Dra. Lillian Barros, Nutricionista @nutricionistalillian
Vivemos rodeados de promessas de resultados rápidos e dietas miraculosas. No entanto, a evidência científica é clara: a perda de peso sustentável não se conquista com restrições extremas, nem com vontade de ferro, mas sim com conhecimento, consistência e uma relação equilibrada com a comida. Neste artigo, partilho o que a ciência nos diz — e o que aprendi ao longo de anos de prática clínica — sobre como mudar de vida de forma real e duradoura.
O PROBLEMA DAS DIETAS RÁPIDAS
Todos os anos, milhares de pessoas iniciam uma nova dieta com entusiasmo e determinação. Contam calorias ao milímetro, eliminam grupos alimentares inteiros, resistem a jantares de família e recusam a fatia de bolo de aniversário do filho. E depois de semanas ou meses de sacrifício, frequentemente recuperam o peso perdido — e por vezes mais ainda. Este ciclo, conhecido como dieta yo-yo não é sinal de fraqueza, falta de vontade ou de carácter. É, antes, a resposta previsível do organismo a uma abordagem que vai contra a sua biologia.
Estudos publicados em revistas como o New England Journal of Medicine e o International Journal of Obesity mostram que as dietas muito restritivas ativam mecanismos adaptativos importantes que impedem o verdadeiro sucesso do processo. O metabolismo abranda, os níveis de grelina (hormona da fome) aumentam, e a leptina (hormona da saciedade) diminui. O corpo interpreta a restrição calórica severa como uma ameaça de sobrevivência e faz tudo para recuperar as reservas perdidas. Este não é um problema de motivação — é fisiologia. A questão não é se consegue perder peso numa dieta restritiva: Quase toda a gente consegue. A verdadeira questão é se consegue manter essa perda daqui a dois, cinco ou dez anos?
Na minha prática clínica, recebo regularmente pessoas que já fizeram três, quatro ou cinco dietas diferentes. Chegam exaustas, com uma relação destruída com a comida e uma autoestima fragilizada por anos de fracassos. O que me interessa não é ajudá-las a perder peso mais depressa — é ajudá-las a criar uma forma de comer que consigam manter para o resto da vida.
O Que a Ciência Diz Sobre Perda de Peso Sustentável
O defíce calórico importa — mas não é tudo
De um ponto de vista muito pragmático, a perda de massa gorda ocorre quando o gasto energético supera a ingestão calórica. Isto é um facto científico incontornável. No entanto, reduzir a perda de peso à equação ‘calorias in vs. calorias out’ é uma simplificação perigosa.
A qualidade dos alimentos influencia a saciedade, os níveis de energia, a microbiota intestinal e os sinais hormonais que regulam o apetite. Dois padrões alimentares com o mesmo valor calórico podem ter efeitos completamente diferentes no organismo. Uma dieta rica em proteína e fibra, por exemplo, promove maior saciedade, preserva massa muscular e facilita a adesão a longo prazo — o que a torna muito mais eficaz do que uma dieta de igual valor calórico baseada em produtos ultraprocessados.
A proteína como aliada
A proteína é, provavelmente, o macronutriente mais subestimado nas estratégias de perda de peso. A investigação científica demonstra consistentemente que uma ingestão adequada de proteína — tipicamente entre 1,2 e 1,6 g por kg de peso corporal por dia em contexto de restrição calórica — tem múltiplos benefícios:
- Aumenta a saciedade, reduzindo a ingestão espontânea de calorias
- Preserva a massa muscular durante a perda de peso, o que é crucial para manter o metabolismo ativo
- Tem um efeito térmico elevado: o organismo gasta mais energia a digerir proteína do que hidratos de carbono ou gordura
- Melhora a composição corporal, favorecendo a perda de massa gorda em detrimento de massa magra
Fontes de proteína de qualidade incluem ovos, leguminosas, peixe, frango, tofu, iogurte e queijo fresco, por exemplo. Integrar uma fonte proteica em cada refeição é uma das recomendações mais simples e eficazes que faço em consulta.
