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Imagens publicadas nas redes sociais podem servir para detetar doenças mentais

Investigadores de duas universidades norte-americanas concluíram que o tipo de fotografias que as pessoas colocam na rede social Instagram podem indicar uma depressão e permitir, através de uma aplicação, detetar a doença.

“Isto leva a um novo método para detetar precocemente uma depressão e outras doenças mentais emergentes”, disse Chris Danforth, professor da Universidade de Vermont, que liderou o estudo com Andrew Reece, da Universidade de Harvard. Os dois garantem que o algoritmo pode detetar mais rapidamente a depressão do que o diagnóstico clínico.

E indicam, segundo o trabalho hoje publicado no jornal EPJ Data Science, que a taxa de deteção de 70% dos computadores é mais fiável que o sucesso de 42% dos casos por parte dos médicos de medicina geral.

Para a investigação, os responsáveis pediram a ajuda de voluntários, que compartilharam o seu Instagram e o historial de saúde mental. Recolheram 43.950 fotografias de 166 pessoas, metade das quais disseram ter estado clinicamente deprimidas nos últimos três anos.

Analisando as fotografias, utilizando informação psicológica sobre a preferência das pessoas pelo brilho, cor e sombra, os investigadores concluíram que pessoas mais deprimidas tendiam a publicar fotografias em média mais melancólicas, mais escuras e com menos qualidade do que as publicadas por pessoas saudáveis.

E também descobriram que pessoas saudáveis usavam filtros que dão às fotografias um tom mais quente e brilhante. Nas pessoas deprimidas o filtro mais popular é o que faz as fotografias ficarem a preto e branco.

“Por outras palavras, as pessoas que sofrem de depressão têm mais tendência para escolher um filtro que literalmente tira a cor das imagens que querem partilhar”, disseram os investigadores.

Faces nas fotografias partilhadas também são um indicador. De acordo com o estudo as pessoas deprimidas são mais propensas a publicar fotografias com caras, mas por norma com menos caras do que as que publica o grupo considerado saudável. Entendem os responsáveis que menos rostos podem indicar que as pessoas deprimidas interagem menos.

O estudo incluiu a análise das fotografias por parte de voluntários, dizendo se pertenciam a pessoas deprimidas ou não, mas os resultados não foram tão eficazes como os do modelo estatístico testado pelo computador.

Os investigadores entendem que este tipo de aplicação tem o potencial de ajudar as pessoas no início da doença mental, evitando diagnósticos falsos, e apoiar uma deteção precoce, especialmente para os que não têm acesso a especialistas.

Aquecimento global afeta oceanos, propaga doenças e ameaça segurança alimentar

O aquecimento global está a afetar os oceanos, a propagar doenças entre animais e humanos e a ameaçar a segurança alimentar em todo o planeta, refere um relatório científico hoje divulgado.

As conclusões, baseadas numa pesquisa revista por pares, foram compiladas por 80 cientistas de 12 países, disseram peritos da União Internacional para a Conservação da Natureza no Congresso Mundial sobre Conservação, que está a decorrer em Miami, com a presença de 9.000 líderes e ambientalistas.

“Todos sabemos que os oceanos sustentam o planeta. Todos sabemos que os oceanos nos dão a cada segundo o ar que respiramos”, disse a diretora-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza, Inger Andersen.

“Estamos a tornar os oceanos doentes”, acrescentou.

O relatório, “Explicando o Aquecimento do Mar”, é o mais “abrangente e sistemático alguma vez realizado sobre o aquecimentos dos oceanos”, afirmou Dan Laffoley, um dos principais autores do estudo.

As águas do mundo absorveram mais de 93% do aquecimento provocado pelas alterações climáticas desde a década de 1970, reduzindo o calor sentido na terra, mas alterando drasticamente o ritmo de vida no oceano, disse.

“O oceano tem-nos protegido e as consequências disso são enormes”, sublinhou Dan Laffoley.

O estudo incluiu vários ecossistemas marinhos, desde os micróbios às baleias, incluindo o fundo dos mares e mostra que algumas espécies se estão a deslocar em direção aos polos para águas mais frias.

“Estamos a mudar as estações no oceano”, afirmou, salientando que as temperaturas mais altas vão, provavelmente mudar a proporção entre os sexos das tartarugas no futuro, porque as fêmeas são mais propensas a nascer em temperaturas mais quentes.

O estudo inclui provas de que o aquecimento dos oceanos “está a provocar o aumento de doenças em populações de plantas e animais” e também a matar os recifes de coral, referiu Dan Laffoley.

Irmãos que salvam irmãos

A vida mudou numa noite. Dois antibióticos para combater uma amigdalite que não passava. O corpo de Inês, ano e meio, ardia em febre. Tinha deixado de ser a criança ativa e bem-disposta. Anabela Domingos, mãe pela primeira vez, levou-a às urgências. Inês ficou em observação. Baço inchado, perguntaram-lhe se tinha caído, glóbulos brancos a 120 mil quando o normal é entre 3 a 4 mil, os médicos e enfermeiros de volta dela. E a mãe a começar a sentir o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

As horas de internamento iam passando e não havia respostas. Um médico chegou e disse que as análises estavam complicadas, que era preciso fazer uma punção lombar. O corpo de Inês começava a sucumbir aos primeiros sinais da leucemia mielóide crónica. Doença rara em crianças. Parecia a constatação gradual de um desfecho trágico. Ainda não tinha sido transferida do Hospital de São Francisco Xavier para o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa e a sentença estava traçada. A doença em fase terminal, não havia tratamento que desse em cura. Uns comprimidos diluídos em água deram-lhe alguns meses pacíficos, mas faltavam soluções. Um médico em Londres voltou a dizer aos pais, Anabela e Paulo, tudo o que lhes tinha sido dito em Lisboa. “Não há nada a fazer.”

