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Ana Rita Silva

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Aeroporto de Bruxelas vai manter-se fechado na quinta-feira

“Não haverá voos de passageiros de ou para o aeroporto de Bruxelas amanhã [quinta-feira] 24 de março”, escreveu Arnaud Feist, presidente da Brussels Airport, na sua conta na rede social Twitter.

Pelo menos 31 pessoas morreram e 260 ficaram feridas em dois ataques perpetrados terça-feira de manhã no aeroporto de Zaventem e na estação de metro de Maelbeek, em Bruxelas, segundo o mais recente balanço provisório, avançado hoje pela ministra da Saúde belga, Maggie de Block.

As três explosões foram qualificadas pelas autoridades belgas como atentados terroristas.

 

França inicia ‘guerra’ contra bloqueadores de publicidade

Algumas das maiores publicações online de França deram início a uma campanha contra software bloquear de publicidade, mais conhecido por ‘adblocker’.

A campanha foi iniciada pela GESTE, organização composta por publicações como o Le Monde, o Le Parisien, o L’Équipe e ainda o serviço de streaming de música Deezer. A campanha estará em vigor durante uma semana e bane o acesso a utilizadores com este tipo de software instalado, obrigando-os a desinstalar para aceder ao conteúdo, conta o The Verge.

No anúncio de início da campanha a GESTE aponta que os seus “conteúdos e serviços não são gratuitos”, enaltecendo que as publicidades colocadas nas suas páginas online são “indispensáveis” para as manter.

 

Facebook em alerta depois de ataques terroristas na Bélgica

O Facebook voltou a ativar o seu Centro de Segurança depois dos ataques terroristas que ocorreram esta manhã em Bruxelas.

O Centro de Segurança da rede social é ativado automaticamente para todos os utilizadores, que ficam a saber se os seus amigos no Facebook residentes na área afetada estão a salvo através de notificações em tempo real

Inicialmente utilizado apenas em desastres naturais como tsunamis e terremotos, o Centro de Segurança do Facebook foi alargado a ataques terroristas depois dos atentados de Paris em novembro do ano passado.

 

Governo brasileiro corta 5.280 milhões de euros no Orçamento

O corte, anunciado pelo Ministério do Planeamento, Orçamento e Gestão através do relatório de receitas e despesas, soma-se a outra redução, de 23,4 mil milhões de reais (5,8 mil milhões de euros), decidida no mês passado.

O executivo brasileiro tenta assim assegurar o cumprimento da sua meta de excedente primário (resultado positivo receitas e despesas, excetuando gastos com pagamento de juros) para este ano de 24 mil milhões de reais (5,98 mil milhões de euros).

O Governo liderado por Dilma Rousseff passou também a prever uma contração de 3,05% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, sendo que até agora a estimativa oficial era de uma queda de 2,9% para este ano.

Mesmo assim, o valor fica abaixo da previsão de economistas ouvidos na semana passada pelo Banco Central, que antecipam uma contração do PIB de 3,6%.

Já a previsão do Governo para a inflação subiu de 7,10% para 7,44%.

 

Terceiro suspeito dos atentados detido

Najim Laachraoui, o terceiro suspeito que terá estado envolvido nos ataques de ontem em Bruxelas, acaba de ser detido num bairro no sudoeste de Anderlecht, adianta o site belga DH.be, garantindo que a confirmação foi dada por fonte policial. A notícia ainda não foi no entanto confirmada pelo Ministério Público.

Citado pelo The Guardian, um jornalista flamengo acrescenta que o terrorista terá sido detido numa pizzaria local.

O homem, de 24 anos, transportava um saco de viagem alegadamente com explosivos que não chegaram a explodir. Os outros dois alegados terroristas, que atuaram no aeroporto de Bruxelas na terça-feira, foram identificados como Khalid El Bakraui e Ibrahim El Bakraui, e morreram ao acionarem os explosivos que transportavam consigo.

Há também a suspeita de que Najim tenha estado envolvido nos ataques de 13 de novembro, em Paris. O seu ADN foi encontrado em material explosivo que foi utilizado nos ataques. Segundo os meios de comunicação belgas, terá sido o responsável por fazer os cintos de explosivos usados em Paris e o seu ADN foi encontrado em dois deles (num usado no Bataclan e outro no estádio de França), noticia a televisão RTBF.

O homem já era procurado pela polícia e era o único sobrevivente dos três suspeitos que ontem levaram a cabo os ataques terroristas na estação e metro e aeroporto de Bruxelas que, segundo os últimos dados oficiais, vitimaram 31 pessoas e causaram 260 feridos.

