Inteligência Artificial e Dados: O Futuro Constrói-se com Inovação, Talento e Confiança

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A Inteligência Artificial e a utilização estratégica dos dados estão a redefinir a forma como as organizações operam, inovam e criam valor. Numa era em que a automação, a análise preditiva e a transformação digital assumem um papel central na competitividade empresarial, torna-se fundamental compreender como a tecnologia pode potenciar a eficiência sem perder de vista o fator humano. Nesta entrevista, conversamos com Rodrigo Garcia, Associate Partner de Innovation da Crossjoin Solutions, sobre os desafios, oportunidades e tendências que irão marcar o futuro da IA, dos dados e da inovação tecnológica em Portugal e no mundo.

O seu percurso profissional tem estado fortemente ligado à inovação tecnológica e à transformação digital. Que momentos considera mais marcantes na sua evolução profissional até chegar à liderança da área de inovação da Crossjoin Solutions?

O meu percurso começou na Engenharia Informática, numa altura em que conceitos como Inteligência Artificial, análise de dados ou automação inteligente ainda estavam longe da maturidade que conhecemos hoje. Desde cedo tive contacto com projetos complexos em áreas como desenvolvimento de software, integração de sistemas e otimização de desempenho. Um dos momentos mais marcantes foi a fundação da Crossjoin Solutions. Criámos uma empresa especializada em resolver problemas difíceis de desempenho, disponibilidade e fiabilidade de sistemas de informação. Essa experiência ensinou-me que a tecnologia só cria valor quando está diretamente ligada aos objetivos do negócio. O momento mais marcante desde então foi, sem dúvida, a transição da Crossjoin de uma empresa puramente focada em serviços de consultoria (aquilo a que chamamos o nosso estágio1 e estágio 2) para o atual estágio 3, focado em Automação e Produtização.

Percebemos que, para escalar, não podíamos depender apenas de “vender” tempo. Foi aí que nasceu a nossa Academia em 2020 e a nossa filosofia: ‘If it doesn’t exist, we create it’ (Se não existe, nós criamos). Liderar esta transição, onde passámos a construir os nossos próprios ‘aceleradores’ e soluções baseadas em IA para otimizar a nossa produtividade e a dos nossos clientes, foi o grande ponto de viragem.

 

A Crossjoin Solutions tem vindo a afirmar-se em áreas altamente estratégicas como observabilidade, performance digital e tecnologia orientada a dados. Como descreve hoje o posicionamento diferenciador da empresa no mercado?

A Performance é o nosso principal fator diferenciador no mercado. Posicionamo-nos não como um fornecedor tradicional de outsourcing, mas como especialistas que garantem a Qualidade de Serviço (QoS) assente em quatro pilares: Disponibilidade, Fiabilidade, Tempo de Resposta e Segurança. O nosso grande diferencial é o desenvolvimento de soluções inteligentes ‘Out of the Box’ que se auto-otimizam e mantêm proativamente sistemas complexos. Fazemos isto através de frameworks próprias, como a plataforma X-Viewer e o COFRE, que garantem acesso rápido, seguro e padronizado à informação.

 

A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma tendência para passar a integrar o centro das decisões empresariais. Como avalia o atual momento da IA nas organizações? 

A IA passou de uma promessa a um motor essencial de eficiência operacional. Nas organizações mais maduras, a IA já está a ser utilizada para remover o trabalho manual em grande escala e reduzir drasticamente a carga de trabalho. Na Crossjoin, a IA está a tornar-nos mais fortes e a inspirar-nos a acreditar no sucesso da nossa jornada de automação (estágio 3). O momento atual exige que as empresas capitalizem esta tecnologia para criar sinergias e desenvolver soluções de produtividade internas.

 

Considera que as empresas portuguesas estão verdadeiramente preparadas para trabalhar com modelos orientados por dados e inteligência artificial? 