Inês sobreviveu três anos com quimioterapia oral e nunca se falou em transplante. Anabela e Paulo suspenderam as suas vidas. Passaram a viver obcecados com a filha. E viam a vida dela a esvair-se todos os dias. Eles ali ao lado, atordoados pelo destino, sem nada poderem fazer. Ela num quarto isolado na pediatria do IPO, “com cheiro a morte”, e todos os que cuidavam dela a sentir que o fim estava próximo. Até que a vida voltou a mudar, mas desta vez numa manhã. As análises pioravam, não valia mais a pena fazer quimioterapia. A medicina lidava com uma doença muito invulgar. “Começaram a preparar-nos para o pior.” Anabela esperava ao lado da filha. “Um dia, eu estava com ela no quarto — meio adormecida, era como se também já não estivesse bem cá — e entra um senhor de bata branca e máscara na cara a perguntar pela mãe da Inês.” O médico, Manuel Abecasis, hematologista, trazia-lhe uma oportunidade, a primeira desde que a vida tinha mudado naquela noite em que os médicos do São Francisco Xavier lhe falaram sobre a batalha que teria de travar. “Perguntou-nos se queríamos partir com ele num projeto para tentar salvar a Inês. Disse-me: ‘Nada se perde, tudo o que fizermos é para ganhar.’ Mas para isso eu teria de engravidar.” O médico propunha-lhe que as células colhidas do cordão umbilical do bebé que nascesse fossem transplantadas para Inês.

Anabela e o marido queriam ter mais filhos, mas aquele não era o momento ideal. A parentalidade mal tinha começado e logo com tantos desafios. Mas, perante a vulnerabilidade da filha, não houve dúvidas. Começaram a fazer testes genéticos para ver se havia algum problema com o casal. Com autorização para conceber, Anabela, que só tinha um ovário, engravidou na semana seguinte. Nove meses depois nasceu um rapaz saudável, com 4 quilos e 100 gramas e 53 centímetros, a quem o casal deu um nome habitual na família. “O João veio curar os bichinhos que a Inês tinha no sangue. É um herói.” Foi assim que Anabela e Paulo explicaram aos filhos como um tinha nascido três anos depois do outro. “Foi um filho muito desejado. Se não tivesse nascido nessa altura, teria nascido noutra”, conta Anabela, hoje mãe de uma jovem educadora de infância e de um estudante de engenharia eletrotécnica e computadores. “Era uma situação dramática. Uma doença que se desenvolvia debaixo dos nossos olhos”, recorda Manuel Abecasis, pioneiro dos transplantes de medula óssea em Portugal. Sentado no seu gabinete, o diretor do Serviço de Transplantação de Progenitores Hematopoiéticos (UTM) do IPO de Lisboa tem bem presente o caso de Inês. A técnica — o transplante de células do cordão umbilical — que usou a 28 de setembro de 1994 tinha sido praticada pela primeira vez em França seis anos antes. Era um campo novo para a medicina.

Um irmão nascia para dar vida a outro, para ser mais do que ele próprio. A potencialidade destas células, mais primitivas e vocacionadas para se diferenciarem em outras células que dão origem ao sangue, foram vida no corpo de Inês. A seguir a ela foram mais cinco vidas salvas da mesma maneira. “Os doentes mantêm uma ligação muito forte connosco e são vistos pelo menos uma vez por ano. Temos muito interesse em estudar os efeitos secundários e em conseguir detetar alterações.” Desde 1994 — e com o entusiasmo que o sucesso de Inês provocou — foram feitos oito transplantes de sangue do cordão umbilical (SCU) entre irmãos e cinco deles estão bem de saúde. “Já são adultos. O mais novo tinha 2 anos quando foi transplantado e o mais velho 8.”

Agora, a história conta-se com alívio e gratidão. “Foi o dr. Abecasis que nos salvou.” Aos quatro. Anabela e Paulo conseguem descrever de cor cada passo que deram na salvação da filha. O ambiente assético em que tiveram de viver, os exames e testes genéticos que fizeram para despistar qualquer problema, os engenheiros que construíram “uma espécie de colete de metal” para ela não queimar os pulmões enquanto lhe destruíam a medula. Os lugares vazios em cada consulta, em cada internamento. As crianças que já não apareciam para o tratamento seguinte. E a ansiedade de nove longos meses. E se João não tivesse chegado a tempo? “Durante esse período, a Inês melhorou. Parece que foi Deus, que tinha de ser… A Inês chegou a ter alta”, lembra Anabela.

Uma junção de medicina e sorte que a manteve bem até ao dia 20 de maio em que o irmão nasceu e que permitiu que o 28 de setembro significasse renascimento. Uma família inteira que se conseguiu organizar em prol do bem comum, os filhos. “As obrigações familiares são de extrema importância e espera-se dos familiares que estes cuidem uns dos outros. Eu diria que este é um caso onde esta norma é levada ao extremo, obrigando a que uma vida seja à partida criada para cuidar de outra”, explica a socióloga Sílvia Portugal, especialista em relações familiares.

UM BEBÉ-ESPERANÇA

Tinha João quatro meses quando foi usado o sangue do seu cordão umbilical na medula da irmã. Às 12 horas daquele dia, Inês tinha a zona entre a boca e o esófago em carne viva e definhava em cima da marquesa quando começou a ganhar vida de novo. Antes do Natal, Inês, com “15 quilos e aspeto de esqueleto”, foi para casa. E nesse dia Anabela foi buscar João a casa da mãe, onde o bebé esteve a viver desde que nasceu. “Ele só queria a avó e a bisavó.” Ao contrário do que fizera com a primeira filha, Anabela deixou João ao cuidado de familiares próximos. Dividia-se entre a filha no IPO e a casa da mãe para dar de mamar ao bebé. João é aquilo a que se chama um bebé-esperança, um bebé-instrumento, foi gerado naturalmente, pela vontade dos pais, para que o seu sangue pudesse salvar a irmã doente. Haveria de ter nascido de qualquer forma.

