Num tempo em que a saúde é cada vez mais desafiada a olhar para a pessoa na sua totalidade, Teresa Silva, fundadora e CEO da Clínica Magna, defende um modelo de cuidado que integra ciência, humanidade, escuta e bem-estar. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilha o percurso que deu origem à Clínica Magna, a sua visão sobre liderança feminina na área da saúde e a importância de colocar a pessoa — e não apenas o paciente — no centro de cada decisão. Uma conversa sobre propósito, empatia, inovação e o futuro de uma saúde mais integrada, colaborativa e humanizada.
Como nasceu a Clínica Magna e que visão esteve na origem deste projeto?
A Clínica Magna nasceu de uma experiência pessoal muito significativa e desafiante. Houve um momento da minha vida em que senti que a Medicina Convencional, apesar da sua importância, não me oferecia todas as respostas de que precisava. Esse caminho levou-me a procurar outras abordagens, a estudar, a aprofundar o desenvolvimento pessoal e a perceber que a saúde deve ser olhada de forma integrada: corpo, mente, emoções e, também, dimensão interior.
Foi dessa vivência que nasceu o desejo de criar um espaço onde as pessoas pudessem ser acolhidas, ouvidas e acompanhadas de forma mais completa. A Clínica Magna não surgiu apenas como um projeto empresarial, mas como uma missão: proporcionar cuidado, equilíbrio, bem-estar e transformação a quem nos procura.
O que significa, para si, liderar uma unidade de saúde com uma abordagem holística do ser humano?
Significa liderar com a consciência de que cada pessoa é muito mais do que um sintoma, um diagnóstico ou uma queixa física. Uma abordagem holística implica olhar para o ser humano na sua totalidade, considerando os aspetos físicos, mentais, emocionais e espirituais que podem influenciar o seu estado de saúde e bem-estar.
Enquanto líder, isso exige presença, escuta, responsabilidade e coerência. Não basta disponibilizar diferentes especialidades; é necessário criar uma cultura clínica em que todos os profissionais partilhem uma visão comum: cuidar com rigor técnico, mas também com humanidade, proximidade e respeito pela individualidade de cada pessoa.
Que desafios encontrou enquanto mulher fundadora e CEO na área da saúde e bem-estar?
O maior desafio foi, antes de tudo, a coragem de mudar de rumo. Depois de quase 30 anos na Administração Local e de uma vida profissional considerada estável, decidir empreender exigiu muita resiliência. Nem sempre as pessoas à minha volta compreenderam essa decisão; muitas viam-na como um risco ou até como uma imprudência.
Além disso, criar uma clínica envolve desafios muito concretos: obras de adaptação do espaço, processos de regulamentação e legalização, gestão financeira, marketing, burocracia e a necessidade de reunir profissionais qualificados que partilhem a mesma visão. Senti que era fundamental manter firmeza, mas também confiança no propósito que me levou a criar este projeto.
Que valores considera fundamentais para liderar uma equipa clínica com propósito, rigor e humanidade?
Acredito que os valores essenciais são a ética, a responsabilidade, a empatia, a competência e o compromisso com a qualidade. Numa equipa clínica, o rigor técnico é indispensável, mas não chega. É preciso que cada profissional compreenda que está perante uma pessoa, com uma história, fragilidades, expetativas e necessidades próprias.
Também é fundamental a confiança. Uma equipa só consegue trabalhar com propósito quando existe alinhamento, respeito mútuo e clareza sobre a missão comum. Na Clínica Magna, essa missão passa por prestar cuidados de qualidade, num ambiente acolhedor, com profissionais experientes e uma visão multidisciplinar.
Porque acredita que o verdadeiro cuidado começa antes da consulta?
O cuidado começa no primeiro contato, na forma como a pessoa é recebida, escutada e orientada. Antes de qualquer consulta, já existe uma expetativa, uma preocupação ou até alguma vulnerabilidade por parte de quem nos procura. Por isso, cada detalhe importa: o acolhimento, a acessibilidade, o ambiente, a disponibilidade para esclarecer dúvidas e a sensação de segurança.
Como se constrói uma relação de confiança com cada pessoa que procura a Clínica Magna?
A confiança constrói-se desde o primeiro contato, através de um acolhimento atento, de uma escuta sem julgamento e de uma comunicação clara. Cada pessoa deve sentir que é recebida com respeito e que as suas necessidades são levadas a sério.
Na Clínica Magna, essa confiança consolida-se com a qualidade dos profissionais, a credibilidade dos serviços e a consistência do acompanhamento. Queremos que cada pessoa perceba que encontra aqui uma equipa competente, mas também verdadeiramente comprometida com o seu bem-estar.
Como define o conceito de empatia estratégica na liderança em saúde?
Para mim, empatia estratégica é a capacidade de liderar com sensibilidade, mas também com visão e responsabilidade. Na área da saúde, a empatia não pode ser apenas uma intenção; deve traduzir-se em decisões concretas, na forma como organizamos os serviços, escolhemos as equipas, acolhemos os clientes e desenhamos a experiência clínica.
