“A autenticidade constrói-se através da consistência. O que prometo é aquilo que entrego — sem desvios”

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Caráter, coragem e consistência são pilares de uma liderança que se constrói todos os dias.
Nesta edição da Revista Pontos de Vista, conversámos com Manuela Domingues, fundadora e líder da MD-TRAD, que nos revela como a autenticidade, a responsabilidade e a visão de futuro no Mundo da Tradução podem transformar desafios em oportunidades e dar voz a uma liderança feminina capaz de gerar impacto, criar pontes entre culturas e inspirar novas gerações de mulheres empreendedoras.

Que valores considera essenciais na liderança feminina atual?

A liderança, nos dias de hoje, não pode ser dissociada da realidade dos mercados em constante mudança. Para mim, os valores essenciais são a responsabilidade, a coragem e a capacidade de decisão. Liderar implica assumir riscos, tomar decisões em contextos de incerteza e manter clareza de direção mesmo quando o cenário é instável. Enquanto gestora da MD-TRAD, acredito que a liderança não se mede apenas pela gestão do presente, mas pela capacidade de preparar a organização para o futuro.

 

De que forma imprime autenticidade, ética e empatia na cultura da sua organização?

Na MD-TRAD, a autenticidade constrói-se através da consistência. O que prometo é aquilo que entrego — sem desvios.

Trabalhando com clientes internacionais, a ética não é uma opção, é uma exigência diária: confidencialidade, rigor linguístico e responsabilidade no detalhe são fundamentais. Mais do que uma abordagem emocional, a empatia traduz-se na capacidade de compreender o impacto real que cada palavra pode ter em diferentes culturas e contextos.

 

Enquanto líder, qual é o propósito que orienta a sua atuação para além dos resultados financeiros?

Para além dos resultados financeiros que não deixam de ser importantes, o meu propósito vai muito além da tradução de conteúdos. Está na criação de ligações reais entre pessoas, empresas e mercados. Há algo profundamente humano no meu trabalho: garantir que uma ideia mantém o seu significado quando atravessa fronteiras linguísticas e culturais. Esse impacto — muitas vezes invisível, mas decisivo — é o que dá sentido ao que faço.

 

Como contribui a sua organização para um impacto positivo na sociedade, tendo em conta a sua visão enquanto mulher líder?

A MD-TRAD contribui para a sociedade ao tornar a comunicação global mais acessível, rigorosa e confiável. Num mundo onde a informação circula rapidamente, a precisão linguística é uma forma de responsabilidade social. O desafio não é apenas crescer, mas crescer com qualidade, adaptação e respeito pela complexidade dos contextos internacionais.

 

Que caraterísticas distingue numa liderança feminina eficaz nos dias de hoje?

A liderança eficaz exige mais do que competências técnicas: exige presença, visão e capacidade de adaptação.

Nos mercados atuais, liderar é ter coragem para ajustar estratégias rapidamente, decidir sob pressão e manter consistência num ambiente altamente competitivo. A resiliência e a capacidade de leitura do contexto são hoje determinantes.

 

Como tem observado a evolução do papel da mulher na liderança em Portugal?

Em Portugal, temos assistido a uma evolução positiva, embora ainda insuficiente. É inegável que existe hoje uma maior presença feminina em cargos de liderança e um reconhecimento crescente das competências das mulheres em áreas que, durante muitos anos, foram predominantemente masculinas.

No entanto, continua a existir um caminho importante a percorrer, sobretudo nos principais centros de decisão, onde a representação masculina ainda é claramente dominante. Em muitos contextos, as mulheres continuam a sentir necessidade de provar mais, de ultrapassar estereótipos e de gerir desafios acrescidos, muitas vezes mais exigentes do que os enfrentados pelos homens, pela necessidade de conciliar a vida profissional com a vida pessoal e familiar. Esse equilíbrio continua, em grande medida, a recair sobre elas, o que torna o percurso profissional mais desafiante e, por vezes, desigual.

 

Que desafios persistem e que conquistas mais destaca na presença feminina nos cargos de topo?

O principal desafio continua a ser o acesso igualitário a posições de topo e a estruturas de decisão.

Em contrapartida, destaco a crescente valorização das competências femininas em contextos exigentes, sobretudo em ambientes empresariais onde a complexidade e a adaptação são fatores críticos.

 

Como avalia a crescente influência das mulheres na economia e no mundo empresarial?

A influência feminina na economia está a contribuir para uma mudança de paradigma: decisões mais equilibradas, maior diversidade de pensamento e uma abordagem mais sustentável à gestão.