Najim Laachraoui nasceu a 18 de maio de 1991 na região de Schaerbeek. Deixou a casa onde vivia, com a família, em fevereiro de 2013 para rumar à Síria. Era procurado pela polícia desde dezembro passado, após os atentados de Paris.

 

PCP avisa que dará prioridade a medidas contra a precariedade laboral

Posições que foram assumidas pela deputada comunista Rita Rato na abertura de um debate temático sobre precariedade laboral na Assembleia da República, que contou com a presença do ministro do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva.

No seu discurso, Rita Rato acusou o anterior executivo PSD/CDS-PP de ter promovido “a generalização da precariedade” laboral no país, principalmente através de sucessivas mudanças no Código de Trabalho, mas apresentou ao atual Governo socialista uma espécie de caderno de encargos de medidas que o PCP pretende ver concretizadas nesta legislatura.

“Este é um combate do regime democrático do qual o PCP não desiste”, advertiu a deputada comunista, antes de defender a necessidade de “transformar a presunção do contrato de trabalho em prova efetiva da existência de contrato de trabalho”.

Entre outras medidas, a deputada do PCP propôs a redução das situações em que é possível recorrer à contratação a termo, a revogação dos contratos especiais de muito curta duração, a redução da duração do contrato a termo certo para um máximo de três anos e o fim do recurso a medidas públicas ativas de emprego para responder a necessidades permanentes dos serviços públicos, empresas e outras entidades.

Na sua intervenção, Rita Rato referiu ainda a necessidade de estabelecer “sanções económicas, fiscais e contributivas” para as entidades patronais que recorram a formas de contratação precárias, a adoção de um Plano Nacional de Combate à Precariedade Laboral e o reforço das competências e meios da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

“A precariedade no trabalho é inaceitável, desrespeita o direito ao trabalho e à segurança no emprego, é um fator de instabilidade e injustiça social que compromete de forma decisiva o desenvolvimento e o perfil produtivo do país”, sustentou a deputada do PCP.

 

Versão de João Botelho de ‘Os Maias’ vence Prémio da SPA

O prémio foi anunciado terça-feira à noite na Gala Anual da Sociedade Portuguesa de Autores, no Teatro D. Maria I, em Lisboa, com a presença do ministro da Cultura, João Soares, durante a qual foram revelados os vencedores das oito categorias do Prémio Autores 2016.

Segundo a lista publicada hoje na página da SPA na Internet, o prémio de Melhor Programa de informação foi para Sofia Arêde, da SIC Notícias, com “Sobreviventes”, e “Visita Guiada”, de Paula Moura Pinheiro (RTP2), venceu o de Melhor Programa de Entretenimento.

No que diz respeito à literatura, o prémio de Melhor Livro de Ficção Narrativa foi para “O Olhar e a Alma”, um romance de Modigliani de Cristina Carvalho, da Editorial Planeta, e o Melhor Livro de Poesia foi para “A sombra do Mar”, de Armando Silva Carvalho, da Editora Assírio & Alvim.

Ainda na Literatura, o prémio de Melhor Livro Infanto-Juvenil foi para “A palavra perdida”, de Inês Fonseca Santos e ilustração de Marta Madureira, da editora Arranha-Céus.

Na dança, o prémio de Melhor Coreografia foi para Tiago Rodrigues, com “A perna esquerda de Tchaikowski”.

Na rádio, António Macedo venceu o prémio de Melhor Programa de Rádio com “Programa da Manhã” e nas artes visuais, o galardão de Melhor Exposição de artes plásticas foi para “Helena Almeida: Minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra’, de Helena Almeida.

Valter Vinagre ganhou o prémio de Melhor Trabalho de Fotografia com “Posto de Trabalho” e José Capela o de Melhor Trabalho Cenográfico com “Pirandello”.

Quanto aos prémios de Teatro, Nuno Cardoso venceu o de Melhor Espetáculo, com “Demónios”, Sofia Marques arrecadou o galardão de Melhor Atriz em “Lisboa famosa, portuguesa e milagrosa” e o de Melhor Ator foi para Miguel Moreira, em “Ricardo III”.

Ainda no teatro, o prémio de Melhor Texto Português Representado foi para Jorge Listopad, com “Para uma encenação de Hamlet”.

No que diz respeito ao cinema, Margarida Cardoso venceu os prémios de Melhor Argumento e de Melhor Filme, com “Yvone Kane”.

