A pergunta que o verão traz – e que adiamos o ano todo

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É o momento em que a competência profissional encontra a sua direção

Entre julho e agosto recebo várias mensagens de mulheres que, pela primeira vez em muito tempo, decidiram parar para pensar. E muitas delas ficam surpreendidas com o que veem.

Não porque descobriram algo dramático. Mas porque perceberam que andavam há meses (ou anos) a funcionar em piloto automático. A fazer bem o que sabem fazer; mas sem perguntar para quê.

 

A COMPETÊNCIA QUE NÃO CHEGA

Existe um equívoco silencioso em muitas carreiras: a ideia de que acumular competência é suficiente para manter o sentido profissional. Que saber fazer bem, crescer tecnicamente e ser reconhecida são garantia de realização.

Não são.

Conheço mulheres com carreiras sólidas, com décadas de experiência, com reconhecimento real, e com uma sensação crescente de que algo não fecha. Não é ingratidão. Não é crise. É o sinal de que a competência chegou a um ponto em que precisa de uma nova direção. Precisa de uma pergunta que ninguém lhe fez, e que ela própria foi adiando.

Essa pergunta é simples: “isto que sei fazer tão bem, estou a usá-lo para construir o quê?”. Pergunta simples de fazer; não tão simples de responder.

 

O VERÃO COMO INTERRUPÇÃO ÚTIL

O verão não é férias da vida. É uma das poucas alturas do ano em que o ritmo abranda o suficiente para que o ruído diminua. E quando o ruído diminui, as perguntas que foram sendo empurradas para o fundo voltam à superfície.

Isso não é um problema. É informação.

Parar para refletir não é uma atitude passiva. É um ato deliberado, e exigente. Exige honestidade sobre o que está a funcionar e o que não está. Exige distinguir o que é cansaço acumulado do que é desalinhamento estrutural. Exige estar disposta a que as respostas sejam inconvenientes.

A maioria das profissionais nunca fez este exercício de forma estruturada. Não por falta de inteligência ou vontade, mas porque o ritmo do dia a dia não deixa espaço. E porque ninguém ensina a fazer perguntas sobre a própria carreira com o mesmo rigor com que se aprende a gerir projetos ou equipas.

Uma profissional que aproveita esse espaço para se perguntar onde está e para onde quer ir não está a perder tempo. Está a fazer um trabalho que dificilmente entra no calendário, e que tem consequências diretas na qualidade das decisões que toma nos meses seguintes.

Parar para pensar não é o oposto de agir.

É o que torna a ação seguinte mais precisa.

 

DIREÇÃO NÃO SE ENCONTRA QUANDO ESTAMOS EM MOVIMENTO CONSTANTE

Uma das armadilhas mais comuns nas carreiras de mulheres 40+ é confundir movimento com progresso. Estar sempre ocupada, sempre a responder, sempre a entregar, é uma forma eficaz de não ter de perguntar se o destino ainda faz sentido.

A direção profissional não se encontra no meio do movimento. Encontra-se quando há espaço para observar o padrão: o que se repete, o que se evita, o que continua a fazer sentido e o que já não serve.

Esse espaço raramente aparece sozinho. Tem de ser criado. E o verão, para quem o souber usar, pode ser exatamente isso: não uma pausa da carreira, mas um momento de trabalho sobre ela.

 

UMA PERGUNTA PARA LEVAR PARA AS FÉRIAS

No acompanhamento que faço a mulheres 40+ em momentos de transição ou reposicionamento profissional, o verão é muitas vezes o ponto de partida. Não porque seja mágico, mas porque é um momento em que param. E parar, com estrutura e com as perguntas certas, é muitas vezes o que faltava.

Não proponho aqui um método de autoavaliação. Proponho uma única pergunta, a que mais frequentemente muda alguma coisa quando é feita com honestidade:

Se retirasses da tua vida profissional o que os outros esperam de ti, o que ficaria?

Não é uma pergunta fácil. É uma pergunta útil.

O verão não tem de ser o momento em que tomas uma decisão. Mas pode ser o momento em que paras de a evitar.

Claudia Gesto é Mentora de Carreira especializada em decisões profissionais para mulheres 40+. Fundadora do Método NOVA ROTA – Estrutura. Decisão. Ação. – acompanha profissionais em processos de transição e reposicionamento de carreira, individualmente e em grupo. Contacto: claudia@claudiagesto.com

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