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“Quero que a imigração em Portugal seja vista com outros olhos”

Que principais obstáculos/desafios enfrentou quando decidiu lançar-se no mundo do empreendedorismo?

Os principais desafios prenderam-se, sobretudo, com o facto de, inicialmente, as pessoas não perceberem bem o conceito da empresa. Como era algo novo e que ainda não existia em Portugal as pessoas não percebiam, nem mesmo a minha família, o que pretendia quando decidi criar a Ei!.Era necessário explicar que as pessoas que estão em trânsito, que vão ou vêm para um país novo, precisam de um conjunto complexo de serviços que passam pela obtenção de vistos, de autorização de residência, abertura de conta bancária, inscrição no serviço nacional de saúde e/ou escolas ou, simplesmente, de papéis que precisam de ser traduzidos ou autenticados. A ideia era, de facto, criar uma agência especializada nestes serviços. Este é um conceito que já existia e que, inclusive, já está bastante enraizado nos países anglo-saxónicos, sobretudo nos EUA. Por isso mesmo, qualquer americano que pense mudar de país procura, em primeiro lugar, por uma agência migratória para facilitar este processo.

Em Portugal este conceito não existia. No entanto, devido à demanda que estamos a assistir de entrada de estrangeiros no nosso país, a procura por este serviço começou a aumentar significativamente, principalmente por parte de cidadãos brasileiros e norte-americanos.

Eu própria senti essa necessidade de procurar uma empresa que me ajudasse nas questões burocráticas e que tratasse das minhas coisas em Portugal quando estava emigrada em Angola. Coisas tão simples como reencaminhar o meu correio, pagar as minhas contas ou ir às reuniões de condomínio enquanto meu representante. Precisava da prestação de um serviço profissional que na altura não existia.

Teve receio?

Não pensei muito nisso. Pela minha cabeça só passava a ideia de que “agora meti-me nisto e tenho de seguir em frente. Só tenho uma saída: dar certo!”. Vivia num país estrangeiro onde tinha um emprego estável quando decidi criar esta agência migratória. Estava a trocar o certo pelo incerto e a estabilidade que tinha. Por isso mesmo tinha de dar certo. Tinha de me focar e não podia ter tempo para arrependimentos, receios ou olhar para trás.

Se pudesse voltar atrás faria alguma coisa diferente?

Foi a escolha certa, sem dúvida. Não mudaria nada. Estou muito feliz com o rumo que a empresa tomou. Começámos em 2014 com quatro pessoas e neste momento temos 16 pessoas a trabalhar na Ei! e dois escritórios a funcionar, um em Lisboa e outro no Porto.

No início foi difícil e tivemos de trabalhar muito para a introdução do conceito em Portugal e junto das pessoas. Quando a Ei!, nasceu o país estava a passar por uma crise económica que levou a um pico de emigração e era esse o nosso público-alvo: os portugueses que precisavam de ajuda na sua transição para outro país.

Na altura, lembro-me, fiz um estudo e vi que um quarto das pessoas que conhecia através do Facebook estava emigrada em vários países, por isso decidi começar por oferecer serviços às pessoas que conhecia. E resultou. Depois foi uma questão de “passa a palavra” até a aumentar a procura pelos nossos serviços. Hoje, a Ei! é uma empresa que cresce todos os dias.

O que a motiva e inspira diariamente?

Neste momento estamos a viver um boom de imigração como Portugal nunca teve. As conservatórias estão cheias de processos de luso-descendentes a pedir nacionalidade portuguesa, de emigrantes a regressarem ao seu país e o SEF cheio de processos de autorização de residência de estrangeiros sem qualquer vínculo a Portugal, como os norte-americanos, que encontraram no nosso país um paraíso para a sua reforma, com uma qualidade de vida que não conseguem ter no seu país. Por isso, o que me inspira todos os dias é ajudar as pessoas a mudarem de vida e a ser a primeira mão amiga que elas têm em Portugal.

Passámos a ser uma família para cada uma destas pessoas e isso é bastante gratificante. São aqui criados vínculos emocionais com os nossos consultores que se envolvem plenamente nos processos. Os imigrantes, eles próprios, acabam por nos envolver em cada etapa ou em cada passo importante dado na vida delas no seu novo país. São os postais que nos enviam, as mensagens, as fotografias com os elementos da família, os convites para jantares ou convívios ou, simplesmente, para celebrar o seu primeiro aniversário em Portugal. Não conseguimos desligar a vertente profissional da emocional e, por vezes, torna-se difícil conseguir aceitar todos os convites.