O prémio de Melhor atriz foi para Joana de Verona, em “As Mil e uma noites”, e o de Melhor Ator para José Mata, em “Amor Impossível”.

Na música, David Fonseca ganhou o prémio da SPA para Melhor Tema de Música Popular, com “Chama-me que eu vou”, o maestro Álvaro Cassuto o de Melhor Trabalho de Música Erudita, pela obra “José Viana da Mota — À Pátria (Royal Liverpool Philharmonic Orchestra)”, e o de Melhor Disco foi para os Moonspell, com “Extinct”.

Durante a cerimónia foi entregue o Prémio Internacional da SPA ao jurista Gadi Oron, diretor-geral da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores, que completa 90 anos, tantos quantos a SPA, em maio.

No evento foi também entregue ao encenador Carlos Avilez, fundador do Teatro Experimental de Cascais, em 1965, o Prémio Vida e Obra. Segundo comunicado da SPA, esta é “a mais antiga companhia de teatro independente em atividade”.

As autarquias de Óbidos e Idanha-a-Nova irão receberam o Prémio para a Melhor Programação Cultural Autárquica.

O Prémio Autores foi atribuído pela primeira vez em 2010, pela SPA, para distinguir criadores portugueses, em diferentes áreas de criação artística, que vão da rádio e da televisão, à música, dança, artes plásticas, literatura, teatro e ao cinema.

 

Sexta-feira da Paixão assinalada com vários atos religiosos em Lisboa

Os católicos iniciaram na segunda-feira última, a “Semana Santa”, celebrando a sexta-feira, como “Sexta-feira da Paixão”, com a evocação do trajeto que Jesus Cristo fez em Jerusalém, carregando a cruz, desde que foi condenado, do Pretório (sede do poder executivo no Império Romano), até ao Monte Calvário, onde foi crucificado.

Para os católicos a Via Sacra é um exercício de fé, refletindo sobre a “Paixão de Cristo”, explicou fonte eclesiástica à Lusa.

Na manhã de sexta-feira, entre as 10:30 e as 12:30, na paróquia de S. Nicolau, na baixa lisboeta, realiza-se a procissão da Via Sacra, que “provocará condicionamentos de trânsito em diversas artérias da freguesia de Santa Maria Maior, estando as alternativas devidamente identificadas”, segundo fonte autárquica.

Esta procissão da Via Sacra é presidida pelo sacerdote Mário Rui, sai da igreja de S. Domingos, segue pela rua D. Antão de Almada para a praça da Figueira, apanha a rua da Prata, até a rua da Vitória, segue pela rua Augusta até à praça do Comércio, seguindo depois pela rua do Arsenal, até ao largo de S. Julião e à rua de São Julião, para subir depois à rua Garrett, até ao largo do Chiado, descendo à praça do Município, donde parte de novo para a rua Nova do Almada e a rua da Vitória, entrando por fim na igreja de S. Nicolau, disse à Lusa fonte paroquial.

A partir das 17:00, inicia-se a procissão da Via Sacra da paróquia de São José, que percorre as ruas de São José, das Portas de Santo Antão, dos Condes, a avenida da Liberdade, a travessa da Glória e as ruas da Glória, das Pretas, a praça da Alegria e o largo da Anunciada, regressando à igreja de S. José, segundo informação paroquial.

“As alterações à circulação e os respetivos desvios de trânsito serão devidamente coordenados”, segundo comunicado camarário.

Na paróquia de Santa Catarina realiza-se, a partir das 20:00, a procissão do Enterro do Senhor, que se insere também nas cerimónias da Semana Santa, e percorre várias ruas do Bairro Alto e da Bica, no centro da capital, disse à Lusa fonte paroquial.

Esta é, segundo a mesma fonte, “uma procissão centenária, sendo a mais antiga da paróquia de Santa Catarina”.

A procissão que evoca, depois da celebração da Paixão e morte de Jesus, a sua sepultura, sai às 20:00 da Igreja de Santa Catarina dos Paulistas, na calçada do Combro, segue pelo largo Dr. António de Sousa Macedo, ruas dos Poiais, S. Bento, do Poço dos Negros, largo Dr. Sousa Macedo, travessa do Alcaide, rua de Santa Catarina, Jardim do Miradouro de Santa Catarina, rua Marechal Saldanha, largo do Calhariz, rua da Rosa, travessa dos Fiéis de Deus, rua Luz Soriano, largo do Calhariz e calçada do Combro, e retorna à igreja dos Paulistas.

