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“O nosso curso tem tido um número de candidatos exemplar entre os cursos de engenharia da UBI”

O que pode ser dito sobre a atualidade da engenharia aerospacial e aeronáutica em Portugal sob o ponto de vista do ensino?

Percorreu-se um longo caminho desde o ano da criação em Portugal do primeiro curso moderno de engenharia aeronáutica em 1991 na Universidade da Beira Interior (UBI). Creio que os nossos primeiros licenciados foram os que tiveram mais dificuldade em ingressarem no mercado de trabalho da aviação, pois os empregadores eram escassos e não tinham sequer a noção do papel que o engenheiro aeronáutico deveria assumir na empresa. Atualmente, o cenário está completamente mudado, os programas curriculares sofreram algumas alterações no sentido de se adaptarem melhor ao panorama português.

Mas, sobretudo, o mercado de trabalho é que mudou mais, absorvendo agora, avidamente, os nossos formados para as mais variadas funções: não apenas na gestão da operação e da manutenção, mas também no fabrico e na investigação e desenvolvimento de aeronaves. Em suma, temos hoje uma onda de abertura de cursos e empresas em engenharia aeronáutica e aeroespacial para fazer face à popularidade que a engenharia aeroespacial tem adquirido em Portugal.

Particularizando para o caso da UBI, algo que não posso deixar de referir é a forma como o nosso curso deixou de ter acesso ao aeródromo que se localizava a três quilómetros da Faculdade de Engenharias, por decisão da Câmara Municipal da Covilhã, em favor da construção de um Data Center. Foi um claro erro de estratégia, do ponto de vista do ensino da engenharia aeronáutica. Atualmente, para termos acesso a uma infraestrutura deste tipo, temos que nos deslocar ao Aeródromo de Castelo Branco que se encontra a mais de 50 quilómetros.

Por outro lado, posso referir que continuamos a ter uma grande proximidade entre os docentes e os alunos, num ambiente de aprendizagem através da aplicação de conhecimento. Um exemplo disso, é o incentivo que damos aos alunos para a participação em provas de engenharia como o Air Cargo Challenge, uma competição mundial bianual do tipo projeto-construção-ensaio de aviões não tripulados. Nestes projetos, os alunos orientados pelos nossos docentes, em estreita colaboração, têm rivalizado com as melhores universidades a nível internacional.

A média de entrada nesta área é bastante elevada. Este é um indicador de alta procura?

Pode dizer-se que sim. Depois de um período em que os candidatos ao ensino superior pareciam fugir das áreas das ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas (de acrónimo STEM na língua inglesa), assistimos agora a uma procura crescente, pelo menos nas engenharias. O curso em engenharia Aeronáutica e Aeroespacial não é exceção. Pelo contrário, o nosso curso tem tido um número de candidatos exemplar entre os cursos de engenharia da UBI e, felizmente, o mercado de trabalho no setor tem acompanhado essa tendência.

Porquê que, na sua opinião, a procura tem aumentado?

Creio que o setor da aviação serviu de refúgio durante a crise financeira que teve início em 2008. Pelo que o crescimento do mercado do transporte aéreo continuou a bom ritmo, sobretudo com a queda das tarifas e massificação do transporte aéreo. Mais recentemente, com a explosão do trabalho aéreo com aeronaves não tripuladas, a aviação goza de grande popularidade. Isto para não falar do setor do espaço. Esta popularidade atrai os jovens para uma elevada expectativa de carreira num setor onde a remuneração e os índices de emprego estão acima da média.

Qual é o perfil de um jovem que aos 18 anos escolhe esta área como carreira?

Uma vez que a média do último colocado é superior aos 16 valores, existe uma seleção natural de bons alunos, normalmente, com vocação para o conhecimento de matemática e física. Tratando-se de aviões, parece existir um fascínio inato que faz parte da atratividade do curso. Ninguém fica indiferente aos aviões. Embora a euforia que caracterizou a aviação na primeira metade do séc. XX já se tenha desvanecido, a realidade é que ninguém fica indiferente aos aviões. Eu próprio sempre fui fascinado pelos aviões e assisto a esse sentimento nos meus alunos. Uns mais, outros menos, mas todos têm esse “bichinho”, como costumo dizer.

Em termos de empregabilidade, quais são os caminhos mais frequentes quando o curso está terminado?

Normalmente, o caminho inicia-se por um estágio inicial, através do qual o empregador avalia as capacidades e adequação do perfil da pessoa à empresa. As empresas em Portugal no setor aeroespacial, neste momento são muito variadas e demasiado numerosas para estar a referir, mas o mercado de trabalho para os nossos alunos não é apenas nacional, é europeu e, cada vez mais, global. No entanto, nem todos vão trabalhar para a aviação, alguns vão para empresas onde se aplicam tecnologias aeroespaciais como, por exemplo: o ramo automóvel ou o da geração de energia eólica, outros vão para áreas que não aparentam ter qualquer relação com a aeronáutica. Estes últimos são, tipicamente, os que se querem manter na região de origem em vez de se deslocarem para grandes centros.

A UBI tem protocolos/parcerias com empresas do ramo para que os alunos realizem estágios curriculares?

Sim, a UBI, através do Departamento de Ciências Aeroespaciais, tem protocolos de cooperação com as principais empresas e outras entidades do setor. Por exemplo com: a Força Aérea Portuguesa desde 1985; Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves desde 2009; EMBRAER – desde 2001; TAP Portugal AS desde 2010; CEiiA desde 2010; Amorim Cork Composites desde 2011 ou a Active Space Technologies desde 2012, apenas para nomear algumas. O nosso Curso de Mestrado Integrado em Engenharia Aeronáutica não tem estágio curricular, mas são vários os alunos que vão para essas empresas realizar os seus trabalhos de dissertação no último ano curricular. Outra modalidade de estágio a que os nossos alunos recorrem com frequência são os estágios de verão em empresas.

De forma a elucidar possíveis interessados, o que faz um engenheiro aerospacial?

Em primeiro lugar gostaria de elucidar que aeroespacial ou aeronáutico é a mesma coisa. Embora a segunda seja um termo que tem caído em desuso, em favor do primeiro. O motivo é que o setor do espaço esteve incluído no setor aeronáutico desde o seu início. No entanto, tornou-se comum referir o espaço quando se fala nesta área de conhecimento, pelo que o termo aeronáutico evoluiu para aeroespacial.

Essencialmente, tratando-se de uma engenharia, consiste em usar as ciências básicas, como a matemática e a física, em ciências aplicadas aos dispositivos aeroespaciais. O engenheiro aeroespacial pode assumir funções muito variadas, com um maior ou menor grau de ciência aplicada. Por exemplo, o engenheiro aeronáutico pode assumir cargos mais relacionados com gestão (de operação e de manutenção de aeronaves), onde faz uso de uma pequena parte da formação que recebeu em engenharia e lida, sobretudo, com o cumprimento das estritas regras que se aplicam neste setor.

Por outro lado, o engenheiro, na sua essência, tem uma maior vocação para a conceção de dispositivos, para o projeto de engenharia. Este é um papel que se tem difundido mais recentemente pelo nosso país. Portugal tem hoje capacidade real de engenharia de conceção e desenvolvimento de componentes de aeronaves e de naves espaciais.

Posso acrescentar que acredito que uma tendência futura é que, à medida que as ferramentas computacionais evoluem para facilitar a parte do cálculo e otimização das soluções, o papel do engenheiro passa cada vez mais pelo processo criativo, pela busca de conceitos que se apresentem como as melhores soluções para cada problema.

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