“Ainda existe a ideia de que pedir ajuda cedo é sinal de fraqueza”

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Uma entrevista que desafia o paradigma tradicional da medicina e coloca a saúde cerebral no centro da prevenção, da inovação e da qualidade de vida. Nesta edição da Revista Pontos de Vista, conversámos com o Dr. José Padrão Mendes, Fundador e Diretor Clínico da NeuroPsyque, sobre a urgência de agir antes do colapso, a integração entre mente e cérebro, o impacto dos estilos de vida modernos e o papel das novas neurotecnologias na construção de um futuro mais saudável. Uma reflexão inspiradora sobre como prevenir, cuidar e potenciar aquilo que temos de mais valioso: o nosso cérebro.

Estamos a tratar demasiado tarde?

A medicina continua demasiado focada no tratamento em vez da prevenção?

Infelizmente, sim. A medicina tradicional foi construída sobre um modelo reativo: esperamos que algo falhe para tentar reparar o dano. Na saúde cerebral e mental, isso é particularmente grave. Quando alguém chega ao consultório com burnout, declínio cognitivo ou depressão resistente, o sistema nervoso já está em sofrimento há meses ou anos. Precisamos de uma medicina proativa, capaz de identificar desregulações antes de se tornarem incapacitantes.

 

Porque continuamos a pedir ajuda apenas quando já estamos em colapso?

Por dois motivos principais: estigma e normalização do malestar. Ainda existe a ideia de que pedir ajuda cedo é sinal de fraqueza. E habituámo-nos a justificar sintomas — o cansaço extremo como “stress”, as falhas de memória como “idade”. Só travamos quando o corpo ou a mente nos obrigam a parar. Mas o cérebro dá sinais muito antes disso.

 

O que mudou na forma como vemos a saúde mental e neurológica?

Hoje falamos mais abertamente sobre ansiedade e exaustão, e isso é positivo. Mas a grande mudança científica é a perda do medo de olhar para o cérebro. Sabemos agora que a saúde mental tem bases biológicas, redes elétricas e circuitos que podem ser avaliados e tratados com precisão.

 

Que benefícios traz uma intervenção precoce?

São enormes. A neuroplasticidade permite ao cérebro regenerar-se e reorganizar-se. Intervir cedo pode travar processos neurodegenerativos, evitar a cronificação da depressão e poupar anos de sofrimento. Quanto mais cedo atuamos, maior a capacidade de recuperar qualidade de vida.

 

O cérebro e a mente são inseparáveis?

Ainda faz sentido separar neurologia, psiquiatria e psicologia?

Não. Essa divisão é histórica e artificial. A mente é expressão do cérebro. Não podemos tratar o humor sem compreender a biologia, nem tratar uma doença neurológica ignorando o impacto emocional que tem na identidade da pessoa. Esta integração é um dos pilares da NeuroPsyque.

 

Quais as vantagens de uma abordagem integrada?

Precisão e eficácia. Em vez de respostas fragmentadas, avaliamos o indivíduo como um todo: componente psicológica, atividade bioelétrica cerebral e fatores biológicos. O diagnóstico torna-se mais robusto e o tratamento mais direcionado.

 

Porque é tão importante compreender a ligação mentecorpo?

Porque o sistema nervoso está em diálogo permanente com o resto do organismo. O stress crónico altera o sistema imunitário, cardiovascular e o microbioma. E disfunções sistémicas manifestam-se no cérebro como fadiga ou “brain fog”. Ignorar esta ligação é fazer medicina incompleta.

 

Como melhora isso os resultados clínicos?

Porque tratamos causas, não apenas sintomas. A combinação de psicoterapia, suporte biomédico e neurotecnologias atua em vários níveis do sistema nervoso, promovendo recuperações mais rápidas e sustentadas.

 

Ansiedade, burnout  e a sociedade atual

Porque aumentaram tanto as queixas de ansiedade e exaustão?

Vivemos num estado de hiperestimulação contínua: notificações, pressão profissional, incerteza económica e uma cultura que não tolera pausa. O sistema nervoso fica preso num modo de “luta ou fuga”, gerando disautonomia, ansiedade e burnout.

