Num setor tradicionalmente associado ao universo masculino, a presença e o contributo das mulheres têm vindo a afirmar-se de forma cada vez mais relevante. Nesta edição da Revista Pontos de Vista, conversámos com Celeste Campinho, Presidente da Direção da AIPOR – Associação dos Instaladores de Portugal, sobre liderança, diversidade, inclusão e os desafios da representatividade feminina nas áreas técnicas e industriais. Numa reflexão inspiradora, destaca a importância da competência, da credibilidade e da valorização do talento como pilares de uma sociedade e de um setor mais competitivo, inovador e preparado para o futuro.
Sendo atualmente a única mulher a integrar a Direção da AIPOR, que significado atribui a esta responsabilidade e que mensagem gostaria de transmitir às mulheres que pretendem desenvolver carreira em setores tradicionalmente masculinizados?
Ser a única mulher a integrar a direção da AIPOR não é uma circunstância que me coloque em nenhum patamar especial. São as pessoas, a cultura organizacional e os objetivos que contam, pautados sempre pela nossa conduta, seja profissional, empresarial ou pessoal. Por isso, ser mulher num setor tradicionalmente masculino é apenas mais um desafio, onde tem de imperar a disciplina, o foco e a resiliência. Estes são os pontos fundamentais para alicerçar uma carreira baseada na honestidade e transparência. Apesar de ainda haver muito trabalho pela frente nesta matéria, atualmente são muitas as mulheres que neste setor construíram carreiras de sucesso e são exemplo para todos os profissionais. E fazem-no todos os dias com empenho, esforço e dedicação. É essencial que as mulheres acreditem nelas próprias, no seu valor e nas suas capacidades. Que trabalhem sem receios para que construam uma carreira sólida suportada por valores como a confiança e a credibilidade.
Considera que o setor dos instaladores e das infraestruturas técnicas tem vindo a evoluir no que respeita à diversidade e inclusão? Que progressos destaca e que desafios persistem?
Sem dúvida. Hoje vivemos tempos diferentes de há 50 anos, o mundo mudou, não só tecnologicamente, como também conceptualmente. O paradigma há muito que virou, com a consciência de que é preciso acolher todos, com as suas diferenças, e onde o conhecimento e a conduta falam mais alto do que preconceitos sem sentido. Diversidade e inclusão é agregar, sob todos os pontos de vista: seja pela idade, pelo conhecimento ou pela formação. Vivemos num mundo global, sem distâncias, e com ferramentas extraordinárias ao serviço das organizações, das empresas e das pessoas. O setor das Instalações Técnicas Especiais, ponto central da atuação da AIPOR, não é exceção. E construímos esse caminho todos os dias.
Durante o seu percurso profissional, sentiu necessidade de ultrapassar barreiras ou preconceitos por ser mulher? De que forma essas experiências contribuíram para fortalecer a sua liderança?
Tive a sorte de ter feito o meu percurso profissional com os impulsos certos, nomeadamente com o exemplo maior do meu pai, que me sedimentou com os valores que pautam a minha vida até hoje. Obviamente que houve altos e baixos, mas isso faz parte do percurso. Concretamente por ser mulher, nunca senti que as barreiras ou obstáculos que tive, decorreram do facto de ser mulher. Pelo contrário, sempre me senti respeitada em todos os cargos que exerci e exerço até hoje, apenas e só pelo valor do meu trabalho, pelas ideias que defendo e pelas quais luto diariamente. Ser mulher é apenas uma condição, e não um entrave.
Que competências considera que as mulheres trazem para funções de liderança e gestão que podem acrescentar valor às organizações e às associações setoriais?
As mulheres carregam no seu ADN duas caraterísticas que considero únicas: a sensibilidade e uma capacidade pragmática singular. Temos uma sensibilidade diferente dos homens, por várias razões: a experiência da maternidade, o peso que a sociedade (ainda) coloca sobre nós (nas múltiplas tarefas que desempenhamos, dentro e fora do meio profissional), e consequentemente, isso traz mais pragmatismo e mais foco. Esta diversidade de aptidões inatas faculta-nos igualmente uma resiliência muito grande, permitindo que sejamos mais destemidas e com uma capacidade sem igual ante os desafios diários.
