Como a emeis está a transformar os cuidados a pessoas com a doença de Alzheimer e outras demências em Portugal: da pioneira unidade de Viseu à nova resposta em Belém (Lisboa). Vários profissionais de residências sénior explicam este novo modelo de cuidados especializados, que tem tido muito sucesso na Europa e já está em funcionamento no nosso país.
O envelhecimento da população portuguesa está a trazer novos desafios ao setor dos cuidados continuados e das residências para seniores. Entre eles, destaca-se o aumento dos casos de Alzheimer e outras demências, patologias que afetam não apenas a memória, mas também a autonomia, a comunicação e a qualidade de vida de milhares de pessoas e respetivas famílias.
Consciente desta realidade, a emeis assumiu um papel pioneiro em Portugal ao criar, em 2021, na Residência Viriathus Sénior, em Viseu, a primeira UPAD – Unidade Protegida para Alzheimer e outras Demências do país, um modelo inovador utilizado noutros países europeus e que agora foi implementado com sucesso em Portugal. Este grupo, referência na prestação de cuidados a idosos e reabilitação, conta com 17 centros em Portugal, 15 dos quais são residências para seniores. Recentemente, reforçou o seu modelo com a abertura de uma nova unidade de Alzheimer na Residência Bom Sucesso, em Belém, consolidando uma abordagem especializada para seniores com estas doenças neurodegenerativas. A ideia é abrir mais unidades deste tipo em Portugal a curto e médio prazo.
Para Lúcia Carvalho, animadora sociocultural da UPAD da Residência Viriathus Sénior, em Viseu, a criação desta resposta especializada nasceu da necessidade de oferecer cuidados verdadeiramente diferenciados. “A criação da primeira UPAD em Portugal representou uma resposta inovadora a uma necessidade crescente da população. Esta aposta surgiu da consciência de que as pessoas com Alzheimer e outras demências necessitam de cuidados especializados, diferentes dos modelos residenciais tradicionais”, explica.
Desde então, os resultados têm sido evidentes. Segundo a profissional, a especialização permitiu uma maior individualização dos cuidados, uma redução dos comportamentos de agitação e uma melhoria significativa da funcionalidade e do bem-estar dos residentes, ao mesmo tempo que reforçou o apoio prestado às famílias.
Muito mais do que uma residência
Uma UPAD é uma unidade concebida especificamente para acompanhar pessoas com Alzheimer e outras demências, integrando ambientes adaptados, equipas especializadas e programas terapêuticos desenvolvidos para responder às alterações cognitivas, funcionais e comportamentais associadas à doença.
“O que distingue estas unidades é precisamente a especialização da equipa, o ambiente terapêutico estruturado e uma abordagem centrada na pessoa, na sua história de vida e no seu bem-estar emocional”, sublinha Catarina Branquinho, psicomotricista da UPAD da Residência Bom Sucesso, em Lisboa, e acrescenta “a UPAD tem caraterísticas próprias ao nível da segurança (há uma monitorização das saídas dos residentes, para controlo da sua segurança), que permite que o residente caminhe sem necessidade de vigilância contínua (pela fase da demência, poderá não ter crítica de que está a sair da residência e está a sair para um local perigoso). Pelo facto de ser uma unidade mais pequena, permite que haja uma interação continuada entre os residentes, o que tem um impacto positivo na vida de relação dos mesmos. É uma unidade com um plano de atividades de grupo, onde a par do contexto estruturado, se facilita a realização de rotinas que são importantes para os residentes (como poder fazer a sua cama, cuidar das suas plantas, o que seja significativo para cada residente). É um local onde se privilegia a estabilidade de cuidadores, de forma a que seja mais fácil para a pessoa com demência ter as suas figuras de referência e, para os cuidadores, conhecer melhor a pessoa e ter uma abordagem mais especializada”.
A nova unidade de Belém, Lisboa, representa igualmente uma evolução do modelo implementado em Viseu.
A integração de novas tecnologias, a criação de espaços mais orientados para as necessidades sensoriais dos residentes e o reforço do trabalho interdisciplinar são algumas das mais-valias identificadas pelas equipas.
“A nova UPAD em Lisboa reflete uma evolução natural do modelo inicial. Existe hoje uma maior integração de abordagens terapêuticas diferenciadas, tecnologia aplicada à estimulação cognitiva e funcional e uma personalização ainda maior dos planos terapêuticos”, refere Catarina.
O papel decisivo das equipas multidisciplinares
Nas UPAD, o trabalho é desenvolvido por equipas multidisciplinares compostas por médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas, animadores socioculturais e auxiliares, entre outros profissionais. A especialização assume aqui um papel determinante, uma vez que as demências afetam múltiplas dimensões da vida da pessoa.
