Liderança, especialização e visão de futuro marcam o percurso de Clélia Brás, fundadora da Clélia Brás Advogados. Numa entrevista à Revista Pontos de Vista, a advogada partilha a sua visão sobre a evolução da advocacia, o papel crescente da liderança feminina no setor jurídico e os desafios que hoje moldam o mercado imobiliário, a habitação e o investimento em Portugal. Com uma abordagem assente na proximidade, na excelência técnica e na construção de soluções sustentáveis, Clélia Brás reflete ainda sobre o primeiro ano da sua boutique law firm e sobre a importância de uma advocacia capaz de gerar confiança, segurança jurídica e impacto positivo na sociedade.
O que representou para si a criação da Clélia Brás Advogados e que visão esteve na origem deste projeto?
Com 25 anos de advocacia, quer em prática isolada, quer como sócia e responsável nacional do Departamento de Imobiliário de uma grande Sociedade de Advogados, tive a oportunidade de aprofundar e desenvolver conhecimentos que hoje convergem na criação deste projeto. Assim pretendi criar uma boutique focada em imobiliário, urbanismo e fiscalidade, mas com uma perspetiva integrada sobre o património – onde cada operação é vista não apenas como um negócio isolado, mas como uma peça de uma estratégia de longo prazo. Este projeto nasce da convicção de que a advocacia de excelência hoje exige especialização técnica, mas também disponibilidade, transparência e uma cultura de parceria com o cliente.
Que balanço faz deste primeiro ano de atividade enquanto boutique law firm especializada em imobiliário?
O balanço é muito positivo e, acima de tudo, muito exigente. Em pouco tempo, conquistámos a confiança de investidores, promotores e particulares com projetos relevantes, o que confirma que existe espaço no mercado para estruturas especializadas, independentes e com forte compromisso na execução. Este primeiro ano foi marcado por operações complexas, num contexto de grande volatilidade legislativa, o que nos obrigou a ser extremamente rigorosos na antecipação de risco jurídico e na comunicação com o cliente. Ao mesmo tempo, consolidámos uma cultura interna muito alinhada com os valores com que fundei o escritório: dedicação, ética, responsabilidade, foco em resultados e proximidade e consciência de que não se constrói nada sozinho.
Enquanto mulher e líder no setor jurídico, quais foram os maiores desafios e conquistas deste percurso empreendedor?
Não vejo propriamente o meu percurso na Advocacia por esse prisma de ser mulher, muito menos líder, contudo, o maior desafio foi, desde cedo, afirmar competência antes de qualquer rótulo – demonstrar, pela consistência do trabalho, que a credibilidade não tem género. A construção de um percurso próprio, assente na autonomia e no empreendedorismo, exigiu muitas decisões difíceis, uma enorme disciplina e a capacidade de gerir simultaneamente o crescimento profissional e as responsabilidades pessoais. As principais conquistas passam por ver reconhecida a qualidade técnica da equipa, participar em projetos de relevância económica e social, e perceber que o meu caminho pode servir de referência a quem pretender implementar o seu próprio projeto.
Advocacia feminina e transformação do setor
Considera que a advocacia portuguesa tem vindo a evoluir na valorização da liderança feminina?
Sim e não, a advocacia portuguesa tem evoluído de forma visível na valorização da liderança feminina, embora ainda haja muito caminho a percorrer. Hoje, já encontramos um número crescente de mulheres em posições de decisão – como sócias, managing partners ou fundadoras de sociedades, o que há alguns anos era claramente excecional. Essa presença começa a traduzir-se em culturas organizacionais mais inclusivas, em modelos de liderança menos hierarquizados e em maior atenção ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A mudança é real, mas deve ser continuamente reforçada com políticas concretas e com a promoção ativa do mérito, independentemente do género.
Que caraterísticas distingue hoje numa liderança feminina forte dentro do universo jurídico?