A diversidade é hoje apontada como um fator de competitividade e inovação. Como avalia a importância da inclusão feminina para o futuro do setor da instalação e manutenção técnica?
Mais mulheres em todos os setores da sociedade é algo não só fundamental como necessário. O valor que aportam pode ajudar a construir um caminho mais sólido, coeso e exigente. No setor das instalações, é também fundamental, ajudando a sedimentar um chão mais firme. É por isso que devemos olhar para os exemplos que já temos, porque isso pode ser uma inspiração não só para quem já está no mercado, como também para outras mulheres que serão o futuro. A competitividade é sempre uma mais-valia, mas se for saudável e se acontecer pelos motivos certos. A inclusão feminina neste aspeto é, sem dúvida, uma grande vantagem para criar valor acrescentado.
Na sua opinião, o que falta ainda fazer para atrair mais mulheres para profissões técnicas, industriais e tecnológicas ligadas a esta atividade?
Em primeiro lugar, são as mulheres, por vontade própria, que têm de construir esse caminho. Apostar na sua formação, capacitação e na sua valorização profissional, seja antes de chegarem ao mercado de trabalho, seja já na sua vida ativa. Esse conhecimento é crucial no momento em que se candidatam a um emprego ou, dentro das organizações, forem valorizadas pelas suas aptidões técnicas e tecnológicas. O talento fará o resto. Em segundo lugar, é importante que as empresas e os seus líderes incorporem nas suas estratégias a cultura da diversidade. Este último ponto também é decisivo para trazer mais conhecimento e experiências distintas às marcas que construímos.
Qual tem sido o papel da AIPOR na promoção de uma cultura mais inclusiva e aberta à participação feminina no setor?
A AIPOR defende, desde a primeira hora, essa cultura mais inclusiva, seja no nosso quadro de pessoal, seja nos nossos colaboradores, bem como nas parcerias que desenvolvemos. Tentamos criar essa cultura de diversidade, e dar-lhe visibilidade, e assim contribuirmos para a atrair e reter mais mulheres no nosso setor. Consideramos que num mundo tecnológico em rápida mudança, a participação feminina no mundo do trabalho não pode ser vista como uma opção tradicional. As diferentes perspetivas que as mulheres trazem são críticas para a sobrevivência dos negócios, para a criação de vantagens competitivas e para o desenvolvimento contínuo no mercado.
Acredita que as associações empresariais podem desempenhar um papel decisivo na mudança de mentalidades e na promoção da igualdade de oportunidades? De que forma?
Sem dúvida. O associativismo tem um papel muito importante nesse caminho. E podem fazê-lo de várias maneiras, a começar pelo trabalho de sensibilização junto das novas gerações, junto dos seus associados, consciencializando-os para a importância da paridade nas suas estruturas, bem como promovendo o debate e a reflexão sobre estas matérias, seja em fóruns internos, seja externos.
Como vê a evolução das novas gerações relativamente aos temas da igualdade, diversidade e inclusão no mercado de trabalho?
Se olharmos para a sociedade (e aconteceu sempre em todos os momentos da História), o mercado de trabalho contempla várias gerações. E, nunca como hoje, essa realidade foi tão multigeracional. Temos em coabitação várias em pleno século XXI: os Baby Boomers, a Geração X, os Millennials e a Geração Z. Cada uma destas gerações tem diferentes motivações, hábitos e valores, criando uma enorme diversidade que acarreta desafios, oportunidades de aprendizagem e inovação. Tudo isto é uma vantagem competitiva que temos de aproveitar, mas para isso, precisamos saber integrar, apoiar e incentivar esta coabitação, mostrando às novas gerações que é em complemento que o caminho se faz. O conhecimento, a memória e a experiência de cada uma destas gerações pode transformar-se em algo maior, a bem do interesse coletivo e com ganhos incalculáveis.
A liderança no feminino está muitas vezes associada a propósito, empatia e visão de longo prazo. Revê-se nestas caraterísticas? Como define o seu próprio estilo de liderança?