“A equipa multidisciplinar integra médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, animadores socioculturais, auxiliares, entre outros profissionais. A especialização é essencial, uma vez que as demências afetam múltiplas dimensões da vida da pessoa. Enquanto fisioterapeuta, o nosso papel é fundamental na manutenção da mobilidade, prevenção de quedas, promoção da autonomia funcional e gestão de alterações motoras associadas à progressão da doença. Como animadora sociocultural considero que o nosso papel é muito importante na promoção do bem-estar emocional, cognitivo e social dos residentes. Desenvolvemos atividades de estimulação cognitiva, reminiscência, expressão artística, motora e sensorial, sempre ajustadas às capacidades e interesses de cada residente. Procuramos também criar momentos de interação, autoestima e inclusão, ajudando os residentes a manterem-se ativos, envolvidos e com maior qualidade de vida” explica Gonçalo Araújo, fisioterapeuta na UPAD da Residência Viriathus Sénior.
“A intervenção deve ser continuamente ajustada para preservar ao máximo a funcionalidade, a dignidade e o bem-estar dos residentes”, explica a sua colega Catarina desde Lisboa. Esta visão traduz-se numa abordagem integrada que combina estimulação cognitiva, atividade física, terapia ocupacional, intervenção psicomotora, atividades socioculturais e acompanhamento emocional.
Estimular a memória, preservar a identidade
Entre as terapias não farmacológicas utilizadas nas UPAD, uma das mais relevantes é a terapia da reminiscência. Através de fotografias, músicas, objetos ou conversas ligadas ao percurso de vida de cada pessoa, procura-se estimular memórias e reforçar a identidade individual.
“Temos observado benefícios muito importantes ao nível emocional e social, como uma maior interação, redução da ansiedade e melhoria do humor. Muitas vezes, estas sessões facilitam também a comunicação e fortalecem a identidade pessoal do residente”, destaca Catarina.
Segundo Lúcia Carvalho, esta abordagem tem ainda um impacto importante na autoestima e no sentimento de continuidade da pessoa. “Estas sessões ajudam os residentes a reconetarem-se com experiências significativas do passado e a encontrarem um novo significado para essas memórias no presente”, afirma.
Os benefícios são visíveis em várias dimensões: estimulação da atenção, da linguagem e da memória, promoção da interação social e redução de sentimentos de isolamento.
Animais, tecnologia e inovação ao serviço do bem-estar
A aposta da emeis em abordagens inovadoras estende-se também às terapias assistidas por animais, “muitos residentes mostram-se mais motivados, tranquilos e participativos durante estas sessões. Além disso, o contato com os animais desperta memórias afetivas e promove estímulos emocionais positivos”, refere Catarina Branquinho.
Mas a inovação não se fica por aqui. A utilização de ferramentas digitais, realidade virtual e plataformas de estimulação cognitiva está a transformar a forma como as equipas trabalham diariamente com os residentes.
“As novas tecnologias permitem criar experiências mais motivadoras e adaptadas às capacidades de cada pessoa”, explica a psicomotricista. “Observamos benefícios ao nível do movimento, do equilíbrio, da coordenação e da participação ativa dos residentes.”
Para além da componente terapêutica, estas ferramentas contribuem para reduzir o isolamento social, facilitando o contato com familiares através de videochamadas e outras soluções digitais.
O universo sensorial das salas Snoezelen
Outro dos elementos diferenciadores das UPAD são as salas Snoezelen, espaços multissensoriais especialmente concebidos para proporcionar conforto, relaxamento e estimulação sensorial controlada.
Nestes ambientes, os residentes são envolvidos por luzes suaves, projeções visuais, música ambiente, aromas e diferentes texturas, criando experiências adaptadas às suas necessidades individuais.
“O impacto destas salas é bastante positivo, sobretudo na redução da ansiedade, da agitação e dos comportamentos desafiantes frequentemente associados às demências”, explica Catarina. A animadora Lúcia Carvalho partilha da mesma opinião sobre os benefícios emocionais destes espaços, referindo que as salas Snoezelen promovem “respostas positivas, maior tranquilidade e uma sensação reforçada de segurança e bem-estar”.
Um olhar para o futuro
Num contexto em que o número de pessoas a viver com demência continuará a aumentar nas próximas décadas, a emeis pretende continuar a investir na especialização dos cuidados, na inovação terapêutica e na formação das equipas.
“Acreditamos que os próximos passos passam pela expansão de respostas cada vez mais especializadas, pela integração de novas tecnologias e pelo reforço contínuo da formação das equipas multidisciplinares”, refere o fisioterapeuta Gonçalo Araújo.
Para Catarina Branquinho, o futuro passa inevitavelmente por abordagens cada vez mais humanizadas e centradas na pessoa, “a inovação permite melhorar a qualidade dos cuidados, promover maior autonomia e criar estratégias terapêuticas mais eficazes ao nível físico, cognitivo e emocional.”
E deixa também uma mensagem às famílias que enfrentam o diagnóstico de um ente querido: “o diagnóstico de demência traz muitos desafios, mas a pessoa continua a precisar de afeto, respeito e ligação emocional. Procurar apoio especializado e trabalhar em conjunto com as equipas faz toda a diferença.”
Uma convicção que está no centro da missão destes profissionais da emeis e que continua a orientar o trabalho desenvolvido diariamente nas UPAD de Viseu e Lisboa: cuidar da pessoa para além da doença, promovendo dignidade, qualidade de vida e bem-estar em todas as fases do percurso.


