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Emissões globais de CO2 podem baixar este ano

São “tendências encorajadoras”, segundo investigadores dos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Noruega, num estudo publicado na revista Nature Climate Change. Mas estão longe de prenunciar o fim do problema das alterações climáticas.

Entre 2013 e 2014, a quantidade de CO2 libertada pela queima de combustíveis fósseis e pelas indústrias – que  juntos representam a esmagadora maioria de emissões mundiais – subiu apenas 0,6%, comparado com 2,4% anuais na década anterior. Em 2015, tudo indica que haverá uma queda de 0,6%, segundo projeções apresentadas pelo estudo.

A notícia circulou rapidamente no centro de exposições de Le Bourget, nos arredores de Paris, onde as Nações Unidas estão a finalizar negociações para um novo tratado contra as alterações climáticas. Em jogo está o que o mundo deve fazer para reduzir drasticamente as emissões de CO2 nas próximas décadas. “As emissões não subiram [nos últimos anos], e isto são boas notícias. Mas estamos focados nas negociações”, disse Todd Stern, enviado especial dos Estados Unidos para a área das alterações climáticas, numa conferência de imprensa.

A evolução dos últimos anos tem um responsável principal claro: a China, que tem reduzido o seu brutal consumo de carvão. Também a procura pelo petróleo e gás natural cresceu menos e as renováveis estão a avançar.

Há um dado que agora surpreende. “Ao contrário de outros períodos onde houve pouco ou nenhum crescimento das emissões, o PIB mundial cresceu substancialmente nestes dois anos”, escrevem os autores do estudo, liderado por Robert Jackson, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

As emissões globais de CO2 tiveram outros momentos de estabilização nos anos 1990, com a recessão no Leste europeu depois da queda do muro de Berlim e em crises económicas mundiais, como a de 2008. Nos três últimos anos, porém, o PIB mundial cresceu a taxas de 3,3 e 3,4% e em 2015 deverá subir mais 3,1%.

“O tempo dirá se esta surpreendente interrupção no crescimento das emissões é transitório ou um primeiro passo em direção à estabilização”, escrevem os autores do artigo.

“Não podemos celebrar ainda. Dois anos de aparente estabilização de emissões não fazem uma tendência”, alerta Martin Kaiser, diretor de política climática da organização ambientalista Greenpeace.

Nas previsões para 2015 do estudo agora divulgado, as emissões deverão cair na China, Estados Unidos e União Europeia – os maiores contribuintes para o total global. Mas subirão no resto do mundo, em particular na Índia – também no topo da lista dos maiores emissores globais de CO2.

Portugal queimou 700 milhões de toneladas de combustíveis fósseis em 125 anos

E se quiser cumprir o seu papel na luta climática, o país tem de se livrar, até ao final do século, das 16 milhões de toneladas de petróleo, carvão e gás natural que ainda queima anualmente para mover os carros, produzir eletricidade, alimentar indústrias e abastecer habitações.

Estes números resultam de uma compilação, feita pelo PÚBLICO, dos balanços energéticos oficiais do país desde 1971 e de um levantamento histórico do uso de carvão e petróleo desde 1890. Uma aproximação simplificada das duas séries sugere que o país utilizou 521 milhões de toneladas de petróleo em si entre aquela data e 2014. A seguir vem o carvão, com 145 milhões de toneladas – também expressa em equivalentes de petróleo. E por fim o gás natural, com 56 milhões.

O uso destes combustíveis fósseis soma, nesse período, 722 milhões de toneladas equivalentes de petróleo. Se essa quantidade de energia fosse necessária agora, de uma só vez, toda a produção mundial de petróleo presente – cerca de 95 milhões de barris diários – teria de ser dirigida para Portugal, e a mais nenhum país, durante quase dois meses.

Portugal começou por utilizar sobretudo o carvão. Em 1890, o país valia-se de 35 vezes mais energia desta origem do que da obtida com o petróleo – segundo dados do livro História da Energia, Portugal 1890-1980.

O petróleo tomou a dianteira apenas em 1951. Com o automóvel, o consumo subiu de forma galopante nas décadas seguintes, atingindo o pico em 2002. Já destronado, o carvão teve um novo impulso com a inauguração da central termoeléctrica de Sines, em 1985. Duas décadas mais tarde, voltou a ser ultrapassado, desta vez pelo gás natural, que começara a ser importado a partir de 1997.