E o que a define enquanto líder? Ou que principais características considera que um líder deve assumir?

Falar de mim própria é sempre mais difícil. Já tinha assumido cargos de liderança anteriormente e penso que sempre os encarei com alguma naturalidade.

Mas o que sinto é que a minha liderança não é por imposição, que o meu estilo de liderança passa pelo exemplo e que é através dele que a equipa me quer seguir. Sou a primeira a avançar, a motivar, a abraçar os desafios e atirar-me de cabeça, de tal forma que as coisas acabam por ser feitas de forma natural.

As pessoas que aqui trabalham são pessoas que já trabalharam comigo noutras empresas, penso que isso significa muito. Sou bastante tolerante com a equipa, apesar de ser bastante exigente. Se acontece algum erro sou eu quem dá a cara, quem assume o erro perante o cliente e pede desculpa em nome de toda a equipa.

Acho que existem muitas situações onde as pessoas trabalham sob a cultura do medo e, na Ei!, prezo muito que as pessoas se sintam bem, sejam felizes e tenham liberdade de horário para conseguirem conciliar a sua vida profissional com a vida pessoal. Se hoje alguém precisa de sair mais cedo ou chegar mais tarde, não há problema. No dia seguinte compensa de forma a terminar o seu trabalho. Há liberdade com responsabilidade.

O facto de ser mulher é, de alguma forma, um desafio acrescido no mundo do empreendedorismo e da liderança?

Nunca senti que fosse um entrave para mim. Ao longo do meu percurso profissional fui assumindo cargos de liderança, formei equipas, tive de lidar com a gestão de pessoas, muitas vezes num meio empresarial maioritariamente masculino e acho que as coisas correram bem e fui sempre respeitada.

Mas, sobretudo, adoro trabalhar e acho que isso faz toda a diferença para conseguirmos, de certa forma, superar desafios ou obstáculos. Sempre trabalhei e me dediquei muito, mesmo quando as empresas não eram minhas. Por isso, fazer o mesmo que já fazia antes, mas com a minha empresa, só tornou as coisas mais fáceis porque tenho mais liberdade para fazer as minhas escolhas. Contudo, existe aqui um aspeto essencial e que não posso deixar de o referir: o apoio incondicional da minha família e do meu marido que teve de assumir, muitas vezes, os papéis de pai e mãe. Nunca se coibiu de fazê-lo. É ele quem leva os nossos filhos à escola e quem os vai buscar. É ele quem assegura tudo até eu chegar a casa, por volta da hora do jantar. A partir daí é o momento para a família, tal como os fins de semana que tento que sejam exclusivamente para a família, embora, no início da Ei!, não tenha sido possível ter fins de semana nem feriados, o que me levou a estar muito ausente. No entanto, essa ausência compensou-se com um pai muito presente e, apesar de a sociedade ainda impor muitos limites às mulheres e ao seu papel, é possível conciliar uma carreira profissional de sucesso com a vida familiar e pessoal. Muitas vezes as limitações estão na própria cabeça das mulheres e cabe-nos a nós, mulheres, ultrapassar esses entraves.

Nos primeiros anos de vida desta empresa houve, de facto, muito sacrifício por parte da família, mas também muita compreensão e, hoje, existe tempo para tudo: para a empresa, para a família, para os filhos e para o marido. Penso que hoje todos reconhecem o sacrifício inicial que valeu a pena!

O que mudou na sua vida, para além do óbvio, com a Ei!?

Tornei-me mais poupada, sem dúvida. Hoje tenho famílias inteiras a dependerem de mim e do sucesso desta empresa. Por isso todas as contas têm de ser analisadas ao pormenor. Todos os gastos e todos os ganhos têm de ser ponderados porque o que hoje é garantido, amanhã pode não ser.

Não recorri a financiamento para este projeto, foi tudo feito com as minhas poupanças, com o que arrecadei enquanto trabalhei fora. Hoje sou uma pessoa mais poupada.

E o que quer mudar com esta agência migratória?

Quero que a imigração em Portugal seja vista com outros olhos. Quero que seja olhada com a arte do bem-receber. Portugal sempre foi um país de emigrantes e existem portugueses espalhados pelo mundo. Agora os papéis inverteram-se e é a nossa vez de saber receber pessoas que procuram melhores condições de vida para si e para as suas famílias, tal como os portugueses foram bem recebidos lá fora. Não nos podemos esquecer que a migração é cíclica e que podemos voltar a precisar de sair do nosso país à procura de melhores condições.