Ao contrário de João, existem na Europa, pelo menos, três casos de irmãos que nasceram com o mesmo propósito, mas foram gerados em laboratório, recorrendo a técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) e envolvendo seleção de embriões. Chamam-se bebés-medicamento, e em maio do ano passado foi autorizado o primeiro em Portugal. Um casal com uma filha com leucemia linfoblástica pediu autorização ao Conselho Nacional de PMA para ter um bebé compatível e assim ser possível proceder ao transplante de medula óssea. Para isso, o casal fez um diagnóstico genético pré-implantação (DGPI), através de fecundação in vitro, de modo a obter embriões geneticamente compatíveis; destes, o escolhido seria transferido para o útero da mãe. Este procedimento tem levantado questões éticas na medicina, com posições contra e a favor. No mesmo ano em que foi autorizado o primeiro bebé-medicamento português, outros dois casos foram rejeitados. O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) elaborou um parecer no qual considerou que a utilização do DGPI para selecionar embriões dadores de células estaminais com o fim de tratar uma doença fatal de um familiar configura um complexo dilema ético em que se considera poder sobrelevar-se o princípio da solidariedade.

Semelhanças. Lurdes Pintor não hesitou em ter outro filho para salvar Diogo (ao centro). O bebé nasceu compatível e parecido com o irmão. ”Olho para um e vejo o outro”

Semelhanças. Lurdes Pintor não hesitou em ter outro filho para salvar Diogo (ao centro). O bebé nasceu compatível e parecido com o irmão. ”Olho para um e vejo o outro”

RUI DUATE SILVA

O caso de Inês é diferente. “Não se levanta a questão ética suscitada pela seleção embrionária, mas é esperado que o filho a nascer cumpra objetivos terapêuticos que poderão não ser biologicamente possíveis. Não se duvida do amor dos pais pela criança a nascer nem das circunstâncias que os norteiam — e por vezes condicionam a decisão. No entanto, a consideração do melhor interesse do filho a nascer, também ele vulnerável, suscita cuidado do ponto de vista ético. O filho a nascer pode não só não ter a compatibilidade imunológica como incorrer no risco de nascer com a mesma patologia, pelo que o aconselhamento genético nestas circunstâncias seria recomendado como decorrente de um princípio de precaução”, defende João Lobo Antunes, presidente do CNECV. Há dois valores em conflito: a luta pela vida de um filho que está a morrer e a autodeterminação do bebé que irá nascer. “As relações parentais na sociedade contemporânea são marcadas por duas dimensões fundamentais: o amor pelos filhos e a igualdade entre os filhos. Ter um filho com o objetivo específico de salvar outro é um ato de amor, mas estabelece à partida uma relação de desigualdade entre os filhos”, frisa Sílvia Portugal. Inês e João são iguais no coração dos pais. Ele não se sente um super-herói nem gosta de elogios, ela não vive numa redoma de vidro.

Uma gravidez provocada para salvar um filho na esperança de que a criança que vai nascer seja compatível com o irmão doente não é uma certeza científica. As estatísticas dizem que acontece um em cada quatro casos. Nas pediatrias dos hospitais oncológicos portugueses é comum ver pais com filhos doentes terem um segundo filho. “Não confessam se foi essa a intenção, salvar o que está doente. Lidamos com leucemias agudas que não se compadecem. Muito rapidamente as crianças recaem e não esperam pelas células do irmão”, diz António Campos, diretor do Serviço de Transplantação de Medula Óssea do IPO do Porto.

No desespero da doença, o instinto faz com que se tente tudo e não se perca a esperança. “Nunca temos filhos por razões puramente altruístas. Aliás, podemos ter um filho por motivos puramente egoístas. Não há razão para que ele seja menos amado só porque foi instrumento para a cura de outro”, escreveu Bryn Williams-Jones, especialista em bioética do Departamento de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Montreal, no auge do debate sobre a manipulação de embriões.

Quem perante a mesma situação não arriscaria tudo? Uma decisão tomada, por vezes, em momentos de abismo. Como naquele dia em que Carlos viu Pedro, de 5 anos, deitado na marquesa, pálido e imune às tentativas das enfermeiras para lhe administrarem um medicamento. As veias estavam queimadas pela quimioterapia, e o único sítio onde Pedro podia ser injetado era no pé. E ele calado. “O miúdo não gemia.” Foi uma epifania. A partir dali, Carlos estava disposto a fazer tudo, a aceitar tudo. Tinha decidido que o filho ia sobreviver através do irmão. A inversão do ciclo da vida é inaceitável. “É uma marca muito grande. Deixa de se confiar na vida.” Os êxitos que os dois rapazes tiveram ao longo dos anos, as boas notas que os levaram à Universidade de Coimbra, a maneira como conciliaram a escola com o futebol federado não foram suficientes para apagar a memória do casal. “Estamos sempre com medo. Quando vamos às consultas de rotina ficamos nervosos, não falamos uns com os outros, mas consigo ver nas nossas expressões que estamos nervosos”, conta Irene, a mãe. O segundo filho foi uma janela aberta para a esperança.

Irene vê o crescimento dos filhos de maneira diferente que as outras mães. Não tem a nostalgia de gostar de ver sempre os filhos mais pequenos nem a síndrome do ninho vazio quando saíram de casa. Dá outro valor ao envelhecimento. É como se estes últimos anos sejam a mais, uma bênção extra para valorizar. “Foi um milagre ter conseguido aguentar a gravidez até ao fim.” À sua maneira, cada um dos rapazes carrega os anos mais difíceis da vida dentro de si. Pedro não gosta de falar sobre a doença. Gustavo não faz questão de recordar os primeiros anos. “O mais novo sofreu muito com isto e manifestou tudo na gaguez. É um miúdo muito inseguro e mimado.” Houve uma altura em que competiram pela atenção dos pais, em que se digladiaram por um brinquedo, como todos os irmãos costumam fazer. Só agora, que são jovens adultos, conseguem dar mais valor ao sangue que os une. Ao sangue de um que salvou o outro. Levou algum tempo a que ficassem assim.

Inês e João vão este verão passar férias juntos. Já foram ao Super Bock Super Rock e já fizeram uma aula de surf em conjunto. Talvez para o ano, para aflição da mãe, estejam os dois a trabalhar e a estudar no estrangeiro. “É uma relação normal de irmãos. Falamos um com o outro quando algum precisa de desabafar”, diz João. “Na escola, os outros miúdos faziam muitas perguntas. Foi aí que me caiu a ficha e vi que tinha de interiorizar o que havia acontecido”, conta Inês.

