A profissão contabilística vive um dos momentos mais transformadores da sua história. Num contexto marcado pela internacionalização dos negócios, pela crescente harmonização regulatória europeia, pela digitalização e pela inteligência artificial, o papel do contabilista certificado evolui para uma dimensão cada vez mais estratégica, consultiva e orientada para a criação de valor. Nesta entrevista, Daniel Rocha Cardoso,
Managing Partner da FA Accounting & Management, partilha a sua visão sobre a integração da Ordem dos Contabilistas Certificados na ETAF, os desafios que hoje se colocam aos profissionais da área e o impacto das novas exigências europeias em matérias como compliance, transparência e fiscalidade internacional. Uma reflexão sobre o futuro da profissão, onde conhecimento técnico, inovação e visão estratégica serão determinantes para acompanhar a transformação das empresas e da economia global.
Como interpreta a integração da OCC na ETAF e que impacto poderá esta adesão ter para os profissionais portugueses da contabilidade e fiscalidade?
A integração da OCC na ETAF representa um passo muito relevante para a afirmação internacional da profissão em Portugal. Vivemos num contexto económico cada vez mais globalizado, em que as matérias fiscais e contabilísticas deixaram de ser exclusivamente nacionais. A presença da OCC numa estrutura europeia como a ETAF permite aos profissionais portugueses acompanhar mais de perto as tendências regulatórias europeias, participar no debate técnico e defender os interesses da profissão num plano mais alargado. Ao mesmo tempo, esta adesão reforça a credibilidade e a visibilidade dos contabilistas certificados portugueses junto das instituições europeias e dos mercados internacionais.
Considera que esta representação europeia poderá contribuir para uma maior harmonização e valorização da profissão em Portugal?
Sem dúvida. A harmonização europeia já é uma realidade em diversas áreas da fiscalidade e da regulação empresarial. Ter uma representação ativa nesse processo é essencial para garantir que Portugal acompanha as melhores práticas internacionais e que os profissionais portugueses não ficam afastados dessa evolução. Além disso, acredito que esta aproximação ao contexto europeu contribui para valorizar a profissão, reforçando a perceção do contabilista certificado não apenas como um técnico de cumprimento fiscal, mas como um verdadeiro parceiro estratégico das empresas e dos investidores.
Quais são atualmente os maiores desafios enfrentados pelas empresas e pelos profissionais do setor contabilístico e fiscal?
Os desafios são muitos e bastante exigentes. Desde logo, a constante alteração legislativa cria uma enorme pressão sobre as empresas e sobre os profissionais, que precisam de estar permanentemente atualizados. Por outro lado, existe hoje uma crescente complexidade internacional. Cada vez mais empresas operam além-fronteiras e cada vez mais pessoas vivem, investem ou trabalham em diferentes países. Isso obriga os profissionais da área a terem conhecimentos muito mais abrangentes, sobretudo em fiscalidade internacional, convenções para evitar dupla tributação e compliance transfronteiriço. Acresce ainda o desafio tecnológico. As empresas esperam respostas mais rápidas, informação em tempo real e uma capacidade de análise estratégica muito maior do que no passado.
De que forma a evolução legislativa e regulatória europeia está a transformar o papel dos contabilistas certificados?
O contabilista deixou de ter um papel meramente operacional. Hoje é um profissional que participa ativamente na gestão do risco, na sustentabilidade financeira e no apoio à tomada de decisão. A evolução legislativa europeia trouxe novas exigências em matéria de transparência, reporte fiscal, prevenção do branqueamento de capitais, proteção de dados e compliance. Tudo isso obriga os contabilistas certificados a assumirem um papel mais consultivo e estratégico dentro das organizações. Na prática, o contabilista moderno precisa de compreender não apenas números, mas também negócio, tecnologia, risco e enquadramento internacional.
Como olha para a crescente importância da ética, transparência e compliance no contexto empresarial atual?
São temas absolutamente centrais. A confiança tornou-se um ativo essencial para qualquer empresa. Hoje os investidores, os clientes e as próprias autoridades valorizam organizações que operam com elevados padrões de transparência e compliance. Os contabilistas certificados têm aqui uma responsabilidade muito importante, porque muitas vezes são a primeira linha de controlo interno das organizações. O rigor técnico continua a ser fundamental, mas a ética profissional tornou-se igualmente indispensável.
A digitalização e a inteligência artificial estão a alterar profundamente a atividade contabilística. Como antecipa esta transformação nos próximos anos?
A transformação já começou e vai acelerar significativamente nos próximos anos. Muitas tarefas repetitivas e operacionais tenderão a ser automatizadas através de inteligência artificial e de sistemas integrados. No entanto, não acredito que isso reduza a importância dos profissionais da área. Pelo contrário. O valor acrescentado estará cada vez mais na capacidade de interpretar informação, analisar cenários, antecipar riscos e apoiar decisões estratégicas. Os profissionais que conseguirem combinar conhecimento técnico com capacidade analítica e domínio tecnológico terão uma enorme vantagem competitiva.
Qual deverá ser o papel das empresas de contabilidade e consultoria na sustentabilidade financeira e estratégica das organizações?
As empresas de contabilidade e consultoria devem assumir-se como parceiros estratégicos do crescimento das organizações. Já não basta cumprir obrigações fiscais e entregar declarações. Hoje as empresas precisam de apoio na gestão financeira, no planeamento fiscal, na internacionalização, na análise de investimento e na otimização dos seus recursos. O contabilista e o consultor têm de estar próximos da gestão e participar ativamente na definição da estratégia empresarial.
Que competências considera hoje essenciais para os novos profissionais da área?
Diria que existem quatro pilares fundamentais:
- Conhecimento técnico sólido;
- Capacidade analítica e estratégica;
- Competências tecnológicas e digitais;
- Comunicação e relacionamento interpessoal.
Hoje um bom profissional precisa de saber comunicar com clientes, interpretar cenários complexos e adaptar-se rapidamente à mudança. O domínio da fiscalidade internacional e da tecnologia será cada vez mais diferenciador.
De que forma a FA Accounting & Management tem vindo a adaptar-se às exigências de um mercado cada vez mais internacional, tecnológico e exigente?
A FA Accounting & Management nasceu precisamente com uma forte vocação internacional. Atualmente, cerca de 90% dos nossos clientes são estrangeiros ou portugueses com ligação internacional. Isso obrigou-nos, desde cedo, a desenvolver competências muito específicas em fiscalidade internacional, mobilidade internacional e estruturas transfronteiriças. Ao mesmo tempo, temos investido bastante na digitalização interna, automação de processos e criação de ferramentas de acompanhamento mais eficientes, precisamente para responder a um mercado que exige rapidez, proximidade e elevada capacidade técnica.
Que mensagem gostaria de deixar aos profissionais e empresários portugueses perante esta nova fase da profissão no contexto europeu?
Estamos perante uma fase de enorme transformação, mas também de grande oportunidade. Os profissionais e as empresas que conseguirem adaptar-se à internacionalização, à tecnologia e às novas exigências regulatórias terão um papel cada vez mais relevante na economia. Acredito que a profissão de contabilista certificado continuará a ganhar importância estratégica nos próximos anos. Mas isso exige uma postura de aprendizagem contínua, adaptação constante e capacidade de olhar para além das obrigações tradicionais da profissão.


