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“O maior ataque à privacidade genética”. Kuwait vai criar base global de ADN

Na revista “New Scientist” cita-se um “pesadelo orwelliano”. O “Washington Times” refere “uma ideia tirada de um mau romance de ficção científica”. Mas para os habitantes do Kuwait e para todos os que pretendam visitar o país, em breve será não um sonho mas a realidade – inédita e assustadora.

O Governo do país do Golfo está prestes a criar uma base de dados com o ADN de todos os que entrem no seu território, com testes obrigatórios para todas as pessoas naturais do país, mesmo que estejam expatriadas, e para todos os residentes temporários e turistas. A ser criada, será inédita a nível global.

De acordo com o geneticista Olaf Riess, citando um artigo recente do Alternet, o projeto já saiu do papel e está a poucas semanas de começar a ser implementado. O Governo do emirado diz que recolher amostras de ADN é necessário para combater o terrorismo, tendo apresentado o plano no rescaldo do atentado bombista que vitimou 27 pessoas na capital em junho do ano passado – que foi executado por um jovem saudita de 26 anos.

No artigo que escreveu para a revista britânica de ciência há dois dias, o especialista alemão refere que, “apesar de a recolha de saliva com um cotonete poder servir para desencorajar perpetradores de entrarem no país, não devemos esquecer-nos que muito do terrorismo atual é doméstico”. E deixa a questão: “Quem é que já ouviu falar de um bombista-suicida a ser dissuadido porque pode ser identificado depois de se fazer explodir?”

A pergunta colocada pelo “Washington Times” vai mais além: se um projeto desta dimensão requer “enormes esforços” e tem custos calculados em cerca de “400 milhões de dólares” [356milhões de euros], “porque é que alguém quereria recolher todo este ADN?”

De acordo com os media locais, o plano passa por obrigar os mais de 1,3 milhões de cidadãos do país e 2,9 milhões de expatriados a fornecerem amostras do seu código genético ao Governo, para além de turistas e residentes naturais de outros países, com duros castigos previstos na lei para quem se recusar: até um ano na prisão e multas de 33 mil dólares [29 mil euros] ou penas de sete anos de prisão para aqueles que tentem falsificar amostras.

A proposta foi formalmente adotada em julho de 2015, precisamente uma semana depois do ataque na Cidade do Kuwait, à data o último de uma série de atentados executados pelo afiliado saudita do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no país. “Estamos em estado de guerra”, declarou então o ministro do Interior, sheikh Mohammed Khaled al-Sabah, anunciando o plano inédito sobre a recolha de ADN.

Atentado contra mesquita xiita da Cidade do Kuwait em junho de 2015 foi executado por um saudita

Atentado contra mesquita xiita da Cidade do Kuwait em junho de 2015 foi executado por um saudita

YASSER AL-ZAYYAT

Confrontados com a possibilidade, cientistas e grupos de Direitos Humanos estão a questionar a validade e sobretudo as consequências danosas desta base de dados, com muitos a pedirem ao Governo do Kuwait que reconsidere o seu plano. “É um ataque enorme à privacidade genética”, acusa o geneticista Olaf Riess. “Testes obrigatórios de ADN a todos os cidadãos e visitantes soa a um pesadelo orwelliano, mas é a nova realidade do rico Estado do Golfo”, escreve na “New Scientist” esta semana.

A Sociedade Europeia de Genética Humana, da qual Riess é presidente, já enviou uma carta ao primeiro-ministro do Kuwait, bem como ao Conselho de Ministros de Estado do país, pedindo-lhes que alterem a lei. O Comité da ONU para os Direitos Humanos e a Human Rights Watch (HRW) também já declararam as suas preocupações, pedindo ao país do Golfo que repense a decisão.

“Suponho que pôr câmaras em todas as casas de banho públicas também possa ser útil” do ponto de vista do combate ao terrorismo, “mas esse tipo de intrusão dificilmente é necessário ou proporcional, tal como não o são os testes obrigatórios de ADN”, defendeu no ano passado, com alguma ironia, Sarah Leah Whitson, diretora do ramo da HRW para o Médio Oriente, quando a proposta de lei foi aprovada pelas autoridades do Kuwait.

“O argumento do terrorismo”, acrescenta Riess, “é tão ilegítimo que até os menos suspeitos de nós podem começar a questionar-se sobre os motivos ulteriores desta coleta indiscriminada de ADN”.

De acordo com investigações recentes, a medida poderá servir para discriminar milhares de pessoas por não pertencerem a tribos tidas como mais legítimas do que outras pelas autoridades do Kuwait. O país já é conhecido pelas estritas exigências na hora de atribuir cidadania, exigindo aos residentes que comprovem a sua ascendência até aos colonos que originalmente se instalaram no território em 1920. Muitos, como as cerca de 100 mil pessoas Bidun, vivem na clandestinidade há várias gerações, sem acesso às prósperas estruturas económicas, políticas e legais da nação do Golfo – a frase em árabe que as define, “bidun jinsiya”, quer dizer precisamente “sem nacionalidade”, explica o “Washington Times”.