A relação entre a biologia e a ligação emocional não é imediata nem igual em todas as famílias. Estes irmãos não têm de ser mais ou menos próximos. “Os efeitos que esta opção poderá ter na vida familiar e nas relações entre pais e filhos e entre irmãos dependerá do modo como os pais souberem conjugar os valores da obrigação, do altruísmo e da solidariedade com os da liberdade e da autonomia individuais”, frisa Sílvia Portugal.
Ligados por um cordão umbilical

Houve sempre um fio invisível que ligou Joana a Miguel. Como se, desde pequena, ela soubesse que tinha sido a sua medula que permitira que ele estivesse ali, de braços abertos, a chamá-la. Até aos 3 anos era para o colo do irmão que preferia ir. Quando a mãe contou a Miguel, com uma linguagem muito própria de criança, que ele estava doente e que era preciso um transplante de medula, disse-lhe também que se houvesse um irmão a probabilidade de ele se salvar era maior. Miguel respondeu-lhe: “Vai ser uma menina, vai ser compatível e vai chamar-se Joana.” Maria acreditou. O marido tentava gerir-lhe as expectativas, mas ela acreditava no que o filho lhe tinha dito. Só no oitavo mês soube que a “luz” que carregava no ventre era uma menina, no entanto, lá no fundo, já tinha a certeza.

A vida desta família da zona de Viseu também mudou numa noite. Em poucos minutos, os médicos explicaram-lhes o que era a leucemia linfoblástica, que primeiro o filho faria tratamentos e que só depois se avançaria para um transplante. A palavra “leucemia” invadia-lhes a vida e, na altura, representava “morte”. Maria lembrava-se de, em pequena, ir com o pai ao cemitério e passar pela campa de um jovem familiar. “Eu perguntava quem era, e o meu pai dizia que tinha morrido com leucemia. Para mim, leucemia era morte.” No hospital de Coimbra, o médico António Brito, que se tornou quase uma pessoa da família, deu-lhes um ânimo novo. O fim não tinha chegado.

Quimioterapia, radioterapia, procurar dador e preparar para um transplante se fosse preciso. Miguel reagiu bem. Até à primeira recaída, um ano e meio depois. “Foi como se voltasse tudo atrás.” Joana confirmava-se uma semana depois. Os tratamentos arrastaram-se e mantiveram Miguel vivo até ao nascimento da irmã. Três dias depois do nascimento soube-se que eram compatíveis. Foi um alívio. “Não sei qual é a sensação de ganhar um grande prémio, mas não seria uma alegria maior.” Os dados alinhavam-se. “Um dos pedidos que o Miguel fez, quando percebeu que ia para transplante, foi que ficássemos os quatro. Nunca quis deixar a irmã para trás.” A família mudou-se de uma aldeia para Lisboa.

Um pai no quarto 11 do lar da Acreditar — Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro e outro sempre ao pé de Miguel. Todos os dias, pai e mãe encontravam-se nos jardim do IPO para mudarem de turno. Cada um à cabeceira de cada filho. Ao lado, Joel, uma criança africana, travava uma batalha parecida. Os dois rapazes tornaram-se amigos, tal como as mães. “Chamavam-nos a irmã negra e a irmã branca.” Ao fim de uns meses, a cadeira onde Joel se costumava sentar ficou vazia. Miguel perguntou porquê. Só há poucos anos a mãe lhe contou a verdade. Alguns dos seus melhores amigos não deixaram de aparecer no hospital por terem melhorado. Foi aí que Miguel teve a noção do risco que correu. E, talvez, da sorte que teve. A mãe não se esqueceu de nenhum dia, de nenhum momento. A noite de 25 para 26 de novembro é uma data que comemoram os três. Outra noite em que a vida voltou a mudar. Outro renascimento. Contam já 12 aniversários.

Passaram oito anos desde que Lurdes Pintor olhou para o terceiro filho e viu que era a cara do mais velho. O fim de uma gravidez cheia de ansiedade que lhe deu o filho mais desejado. “São iguaizinhos. Quando olho para o pequenino é como se estivesse a olhar para o mais velho.” Lurdes estava sentada com João Rafael ao colo, de 18 meses, quando o médico lhe explicou a doença de Diogo. A leucemia espalhava-se da medula para a cabeça.

Desesperada, disse ao médico que faria o que fosse preciso. “Eu digo-lhe, mas é um risco. Você é que sabe. E já tem esse bebé…” João Rafael era incompatível, a solução podia passar por outro filho. Podia. Era um tiro no escuro. Lurdes não hesitou: “Eu faço outro bebé.”

Um filho doente, outro a aprender a andar, e ela a atirar-se para uma terceira gravidez sem certeza de que seria suficiente para salvar o filho mais velho. “Chorava muito e pensava se conseguia levar a gravidez até ao fim. Será que o bebé ainda nasce a tempo?” O dilema passava pela cabeça de outras mães no Hospital Pediátrico de Coimbra. Uma delas perdeu o filho doente duas semanas antes de dar à luz. Era o medo que Diogo morresse, o medo que Victor não fosse compatível com o irmão. Uma gravidez ao contrário de todas as outras, a angústia em vez da alegria. O medo do resultado de uma análise de compatibilidade em vez do receio de educar bem um filho. Uma corrida contra o tempo no lugar de tempo para preparar o ninho. Um filho para manter vivo o outro. O cordão umbilical era muito grande, Lurdes achou que era bom sinal. E era. “Foi um risco, mas toda a gente me apoiou.”

Como se diz que não a uma mãe e a um pai que correm o risco de perder um filho? “A ponderação a fazer há de considerar o risco individual para a criança dadora (não é aceitável uma doação com lesão pessoal, como o é a doação de um rim, mas será aceitável a doação de tecido regenerável, como medula, tecido hematopoiético), o benefício individual e o benefício secundário e a possibilidade salvadora de outrem. Há que ponderar ainda se o filho doente tem uma esperança de vida breve ou sofre de uma situação de doença aguda que não permita realizar a transplantação com segurança”, sublinha João Lobo Antunes.