Sem dúvida. A empatia faz a diferença, seja na nossa carreira, seja na nossa vida pessoal. Como disse anteriormente, considero fundamental que pautemos a nossa conduta por valores como a verdade, a credibilidade e a honestidade. E com isso conseguimos criar na nossa organização um espírito robusto de confiança com todos aqueles que trabalham connosco. Foi sempre baseada nesses valores que construí a minha carreira e pelos quais me pauto ainda hoje.
Num contexto de transformação tecnológica, digitalização e escassez de mão de obra qualificada, de que forma a diversidade pode contribuir para responder aos desafios futuros do setor?
Pessoas diferentes, com diferentes conhecimentos e diversas experiências constroem um setor mais vigoroso, capacitado e resiliente. Um dos maiores desafios que temos em mãos, incluindo no setor das Instalações Técnicas Especiais, é a carência de mão de obra especializada. Um problema que afeta, de forma transversal, o setor da Construção, no seu todo, e que exige igualmente a necessidade de reforçar a formação técnica contínua. A este propósito realço o papel decisivo da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas Nacional (AICCOPN), associação única e nacional, com um legado de 133 anos, cuja Direção integro, e que tem sido uma voz comum na defesa dos legítimos interesses das Empresas Associadas, do setor da Construção e do Imobiliário, em todo o território nacional. Falamos de um setor que é absolutamente decisivo na economia portuguesa e as associações têm um papel fundamental, não só na capacitação como na competitividade das empresas nacionais, que atuam em Portugal e no estrangeiro. Neste sentido, não tenho dúvidas de que as associações estão preparadas para auxiliar e colaborar com as empresas associadas, dando-lhes um rigoroso apoio e suporte de retaguarda, com o objetivo de suprir as suas necessidades e também dar voz às suas visões de futuro junto do poder político e das mais variadas instâncias nacionais de decisão. Além disso, é fundamental apostar na melhoria e qualificação dos profissionais. Assim, a diversidade pode também aqui fazer toda a diferença, pelas mais-valias que cada pessoa traz na bagagem e as coloca ao serviço do bem comum. Acima de tudo, é essencial não complicar nos procedimentos e licenciamentos, por exemplo, e sermos facilitadores do ambiente empresarial, pois só assim contribuiremos todos para uma economia mais competitiva, resiliente e sustentável.
Que iniciativas concretas gostaria de ver implementadas para aumentar a representatividade feminina nas empresas e organizações ligadas às instalações técnicas?
Mais oportunidades de formação, mais contratação de mulheres qualificadas e mais debate e reflexão sobre o tema.
Que conselhos deixaria às jovens estudantes e profissionais que ponderam ingressar em áreas técnicas, industriais ou de engenharia?
Estudem, trabalhem, invistam na sua formação e, acima de tudo, nunca desistam de trabalhar na valorização das suas competências técnicas, profissionais e humanas. O caminho nem sempre será fácil, mas suportado nas convicções certas e na força do trabalho, o sucesso e o reconhecimento acabarão por vingar! Que sejam capazes, e que nunca desistam dos sonhos, dos valores que defendem e dos objetivos que as movem!
O tema desta edição aborda também o conceito de “Poder no Feminino”. O que significa para si exercer influência, liderança e capacidade de decisão enquanto mulher?
Significa poder ajudar a construir um mundo melhor do que aquele que recebi. Liderar exige ponderação, gestão emocional, empatia e muita resiliência também. Quando hoje a palavra “empoderamento” está nas “bocas do mundo”, isso não pode significar apenas um discurso fácil e floreado. Tem de servir, acima de tudo, para arrojar, para contribuir para um desenvolvimento empresarial e humano mais completo.
E se deixarmos essa semente para quem vier a seguir, estaremos, seguramente, a abrir caminho para as gerações vindouras.
Para terminar, qual é a sua visão para o futuro do setor dos instaladores e que papel gostaria que as mulheres desempenhassem nessa transformação?
Um papel agregador, com valor e sendo um exemplo de perseverança, inspirador e reconhecido por todos os agentes de mercado. Com empatia, valores, resiliência e muito trabalho, tudo de consegue!