Numa liderança feminina destaco, em particular, a capacidade de conciliar firmeza com empatia. As líderes que mais me inspiram combinam rigor técnico e exigência com uma grande capacidade de ouvir, de integrar perspetivas e de construir equipas coesas. Vejo também uma preocupação crescente com a sustentabilidade das carreiras – com a formação contínua, com o bem-estar das equipas e com a criação de ambientes em que o talento possa florescer sem medo de errar. É uma liderança orientada para resultados, mas profundamente humana.
De que forma acredita que as mulheres estão a trazer novas abordagens à advocacia, especialmente em áreas ligadas ao investimento, património e negociação?
As mulheres têm trazido para estas áreas uma abordagem muito centrada na relação de confiança e na gestão de expetativas, aliando elegância a uma grande atenção ao detalhe, à preparação dos cenários e à comunicação clara com todas as partes envolvidas – o que muitas vezes evita conflitos futuros. Na negociação, a combinação entre assertividade e capacidade de construir pontes tem-se revelado uma mais-valia: não se trata apenas de “ganhar” uma posição, mas de estruturar soluções duradouras que protejam o cliente sem bloquear o negócio.
Imobiliário e habitação em Portugal
O setor imobiliário continua no centro do debate nacional. Como analisa o atual momento do mercado em Portugal?
Vivemos um momento de grande tensão, mas também de oportunidade. O mercado imobiliário em Portugal continua a atrair investimento, pela estabilidade relativa do país, pela localização e pela qualidade de vida, mas enfrenta hoje um grau elevado de incerteza legislativa e de pressão social em torno da habitação. Assistimos a uma crescente segmentação: por um lado, projetos de grande dimensão e forte componente institucional; por outro, uma classe média com dificuldade em aceder a habitação condigna. Enquanto advogados, sentimos diariamente o impacto dessa dualidade na análise de risco, na estruturação de negócios e na forma como aconselhamos clientes nacionais e estrangeiros.
A crise da habitação tem gerado grande discussão política, económica e social. Que mudanças considera mais urgentes ao nível jurídico e regulatório?
Mais do que criar sucessivos regimes, considero urgente garantir estabilidade, previsibilidade e coerência normativa. A habitação não se resolve apenas com medidas avulsas: exige uma visão integrada do território, do licenciamento urbanístico, da fiscalidade e dos incentivos ao arrendamento e à reabilitação. É essencial simplificar procedimentos, reduzir a incerteza no tempo de decisão das entidades públicas, criar mecanismos claros e estáveis de estímulo à construção e reabilitação em segmentos de renda acessível e reforçar a segurança jurídica para quem investe. Políticas que mudam a cada ciclo político geram hesitação, retraem investimento e, paradoxalmente, agravam a escassez de oferta.
Que impacto têm tido as alterações legislativas recentes na confiança de investidores, proprietários e promotores?
As alterações legislativas frequentes, em áreas como arrendamento, fiscalidade imobiliária ou regimes de incentivos, têm tido um impacto ambivalente. Por um lado, algumas medidas procuram responder a problemas reais do mercado; por outro, a sucessão de mudanças, muitas vezes em prazo curto, gera receio e leva investidores a adotar uma postura de maior prudência. Do ponto de vista da advocacia, somos chamados a fazer um trabalho ainda mais intenso de explicação, enquadramento e comparação de cenários, porque a perceção de risco jurídico pesa hoje tanto como a análise financeira na decisão de investir.
Portugal continua atrativo para investimento imobiliário internacional? O que mudou nos últimos anos?
Portugal continua atrativo, mas por razões que se tornaram mais sofisticadas. Para além de fatores como o clima ou a segurança, os investidores olham agora com maior atenção para a qualidade das infraestruturas, do talento disponível, do ecossistema tecnológico e da capacidade de execução dos projetos. O que mudou foi a exigência: já não basta ter localização e estabilidade política; é necessário garantir processos administrativos céleres, um quadro fiscal competitivo e segurança jurídica a longo prazo. Quem investe hoje em Portugal procura parceiros locais – incluindo sociedades de advogados – capazes de antecipar o impacto das mudanças regulatórias e de desenhar estruturas juridicamente seguras e resilientes.