João e Mariana fizeram seguro de casa, seguro de vida, seguro de saúde. Antes de terem sido pais pela primeira vez, Mariana foi ao médico e pediu-lhe todos os exames e análises necessários para ver se podia engravidar. Queria ter o primeiro filho e não correr nenhum risco. Só comprou enxoval aos cinco meses, depois da ecografia morfológica. Não comeu uma única alface fora de casa, nem sushi, que adora, nem carne processada. Fez o curso de preparação para o parto. E só engravidou depois de o período de carência do seguro que cobria o parto entrar em vigor. O primeiro filho foi um momento planeado. Mariana foi para casa descansar com dois meses de antecedência, planeou uma licença de maternidade prolongada para estar presente, praticamente, no primeiro ano de vida do filho. Não estranhou, quando ele nasceu, que não o tivessem posto em cima do seu peito, como é natural fazerem com os recém-nascidos. Ele gemia muito. Hoje sabe que não é normal.

Mal tinha adormecido e os médicos acordaram-na, a ela e ao marido, para dizerem que havia uma complicação com o bebé. Primeiro era um sopro no coração, depois eram dois, depois um problema nos rins. Era quase certo que iria precisar de transplante quando crescesse. Do quarto planeado para os três passaram para um hospital público. Uma cirurgia antes dos seis meses e o diagnóstico em aberto. Sem certezas ou garantias de qualidade de vida. “Quis adiantar-me à sorte. E engravidar de novo, para ter um seguro de vida vitalício para o meu filho. Um irmão que lhe pudesse doar um rim quando fosse mais velho.” A vida complicou-se. Uma data de análises que não consegue explicar ou descrever. Os valores a ultrapassarem todos os limites e o tempo a chegar ao fim. Até ao dia em que acabou, ainda ela estava grávida do segundo filho.

Inês e João Domingos foram um enorme seguro de vida um para o outro, mas nos momentos cruciais foram bafejados pela sorte. Os dois irmãos não são totalmente compatíveis, não fossem as células do cordão umbilical suficientes e não teria sido possível fazer transplante de medula.“Há duas características que marcam a diferença do cordão umbilical para os outros transplantes: as células são de facto mais primitivas e por isso têm maior capacidade proliferativa — os doentes que fazem um transplante de sangue de cordão umbilical [SCU] recebem cerca de 10 vezes menos células do que os que recebem medula e 100 vezes menos do que os que recebem sangue periférico, sendo que esta diferença é compensada pela maior capacidade proliferativa do SCU; a outra diferença diz respeito à imaturidade imunológica do SCU, que o torna menos reativo e por isso permite transplantes com menos compatibilidade”, explica Manuel Abecasis.

O cordão umbilical de Joana não foi suficiente para Pedro. O próximo passo era ela dar-lhe medula. Ao contrário da ‘fácil’ decisão de voltar a ser mãe, Maria teve mais receio em autorizar a colheita de medula da sua bebé. “Foi a assinatura mais complicada da minha vida. O médico garantiu-me que não haveria risco, porque se houvesse ele não ia colocar em risco uma criança por outra que não sabia se sobreviveria.” O objetivo era esperar pelos dez meses de Joana, mas a saúde de Miguel piorava e foi preciso antecipar e fazer a recolha logo aos nove meses. Hoje, na escola, costuma contar com orgulho que a mãe é dadora e ela já salvou o irmão. Durante os 30 dias de isolamento do irmão, procedimento necessário para o transplante, os pais fizeram desenhos de uma quinta com balões. “Era uma maneira de contar o tempo.” Aqueles dias de limite, afinal, são também memórias de momentos felizes.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 20 agosto 2016

Alzheimer. Uma viagem virtual ao cérebro para conhecer a doença

 

Enquanto vê o filme (em inglês) aproveite o rato para viajar para cima, para baixo e para os lados, tendo uma visão equivalente a 360 graus. No texto em baixo encontrará uma explicação do conteúdo do vídeo.

A todo o momento os nossos neurónios comunicam uns com os outros,enviando comandos para todas as funções do nosso corpo, desde o respirar ao subir umas escadas. Mas os neurónios também são responsáveis pelos nossos pensamentos, memórias e emoções. Esta rede de neurónios ramificados que comunicam uns com os outros fica comprometida quando se desenvolve a doença de Alzheimer.

Os cientistas ainda não conseguiram perceber o que causa a doença, o que torna mais difícil – senão impossível – a sua prevenção, embora as atividades que desafiem o cérebro, assim como aprendizagem de línguas e música funcionam como um “protetor” da atividade cerebral. O que os cientistas conhecem cada vez melhor é a forma o Alzheimer afeta os neurónios, boicotando as comunicações e podendo mesmo levar à sua morte. E tudo começa com um processo natural que, sem se saber porquê, começa a falhar.

A proteína precursora de amiloide (a amarelo) é produzida por muitas células, mas encontra-se também nas sinapses dos neurónios – onde os neurónios estabelecem as ligações de comunicação uns com os outros. Uma enzima (a azul), é responsável por cortar essa proteína, masquando não o faz convenientemente, deixa pequenos fragmentos da proteína chamados de beta-amiloides (a laranja).

Estes péptidos (conjuntos de aminoácidos) beta-amiloides têm tendência para se agregarem e acumularem nos locais onde os neurónios estabelecem as comunicações – nas sinapses. Estas placas de beta-amiloides vão-se acumulando naturalmente com a idade, mas na doença de Alzheimer formam-se em muito maior quantidade. Imagine o que é ter a coluna ou o microfone do telemóvel cheios de pequenos grãos de areia.

Mas este não é o único problema. Os neurónios têm um sistema de microtúbulos (a azul claro) que transportam nutrientes e outras substâncias – mais ou menos como o cabo lhe leva todos os canais de televisão que vê. A proteína tau (a amarelo) ajuda a que estes microtúbulos se mantenham juntos e bem organizados num feixe, masna doença de Alzheimer esta proteína encontra-se modificada. Sem estas pequenas “braçadeiras” para manter os “fios” juntos, o sistema colapsa, e o televisor deixa de transmitir qualquer sinal – que em linguagem de neurónio quer dizer: morre.