A procissão obriga a alterações ao trânsito, que se encontram devidamente assinaladas, segundo informa a Câmara de Lisboa em comunicado.

A procissão é presidida pelo padre António Boto de Oliveira, e nela participam imagens de roca (que envergam vestes) representando N.S. das Dores, S. João Evangelista e Stª. Maria Madalena, e o esquife do Senhor, segundo fonte paroquial.

Participa também na procissão, um “grupo de crianças com vestes dos séculos XVIII/XIX, transportando os martírios, ou seja, os símbolos da Paixão de Cristo”, que os católicos celebram.

Ainda na sexta-feira, entre as 21:30 e as 23:00, realiza-se a procissão da Morte do Senhor, na paróquia do Espírito Santo, que “provocará condicionamentos de trânsito em diversas artérias da freguesia de São Vicente”, na zona oriental da cidade, segundo fonte autárquica.

A procissão, presidida pelo padre Alberto Bissoli, sai da igreja de Stª. Teresa do Menino Jesus, igreja paroquial da Picheleira, e segue para a rua Engenheiro Maciel Chaves, rua Mira Fernandes, calçada da Picheleira, rua Frei Fortunato de S. Boaventura, e regressa à igreja de Santa Teresa do Menino Jesus.

Em Benfica, a Via Sacra inicia-se parte às 21:00, da igreja de N. S. do Amparo, passa pela estrada de Benfica, rua Maria Lalande “e outros arruamentos da freguesia”, retornando ao templo, e é presidida pelo padre Nuno do Rosário Fernandes, disse à Lusa fonte paroquial.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, preside, na Sé de Lisboa, às 15:00, à celebração da “Paixão do Senhor”.

 

Marisa Matias: A carta aberta de quem viveu os ataques de perto

Como eurodeputada, Marisa Matias viveu de perto os ataques perpetrados ontem pelo Estado Islâmico em Bruxelas, na Bélgica.

“Escrevo de Bruxelas, onde hoje [ontem] ocorreram atentados terroristas hediondos”. Assim começava uma carta publicada ontem na página no Facebook da bloquista, que revela o pânico vivido nas horas que se seguiram aos atentados.

“Estava a sair de casa para uma reunião e precisei de saber com urgência se ‘os meus’ estavam bem. Se a E. ainda estava em casa ou já estava no aeroporto com os miúdos, se as restantes estavam bem, se os meus amigos estavam bem. O M. usou um grupo privado do Facebook para comunicarmos e assim fomos fazendo ao longo do dia. Recebi mensagens dos que amo e que estão em casa, esse imenso e enorme conforto que é sabermos que gostam de nós”, conta a eurodeputada do Bloco de Esquerda.

“A meio da manhã saí para ir comprar comida para podermos juntar-nos todos em casa. À tarde voltei ao Parlamento. A cidade quase deserta, as poucas pessoas cabisbaixas e um arsenal de segurança e armamento a toda a volta”, acrescentou ainda.

Recordando o drama dos refugiados, que diariamente fogem da morte, Marisa Matias admite-se “cansada do tratamento desigual” e “farta de sermos mais importantes do que os outros”.

“Estes atentados não estão a acontecer só em cidades europeias. Há um mundo inteiro que está a ser apagado da fotografia e nós não podemos deixar que isso aconteça. De cada vez que deixamos vai-se um bocadinho mais da nossa humanidade”.

 

Michael Cunningham. “Em ficção, é difícil crer no mundo que criamos”

O escritor norte-americano Michael Cunningham foi o orador principal desta terça-feira, do 37.º Congresso da Associação Portuguesa de Estudos Anglo-Americanos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Falou sobre tradução e, já à conversa com o Observador, revelou mais sobre o seu processo “muito convencional” de escrever. Publicou o primeiro livro, Golden State, em 1984 e desde então tem assinado obras de ficção, não-ficção, contos, argumentos e artigos para jornais e revistas. Diz-nos que continua a escrever por razões “um pouco misteriosas” e por “pensar constantemente em seres humanos e nas suas histórias”. Em 1999, o romance As Horas foi distinguido com vários prémios, entre eles o Pulitzer e o prémio PEN/Faulkner de Ficção. Mas para o autor, ganhar um prémio “não significa que somos o melhor escritor”. O seu livro favorito é o próximo, que já começou a escrever e do qual desvendou um pouco. Mas antes do futuro foi impossível fugir da atualidade, sobretudo das recentes tragédias ocorridas na Europa.