Turismo, investimento e desenvolvimento
Qual é hoje a relação entre turismo, investimento estrangeiro e desenvolvimento imobiliário em Portugal?
Turismo, investimento estrangeiro e desenvolvimento imobiliário estão hoje profundamente interligados. O crescimento do turismo impulsionou a reabilitação urbana, a reconversão de edifícios e a criação de novos produtos imobiliários – desde hotéis a serviced apartments. Esse movimento trouxe capital e dinamismo a muitas cidades, mas também desafios relevantes em termos de pressão sobre a habitação, mobilidade e equilíbrio dos bairros. O grande tema, atualmente, é como canalizar o investimento para modelos que criem valor sustentável para o território, e não apenas respostas de curto prazo.
Como olha para o equilíbrio entre crescimento turístico e sustentabilidade urbana, sobretudo nas grandes cidades?
Encontrar esse equilíbrio é um dos maiores desafios da próxima década. As cidades precisam de continuar a atrair turismo e investimento, mas não podem perder a sua função essencial de lugar de vida, trabalho e comunidade para quem nelas reside. Isso exige planeamento urbano consistente, regras claras quanto à afetação dos imóveis, investimento em infraestruturas e uma visão de longo prazo por parte do poder público. A advocacia tem aqui um papel importante ao estruturar projetos que respeitem o enquadramento urbanístico, promovam reabilitação responsável e integrem preocupações ambientais e sociais desde a origem.
Que papel pode a advocacia desempenhar na construção de modelos de investimento mais seguros, transparentes e sustentáveis?
A advocacia é um pilar de confiança nos processos de investimento. Podemos – e devemos – contribuir para modelos mais seguros e transparentes através de uma due diligence rigorosa, de contratos claros e equilibrados e de uma identificação antecipada dos riscos regulatórios e de licenciamento. Mas também temos a responsabilidade de aconselhar soluções que não se limitem ao imediato, integrando critérios de sustentabilidade, de impacto no território e de conformidade com boas práticas de governança. A forma como estruturamos juridicamente um projeto pode ser decisiva para a sua aceitação social, para o seu sucesso económico e para a sua resiliência ao longo do tempo.
Boutique law firm e proximidade ao cliente
O conceito de boutique law firm tem vindo a ganhar relevância. O que diferencia este modelo de prática jurídica?
Uma boutique law firm distingue-se, sobretudo, pela combinação entre elevada especialização e grande proximidade ao cliente. São estruturas mais exigentes, com equipas altamente dedicadas a áreas específicas, que permitem um acompanhamento direto pelos sócios e uma resposta muito personalizada. O cliente sabe quem o acompanha, quem o aconselha e quem assume a responsabilidade estratégica do caso. Isso cria uma relação de confiança muito forte e permite um alinhamento mais claro entre expectativa, risco e resultado.
Que importância atribui à especialização e ao acompanhamento personalizado dos clientes?
No contexto atual, a especialização já não é uma opção – é uma condição para prestar um serviço verdadeiramente diferenciado. As matérias de imobiliário, urbanismo e fiscalidade tornam-se, a cada ano, mais técnicas e mais reguladas, exigindo atualização constante e conhecimento profundo do setor. Ao mesmo tempo, o acompanhamento personalizado é aquilo que transforma o conhecimento técnico em valor efetivo: estar disponível, explicar, antecipar problemas e, sobretudo, tomar decisões ao lado do cliente, e não à distância.
Como descreve a identidade e posicionamento da Clélia Brás Advogados no atual panorama jurídico nacional?
