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Desmistificação do BIM

De facto, o setor académico e a indústria têm várias interpretações do conceito de BIM: alguns definem o BIM como um software; outros, como um processo para projetar e documentar informações relativas à construção; e outros, como uma abordagem totalmente nova para a prática e o avanço da indústria, o que requer a implementação de novas políticas, contratos e relacionamentos entre os diversos stakeholders.

Essencialmente, como um velho amigo e autor de vários livros acerca do BIM gosta de dizer (Randy Deutsch): 10% do BIM baseia-se em tecnologia e 90% baseia-se em processos. Portanto, a perceção geral do conceito está errada, visto que grande parte considera que 90% é tecnologia e 10% é metodologia. Em Portugal, esta perceção errada do BIM é um cenário real.

O crescimento global do BIM começou em 2011, quando o Reino Unido decidiu implementar o BIM nos seus projetos superiores a cinco milhões de libras. No Reino Unido, a implementação do BIM proposta é definida por nove pilares que começaram a ser definidos desde 2011 e estão em constante evolução. No entanto, a documentação produzida até ao momento define vagamente os processos que devem ser executados e carece do lado prático da estruturação e organização do desenvolvimento do modelo digital, que é uma parte importante do processo.

As vantagens e os princípios básicos do BIM

São inúmeros benefícios associados direta ou indiretamente ao BIM e, com base na minha experiência, o BIM tem um impacto positivo em todas as fases do ciclo de vida de um projeto, podendo melhorar a capacidade colaborativa das equipas e usar ferramentas inovadoras, desde a pré-fabricação até à criação de modelos virtuais no terreno e minimizar o desperdício decorrente dos processos tradicionais. De facto, acredito que são os empreiteiros e os clientes que podem beneficiar mais de uma correta implementação do BIM, porque:

  1. O projeto pode ser facilmente compreendido e revisto ajudando a garantir a sua precisão e integridade.
  2. As alternativas podem ser visualizadas e avaliadas em termos de custos e outros parâmetros do projeto.
  3. Podem ser facilmente realizadas análises de sustentabilidade e cálculos para a otimização de espaços e quantidade de materiais utilizados.
  4. Pode ainda ser incluída informação relevante para a fase de pós-construção, como por exemplo, toda a documentação relativa à operação e manutenção das estruturas e equipamentos, necessária à estratégia de gestão das instalações.

A plataforma colaborativa (CDE) é uma das principais bases BIM Nível 2, do Reino Unido. É uma plataforma colaborativa conhecida como a única fonte de informação usada para coletar, gerir e partilhar documentação, modelos gráficos e dados não-gráficos entre as equipas dos projetos. Esta centralização da informação facilita a colaboração e ajuda a evitar duplicações e erros.

Os dados relacionados ao projeto são, sem dúvida, o aspeto mais importante de todo o ciclo de vida do BIM. É amplamente reconhecido que, dado um período de 30 anos, o custo de projeto e construção de um edifício constitui aproximadamente 20% do custo total e os restantes 80% dizem respeito à operação e manutenção.

Transformação Digital – Os próximos passos

As tecnologias digitais permitem que todos os envolvidos no projeto tomem decisões inteligentes, em estágios críticos, aumentando assim a produtividade e a eficiência.

Não existe uma solução tecnológica única para desenvolver, coordenar e partilhar os dados necessários em qualquer projeto. Para alcançar os resultados esperados é, na maioria das vezes, necessário utilizar diversos softwares, o que levanta grandes desafios para a indústria ao nível da interoperabilidade e dispersão dos dados.

Em 2017 fundei a DiRoots, uma start-up internacional, sediada no Reino Unido com a missão de ajudar as empresas nesta transição para o digital, através do desenvolvimento de soluções customizadas para a indústria da construção. A DiRoots já tem alguns softwares disponíveis no mercado e vai lançar até ao final do ano um novo produto de gestão de dados para ajudar as empresas de design e construção a retirar o máximo benefício dos seus modelos digitais.