Estas alterações que afetam os neurónios podem acumular os seus efeitos durante vários anos até que comecem finalmente a manifestar-se os sintomas. As primeiras áreas a serem afetadas são as da formação das memórias, como o hipocampo, mas à medida que a doença progride os neurónios vão morrendo em várias zonas do cérebro e o órgão vai diminuindo de tamanho.

Os primeiros sintomas são perdas de memória ligeiras, mas a doença avança para a dificuldade em formar pensamentos e em expressá-los verbalmente. Há medida que o cérebro, que comanda todas as funções do nosso corpo, vai morrendo, as pessoas mostram uma dificuldade crescente em andar, falar ou engolir. Os doentes de Alzheimer acabam por se tornar totalmente dependentes de terceiros. Os tratamentos servem apenas para aliviar alguns dos sintomas da doença e ainda nenhum serve de cura.

Detetar Alzheimer antes da perda de memória

Apesar de a perda de memória ser um dos primeiros sinais identificáveis da doença de Alzheimer e de outros problemas neurológicos, um cientista propôs agora que podem existir outros sinais que surgem mesmo antes disso, como as mudanças de comportamento ou de personalidade.

Se até agora a perda de interesse pela atividades preferidas, os estados de ansiedade, agressividade e suspeita, ou até os comentários menos próprios em público, eram considerados um “mal da idade”, agora Zahinoor Ismail, da Universidade de Calgary, considera que podem ser um sinal para algo mais, como apresentou na Conferência Internacional da Associação Alzheimer, em Toronto, noticia a AP.

O investigador propôs uma lista de sinais que se for validada poderá ajudar os médicos a detetar mais precocemente a doença – até porque a perda de memória não afeta todas as pessoas da mesma maneira. A lista inclui apatia, ansiedade sobre eventos outrora rotineiros, dificuldade em controlar reações por impulso, perda de apetite ou outras reações completamente novas. Estes sinais têm de se manter por mais de seis meses e não ser atribuíveis a nenhuma outra condição específica.

Um conselho deixado pela mulher de um doente com Alzheimer: “Se virem alguma mudança, não hajam de ânimo leve a pensar que é stress”. O melhor é procurar a ajuda de um profissional de saúde.

Alzheimer, uma resposta Global e Integrada

Equipa NeuroSer

Com o aumento da esperança média de vida, existe uma preocupação crescente com o envelhecimento da população e com uma futura “epidemia mundial de demências”. Existem, de facto, razões para tal?
Realmente, fala-se muito na preocupação com o envelhecimento da população, ainda que esta preocupação se esfume muitas vezes nas palavras e raramente se consolide em atos de verdadeiro interesse social. A idade avançada é um período frágil da vida que carece de quase tanta atenção como aquela que é dada no início da vida, pois o envelhecimento do corpo torna-o mais vulnerável do ponto de vista biológico. Criam-se assim oportunidades para o desenvolvimento de diversas formas de patologia, nomeadamente aquela que se relaciona com a função cerebral, em que se incluem as demências. A este propósito, é necessário que cada um de nós se consciencialize de que, num futuro, mais ou menos próximo, todos temos grandes possibilidades de vir a cuidar de alguém que nos é querido e que venha a sofrer de demência, ou que alguém venha a cuidar de nós.

Alexandre Castro Caldas
Alexandre Castro Caldas

Parece existir elevado “pudor” em falar de doença de Alzheimer ou de outras demências em Portugal, existindo até algum estigma associado. Tal não levará a que se perca tempo precioso, nomeadamente para um diagnóstico precoce?
Segundo os resultados de um inquérito recente, apoiado pela Direção Geral de Saúde e pela Associação Alzheimer Portugal, a demência constitui uma das doenças mais temidas pelos portugueses, logo atrás do Cancro e do AVC. Os inquiridos referiram também que a sua perceção é de que a maioria das pessoas na comunidade considera que estas pessoas deixam de poder participar em atividades de caráter social, o que reflete que existe, efetivamente, ainda um estigma associado a esta patologia. Ainda assim, têm sido dados passos importantes no sentido de tentar divulgar e de melhor informar as pessoas sobre a patologia. Um diagnóstico precoce pode revelar-se de grande utilidade para se tentar prolongar o mais possível a independência e autonomia da pessoa e também para ajudar a família a lidar com a evolução da doença.

Perante um diagnóstico de doença de Alzheimer ou de outra demência, sabendo que à data não é possível parar a sua evolução, que soluções existem?
De um ponto de vista farmacológico, existem medicamentos que permitem ajudar a controlar alguns dos sintomas, ainda que não exista qualquer fármaco que permita reabilitar ou parar a evolução da patologia. Com efeito, os livros de textos médicos relatam com minúcia os mais ínfimos detalhes moleculares que justificam o que é observável e propõem soluções parciais, claramente insuficientes face às expectativas dos que acompanham os que sofrem de demência. De um ponto de vista não farmacológico, é importante que a pessoa se mantenha o mais possível ativa, que se evite o isolamento social, assim como que se evite uma “institucionalização precoce”. Sempre que possível, a permanência da pessoa no seu ambiente familiar é de grande relevância, não só para a própria pessoa, mas também para a família, que, com a institucionalização precoce, vê muitas vezes a sobrecarga física ser ultrapassada pela sobrecarga emocional. Neste âmbito, as soluções integradas de proximidade assumem importância cada vez maior.

Que tipo de soluções integradas de proximidade?
Importa relembrar que a demência não afeta de igual forma todas as pessoas e que, mesmo para uma única pessoa, os impactos na funcionalidade vão variando ao longo do tempo. Neste sentido, uma abordagem integrada que agregue várias valências, permitindo uma intervenção de um ponto de vista cognitivo, físico, emocional e social é útil e necessária. Já começam, a surgir entidades em Portugal, como é o caso do NeuroSer, que procuram dar uma resposta especializada e integrada orientada para pessoas com demência e as suas famílias, nomeadamente em regime de ambulatório, compreendendo as limitações, mas, sobretudo, explorando as potencialidades e promovendo o mais possível a autonomia, a autoestima e a qualidade de vida da pessoa. Nestes casos, a flexibilidade e o conhecimento da patologia são importantes para se conseguir lidar com situações naturais de recusa, assim como alterações de humor e comportamentais, sem comprometer os objetivos da intervenção, que deve ser percebida numa lógica de continuidade e não pontual ou de reabilitação clássica. Tal implica, naturalmente, recursos humanos em quantidade e com formação especializada.