Tem estado atento aos acontecimentos em Bruxelas?

Ainda estou em choque. Acho que estamos todos. Estou consternado e sinto-me um pouco atordoado. Está a tornar cada vez mais assustador. Honestamente… Estou em choque, não sei o que dizer. Estava em Nova Iorque no 11 de Setembro e foi um enorme choque também. Foi terrível. Felizmente Portugal continua a estar afastado disto.

Já esteve por cá noutras ocasiões. Alguma vez pensou em passar uma temporada em Lisboa e escrever um livro, por exemplo?

É a quarta vez que estou em Portugal. Adoro Portugal, poderia viver em Lisboa. É uma cidade fantástica. Escrever um livro aqui… não é uma coisa que esteja fora de questão. Gostava muito, mas não sei se será possível. Dou aulas e seria difícil, mas gostava de vir e poder ficar algum tempo.

É professor de escrita criativa na Universidade de Yale [EUA]. A matéria das suas aulas e os seus alunos servem-lhe de inspiração, de alguma forma?

Sim, sou inspirado pelas conversas que tenho com os meus alunos. Até porque a maior parte dos meus amigos não são escritores. Só dou aulas no segundo semestre [spring semester], de janeiro a abril. Durante esse período sento-me duas vezes por semana numa sala com jovens inteligentes e brilhantes e falo sobre o que é “escrever”. Porque é que o fazemos? Como funciona? É muito bom para mim.

De tanto discutir o tema com os seus alunos, já conseguiu perceber afinal, porque escreve?

Sinto-me acometido a escrever, não consigo parar. Penso em escrever a toda hora, a todo o momento. A minha vontade de escrever é um pouco misteriosa. Mas sempre tive essa vontade, desde miúdo. Há algo na linguagem, na tinta, no papel que é muito excitante para mim.

Mas apesar dessa excitação, tem um método, uma regra?

Na verdade, é um processo muito aborrecido, muito convencional. Levanto-me de manhã e vou até um estúdio que tenho, a cerca de um quarto de hora a pé da minha casa, em Nova Iorque. Trabalho entre 4 a 7 horas por dia, logo pela manhã. Depois respondo a emails e faço o que toda a gente faz. É muito semelhante à maioria dos empregos. Sou muito regular a escrever. Preciso de o ser. Em ficção, é difícil crer no mundo imaginário que criamos. E penso que se sair desse mundo durante muito tempo deixo de acreditar nele. Tenho que o manter vivo durante todo o período da escrita. Por isso escrevo cinco, seis dias por semana. Só não escrevo aos domingos, aconteça o que acontecer. Se não é de mais, preciso um dia de folga.

Ou seja, está quase sempre a ler e a escrever.

Sim, é o meu trabalho. Passo grande parte do meu tempo a ler e a escrever. Mas também vou ao cinema, vejo televisão, estou com os amigos. Faço o que toda a gente faz.

E também dá palestras, como esta que deu em Lisboa. Veio falar sobre tradução, Found in Translation [literalmente, “encontrado na tradução”]. Porquê esse tema?

Vim falar enquanto escritor que escreve em inglês e é traduzido para outras línguas. Desde que comecei a ser traduzido que venho percebendo que a tradução é uma forma de arte. Não é nada semelhante a reescrever um livro noutra língua. Um tradutor re-imagina o livro noutra língua, re-imagina a linguagem. O vocabulário, os sons, as palavras, são diferentes. E encorajo os meus tradutores a sentirem-se livres para fazerem com que as frases soem melhor em português. Mesmo que não seja a tradução literal da versão inglesa. O som é muito importante para mim [estala os dedos]. A linguagem deve ter música, deve ser musical.

michael cunningham,

Leio alemão. As traduções alemãs dos meus livros são muito boas, muito boas. Mas talvez pense assim porque são as únicas nas quais eu posso verificar o que escrevi. Não costumo reler o que escrevi: quando o trabalho está feito, está feito. Leio apenas passagens minhas das traduções em alemão, para lhe tomar o sentido. E são muito boas.

Não se relê, mas que outros autores lê?

Leio coisas muito diferentes. Existem grandes obras da literaturas que ainda não compreendi completamente, mas neste momento estou a ler um romance recente. Um livro muito longo, A Little Life, de Hanya Yanagihara [720 páginas]. E leio as notícias todos os dias, sou viciado em notícias. Algumas pessoas não são viciadas em notícias, mas eu sou.