O uso dos produtos de petróleo teve uma queda abrupta a partir de 2005, acentuada com a crise económica. Ainda assim, o país chegou a 2014 com os combustíveis fósseis a representarem quase três quartos de toda a energia primária consumida. Foram 16 milhões de toneladas equivalentes de petróleo – dez milhões para o petróleo em si, 3,5 milhões para o gás natural e 2,7 milhões para o carvão.

O mundo todo terá de abdicar destas fontes de energia nas próximas décadas, para evitar um aumento da temperatura global acima de 2ºC – considerado incomportável. Para tal, as emissões mundiais de CO2 terão de baixar de 40% a 70% até 2050 e chegar a zero até 2100, segundo o IPCC, o painel científico da ONU para as alterações climáticas. Na prática, é o fim anunciado dos combustíveis fósseis, de onde vêm a maior parte das emissões de CO2.

Portugal tem projetos concretos para descarbonizar a sua economia no curto e médio prazo. O novo Plano Nacional para as Alterações Climáticas, aprovado em Junho, quer reduzir as emissões de CO2 do país em 40% até 2030, em relação a 2005. Para tal, será preciso encerrar as centrais termoelétricas de Sines e do Pego, que funcionam a carvão.

Por ora, a EDP diz que não tem data para fechar Sines, que é o maior emissor unitário de CO2 do país. Apesar de ser o mais poluente dos combustíveis fósseis, o preço do carvão está baixo e há 280 centrais térmicas na Europa a utilizá-lo, segundo um relatório das organizações ambientalistas Greenpeace e Rede de Acção Climática.

Neste cenário, só um custo significativo sobre o CO2 que sai das chaminés levaria os operadores a prescindir deste combustível. “O que sempre defendemos é que esta transição tem de ser feita com mecanismos robustos de mercado”, afirma Pedro Neves Ferreira, diretor de planeamento da EDP.

Para o médio prazo, o guião para o país é o Roteiro Nacional de Baixo Carbono, aprovado em 2010. Segundo este plano, é possível chegar a 2050 com 50 a 60% menos emissões do que em 1990 e com uma dependência energética do exterior na ordem dos 50%, contra mais 70% agora.

A incógnita está em como Portugal vai chegar até ao fim do século sem necessitar mais de combustíveis fósseis. “A forma de descarbonizar será pela eficiência energética, pela eletrificação da economia e pelas renováveis”, antecipa Pedro Neves Ferreira. “Em 2100, o mundo vai ser elétrico”, concorda António Sá da Costa, presidente da Apren-Associação de Energias Renováveis.

Um dos maiores desafios está nos automóveis. Os quase seis milhões que estão em circulação no país sorvem atualmente 42% de todo o petróleo que Portugal importa, segundo os dados mais recentes da Direcção-Geral de Energia e Geologia. Outros 35% vão para fora do país, metade sob a forma de gasolina e gasóleo exportados, produzindo CO2 noutros países. O carro elétrico, neste momento, é a solução que parece mais viável para resolver este voraz apetite.

Há setores onde os combustíveis fósseis são imprescindíveis e não têm substituto à vista, como a indústria petroquímica ou os transportes aéreos. Noutros, como a fabricação de cimento, com ou sem combustíveis fósseis há sempre emissões de CO2 que resultam do próprio processo de fabrico e são dificilmente minimizáveis.

Livrar-se dos combustíveis fósseis não será fácil. “É uma coisa tremenda para a humanidade”, afirma Filipe Duarte Santos, especialista da Universidade de Lisboa em alterações climáticas. “O mais difícil será convencer países que têm grandes reservas de petróleo, carvão e gás a não explorarem estes recursos”, completa, questionando: “Suponha que em Portugal, ao largo do Algarve, haja uma grande bolsa de petróleo. Como é que vai ser?”

Como se chegou a este número

O PÚBLICO utilizou os balanços energéticos da Direção-Geral de Energia e Geologia de 1971 a 2014 e as estimativas para 1890 a 1970 do livro História da Energia, Portugal 1890-1980, coordenado pelo historiador Nuno Madureira, do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Todos os dados foram convertidos em toneladas equivalentes de petróleo – unidade que representa a energia libertada ao se queimar uma tonelada de crude. Devido a diferenças metodológicas entre as duas séries, o resultado aqui apresentado é uma aproximação, com alguma margem de erro.

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