Não se trata apenas de representatividade, mas de eficiência e maturidade organizacional.

 

Que oportunidades identifica para fortalecer redes de liderança feminina, nomeadamente no espaço lusófono?

Já existem redes nacionais e internacionais que desempenham um papel relevante na ligação entre mulheres em diferentes setores, promovendo a partilha de conhecimento, o acesso a mentorias e o reforço da presença feminina em posições de liderança. Estas estruturas são fundamentais porque permitem transformar contactos em oportunidades concretas, aumentar a visibilidade e consolidar percursos profissionais em diferentes mercados.

Vejo um potencial muito significativo no reforço destas redes a nível internacional, sobretudo através da criação de ligações mais estruturadas e contínuas entre profissionais. A proximidade cultural em alguns contextos pode facilitar a criação inicial destas relações, mas o verdadeiro valor está na consistência da colaboração, na troca de experiências e na capacidade de gerar impacto para além das fronteiras geográficas.

 

De que forma a sua organização tem promovido ou beneficiado dessa cooperação?

A minha empresa atua diariamente num contexto internacional, o que a coloca em contato permanente com diferentes mercados, culturas e formas de comunicação, incluindo o espaço lusófono. Esta realidade obriga-me a trabalhar com elevada capacidade de adaptação e rigor constante. Esta cooperação internacional tem sido fundamental para o meu crescimento, pois desafia-me a evoluir continuamente, não apenas a nível linguístico, mas também a nível dos processos, da qualidade e da forma como respondo às necessidades específicas de cada cliente.

Mais do que uma simples adaptação, trata-se de um exercício contínuo de melhoria e aprendizagem, que reforça a minha capacidade de resposta e consolida a confiança que os clientes depositam no meu trabalho.

 

Que desafios e oportunidades antevê para as mulheres líderes nos próximos anos?

Estamos numa fase marcada pela transformação tecnológica acelerada, inteligência artificial e pelos novos modelos de trabalho.

O desafio será manter relevância estratégica num ambiente altamente digitalizado. A oportunidade está em integrar tecnologia sem perder o fator humano, criando lideranças mais ágeis, informadas e adaptáveis.

 

Que papel terá a liderança feminina na construção de organizações mais sustentáveis e inclusivas?

Num contexto empresarial marcado por transformação constante, as organizações que melhor sobrevivem e evoluem são aquelas que conseguem equilibrar resultados com consciência, inovação com estabilidade e crescimento com sustentabilidade.

A liderança feminina tem aqui um contributo particularmente relevante, não por uma questão de género em si, mas pela forma como muitas mulheres têm vindo a integrar diferentes dimensões da gestão: a exigência dos resultados, a atenção às pessoas e a sensibilidade para o impacto a longo prazo das decisões.

Na prática, isto traduz-se em organizações mais equilibradas, onde a performance não está desligada da cultura interna, do bem-estar das equipas e da responsabilidade social. A inclusão deixa de ser apenas um conceito e passa a ser uma prática diária, refletida na forma como se comunicam decisões, como se valorizam pessoas e como se constroem relações de trabalho mais justas e estáveis.

Acredito que este tipo de liderança será cada vez mais determinante num mundo empresarial em mudança, onde já não basta crescer — é necessário crescer com propósito, com consistência e com consciência do impacto que cada decisão gera.

 

Que mensagem gostaria de deixar às mulheres líderes e empreendedoras que nos leem?

Liderar e empreender exige coragem diária, sobretudo quando o caminho não é linear e nem sempre surgem oportunidades de forma imediata. Ao longo do meu percurso, tive de enfrentar desafios, ultrapassar críticas e, em alguns momentos, avançar sem reconhecimento ou portas abertas. Ainda assim, nunca encarei isso como motivo para parar.

Acredito que é precisamente nos contextos mais difíceis que a liderança se constrói de forma mais sólida. Houve fases em que não me foram dadas oportunidades, mas escolhi continuar, trabalhar com persistência e provar o meu valor através dos resultados.

O mais importante é manter o foco, acreditar no próprio percurso e não desistir perante a pressão ou a dúvida externa. A consistência, a resiliência e a determinação são aquilo que transforma visão em realidade e dificuldades em crescimento.

Foi desta forma que cresci, liderei, venci — e da minha vitória floresceu a MD-TRAD.

E nunca se esqueçam de que a vossa presença nos lugares de decisão não transforma apenas empresas, mas também sociedades, abrindo caminho para um futuro mais igualitário e inclusivo.

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