O papel insubstituível da fibra
A fibra alimentar, presente em vegetais, frutas, leguminosas e cereais integrais, é outro elemento central de qualquer abordagem alimentar saudável. Para além do seu papel na saúde intestinal, a fibra abranda a absorção dos hidratos de carbono, estabiliza a glicémia, promove a saciedade e alimenta a microbiota — cujo papel crescentemente reconhecido na regulação do peso e da inflamação tem sido objeto de intensa investigação científica.
A Organização Mundial de Saúde recomenda um consumo mínimo de 25 a 30 gramas de fibra por dia, mas a maioria das pessoas consome menos de metade desse valor. Aumentar o consumo de vegetais, dar preferência a cereais integrais e incluir leguminosas várias vezes por semana são estratégias acessíveis e com impacto significativo.
Hidratos de carbono: não são o inimígo
Nas últimas décadas, os hidratos de carbono tornaram-se o grande vilão das dietas populares. Um mito que parece enraizado nas mentes da maior parte das pessoas que me procuram e que tentamos desconstruir em consulta. Os hidratos de carbono não são todos iguais: há uma diferença enorme entre uma batata-doce cozida, rica em fibra e micronutrientes, e um croissant industrial repleto de gorduras trans e açúcares adicionados.
As dietas baixas em hidratos de carbono podem ser uma ferramenta útil para algumas pessoas, especialmente no curto prazo. Contudo, a evidência não suporta a ideia de que sejam superiores a outras abordagens a longo prazo quando o total calórico é equivalente. O que importa é a qualidade e a quantidade — não a demonização de um macronutriente.
A Relação com a Comida: O Fator que Ninguém Fala
Posso dizer, com toda a convicção, que a dimensão mais frequentemente ignorada na perda de peso é a relação que a pessoa tem com a comida. Não me refiro apenas às escolhas alimentares, mas ao conjunto de emoções, crenças, memórias e comportamentos que moldam a forma como comemos.
A alimentação emocional — comer em resposta a emoções como stress, ansiedade, tédio ou tristeza, em vez de fome fisiológica — é um fenómeno extremamente comum e frequentemente subestimado. Estudos indicam que cerca de 75% dos episódios de ingestão excessiva têm uma componente emocional. Ignorar esta dimensão e focar apenas no ‘o que comer’ é, na minha perspetiva, uma das principais razões pelas quais tantas intervenções nutricionais falham.
Quando alguém me diz que ‘não tem força de vontade’, a minha primeira pergunta não é sobre o que comeu. É sobre como se sentiu antes de comer.“
Cultivar uma relação mais saudável com a comida passa por:
- Aprender a distinguir fome física de fome emocional — a fome física é gradual e pode ser saciada por variados alimentos; a fome emocional é súbita e frequentemente dirigida a alimentos específicos
- Praticar alimentação consciente (mindful eating): comer devagar, sem distrações, prestando atenção aos sabores e sinais de saciedade
- Desmistificar a ideia de alimentos ‘proibidos’: a restrição cognitiva aumenta o desejo pelo alimento restringido e contribui para episódios de ingestão compulsiva
- Desenvolver estratégias alternativas para gerir emoções difíceis: atividade física, conversas com pessoas próximas, escrita, meditação
A investigação em psicologia da alimentação, nomeadamente a Teoria da Regulação Emocional aplicada ao comportamento alimentar, sublinha que abordar os mecanismos emocionais subjacentes é fundamental para uma mudança sustentável. Em muitos casos, o trabalho conjunto com um psicólogo clínico é não só benéfico como necessário.
Hábitos Sustentáveis: A Ciência da Mudança
Uma das lições mais importantes que aprendi ao longo dos anos é que a mudança duradoura não acontece por força de vontade — acontece por desenho de hábitos. Os comportamentos automáticos que repetimos diariamente têm um impacto incomparavelmente maior do que as escolhas conscientes pontuais.
Do ponto de vista prático, isto significa que a questão não é como me motivo para comer melhor?, mas sim como estruturo o meu ambiente e as minhas rotinas para que comer bem seja o caminho de menor resistência?