No meio de tudo isso, ainda considera as obras Ulisses, de James Joyce, e Rumo ao Farol, de Virgina Woolf, como “o pai” e “a mãe” da literatura anglo-saxónica moderna. E que livros considera “os filhos”?

Acho que somos todos filhos deles. Alguns são filhos melhor comportados que outros. Mas sim, acho que esses dois livros exemplificam a forma como a escrita inglesa e americana mudaram. Essa revolução ainda está em curso. Ainda escrevemos recorrendo a fórmulas que James Joyce e Virgina Woolf inventaram. Destes autores em diante, ainda não existiu outra revolução com o mesmo impacto.

Ganhou vários prémios, entre eles o Pulitzer, com o livro As Horas (1998). A sua escrita mudou depois de ter sido premiado?

Espero que não. O que espero é que cada livro seja melhor que o anterior. Sei o suficiente para saber que existem escritores extraordinários que nunca ganharam prémios. E sei também que ganhar um prémio envolve alguma sorte. Não significa que somos o melhor escritor, significa que, por sorte, tivemos o júri certo. Depois de o recebermos, devemos pôr o prémio de lado. Devemos sentir gratidão pelo reconhecimento e avançar rapidamente para o livro seguinte.

A personagem Laura Brown, do livro As Horas [interpretada no filme por Julianne Moore], é inspirada na sua mãe. Porque se baseou numa pessoa tão próxima?

A personagem não é literalmente “a” minha mãe. A minha mãe, como muitas mulheres da sua geração, dos anos 50, era doméstica e mãe. E isso não era suficiente para ela: era muito frustrada e guiada pelo objetivo de atingir a perfeição. A casa estava sempre imaculada, com tudo perfeito, o tempo todo. Ela devia ter tido um trabalho mais interessante. E quando andava a pensar em Mrs. Dalloway e Virginia Woolf, pensei em como ela era muito ambiciosa. Virginia Woolf queria ser uma grande artista e a minha mãe queria manter uma casa perfeita. Se colocarmos os resultados de lado e olharmos apenas para a ambição, o desejo de atingir a perfeição, seja através de um bolo ou de um livro, é feito do mesmo corpo de emoções. A minha mãe tinha o mesmo tipo de motivação que a Virginia Woolf e tal como ela também merecia estar no livro.

É habitual inspirar-se noutras pessoas que conhece para criar personagens?

Não necessariamente. Apenas escrevo sobre o que conheço e o que vejo. Não acho que saiba mais acerca da natureza humana que a maior parte das pessoas. Eu apenas escrevo sobre isso. Todos sabemos o mesmo acerca dos seres humanos, a única diferença é que os escritores passam a maior parte do seu tempo a escrever sobre isso. Tem apenas a ver com o meu foco no assunto. É assim que os leitores reconhecem uma personagem verosímil, porque sabem como as pessoas são. Não sou mais perspicaz que as outras pessoas, apenas penso constantemente sobre os seres humanos, as motivações de cada um, o que leva as pessoas a fazer certas coisas. Além disso, nem sempre o resultado final é o que imagino.

E como se ultrapassa essa frustração?

As nossas expectativas devem ser sempre superiores ao que conseguimos realizar. Isso significa que estamos a trabalhar arduamente, que estamos a dar o nosso melhor, que estamos a tentar fazer mais do que o que conseguimos. É o nosso trabalho mais duro.

cisne

Nos seus dois últimos livros [A Rainha da Neve, de 2014, e Um Cisne Selvagem e Outros Contos, de 2015, ambos publicados em Portugal pela Gradiva] — partiu dos contos de fadas de Hans Christian Andersen e transformou-os. Não acredita em finais felizes?

Algumas das histórias têm finais felizes. Sim, acredito em finais felizes, acredito que existem finais de todos os tipos. Nada nunca acaba realmente, a história apenas termina num determinado ponto. Cerca de metade dessas histórias têm finais trágicos e a outra metade tem finais felizes.

É assim que vê o mundo, dividido em duas partes iguais de coisas boas e más?

Acho que o mundo é demasiado vasto para ser dividido em percentagens.

Já disse que o seu livro favorito é sempre o que está a escrever no momento. Quer revelar um pouco sobre o que está a escrever agora?

Já escrevi umas cem páginas. É um livro abrangente, com muitas personagens em diferentes épocas. É um livro grande, fisicamente grande. Se o deixar cair em cima do pé, vai magoar-se.

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