Opinião por Luís Veloso de Almeida,
Administrador-Delegado da Transcom (ISUTC e ITC)
A pergunta é simples. A resposta, não. Os jovens vão construir o futuro de Moçambique. Mas não qualquer jovem: os que tiverem acesso a uma educação de qualidade, a formação relevante e a oportunidades reais de emprego. E os que crescerem num país com energia fiável para ligar as suas escolas, desenvolver a economia e alimentar as suas ambições.
Sem estes dois pilares, a juventude não é um ativo. É um risco.
Escrevo isto com a consciência de quem lidera o ISUTC e o ITC, duas instituições com mais de 26 anos de existência e mais de 4.500 estudantes. O ISUTC completou em 2025 os seus primeiros 25 anos. Seria fácil usar este aniversário apenas para celebrar. Prefiro usá-lo para dizer o que ainda falta fazer, e porque é urgente fazê-lo.
O maior ativo de Moçambique
ainda não foi ativado
Moçambique tem hoje mais de 36 milhões de habitantes, com uma idade mediana de 16,6 anos. Mais de 64% da população tem menos de 25 anos, cerca de 18 milhões de jovens com menos de 18 anos. Nenhum recurso natural do país, nem o gás, nem a terra, nem a posição geográfica, tem o potencial transformador desta geração, se for devidamente educada e qualificada.
A história é clara: as nações que converteram uma população jovem em crescimento duradouro fizeram uma escolha deliberada de investir em educação antes de precisar dos resultados. A Coreia do Sul, Singapura e, mais recentemente, o Ruanda demonstraram que é possível dar esse salto, apostando na qualificação das pessoas como prioridade estratégica e não como consequência do crescimento. Moçambique tem essa janela aberta. Mas as janelas fecham.
Educação não é despesa. É o único investimento que se multiplica
Tratar a educação como rubrica de custo é um erro com consequências geracionais. Um engenheiro formado hoje paga impostos durante 40 anos, cria emprego e forma outros. Um jovem sem qualificação adequada custa mais ao Estado do que aquilo que produz. A investigação económica é clara: os países que mais investiram em capital humano são os que mais cresceram. Não é coincidência. É causalidade.
Em Moçambique, a taxa de literacia jovem ronda os 77%. Mas este é um ponto de partida, não deve ser visto como conquista, ou um ponto de chegada. O desafio não é apenas alfabetizar: é qualificar para o mercado de trabalho real, garantindo que os jovens chegam ao ensino superior e à vida ativa com as competências que as empresas e a economia exigem.
A ponte entre a Academia
e a Economia real
Uma das maiores fragilidades dos sistemas de ensino em países em desenvolvimento é a distância entre o que se aprende e o que o mercado precisa. Essa distância tem um custo duplo: para o jovem sem empregabilidade real, e para a empresa que não encontra o talento de que necessita.
É nesse sentido que temos trabalhado no ISUTC e no ITC. No ISUTC, os currículos são desenhados em parceria com o setor privado, com estágios reais em empresas e investigação aplicada aos problemas concretos do país. No ITC, a formação técnica e profissional é pensada em articulação direta com as necessidades das indústrias moçambicanas.
Não porque seja fácil. Porque é a única forma de garantir que a educação que oferecemos é relevante para Moçambique e não apenas academicamente correta.
Tecnologia, energia e educação:
a mesma decisão
A inteligência artificial e a automação estão a reconfigurar o mercado de trabalho a uma velocidade sem precedentes.
Quem não qualificar os seus jovens agora ficará para trás; quem o fizer poderá saltar etapas que outros países demoraram décadas a percorrer. Mas esse salto exige também energia fiável: sem corrente elétrica nas escolas, não há computadores, não há internet, não há sala de aula digital nem há desenvolvimento económico.
Moçambique tem recursos notáveis para produzir energia hídrica, solar e de gás. Energia sem capital humano qualificado para a gerir é potencial desperdiçado. Capital humano sem energia é uma promessa sem infraestrutura. As duas apostas têm de avançar em paralelo, como parte de uma única visão estratégica para o país.
Quem vai construir o futuro
de Moçambique?
Os jovens que hoje têm a possibilidade de se instruir, de comunicar, de viajar, de se valorizar. Os que amanhã vão trabalhar em empresas, hospitais, escolas e ministérios. Os que vão criar empregos e resolver os problemas que hoje ainda não têm solução. Esse futuro não cai do céu. Constrói-se com escolhas deliberadas: em políticas públicas, em investimento empresarial, em parcerias internacionais.
Na Transcom, fizemos a nossa escolha há 26 anos. O ISUTC e o ITC são a expressão concreta dessa escolha: duas instituições construídas com a convicção de que educar é o ato mais estratégico que uma empresa ou um Estado pode realizar. Cada jovem que passa pelas nossas portas não é apenas um estudante. É uma resposta à pergunta com que abri este artigo.