Aquilo que vejo e que sinto é que ainda existe muita discriminação por parte dos portugueses em relação aos imigrantes que não entendem as mais-valias que eles representam para o país. A imigração está contribuir com muita mão-de-obra qualificada e necessária para o desenvolvimento do nosso país. Tem dado também um excelente contributo para povoar o interior do país, para combater o envelhecimento e para aumentar a taxa de natalidade.

Deparamo-nos, diariamente, com senhorios que não querem arrendar casas a estrangeiros, negando-lhes uma oportunidade de, muitas vezes, recomeçarem a sua vida no nosso país. Os imigrantes não vêm “tirar” o trabalho a ninguém. Muitos deles vêm criar postos de trabalho ou empreender, contribuindo para o desenvolvimento do país, pois não nos podemos esquecer que quando a crise se instalou em Portugal a massa laboral saiu à procura de trabalho no estrangeiro, ficando apenas as camadas mais jovem e idosa. São os imigrantes que estão a preencher, agora, essa lacuna.

Quero que Portugal seja conhecido como um país que bem recebe e que entenda que esta multiculturalidade é enriquecedora.

Que principais problemas iremos enfrentar com a globalização no que diz respeito à migração? Ou, na sua opinião, ao que iremos assistir?

Em Portugal estamos a assistir a falta de infraestruturas e de organismos públicos para receberem tantas pessoas. Por exemplo, não existem vagas nas escolas e as listas de espera já são bastante extensas. Os centros de saúde não estão a conseguir atribuir mais médicos de família aos imigrantes. Aceitam as inscrições, mas avisam que não existem, de momento, médicos de família disponíveis. As filas de esperas no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) são enormes, as conservatórias e as finanças estão cheias e carecem de recursos humanos para fazer face ao elevado número de processos. Se o país quer continuar a receber imigrantes tem de se adaptar e essa adaptação passa, em muito, pela reestruturação destas infraestruturas básicas.

De que forma a Ei! se diferencia? Que verdadeiro papel pretende assumir no país e junto às pessoas?

Na vertente humana. Aqui temos um tratamento muito personalizado e muito humano. As pessoas aqui dentro não têm um número, têm nome.

As pessoas que aqui trabalham foram emigrantes, ou são filhos de emigrantes, e são imigrantes. A nossa equipa é constituída por profissionais da Moldávia, do México, do Irão e do Brasil e só temos a ganhar com isso. Passaram pelo processo da emigração/imigração e quem passou por isso só tem muito a acrescentar à nossa empresa, aos processos e ao contacto com o cliente.

Qual é agora a grande aposta da Ei!?

A empresa ganhou um rumo que superou, em muito, as expectativas.

Depois da primeira edição da Web Summit em Portugal e com a transformação do Porto e de Lisboa em polos tecnológicos, as empresas de TI depararam-se com a falta de recursos humanos qualificados nesta área, tendo de optar por procurar e contratar pessoas lá fora.

Começámos, por isso mesmo, a ser procurados por empresas de TI que solicitam os nossos serviços para a obtenção de vistos para contratos de trabalho. Neste momento, este é o maior departamento da Ei! e representa cerca de 50% da nossa faturação.

Futuramente, o percurso da empresa passa por criar um novo departamento de legalização de profissionais para a falta de mão-de-obra que sentimos existir no setor da hotelaria e restauração. Já fomos procurados por grandes cadeias de hotéis e por restaurantes de renome, já temos bastantes solicitações e por isso mesmo vamos agora focar-nos nesse departamento.

Uma vez mais digo que não tive medo, segui em frente e deixei-me levar, mas sempre muito focada.

Ei! Assessoria migratória: a primeira agência migratória em Portugal

Toda a sua vida profissional foi em torno da consultoria empresarial e fiscal, na área da internacionalização. Então, em que momento da sua vida surge este projeto, o Ei! Assessoria migratória?

Trabalhava como consultora em Angola, e enquanto emigrante senti na pele todas as dificuldades que uma pessoa nessa condição sofre. Quando fui para Angola, trabalhei não só em consultoria, como também auxiliei expatriados a fixarem-se lá e isso deu-me as bases para o que viria a criar no futuro.