A Clélia Brás Advogados afirma-se como uma boutique especializada em imobiliário, urbanismo e fiscalidade, com uma forte vocação para o acompanhamento de investimento e património. O nosso posicionamento assenta em três pilares: excelência técnica, proximidade e pragmatismo. Procuramos ser uma sociedade que compreende o negócio do cliente, fala a linguagem do investidor e, ao mesmo tempo, mantém uma ética profissional irrepreensível. Queremos ser reconhecidos não apenas pela qualidade das opiniões que emitimos, mas pela segurança e serenidade que conseguimos trazer a decisões muitas vezes complexas e sensíveis.
Visão de futuro
Que tendências prevê para os próximos anos no setor imobiliário e da habitação em Portugal?
Prevejo um mercado cada vez mais segmentado e exigente. A habitação acessível e o arrendamento de longa duração vão ganhar relevância, impulsionados tanto por políticas públicas como pela necessidade de resposta às famílias e à classe média. Veremos também uma maior integração entre imobiliário e tecnologia – desde modelos de living flexível até soluções de gestão inteligente de edifícios – e uma intensificação dos critérios ESG na decisão de investimento. A sustentabilidade, nas suas várias dimensões, deixará de ser um fator diferenciador para passar a ser um requisito básico em muitos projetos.
Quais serão os grandes desafios jurídicos ligados ao investimento, urbanismo e turismo?
Os grandes desafios jurídicos passarão pela capacidade de compatibilizar rapidez de execução com segurança jurídica. No urbanismo, continuará a ser crítico simplificar procedimentos, tornar mais previsíveis os tempos de licenciamento e clarificar competências entre entidades. No investimento e no turismo, a principal questão será equilibrar regimes de incentivo e de proteção do investimento com a necessidade de proteger a habitação, o ambiente e a identidade das cidades. Tudo isto exigirá um diálogo permanente entre legislador, administração, investidores e sociedade civil – e uma advocacia preparada para atuar como ponte entre estes mundos.
Que objetivos gostaria de concretizar nos próximos anos enquanto advogada e líder empresarial?
Nos próximos anos, gostaria de consolidar a Clélia Brás Advogados como uma referência nacional e ibérica em imobiliário, urbanismo e fiscalidade, mantendo a dimensão humana e a cultura de proximidade que temos hoje. Pretendo continuar a acompanhar operações desafiantes, que tenham impacto real na transformação das cidades e na vida das pessoas, e contribuir de forma ativa para o debate público sobre habitação e desenvolvimento urbano. Enquanto líder, quero continuar a criar oportunidades para jovens advogados, em particular mulheres, que desejem construir carreiras exigentes, mas equilibradas e com verdadeiro espaço para crescer.
Que mensagem gostaria de deixar às novas gerações de mulheres que pretendem construir carreira na advocacia e no universo empresarial?
Diria, antes de mais, que não esperem pela “altura certa” para acreditar em si próprias. A altura certa constrói-se com trabalho, preparação e coragem para dar o passo seguinte, mesmo quando o caminho não está totalmente desenhado. A advocacia e o universo empresarial continuam a ser exigentes, mas hoje oferecem muito mais espaço para percursos diversos, para projetos próprios e para formas de liderança que já não cabem nos modelos tradicionais. Invistam na vossa formação, escolham bem as pessoas com quem trabalham e não tenham receio de ocupar espaço, de assumir a vossa voz e de liderar, mesmo quando isso significa contrariar expetativas. Se há algo que o meu percurso vos pode mostrar é isto: ninguém fará esse caminho por vocês, mas tudo se torna possível quando decidem, com convicção, que querem mesmo deixar a vossa marca.
O futuro da profissão também depende das escolhas que a Vossa geração fizer – e é, por isso, um futuro que podem e devem ajudar a desenhar. Eu, enquanto Clélia Brás, deixo-vos apenas um desafio: não se limitem a seguir caminhos abertos, criem os Vossos e coloquem o Vosso nome, com orgulho e humildade na transformação da advocacia.