Ainda há um longo caminho a percorrer. De acordo com dados recentes do INE (2023), apenas 7,9% das empresas portuguesas utilizam tecnologia de IA, embora este número suba para cerca de 35,4% nas grandes empresas. Há um forte compromisso em Portugal com o avanço tecnológico e ecossistemas de startups, mas muitas organizações ainda esbarram na complexidade dos seus sistemas legados (legacy IT). O desafio não é apenas tecnológico; é a adaptação da cultura organizacional a processos ágeis e orientados a dados.

 

De que forma a utilização inteligente dos dados pode transformar a competitividade, eficiência e capacidade de decisão das organizações? 

Os dados permitem uma gestão preditiva em vez de reativa. A utilização inteligente de dados acelera a tomada de decisão, melhora a capacidade de resolução de problemas e capacita a operação diária das empresas. Na Crossjoin, criámos a framework CDX (Corporate Digital Transformation), que usa os dados e KPIs (Fase 5 do CDX) para simplificar processos, aplicar automação e, por fim, introduzir exploração analítica avançada. Isto permite-nos medir de forma observável a melhoria contínua dos nossos SLAs de serviço.

 

Hoje fala-se muito da combinação entre IA, automação e análise preditiva. Quais acredita serem os maiores impactos destas tecnologias nos próximos anos? 

O maior impacto será a automação end-to-end de processos complexos e a manutenção preditiva de sistemas. Por exemplo, através de machine learning, já é possível prever e evitar proativamente falhas técnicas nas redes de telecomunicações antes que o cliente as sinta. Esta combinação permitirá a criação de sistemas de TI que se autorregulam, reduzindo os custos operacionais (OPEX) e libertando o talento humano para tarefas de elevado valor acrescentado. Como diz a nossa missão: ‘By Performing to Perfection, we create time’.

 

A inovação tecnológica exige também responsabilidade ética. Que desafios identifica ao nível da privacidade, segurança e utilização consciente da Inteligência Artificial? 

O maior desafio para projetos de missão crítica em IA e Cibersegurança é o cumprimento rigoroso da Soberania de Dados Europeia, em conformidade com as normas Gaia-X e a diretiva NIS2. As empresas não podem escalar as suas equipas para fora da jurisdição da União Europeia em projetos institucionais ou governamentais, pois isso acarreta um risco legal e de segurança inegociável. A ética na IA passa por garantir a rastreabilidade, a segurança da informação e manter o ‘Human in the Loop’ — capacitando os utilizadores a validar e controlar os resultados da tecnologia. Do ponto de vista da utilização consciente da IA, temos de assumir que a presença da IA vai passar a ser onipresente, e por isso as empresas têm um desafio suplementar de criar uma mudança de paradigma para continuar a garantir a confiança dos seus clientes, todas as equipas devem ser treinadas para mudar o seu mindset de ver a IA com uma “confiança cega” para um mindset de parceiro crítico.

Acredita que a IA irá substituir funções ou antes potenciar novas competências e modelos de trabalho?

Irá, sem dúvida, potenciar o talento. A IA não vem substituir as pessoas; vem eliminar a fricção operacional para criar tempo. As organizações precisam de equilibrar cuidadosamente as interações digitais e humanas, encontrando a sintonia certa entre a conveniência da automação, a eficiência e o insubstituível ‘toque humano’. A verdadeira substituição ocorrerá apenas nas tarefas monótonas e repetitivas, exigindo dos profissionais uma requalificação (up-skilling) orientada para a gestão e pensamento crítico.

 

Na sua perspetiva, quais serão as competências mais importantes para os líderes e profissionais do futuro num contexto cada vez mais tecnológico? 

Num mundo onde a tecnologia (especialmente a IA) evolui diariamente e o ‘conhecimento sénior’ se torna obsoleto muito rápido, as competências-chave não são puramente técnicas. São a agilidade de aprendizagem, a inteligência emocional e a resiliência face à frustração. Além disso, os líderes do futuro terão de dominar a gestão baseada em dados e a cibersegurança, alinhando a inovação tecnológica com a sustentabilidade e a estratégia de negócio.