Ser empático não significa abdicar da exigência. Significa compreender melhor as pessoas (clientes, profissionais e parceiros”, para tomar decisões mais conscientes, mais humanas e mais eficazes. A empatia, quando integrada na liderança, torna-se numa força estratégica porque melhora a relação, a confiança e a qualidade do cuidado.
É possível conciliar exigência, firmeza e sensibilidade na gestão de uma clínica?
Sim, e acredito que essa conciliação é essencial. Gerir uma clínica exige rigor, cumprimento de normas, responsabilidade financeira, organização e tomada de decisões firmes. Mas, ao mesmo tempo, estamos a trabalhar com pessoas e para pessoas, o que exige sensibilidade, escuta e capacidade de adaptação.
A firmeza é necessária para garantir qualidade e credibilidade. A sensibilidade é necessária para preservar a dimensão humana do cuidado. Quando estas duas dimensões se equilibram, a gestão torna-se mais consciente e mais sustentável.
Porque considera que o futuro da saúde passa por modelos mais colaborativos e interdisciplinares?
As necessidades das pessoas são cada vez mais complexas. Muitas vezes, um sintoma físico pode estar ligado a fatores emocionais, mentais, comportamentais ou até ao estilo de vida. Por isso, não faz sentido olhar para a saúde de forma fragmentada.
O futuro da saúde passa por modelos em que diferentes áreas colaboram entre si, respeitando o conhecimento técnico de cada especialidade, mas trabalhando com uma visão comum. A medicina convencional é fundamental, mas pode ser complementada por outras abordagens que ajudam a promover equilíbrio, prevenção e bem-estar global.
Como se articulam diferentes especialidades e terapias numa visão integrada do cliente?
Articulam-se através de uma visão comum e de uma preocupação central, a de compreender o que cada pessoa precisa. Na Clínica Magna, disponibilizamos várias áreas, desde consultas de psicologia, psicoterapia, medicina tradicional chinesa, ayurveda, osteopatia, homeopatia, nutrição funcional, até reiki, yoga, constelações familiares, entre outras abordagens.
A integração não significa misturar tudo sem critério. Significa perceber que cada especialidade pode ter um papel específico no percurso de bem-estar da pessoa. O essencial é que exista qualidade, responsabilidade e uma orientação adequada às necessidades individuais.
Que importância tem a relação terapêutica na eficácia do acompanhamento?
A relação terapêutica é determinante. Quando uma pessoa se sente segura, respeitada e verdadeiramente ouvida, torna-se mais disponível para o processo de cura. A confiança facilita a relação, a continuidade e a abertura necessária para que o trabalho terapêutico tenha impacto.
Muitas vezes, o primeiro passo para a transformação é sentir que existe alguém capaz de escutar com presença. Por isso, valorizamos muito a dimensão relacional do cuidado. A técnica é indispensável, mas a relação humana é o que muitas vezes permite que essa técnica produza resultados mais duradouros.
Porque é importante que cada pessoa se sinta vista como pessoa e não apenas como paciente?
Porque ninguém é apenas uma doença, uma dor ou um diagnóstico. Cada pessoa traz consigo uma história, emoções, medos, expetativas e contextos de vida que influenciam a sua saúde. Quando olhamos apenas para o sintoma, podemos perder a oportunidade de compreender a origem ou os fatores que contribuem para o desequilíbrio.
Sentir-se visto como pessoa é sentir-se respeitado na sua totalidade. É esse olhar que permite um cuidado mais humano, mais consciente e, muitas vezes, mais eficaz.
Que legado gostaria de deixar na forma como se pensa saúde, bem-estar e cuidado em Portugal?
Gostaria de contribuir para uma forma mais integradora, consciente e humana de pensar a saúde. Um modelo em que o rigor técnico caminhe lado a lado com a empatia, em que o bem-estar seja entendido como algo mais amplo do que a ausência de doença e em que as pessoas tenham acesso a espaços onde se sintam acolhidas e acompanhadas.
Gostaria que a Clínica Magna fosse reconhecida como um espaço de referência pela qualidade, pela credibilidade, pela confiança e pela forma como coloca a pessoa no centro. Esse seria, para mim, um legado muito importante.
Que mensagem gostaria de deixar a outros gestores e profissionais de saúde sobre a importância de cuidar com dignidade, presença e compaixão?
Cuidar é uma grande responsabilidade. Na saúde, cada decisão, cada palavra e cada gesto podem ter impacto na vida de alguém. Por isso, é essencial que nunca percamos a dimensão humana do nosso trabalho.
Cuidar com dignidade é respeitar a pessoa. Cuidar com presença é estar verdadeiramente disponível. Cuidar com compaixão é reconhecer a vulnerabilidade do outro e responder com humanidade. Acredito que o futuro da saúde precisa desta combinação: conhecimento, ética, rigor e coração.


