Num momento particularmente simbólico para a Ordem dos Advogados, que assinala o seu Centenário em 2026, a Revista Pontos de Vista conversou com Carina Soares sobre os grandes desafios, transformações e responsabilidades da Advocacia contemporânea. Nesta reflexão que cruza memória histórica, inovação tecnológica, liderança e compromisso social, a Advogada destaca o papel determinante da profissão na consolidação do Estado de Direito Democrático, o significado do Dia do Advogado, a crescente relevância da liderança feminina na Advocacia e o impacto da inteligência artificial na prática jurídica.
A Ordem dos Advogados celebra 100 anos em 2026. Que momentos considera mais determinantes na afirmação da Advocacia em Portugal?
O centenário da Ordem é um momento que ultrapassa a dimensão corporativa e obriga-nos a olhar para a história da Advocacia como parte integrante da história política do país. A Advocacia portuguesa teve um papel decisivo em momentos críticos: na defesa de presos políticos durante o Estado Novo, na denúncia de abusos de poder, na resistência jurídica que antecedeu o 25 de abril e, depois da Revolução, na consagração constitucional do direito da defesa e do acesso ao Direito. A independência da Advocacia – hoje vista como um dado adquirido – foi conquistada com coragem e, muitas vezes, com risco pessoal.
Esses momentos não só afirmaram a profissão, como contribuíram para a construção do Estado de Direito Democrático.
E que papel tem desempenhado a Ordem na defesa do Estado de Direito ao longo deste século?
A Ordem dos Advogados tem sido uma das instituições mais consistentes na defesa da legalidade democrática.
Sempre que houve tentativa de fragilizar garantias fundamentais a Ordem interveio: na defesa do segredo profissional, na proteção da independência dos Advogados, na crítica a reformas que ameaçavam o acesso à Justiça ou a separação de poderes. A sua intervenção pública – através de pareceres, posições institucionais e participação no debate legislativo – tem sido essencial para equilibrar o sistema e garantir que a Justiça permanece um serviço público ao cidadão.
Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelos Advogados portugueses?
A Advocacia enfrenta desafios estruturais: a morosidade da Justiça, a burocratização dos processos, a instabilidade legislativa e a crescente complexidade normativa. A isto soma-se a pressão económica sobre o exercício da profissão, que afeta tanto Jovens Advogados como escritórios de menor dimensão.
E, claro, a transformação tecnológica, que obriga a repensar métodos de trabalho e modelos de prestação de serviços jurídicos.
A precariedade no início da carreira continua a ser uma preocupação?
Sim, sem dúvida. E é uma preocupação séria. Muitos jovens Advogados enfrentam dificuldades reais: remunerações insuficientes, falta de estabilidade, modelos de estágio exigentes e, por vezes, pouco compatíveis com a vida pessoal.
A Ordem tem procurado responder com formação reforçada, revisão dos modelos de estágio e diálogo com o Estado para dignificar a remuneração no apoio judiciário. Mas é preciso ir mais longe. Uma profissão que se quer independente e forte não pode assentar em carreiras precárias.
Como avalia a relação entre Advogados, Tribunais e o sistema de Justiça?
É uma relação que deve assentar no respeito institucional e na consciência de que todos servem o mesmo objetivo: garantir Justiça. Existem tensões naturais — e até saudáveis — porque o Advogado é, por natureza, uma voz crítica. Mas quando há diálogo, modernização e valorização de todos os intervenientes, o sistema funciona melhor. O que está em causa não é o interesse de uma classe, mas o direito dos cidadãos a uma Justiça eficaz.
Que significado assume hoje o Dia do Advogado?
É um dia de afirmação da missão social da Advocacia. Não é apenas uma celebração interna; é um momento para recordar que ser Advogado é defender direitos, garantir o contraditório e proteger quem, muitas vezes, não tem mais ninguém que o defenda. Num tempo de mudanças rápidas, é essencial reafirmar que a Advocacia continua a ser indispensável à democracia e ao funcionamento do Estado de Direito.
Que mensagem gostaria de deixar aos profissionais?
Uma mensagem de reconhecimento e confiança. A profissão enfrenta desafios enormes, mas continua a ser uma das mais nobres e essenciais ao funcionamento do Estado de Direito. Cada Advogado, no seu quotidiano, contribui para que a Justiça seja uma realidade e não apenas uma promessa constitucional.
A sociedade reconhece devidamente o papel dos Advogados?
Reconhece em momentos críticos — quando estão em causa direitos fundamentais ou situações de vulnerabilidade. Mas ainda há um caminho a percorrer. É preciso reforçar a literacia jurídica e aproximar a Justiça dos cidadãos. Quanto mais compreendido for o papel do Advogado, mais valorizada será a sua intervenção.