 

Como olha para o equilíbrio entre tecnologia e fator humano dentro das organizações? 

O fator humano é o motor que constrói a tecnologia. É por isso que desenhámos a ‘Engenharia da Inovação’ no nosso novo Crossjoin Campus. Usámos dados arquitetónicos e acústicos para criar um ecossistema (com a filosofia Kenshi/Kendo) desenhado matematicamente para reduzir o turnover e a fadiga visual, criando ‘Meeting Islands’ focadas na concentração e bem-estar psicológico. O equilíbrio atinge-se quando usamos a tecnologia não só para o cliente final, mas para construir espaços de retenção e reconhecimento para o nosso próprio talento.

 

A inovação é hoje uma necessidade permanente. Como se cria uma cultura empresarial verdadeiramente inovadora? 

A inovação não pode ser acidental, tem de ser sistemática. Na Crossjoin, implementámos uma política de ‘Bench Zero’: quando os nossos recursos não estão alocados a clientes externos, são alocados a 100% a projetos internos de Inovação. Além disso, a nossa Academia tem a duração exata de 6 meses, onde 3 meses são dedicados exclusivamente a Projetos de Inovação. Cria-se uma cultura inovadora garantindo que as equipas têm tempo, espaço e o mandato corporativo para testar ideias sem receio de falhar.

 

Que papel poderá Portugal desempenhar no panorama europeu da tecnologia, inteligência artificial e inovação digital? 

Portugal tem a oportunidade de ouro de se posicionar como o Escudo Europeu de Soberania (Sovereign Hub). Com a fuga de funções operacionais de TI para a Índia por grandes multinacionais, projetos críticos de IA e Cibersegurança estão legalmente impedidos de sair da União Europeia devido ao Gaia-X e à diretiva NIS2. Portugal pode ser a ‘Fábrica de Talentos’ que absorve a inovação crítica europeia, fornecendo engenharia de excelência com risco zero para o balanço destas multinacionais europeias.

 

Que tendências tecnológicas acredita que irão marcar os próximos cinco anos? 

Destaco três grandes tendências: a transição para plataformas alimentadas por Inteligência Artificial e Automação extrema (o nosso atual estágio 3), o desenvolvimento da encriptação segura contra computação quântica (Quantum-safe Encryption), e a massificação dos espaços de partilha de dados seguros e soberanos, impulsionados pela iniciativa europeia Gaia-X. A nossa própria visão a longo prazo (estágio 4) passa por consolidar soluções inteligentes que se autogerem em ambientes digitais complexos.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos empresários e líderes que ainda olham para a Inteligência Artificial com receio ou distância? 

A mensagem é: a vossa hesitação é o avanço da vossa concorrência. Se o receio é o risco financeiro ou a falta de talento maduro, saibam que existem modelos que mitigam esse perigo. É precisamente por isso que na Crossjoin operamos com uma lógica de ‘Zero Hiring Risk’. Nós recrutamos recém-licenciados de topo, incubamo-los e construímos o talento à medida das exigências da IA de cada cliente, absorvendo o risco durante a curva de aprendizagem. O talento certo elimina o receio da tecnologia.

 

Que visão tem para o futuro da Crossjoin Solutions e para o impacto que a empresa pretende continuar a gerar no setor tecnológico? 

A nossa Visão é clara e está declarada na nossa estratégia: ser o Líder no Mercado Global, entregando soluções inovadoras e inteligentes ‘Out of the Box’ que auto-otimizam e mantêm proativamente sistemas digitais complexos. Queremos continuar a transformar as despesas externas (OPEX) dos nossos clientes em ativos internos através da incubação de talento, ao mesmo tempo que promovemos o crescimento sustentável com um forte compromisso com a conformidade, sustentabilidade e segurança.

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