Estamos a falar de que recursos humanos e de que tipo de intervenções?
Para que exista verdadeiramente uma abordagem integrada, estamos a falar do envolvimento de médicos, neuropsicólogos, fisioterapeutas, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, auxiliares, entre outros, que devem trabalhar em conjunto e partilhar os diversos pontos de vista no estabelecimento e avaliação contínua do plano de intervenção. É necessário compreender que a abordagem clássica falha por vezes nestes casos. A título de exemplo, de que serve pedir a uma pessoa numa fase mais avançada da demência para levantar o braço dez vezes, se nisso ela não vê utilidade e interesse? A resposta esperada nestes casos pode ser de recusa e, se acompanhada por insistência, uma recusa com agressividade. Tal não implica, no entanto, desconsiderar o importante papel que as intervenções podem ter, havendo que delinear uma intervenção que, ainda que com objetivos muito concretos, se adapte à situação, aos interesses e à história de vida da pessoa.

Mais concretamente…
Mais concretamente, em função da pessoa e da fase da demência, tal poderá passar por uma intervenção mais tradicional, através da realização de sessões mais estruturadas de estimulação cognitiva, fisioterapia, terapia da fala, consoante as funcionalidades afetadas ou em risco, ou por uma intervenção mais flexível, ecológica e global que inclua a realização de atividades ocupacionais, do interesse da pessoa, planeadas e orientadas por um ou mais dos especialistas antes referidos, como uma deslocação à mercearia do bairro, a um jardim ou mesmo a um museu, a realização de uma atividade de culinária, de jardinagem, de bricolagem, uma sessão de leitura conjunta, atividades com música, como a dança, o canto ou apenas escutar. Se bem planeadas e acompanhadas, através destas atividades podem ser alcançados importantes objetivos, como promover a participação e estimular novas ideias e associações; intervir ao nível a orientação, pessoal, temporal e espacial; melhorar as funções motoras, entre as quais a força e o equilíbrio; estimular a comunicação, facilitando a interação social e familiar; e contribuir para a autonomia e o bem-estar da pessoa e da família.

Por várias vezes aqui foi referida a família. Qual o seu papel?
A sociedade gerou novos conceitos, modelos e designações, das quais se destaca a designação de cuidador, considerado nuns casos formal, noutros informal, sendo que o informal é o familiar que ao mudar de nome muitas vezes se despe dos afetos e da dificuldade dos lutos. Se não forem devidamente acompanhados e apoiados os familiares, sobretudo os que assumem o papel de cuidador informal, entram em sobrecarga física e emocional, acabando também eles por adoecer. Para além de um acompanhamento emocional, assume relevância a partilha de conhecimento e de formas de atuação. O reforço das capacidades e competências contribuirá para as famílias poderem melhor adaptar a sua forma de atuar a cada circunstância e para manter a qualidade das relações familiares.

Aparelho experimental português deteta doenças neurodegenerativas mais no início

ICNAS

O corredor de chão vermelho separa duas salas e duas realidades. Numa, há um aparelho sofisticado a trabalhar, com aspeto futurista, no meio de um espaço vazio. Dentro do aparelho, um ratinho adormecido é analisado para se obter imagens do seu interior. Este é o presente. Na outra sala está o futuro. E o futuro, no seu início, parece-se mais com um laboratório de garagem: atravancado, com fios a verem-se, com um aparelho sem o revestimento bonito criado pelo design, mas muito mais perto da ideia original.

Estamos em Coimbra, num dos pisos do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), a olhar para um tomógrafo construído de raiz, especializado em produzir imagens médicas para oncologia, cardiologia e neurologia, mas que também faz investigação. Um tomógrafo é um termo genérico para um aparelho que produz imagens tridimensionais do interior de corpos, a partir da soma de imagens de “fatias” desses cortes. Há vários tipos de tomógrafo. O protótipo à nossa frente utiliza moléculas com átomos radioativos que podem sinalizar objetos específicos importantes para a medicina como tumores, a beta-amiloide — uma proteína que se associa à doença de Alzheimer —, entre outros.

Miguel Castelo-Branco, diretor do ICNAS, e nosso cicerone por uma tarde, explica-nos a importância deste aparelho de tomografia por emissão de positrões (conhecido pela sigla inglesa PET). “É novo porque tem uma resolução superior às tecnologias que estão no mercado”, diz ao PÚBLICO. “Tem uma resolução de cerca de 0,4 milímetros. No mercado andamos à volta de um milímetro.”

A resolução de um aparelho representa a sua capacidade em distinguir dois pontos. Um tomógrafo capaz de criar imagens com um milímetro de resolução consegue distinguir pormenores maiores do que um milímetro, um tumor mais pequeno do que um milímetro escapa às máquinas comuns. “Se não tivermos uma tecnologia com resolução superior, não identificamos a doença”, explica o investigador. “Este aparelho permite identificar o início das doenças”, refere, explicando que esta capacidade é especialmente importante para a deteção das doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson.

Estas duas doenças têm origem em alterações no cérebro, um órgão que conta com estruturas muito pequenas. Para distinguir estas estruturas é necessário um tomógrafo com detetores de imagens mais poderosos como o que foi criado nesta sala, o que só foi possível graças a uma parceria com o físico Paulo Fonte, professor na Universidade de Coimbra e investigador no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas de Coimbra (LIP).

Para já, este tomógrafo ainda só pode ser usado em roedores, para investigação. Não tem a dimensão nem está preparado para o uso em humanos. Mas é uma demonstração da capacidade inovadora do ICNAS. “Temos psicólogos, engenheiros, médicos, farmacêuticos, físicos”, diz Miguel Castelo-Branco. “Reunimos as disciplinas todas e fazemos investigação translacional.” Ou seja, utilizam as descobertas feitas na investigação básica para resolver problemas de medicina, neste caso inventando um novo tomógrafo.

