Conetividade, sustentabilidade e visão estratégica são hoje pilares essenciais para o futuro dos Açores. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, Bernardo Oliveira, Administrador Executivo da SATA, reflete sobre o papel determinante da aviação na valorização da Região Autónoma dos Açores, os desafios da sazonalidade turística e as oportunidades que posicionam o arquipélago como um destino atlântico de referência durante todo o ano. Uma conversa sobre mobilidade, desenvolvimento sustentável e a missão de continuar a ligar os Açores ao mundo.
A conetividade aérea foi determinante na transformação dos Açores ao longo das últimas décadas. Que papel assume hoje a SATA no futuro estratégico da Região?
O nosso mote, Missão: Açores, resume de uma forma muito clara aquilo que somos e fazemos todos os dias. Efetivamente, a nossa grande missão sempre foi, e continua a ser, ligar os Açores. Há oitenta anos que fazemos as ligações inter-ilhas e há mais de vinte e cinco que ligamos o arquipélago ao exterior, com uma presença sólida no Atlântico Norte e uma experiência acumulada que poucas companhias têm nesta geografia.
Todos os açorianos têm, de alguma forma, uma relação pessoal com a SATA. O meu caso é exemplo disso, já que o meu próprio pai foi trabalhador da SATA. Cresci a perceber que esta empresa tem uma missão que vai muito além da operação aérea.
Hoje, temos uma rede regular que assegura conexões ao Continente Português, vários pontos da Europa e América do Norte o ano inteiro. Os Açores têm uma posição estratégica no Atlântico e a SATA é o instrumento que permite transformar essa posição em valor. Não tenho dúvidas de que o Grupo SATA continuará a ter um papel fundamental no futuro da Região e na afirmação dos Açores como plataforma atlântica, no centro de uma Macaronésia cada vez mais relevante.
O combate à sazonalidade continua a ser um dos grandes desafios do turismo açoriano. Que oportunidades identifica atualmente para reforçar a procura ao longo de todo o ano?
Neste aspeto, diria que estamos a par de muitos destinos europeus. Novembro e março continuam a registar uma procura menor quando comparados com o resto do ano, mas há argumentos muito fortes para continuar a apostar na operação de inverno.
Mesmo nos meses mais frios, as temperaturas oscilam pouco e são muito mais amenas do que noutros destinos. A tranquilidade e a calma que se atribuem aos Açores, e que tanto atraem quem nos visita, existem durante todo o ano, com particular força precisamente nos meses de menor procura. As ligações aéreas diárias permitem usufruir de um destino diversificado, de natureza exuberante e que convida à atividade ao ar livre.
Tudo isto a apenas duas horas de distância do continente português com partidas de Lisboa, Porto e Faro e destino às ilhas de São Miguel, Terceira, Pico e Faial. Decidimos apostar fortemente no continente português, visto continuar a ser o nosso maior mercado emissor. Acrescentamos ainda 14 voos semanais entre os arquipélagos dos Açores e da Madeira, reforçando a importância da Macaronésia.
Ao todo, contamos como uma operação de inverno que comporta 170 voos semanais para 15 rotas, mantendo-se as ligações à América do Norte e à Cidade da Praia, em Cabo Verde. Esta ligação a Cabo Verde é particularmente importante, não apenas do ponto de vista comercial, mas também pela ligação histórica e cultural entre os dois arquipélagos.
O inverno pode transformar-se numa nova oportunidade estratégica para os Açores enquanto destino de natureza, bem-estar e autenticidade?
Sem dúvida. E essa oportunidade tem de ser assumida com mais ambição comercial. O inverno nos Açores não é uma época fraca por falta de produto. Pelo contrário, é uma época com enorme potencial.
Há experiências que até se apresentam mais convidativas no inverno do que no verão. Falo, por exemplo, dos banhos termais, que são particularmente agradáveis nos meses frios, do chá, cuja apanha começa precisamente depois do verão, e até do cozido das Furnas, uma experiência que todos procuram e que ganha outro apelo no inverno. A isto acresce o facto de não haver traços de massificação do destino nestes meses, o que o torna mais convidativo para férias em família, sobretudo quando não há restrições com o calendário escolar. Os argumentos da natureza, do bem-estar e da autenticidade não têm uma estação determinada nos Açores.
A nossa posição no Atlântico Norte é uma vantagem competitiva. Estamos próximos da Europa, ligados à América do Norte e integrados numa Macaronésia com identidade própria, clima favorável e uma oferta turística complementar. Como oferecemos ligações diretas a centros urbanos vibrantes e cosmopolitas, como Boston, Nova Iorque, Toronto ou Montreal, os Açores podem também ser vistos como o antídoto perfeito para descansar do ritmo de vida acelerado e, por vezes, stressante.
Que importância assume a conetividade aérea na mitigação da sazonalidade e na sustentabilidade económica da Região?
A conetividade aérea é decisiva. Sem ligações aéreas consistentes, não há combate real à sazonalidade. O programa de voos previsto para o próximo inverno espelha precisamente o nosso compromisso com a Região e o investimento contínuo que tem sido feito para consolidar a rede existente e garantir uma oferta consistente.
A Azores Airlines assegura as ligações exteriores ao arquipélago e, de forma articulada, a SATA Air Açores encarrega-se da distribuição do tráfego pelas nove ilhas, garantindo a acessibilidade dos residentes. Mesmo em época baixa, a Azores Airlines continua a garantir mais de 170 voos semanais com origem e destino nos Açores, para além da operação inter-ilhas, que se mantém com uma cadência de vários voos por dia, num somatório que chega a atingir, em determinados períodos, entre 80 a 100 voos por dia. A SATA tem a missão estratégica de garantir mobilidade e contribuir para que os Açores sejam um destino competitivo durante os 12 meses do ano.