Algumas são descendentes de tribos nómadas a quem não foi dada cidadania quando o Kuwait se tornou independente em 1961; outras são árabes que se juntaram ao Exército nos anos 1970 e 80 na esperança de obterem nacionalidade mas que nunca o conseguiram. No geral, os Bidun são vistos como “imgirantes ilegais” que só querem aproveitar-se dos benefícios do país sem terem direito a eles. Recentemente, foi inclusivamente revelado pelo “Washington Post” que o Kuwait tem mantido conversações com as ilhas Comores para comprar “cidadania económica” para os Bidun, um passo que grupos como a Human Rights Watch dizem que serve para facilitar a sua deportação.

Como a edição do ADN pode mudar a nossa espécie

A possibilidade de que a CRISPR-Cas9 seja usada em breve para a terapia genética em humanos tem causado frenesim na comunidade científica. Ao mesmo tempo, muitos perguntam: os seres humanos deveriam ter controlo sobre a própria genética e reescrever o ADN para gerações futuras?

Biólogos são capazes de editar o genoma com ferramentas moleculares há algum tempo, mas não de maneira tão simples e versátil como com a CRISPR-Cas9. Descoberta em 2012, a tecnologia usa a enzima Cas9 para cortar o ADN em pontos determinados por uma cadeia-guia de RNA. Ou seja, a tecnologia funciona mais ou menos como a ferramenta de localizar e substituir uma palavra no Word, primeiro localizando o gene a ser editado e, depois, fazendo a alteração necessária.

Isso permite «customizar o genoma de qualquer célula ou espécie à vontade», afirmou Charles Gersbach, professor assistente de Engenharia Biomédica da Universidade de Duke ao New York Times.

Na China, cientistas já aplicaram a tecnologia para alterar o ADN de embriões humanos no ano passado, na tentativa de corrigir falhas genéticas por trás da rara – e muitas vezes fatal – doença sanguínea talassemia beta. A experiência, realizada na Universidade Sun Yat-sen, foi considerada eticamente defensável, pois os embriões carregavam um defeito cromossómico que os tornava inviáveis e não lhes foi dada a hipótese de se desenvolverem.

O Reino Unido também autorizou, no início de Fevereiro deste ano, que cientistas modifiquem geneticamente embriões humanos, mas apenas para fins de pesquisa. Trata-se da primeira licença do tipo na Europa, e os pesquisadores, do Instituto Francis Crick, em Londres, pretendem adoptar a tecnologia CRISPR-Cas9.

Alterar o ADN de um embrião – a chamada modificação da linha germinativa – significa que as mudanças apareceriam em todas as células do organismo adulto. Isso inclui óvulos e espermatozoides, ou seja, as mudanças genéticas e possíveis efeitos colaterais seriam transmitidos para gerações futuras.

Se os pesquisadores conseguissem manipular o gene que sofre mutação em pessoas com a doença de Huntington, por exemplo, poderiam curar o distúrbio neurológico e evitar que crianças nascessem com a patologia.

Muitos especialistas argumentam que as doenças causadas por um único gene defeituoso, como a de Huntington, são raras e, por isso, não há uma procura médica para fazer alterações hereditárias em embriões.

«A edição genética hereditária não é aplicável a doenças comuns como cancro ou diabetes, nas quais a componente hereditária é causada por vários genes diferentes», escreveu o jornalista científico Nicholas Wade no New York Times.

Wade afirma que, mesmo no caso de doenças causadas por um único gene, a edição da linha germinativa é desnecessária na maioria dos casos, porque os pais podem gerar uma criança saudável através da fertilização in vitro. Bastaria implantar no útero apenas embriões saudáveis, identificados numa triagem genética. Casais também podem recorrer à doação de esperma.

Além da manipulação genética em embriões, há a esperança de que, para algumas doenças, seja possível extrair células estaminais do sangue, alterá-las com ajuda da CRISPR-Cas9 e devolvê-las ao organismo. Segundo um artigo publicado na revista Nature, poderiam ser manipuladas células estaminais para tratar a anemia falciforme, por exemplo.

Um desafio maior seria aplicar a enzima Cas9 e o RNA-guia para outros tecidos do corpo, mas os cientistas esperam que um dia a técnica possa ser usada para lidar com uma série de doenças genéticas. Cientistas também têm esperança de conseguir manipular células do sistema imunológico para evitar o cancro e finalmente encontrar uma cura para a doença.

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