Estratégias com evidência científica
- Estruturar refeições regulares: comer a horas certas reduz a fome intensa, melhora a saciedade e diminui a probabilidade de escolhas impulsivas
- Preparação prévia de refeições (meal prep): ter opções saudáveis disponíveis é um dos preditores mais consistentes de melhor qualidade alimentar
- Começar pequeno: investigação em psicologia comportamental mostra que pequenas mudanças incrementais têm maior probabilidade de se tornarem permanentes do que transformações radicais
- Registar sem julgar: a automonitorização alimentar, quando feita sem rigidez ou culpa, aumenta a consciência e melhora as escolhas. Aplicações de registo alimentar podem ser úteis, desde que não se tornem uma fonte de ansiedade
- Dormir o suficiente: a privação de sono altera os níveis de grelina e leptina, aumenta o apetite e o desejo por alimentos hipercalóricos. Dormir entre 7 e 9 horas é uma estratégia de controlo de peso frequentemente negligenciada
- Gerir o stress: o cortisol elevado cronicamente promove a acumulação de gordura, especialmente abdominal, e aumenta a ingestão alimentar. Investir em técnicas de gestão de stress não é luxo — é estratégia de saúde
Não existe um plano alimentar perfeito. Existe o plano que a pessoa consegue manter com alegria e consistência no seu dia a dia real — com viagens, jantares fora, semanas de maior stress e fins de semana em família.
O Papel do Acompanhamento Profissional
Vivemos numa época em que a informação nutricional nunca foi tão abundante — nem tão contraditória. Redes sociais, podcasts, livros de dieta e influencers de saúde proclamam verdades absolutas e soluções universais. O resultado é uma enorme confusão, muitas vezes aliada a tentativas frustradas de implementar estratégias desadequadas à situação individual de cada pessoa.
O acompanhamento por um nutricionista não serve apenas para receber uma lista de alimentos a comer. Serve para:
- Fazer uma avaliação individualizada: idade, histórico de saúde, exames analíticos, medicação, padrões alimentares atuais, horários, preferências, contexto socioeconómico e cultural
- Definir objetivos realistas e faseados, que respeitem o ritmo biológico e psicológico da pessoa
- Identificar défices nutricionais específicos que possam estar a condicionar o bem-estar e a composição corporal
- Construir um plano alimentar personalizado, que seja prazeroso e sustentável, não apenas clinicamente correto
- Monitorizar a evolução e ajustar a abordagem quando necessário, pois os platôs são normais e previsíveis, e a resposta a eles determina frequentemente o sucesso a longo prazo
- Apoiar comportamentalmente, abordando as barreiras reais — emocionais, sociais, logísticas — que surgem no percurso
A evidência científica apoia inequivocamente a eficácia do acompanhamento nutricional individualizado. Intervenções com apoio profissional regular resultam em perdas de peso significativamente maiores e mais duradouras do que abordagens autodidatas.
Em casos onde a dimensão emocional é muito marcada, onde existe psicopatologia alimentar, ou onde questões médicas específicas — como hipotiroidismo, síndrome do ovário poliquístico ou resistência à insulina — estão presentes, o trabalho multidisciplinar em conjunto com médicos, psicólogos e outros profissionais de saúde é fundamental.
O Que a Balança Não Mede
O peso corporal é apenas um indicador, e longe de ser o mais importante. Deve valorizar-se tanto ou mais a evolução dos níveis de energia, a qualidade do sono, a relação com a comida, a capacidade de desfrutar de uma refeição em família sem ansiedade, a melhoria de marcadores analíticos, a redução da inflamação ou o simples prazer de se mover com mais leveza.
A saúde não cabe num número na balança. E a nutrição — quando praticada com rigor científico, humanidade e respeito pela individualidade — tem o potencial de transformar não apenas o corpo, mas a qualidade de vida de forma abrangente e significativa.
A perda de peso saudável é uma maratona, não um sprint. Exige paciência, conhecimento, apoio profissional e, acima de tudo, compaixão por si próprio. Porque o caminho mais eficaz não é o mais restritivo — é o mais humano.