Como vê o futuro da Advocacia num contexto de digitalização acelerada?
A digitalização está a transformar profundamente a prática jurídica. Tarefas repetitivas serão automatizadas, processos serão mais rápidos e o acesso à informação será mais eficiente. Mas a essência da Advocacia — o raciocínio jurídico, a estratégia, a ética, a relação humana — continuará a depender do Advogado. A tecnologia será uma aliada, não um substituto.
Que competências serão essenciais para os Advogados do futuro?
Além da formação jurídica sólida, serão essenciais competências digitais, conhecimentos de proteção de dados, cibersegurança, comunicação e gestão da informação. A capacidade de adaptação será determinante. O Advogado do futuro terá de ser, simultaneamente, jurista, gestor de informação e intérprete crítico da tecnologia.
A Ordem está preparada para apoiar esta transição?
A Ordem tem dado passos importantes: formação especializada, debates sobre inovação, iniciativas de modernização. Mas a transição digital é contínua e exige vigilância permanente de modo a que a tecnologia não crie desigualdades no acesso ao Direito.
Que impacto prevê da inteligência artificial na prática jurídica?
A IA terá impacto significativo, sobretudo na análise documental, na pesquisa jurídica e na gestão processual. Pode aumentar a eficiência e libertar o Advogado para tarefas de maior valor humano e estratégico. Mas não substitui o julgamento, a ética, a criatividade jurídica ou a relação de confiança com o cliente.
A IA pode substituir algumas funções desempenhadas pelos Advogados?
Pode substituir tarefas mecânicas e repetitivas. Mas não substituirá a essência da Advocacia: interpretar o Direito, representar em tribunal, negociar, aconselhar, assumir responsabilidade ética. A IA não tem consciência, não tem valores, não assume responsabilidade — e isso faz toda a diferença.
Que riscos éticos e jurídicos devem ser considerados?
Diria que o maior risco não é a IA em si, mas o uso acrítico da IA. Há riscos muito concretos: a exposição de dados confidenciais, a possibilidade de comprometer o segredo profissional, a dependência excessiva de sistemas que não são totalmente transparentes e o risco de enviesamentos algorítmicos que podem influenciar análises jurídicas ou decisões estratégicas. E há ainda um ponto essencial: a responsabilidade continua a ser do advogado.
A tecnologia não dilui nem transfere deveres profissionais. No Direito estes riscos são particularmente sensíveis porque podem afetar direitos fundamentais.
Como garantir que a tecnologia não compromete princípios essenciais?
Através da governança. Primeiro, só podemos utilizar ferramentas que assegurem confidencialidade, encriptação e isolamento de dados. Depois, é fundamental criar políticas internas claras sobre o que pode ser introduzido em sistemas de IA e em que condições. Mas, acima de tudo, é preciso garantir que o advogado permanece no centro do processo. A IA pode apoiar, mas nunca substituir o juízo crítico, a autonomia técnica e a independência inteletual que definem a nossa profissão.
Quais são as prioridades estratégicas que define para o seu escritório nos próximos tempos?
Vejo quatro prioridades muito claras.
Primeiro, uma transformação digital responsável — usar tecnologia para ganhar eficiência, mas sem abdicar dos princípios éticos. Segundo, reforçar a especialização.
O mercado jurídico está cada vez mais competitivo e a diferenciação virá da profundidade técnica. Terceiro, apostar em parcerias e internacionalização. Portugal tem condições para ser um ponto de ligação entre vários mercados jurídicos. E, finalmente, investir nas pessoas: formação contínua, cultura interna forte e capacidade de atrair talento.
Onde gostaria de ver a Advocacia portuguesa dentro de 10 a 20 anos?
Gostaria de ver uma Advocacia tecnologicamente avançada, mas profundamente humanista. Uma profissão reconhecida internacionalmente pela ética, pela qualidade técnica e pela capacidade de inovar sem perder os seus valores. Imagino uma Advocacia mais colaborativa, mais influente na definição de políticas públicas e mais próxima dos cidadãos. E, idealmente, uma Advocacia que lidere o debate sobre direitos digitais, privacidade e regulação da IA — em vez de apenas reagir a ele.
Que legado gostaria de deixar quando terminar a sua carreira profissional?
Gostaria de deixar uma profissão mais forte do que aquela que encontrei. Uma Advocacia mais preparada para o futuro, mais ética, mais independente e mais consciente do seu papel social, de acordo com a sua essência. No fundo, o legado que gostaria de deixar é simples: ter ajudado a construir uma Advocacia que honra o passado, responde ao presente e está pronta para o futuro.