OPINIÃO DE José oliveira, fundador da DiRoots especialista em BIM

BIM: o ponto de viragem no setor da construção

À semelhança de diversos países desenvolvidos no mundo, também a Europa e particularmente Portugal, estão num processo de adoção BIM. Com pontos de partida e contextos diferenciados, os países da União Europeia apresentam estados de maturidade BIM bastante assimétricos. Nesta Europa pouco homogénea, que enfrenta um conjunto de desafios políticos, económicos, ambientais e sociais, o setor da construção, com a importância que lhe é reconhecida, está a procurar assumir o seu tradicional papel de motor do crescimento económico, num quadro mais tecnológico, inovador e competitivo.

Considerado tradicionalmente lento na adoção de tecnologias digitais em comparação com outras indústrias, o setor da construção define o seu ponto de viragem através da implementação da Metodologia BIM – Building Information Modelling. Neste contexto, o BIM assume-se como o novo paradigma no contexto da transformação digital da indústria AEC – Arquitetura, Engenharia e Construção, representando uma nova e diferente forma de trabalhar e pensar no setor da construção, onde a transparência, comunicação e a colaboração entre as partes são fatores decisivos.

A integração de um novo paradigma que se baseia na digitalização e utilização da tecnologia, servirá deste modo, para reduzir erros de projeto e construção por via da simulação em ambiente virtual, permitindo uma maior facilidade de colaboração e troca de informação entre os intervenientes, bem como na diminuição de erros e omissões que em regra resultam em prazos de execução e custos dilatados.

Porém, apesar de esforços pontuais vindos dos mais diversos quadrantes, todo o setor da construção apresenta um grau de desconhecimento considerável no que se refere à metodologia BIM, que pode ser analisado segundo duas perspetivas, académica e empresarial.

No plano académico, o BIM continua a não ser assumido pela maioria das instituições de ensino superior como matéria prioritária a integrar no plano curricular de cursos diretamente ligados à indústria AEC.  Esta realidade, tem como principal consequência, o desajuste dos conteúdos lecionados face às mais recentes e importantes transformações do setor, retirando competitividade aos futuros profissionais, prestes a integrar um mercado de trabalho altamente competitivo e globalizado.

Ao nível empresarial, algumas entidades sentem a necessidade de formar quadros em ferramentas de modelação paramétrica, principalmente aquelas ligadas ao projeto de arquitetura e engenharia, como forma de otimizar os seus processos internos de trabalho. No entanto, salvo algumas exceções motivadas pela atuação em mercados internacionais, onde é já um requisito obrigatório, este conhecimento continua ainda a não estar presente, seja por falta ou incapacidade de investimento das empresas em formação continua, seja pela resistência à mudança por parte dos profissionais ligados ao setor ou ainda pela pouca oferta formativa qualificada.

Por estes motivos, a implementação generalizada da metodologia BIM tem ainda um longo caminho a percorrer. É importante consciencializar o mercado para a importância do BIM para o setor da construção em Portugal e criar canais de comunicação que levem a todos os profissionais exemplos e testemunhos reais que os esclareçam e consciencializem para a emergência da adoção BIM. Assim, face aos desafios impostos pelas mudanças tecnológicas e de modernização, impõe-se uma estratégia integrada de divulgação, bem como de requalificação e adaptação dos recursos humanos, onde a formação assume um papel fundamental e prioritário. Importa ainda realçar que esta modernização da indústria AEC, envolve não só uma mudança organizacional, mas acima de tudo cultural.

Conclui-se, portanto, que a digitalização da construção assume hoje, uma importância decisiva na implementação de novas formas de pensar e de fazer, abrindo o setor a novos modelos de negócio, onde a inovação e a competitividade têm um papel fundamental e devem estar presentes em toda a cadeia de valor. Trata-se de um cenário de ganho inquestionável, que merece por parte das lideranças políticas e empresariais nacionais, uma abordagem estratégica comum e assertiva para a real transformação digital do setor, rumo à “Construção 4.0”.

OPINIãO DE Cláudia Antunes, Consultora BIM na Stratbond Consulting

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