 

Que impacto têm os estilos de vida modernos?

Profundo. Dormimos pouco, movemo-nos pouco, vivemos expostos à luz artificial e afastados dos ritmos biológicos. Falta-nos o “combustível básico”: descanso, luz solar, movimento e silêncio. Sem isso, a resiliência cerebral diminui drasticamente.

 

Como distinguir sofrimento normal de algo que exige ajuda?

A linha é definida por tempo e funcionalidade. Se sintomas persistem semanas e começam a comprometer trabalho, relações ou prazer nas atividades diárias, é sinal de que o sistema precisa de suporte especializado.

 

Estamos a preparar bem as novas gerações?

Ainda não. Ensinamos competências técnicas, mas falhamos na literacia emocional e na higiene mental. É urgente ensinar os jovens a reconhecer limites, gerir frustração e estabelecer uma relação saudável com a tecnologia.

 

 

Envelhecimento e saúde cognitiva

O envelhecimento saudável começa cedo?

Sem dúvida. O cérebro não começa a envelhecer aos 65 anos. A forma como envelhece resulta das escolhas feitas aos 30, 40 e 50. A reserva cognitiva constrói-se ao longo de toda a vida.

 

Que hábitos protegem a saúde cognitiva?

Os pilares da longevidade cerebral: exercício físico regular, sono reparador, alimentação anti-inflamatória, aprendizagem contínua e relações sociais profundas.

 

Como reduzir o impacto das doenças neurodegenerativas?

Com diagnóstico precoce e controlo dos fatores de risco cardiovasculares e metabólicos. Atrasar o início dos sintomas de Alzheimer em cinco anos reduz para metade o impacto da doença na sociedade.

 

Qual o papel das famílias?

São as primeiras sentinelas. Pequenas alterações — desinteresse, desorientação, flutuações de humor, dificuldades em encontrar palavras — são muitas vezes notadas primeiro pela família. Valorizar estes sinais muda o prognóstico.

 

Tecnologia, neuroterapia e inovação

Como a tecnologia está a transformar o tratamento?

Vivemos uma revolução. O mapeamento cerebral (qEEG) permite abandonar a tentativa/erro e avançar para medicina de precisão, identificando e intervindo diretamente nos circuitos disfuncionais.

Qual o potencial das neuroterapias e da estimulação não invasiva?

Extraordinário. Neurofeedback, rTMS e tDCS permitem modular circuitos específicos sem efeitos sistémicos dos fármacos.

Treinam o cérebro para se autorregular ou estimulam áreas hipoativas, com segurança e forte evidência científica.

 

Como equilibrar tecnologia e relação humana?

A tecnologia é um meio. O centro da consulta continua a ser a escuta, a empatia e o tempo dedicado ao doente. Nenhuma máquina substitui a relação terapêutica.

 

Que avanços marcarão os próximos anos?

Protocolos de neuromodulação cada vez mais personalizados, biomarcadores digitais para prever crises e tratamentos ajustados à assinatura neurobiológica de cada pessoa.

 

A visão da NeuroPsyque

Que mudança gostaria de ver na sociedade?

Que cuidar do cérebro fosse tão natural como cuidar do coração ou dos dentes.

Que neuroterapia e acompanhamento especializado fossem vistos como autocuidado inteligente, sem preconceito.

 

Qual a visão da NeuroPsyque?

Ser referência na integração entre neurobiologia e saúde emocional, unindo inovação tecnológica a uma prática clínica profundamente humana e acessível.

 

Como imagina o futuro da medicina preventiva do cérebro?

Com check-ups cerebrais regulares, avaliando padrões elétricos, stress biológico e saúde cognitiva ao longo da vida, ajustando rotinas e recorrendo à neuromodulação preventiva.

 

Que mensagem deixa a quem quer viver mais e melhor?

Proteja o seu cérebro — ele guarda as suas memórias, criatividade, autonomia e capacidade de amar. Não espere pelo colapso. Investir hoje na saúde cerebral é investir no futuro.

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