisa de escalar para atrair navios de maior porte.
Com a estruturação do produto turístico e os pagamentos facilitados com a aceitação de cartões internacionais (Visa/Mastercard) e a facilidade de câmbio imediato para pequenos gastos (artesanato e gorjetas) apresentam falhas em algumas zonas fora dos grandes hotéis. Os preços devem ser competitivos porque Angola continua a ser um destino com custos operacionais elevados, comparativamente a vizinhos como a Namíbia ou a África do Sul, o que obriga a um esforço adicional para justificar o valor das excursões.
Que papel os operadores turísticos, como a Alegrangola, podem desempenhar na criação de valor para estes visitantes?
Aí nesse capítulo, a Alegrangola SA posiciona-se como operador de turismo e poderá, em parceria com os demais organismos governamentais, dar a sua contribuição ao País.
Que tipo de parcerias internacionais são essenciais para acelerar o desenvolvimento deste setor?
Para acelerar o desenvolvimento do turismo de cruzeiros em Angola, é fundamental estabelecer parcerias que combinem infraestrutura técnica, promoção comercial e sustentabilidade. Com a recente formalização de quadros de cooperação, em fevereiro de 2026, o foco recai sobre parcerias público-privadas (PPP) e alianças internacionais estratégicas.
Alianças com a Cruise Lines International Association (CLIA) são vitais para alinhar os portos angolanos com as normas globais de segurança, sustentabilidade e gestão de passageiros. Com a inserção em redes e a colaboração com associações como a MedCruise, permite a partilha de boas práticas sobre a relação porto-cidade e a participação conjunta em eventos globais em Miami.
Existe abertura por parte de investidores internacionais para apostar em Angola como destino de cruzeiros?
Alinhamos desde 2016 acordos diretos com o armador MSC Cruzeiros, onde realizamos em conjunto, um “Port acessement” nos vários portos em Angola e, desde então, temos mantido uma equipa entre Portugal e Angola a trabalhar neste processo, para permitir que garantem a inclusão regular de Angola nas rotas atlânticas, transformando escalas esporádicas em visitas programadas.
A indústria de cruzeiros está em transformação, com novos combustíveis e exigências tecnológicas. Como Angola pode acompanhar esta evolução?
Com base na trajetória atual e nos investimentos em curso que conhecemos, os próximos 10 anos (2026–2036) poderão marcar a transição de Angola de um destino de nicho para um “player” consolidado no corredor atlântico africano.
Que metas concretas gostaria de ver alcançadas nos próximos cinco a 10 anos neste setor?
As Metas de Fluxo e Receita previstas em Volume de Passageiros podem ultrapassar os 50.000 cruzeiristas por ano. Atualmente, o país recebe números modestos (cerca de 2.000 a 4.000 em épocas altas), mas a modernização dos três portos permitirá escalas semanais de navios de médio e grande porte.
Prevemos que o País tenha uma receita direta que pode atingir uma contribuição anual superior a 150 milhões de dólares, provenientes apenas do segmento de cruzeiros, triplicando a meta atual de 2027. Com o investimento a realizar nas Infraestruturas e Operações na Rede Portuária Especializada, possuindo os terminais exclusivos de Luanda, Lobito e Namibe a operar com padrões internacionais (biometria, check-in rápido e gestão de resíduos sustentável).
Esperamos que o Hub Logístico Regional esteja concluído em breve e que possa Transformar o Porto de Luanda num porto de “turnaround” (embarque e desembarque inicial), onde os turistas iniciam ou terminam as suas férias em Angola, aumentando a ocupação hoteleira local.
No que rege à integração do Produto Turístico, a criação do Roteiro “Rail & Sail” permitirá de consolidar a parceria entre o Caminho de Ferro de Benguela (Corredor do Lobito) e os cruzeiros, oferecendo pacotes onde os turistas desembarcam no Lobito e seguem em comboios de luxo (como o Rovos Rail) até às quedas de Kalandula ou até à fronteira com a Zâmbia.
Desejando que o governo tenha pelo menos dois dos seus portos com a certificação “Green Port”, atraindo a nova geração de navios a GNL (Gás Natural Liquefeito) e explorando o hidrogénio verde.
Na nossa visão este projeto deverá implementar-se ainda este ano, na concretização da sua fase financeira, permitindo com a complacência do governo termos um impacto social no emprego, com uma cadeia de Valor Local e garantirmos que 60% dos bens consumidos a bordo durante as escalas (frutas, bebidas, peixe) sejam de produção nacional angolana. O que permitirá fomentar a criação de emprego e gerar cerca de 10.000 postos de trabalho, diretos e indiretos, desde guias especializados e motoristas, até artesãos e gestores portuários.
Com o posicionamento da marca “Rota Lusófona de Cruzeiros”, devemos posicionar Angola como o terceiro destino de cruzeiros mais importante da região, apenas atrás da África do Sul e da Namíbia, mas liderando no segmento de turismo cultural e de aventura.
Que mensagem gostaria de deixar aos decisores políticos e investidores sobre o potencial do turismo de cruzeiros em Angola?
Acredito que o diferencial de Angola nos próximos 10 anos será a capacidade de oferecer algo que as rotas tradicionais já perderam, a sensação de “última fronteira” e descoberta autêntica.
Tudo dependerá dos investidores e da acreditação do Governo neste processo, em acreditar que podemos, em conjunto, realizar o “sonho”. Para isso, estaremos presentes no próximo evento do setor do turismo, em 15 de Junho de 2026 https://tnews.pt/angola-acolhe-cimeira-internacional-para-captar-investimento-no-turismo/ para criarmos, em conjunto, uma nova rota lusófona de cruzeiros, com término em Luanda em 2028.