Os Açores podem afirmar-se como um destino atlântico de inverno associado a autenticidade, natureza, gastronomia e qualidade de vida?
Os Açores têm todos os atributos para se afirmarem como um destino atlântico de inverno. Precisamos de ter um posicionamento claro, comunicá-lo melhor e colocá-lo nos mercados certos. Somos autênticos na forma de receber, simples e acolhedora, e sabemos bem o privilégio que é viver rodeados de natureza intacta. Isto é verdade seja em que estação for, mas ganha outro sentido fora dos meses de verão. O destino enche-se de outros atributos nos meses de outono e inverno, oferecendo a possibilidade de usufruir, sem pressas, dos lugares naturais extraordinários e da oferta cultural e gastronómica que as nove ilhas disponibilizam. Além disso, os Açores têm uma posição atlântica estratégica, com ligações à diáspora açoriana na América do Norte, às comunidades portuguesas e a outros territórios da Macaronésia, como Cabo Verde. Esta rede de relações tem de ser valorizada.
Como equilibrar crescimento turístico, sustentabilidade e preservação da identidade açoriana?
Esse equilíbrio passa por uma estratégia integrada que privilegie a qualidade sobre a quantidade. O crescimento turístico tem de gerar valor, criar emprego, distribuir rendimento e reforçar a identidade açoriana. A sustentabilidade deve ser um eixo central das decisões, garantindo que o crescimento turístico contribui para a economia sem comprometer o património natural. Tanto as companhias aéreas como a empresa SATA Gestão Aeródromos foram pioneiras em Portugal na obtenção da certificação ambiental da IATA, IEnvA, que orienta os procedimentos das empresas no sentido de convergir para as metas ambientais desenhadas para o setor e que estão em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Qualquer empresa deveria assumir estas responsabilidades, mas nós sentímo-lo ainda mais, por sermos o principal operador aéreo num destino como os Açores. Temos um conhecimento profundo do território que servimos e consciência da nossa responsabilidade.
Que estratégias considera fundamentais para reforçar a competitividade internacional do destino Açores nos próximos anos?
O reforço da conetividade aérea durante todo o ano é uma prioridade. Sem acessibilidade, não há competitividade. Para além disso, há outros eixos complementares: qualificação da oferta, promoção segmentada e consistente nos mercados estratégicos e valorização dos atributos diferenciadores do destino. Os Açores são um destino atlântico único, seguro, autêntico, de natureza preservada, com excelente gastronomia, forte identidade cultural e qualidade de vida. É isso que temos de comunicar para os mercados certos. A nível de mercados emissores, a América do Norte é central, pela ligação histórica à diáspora açoriana e portuguesa. Cabo Verde é muito relevante pela ligação atlântica e um parceiro natural dentro da Macaronésia. E o continente português continua a ser o nosso maior mercado emissor. O futuro passa por trabalhar esta rede com consistência e capacidade de adaptação.
Como imagina os Açores daqui a 10 anos enquanto destino atlântico sustentável e procurado ao longo de todo o ano?
Imagino os Açores como um exemplo de crescimento responsável, mas também como um destino de excelência. Vejo os Açores como um destino transformador, com capacidade de atrair quem procura reconetar-se com a natureza e, com isso, usufruir dos benefícios que esta proporciona, tanto a nível físico como emocional. Daqui a 10 anos, os Açores devem estar ainda mais consolidados como uma referência atlântica de sustentabilidade, autenticidade e qualidade de vida. E devem assumir, com mais força, o seu lugar no contexto da Macaronésia.
Que mensagem gostaria de deixar sobre o papel da SATA no futuro da mobilidade, internacionalização e valorização da Região Autónoma dos Açores?
Tudo o que fazemos tem um propósito que nos acompanha desde o início: ligar os açorianos. Ligá-los entre si e ao mundo. Assegurar a mobilidade entre ilhas e entre outros destinos. Permitir que conheçam outras realidades e trazer milhares de visitantes aos Açores para descobrir um destino acolhedor, tranquilo e magnificamente ornamentado pela natureza. A SATA é parte da história dos Açores e continuará a ser parte do seu futuro. Estamos no centro de uma geografia atlântica com enorme potencial. Por isso, a mensagem que deixo é também um convite a que venham descobrir os Açores, as suas nove ilhas e as coisas únicas que têm para oferecer. A SATA está cá para concretizar essa ligação e tornar toda a experiência ainda mais autêntica e inesquecível.
Bernardo Oliveira
Bernardo Oliveira Administrador Executivo do Grupo SATA desde o início do ano de 2026, responsável pelas áreas comercial, marketing e comunicação.
No Grupo SATA, tem assumido um papel ativo na definição e execução da estratégia comercial e de posicionamento da companhia, num contexto de reestruturação e consolidação da sua posição enquanto operador aéreo no Arquipélago dos Açores.
Reforço na operação doméstica é a resposta da Azores Airlines para garantir a mobilidade dos residentes e a acessibilidade ao destino no próximo inverno. Com mais 100 voos semanais entre os Açores e o Continente, à partida de Lisboa, Porto e Faro.
Várias ligações por semana entre os Arquipélagos da Madeira e dos Açores juntam-se ao planeamento de voos para o próximo inverno 2026/27. Ligações à América do Norte, Nova Iorque, Boston, Toronto e Montreal, bem como a Cabo Verde, completam a oferta.