A ideia de criar a empresa surgiu quando comecei a pensar em regressar a Portugal. Procurei saber que negócio poderia criar e, como sempre gostei da área do Direito dedicada aos estrangeiros e do tema das migrações, após uma pesquisa, verifiquei que cá não existia nenhuma agência migratória. Nos países anglo-saxónicos já existiam as chamadas migrations agencies e foi inspirada nesse modelo que criei a Ei!.

Afirma-se uma cidadã do mundo. Como cidadã do mundo o que mais a choca/preocupa nos dias de hoje?

Neste momento existem muitos problemas no mundo que me preocupam, como por exemplo a questão da Síria e dos refugiados.

A tendência é assistirmos a uma maior globalização, por isso mesmo me sinto uma cidadã do mundo mas espero que os meus filhos e as gerações futuras sintam isso ainda de uma forma mais natural. Espero que vivam num mundo com menos barreiras migratórias, que possam estudar e trabalhar onde quiserem, sem grandes problemas. Não deveriam existir tantas barreiras nem tantos preconceitos, tento transpor isso na educação dos meus filhos e aplico esses valores e convicções no meu trabalho.

Na sequência das necessidades geradas pela mobilidade geográfica dos dias de hoje, a Ei! tem como objetivo facilitar a vida a todos os que decidam procurar novos desafios. Com que principais entraves/dificuldades ou obstáculos se deparam mais as pessoas que vos procuram?

Se pertencerem a um país que não faça parte do espaço schengen, as dificuldades começam logo com a obtenção do visto. Existem vários tipos vistos. Mas qualquer um deles tem de ser obtido no consulado português mais próximo da área de residência – isto para um estrangeiro. Depois, as dificuldades começam logo com o tipo de visto deve solicitar, que documentos são necessários. Após a obtenção do visto tudo se torna mais fácil mas até aí é complicado…

Para os cidadãos da EU, a barreira linguistica e o lidar com as burocracias portuguesas são de longe o mais difícil em todo o processo. Desde ir à repartição das finanças para requisitar um NIF, depois obter o certificado de residência de cidadão da EU, inscrição no centro se saúde.

Como nem sempre os vistos são aceites, preferimos trabalhar de uma forma preventiva. Em primeiro lugar, analisamos o perfil da pessoa e vemos se reúne as condições necessárias. No caso de não serem aceites, a deceção é grande mas a nossa lei prevê a possibilidade de recorrer dessa decisão. A nossa lei dos estrangeiros é equilibrada e humana o que torna Portugal um dos países do mundo que mais e melhor recebe os imigrantes.

Receber bem é, por exemplo, permitir que filhos de imigrantes que não estão legalizados ou que estejam em processo de legalização, tenham acesso ao ensino público e que todos possam ter acesso também a cuidados de saúde. Os nossos hospitais públicos não recusam ninguém e isso não acontece em muitos países. Este é um forte motivo que eleva a procura de viver em Portugal…

Neste momento os brasileiros são o maior número de imigrantes em Portugal. A questão da instabilidade económico-social e da dos elevados índices de criminalidade são os principais motivos.

Porquê Portugal?

Portugal reúne algumas condições que são procuradas por diferentes requisitos. No caso dos brasileiros, as preocupações principais são a educação dos filhos e estabilidade social e a segurança. Os norte-americanos procuram, essencialmente, cuidados de saúde a um custo aceitável. Os reformados de países da EU procuram benefícios fiscais, o que lhes permite ter uma vida mais desafogada do que no país de origem.

Os portugueses estão sempre a reclamar e, na minha opinião, não valorizam o país que têm. Uma cliente brasileira contou-me há uns tempos que deixou tudo o que tinha no Brasil – que não era pouco – mas que nada era mais valioso do que poder ir até a um café à noite e caminhar pela rua com a filha tranquilamente sem medo de ser assaltada ou morta. Por isso, penso que está na hora de os portugueses perceberem que aquilo que temos neste pequeno país é grande, bom e não tem preço.

Uma história para partilhar…

É tão difícil escolher uma… são imensas e nem todas podem ser partilhadas.

Mas talvez a de um casal norte-americano que procurou Portugal por motivos de saúde. O senhor sobreviveu a quatro cancros e praticamente foi à falência nos EUA por causa disso, uma vez que lá os cuidados de saúde são pagos a peso de ouro. Decidiram vir para Portugal porque depois de exaustas pesquisas percebeu que se lhe acontecesse alguma coisa sabia que iria ser assistido e que para isso não teria que ficar totalmente sem dinheiro.

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