OPINIÃO DE Dr. Tiago Sá, Médico Açoriano –
Pneumologista especialista em Medicina do Sono da Sleeplab
Passamos aproximadamente um terço da nossa vida a dormir. À primeira vista, pode parecer um desperdício de tempo, já que durante o sono não procuramos alimento, não trabalhamos nem realizamos muitas das atividades associadas à sobrevivência e ao dia a dia. No entanto, o facto de dedicarmos tantas horas ao sono sugere que este desempenha uma função essencial para o organismo.
Se não fosse fundamental para a nossa saúde e bem-estar, dificilmente a evolução teria preservado um comportamento que ocupa uma parte tão significativa da nossa vida.
Vários autores descrevem o sono como um dos três pilares essenciais para uma vida saudável, a par da dieta e da atividade física. Apesar disso, inúmeros estudos mostram que grande parte da população dos países industrializados dorme menos do que o recomendado. Porquê? Provavelmente porque muitos de nós sentem que as horas do dia não chegam para cumprir todas as tarefas e responsabilidades que assumimos. Frequentemente, a solução encontrada é reduzir o tempo dedicado ao sono.
Costumo dizer aos meus doentes que devemos encarar o sono como mais uma tarefa importante do dia e reservar-lhe espaço na agenda, tal como fazemos para o trabalho, o exercício físico ou os compromissos familiares. Dormir as sete a nove horas recomendadas por noite não é um luxo, mas sim uma necessidade.
O sono é essencial para a nossa saúde e bem-estar. Durante o sono, o corpo e o cérebro recuperam das atividades do dia, consolidam memórias e desempenham funções fundamentais para o bom funcionamento do organismo. Dormir bem contribui para o equilíbrio físico e emocional, enquanto a privação de sono pode afetar a nossa saúde, concentração, humor e qualidade de vida.
“Uma boa gargalhada e uma longa noite de sono são os melhores remédios que um médico pode receitar.”
(tradução livre de um provérbio irlandês)
Considero este provérbio particularmente interessante por várias razões. Em primeiro lugar, porque é inegável que nos sentimos melhor depois de uma boa gargalhada ou de uma noite de sono reparador. Em segundo lugar, porque, apesar da sua importância para a saúde, o sono continua a ser um tema relativamente pouco explorado durante a formação médica, quando comparado com outras áreas da medicina.
No ano em que se assinalam os 50 anos da Autonomia dos Açores, importa destacar o impacto que esta teve na melhoria dos cuidados de saúde prestados à população açoriana. Na área da Medicina do Sono, os Açores tiveram desde cedo a capacidade de atrair profissionais qualificados e dedicados a esta especialidade. Uma das primeiras clínicas do país vocacionadas para o diagnóstico e tratamento das perturbações do sono foi fundada em Ponta Delgada na década de 1990. Atualmente, o acesso a consultas de Medicina do Sono é cada vez mais fácil, permitindo que mais açorianos possam beneficiar de cuidados especializados nesta área.
À medida que aumenta o conhecimento sobre a importância do sono para a nossa saúde, torna-se essencial continuar a investir nesta área.
Nos Açores, esse investimento deve passar não só pelo reforço do acesso a cuidados especializados em Medicina do Sono, mas também pela sensibilização da população para a importância de hábitos de sono saudáveis. Afinal, cuidar do sono é investir na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida dos açorianos.