O aparelho resulta do trabalho dos físicos do LIP que investigavam na área dos detetores há mais de uma década, mas também do saber da matemática e do conhecimento aplicado da medicina. Para construir o tomógrafo, foi necessário “a tecnologia dos detetores, algoritmos de reconstrução de imagem e algoritmos de processamento de imagem”, enumera o diretor. Um exemplo é um algoritmo criado pela equipa, usado quando o tomógrafo produz imagens de ratinhos para a investigação da doença de Parkinson, onde os neurónios que produzem a dopamina, uma substância importante para o cérebro, vão morrendo: “Temos um matemático que quantificou a dopamina que está a ser sintetizada.”

O próximo passo para este projeto é redimensionar o protótipo para humanos só para imagens de cérebro. Segundo Miguel Castelo-Branco, o ICNAS e o LIP candidataram-se neste Outono a financiamento europeu pelo programa da Comissão Europeia Future & Emerging Technologies (qualquer coisa como Tecnologias Emergentes e de Fronteira), dedicado a projetos novos na área da ciência e tecnologia com um impacto potencial na sociedade. “O desafio é só uma questão de escala”, diz Miguel Castelo-Branco, adiantando que todos os problemas técnicos já ficaram resolvidos quando se construiu a versão para animais.

Se ganharem o financiamento, estarão mais próximos de ter um aparelho que pode ir para o mercado. Um tomógrafo deste tipo custa a um hospital entre 600 mil e um milhão de euros, diz o investigador. “Quem transferir esta tecnologia para o mercado vai ganhar dinheiro”, explica. Isso é uma hipótese para a Universidade de Coimbra, que graças ao ICNAS já poupou a Portugal centenas de milhares de euros nos quatro radio-fármacos que lançou para o mercado desde 2012.

O coração do edifício

A história dos radio-fármacos produzidos pelo instituto tem sido falada desde então, mas continua a evoluir. E tem como personagem principal o ciclotrão, a máquina incontornável e que é o “coração do edifício”, segundo Francisco Alves, o físico responsável por este equipamento. O ciclotrão — um aparelho arredondado e volumoso — acelera protões que são usados para produzir átomos radioativos como o flúor 18.

Esta é a primeira fase da produção dos radio-fármacos. A segunda fase é ligar átomos radioativos a moléculas. O flúor 18 é quimicamente ligado à fluorodesoxiglucose, resultando no fluorodesoxiglucose-18F, uma das quatro moléculas comercializadas. Este radio-fármaco é muito usado nos exames de PET para detetar massas tumorais no corpo das pessoas.

A fluorodesoxiglucose liga-se a células que consomem muito açúcar, uma característica das células tumorais que têm um metabolismo acelerado. E o flúor 18 brilha nos exames PET (mais precisamente, os átomos radioativos emitem positrões, antieletrões que são detetados pelos tomógrafos). Por isso, se um exame revela uma massa brilhante anómala em algum órgão, isso será indicativo de um tumor.

Todos os dias, cerca de 50 pessoas fazem este exame. Durante a noite, o ciclotrão produz flúor 18. Depois, um robô faz de técnico laboratorial e une o átomo à fluorodesoxiglucose, numa câmara com ar completamente puro. Às 6h da manhã, o material está pronto para ir para vários hospitais do país (há uma empresa multinacional que tem um ciclotrão no Porto e também produz a molécula para o mercado português). Às 8h chega a Lisboa e pode ser administrado. Como qualquer material radioativo, a radiação perde-se. No caso do flúor 18, a cada duas horas metade dos átomos perdem a radiação.

Por isso, para o exame ser eficaz, um paciente em Lisboa tem de receber o dobro da dose às 8h do que um em Coimbra, se fizer o exame às 6h. É matemática simples, mas a matemática paga-se. Antes de 2012, Portugal importava esta substância de Espanha, o que fazia com que o material viesse de muito mais longe. Por ano, o país gastava cinco milhões de euros. “Há uma poupança muito significativa por haver um produto nacional”, diz Antero Abrunhosa, responsável pela parte da química na produção dos radio-fármacos, e que estima que os hospitais paguem hoje menos de metade por aquela substância do que antes de 2012.

Além dos quatro radio-fármacos comercializados, o ICNAS produz outros 14 radio-fármacos para consumo interno nos exames médicos e em investigação. “O ciclotrão trabalha oito horas por dia. Esta noite trabalhou seis horas e durante o dia quatro vezes meia hora”, diz Francisco Alves, na visita ao aparelho, instalado numa sala que mais parece uma caixa-forte. Quando a porta, de dois metros de grossura, é fechada, o aparelho fica rodeado por dois metros de betão. “O processo para fazer substâncias radioativas liberta neutrões, são muito penetrantes e tão perigosos como o nosso feixe”, avisa.

Ao mesmo tempo que controla a máquina, Francisco Alves também se dedica à investigação da produção de átomos radioativos. Foi assim que a equipa obteve a última patente, em Outubro, depois de desenvolver uma forma dez vezes mais barata de produzir gálio 68. Este elemento radiativo liga-se a uma molécula chamada “dotanoc”, usada para detetar tumores neuro-endócrinos.

Este é o presente. Mas a partir de 2016 o ICNAS vai começar a poder exportar para Espanha outro rádio- -fármaco, invertendo o cenário comercial de há uns anos. Além disso, o laboratório está a desenvolver os primeiros dois radio-fármacos que podem ser aplicados primeiro na deteção de tumores e depois usados na sua terapia.

É o caso do antigénio membranar específico da próstata (PSMA, sigla em inglês). Unida ao gálio 68, esta molécula servirá para detetar tumores na próstata com o PET, tal como acontece com o fluorodesoxiglucose-18F. Os investigadores estão à espera do Infarmed para aprovar o radio-fármaco. Mas se o PSMA for ligado ao elemento lutécio, que emite eletrões, ajudará a destruir as células cancerosas. “A molécula leva a radioatividade até ao tumor”, diz Antero Abrunhosa, explicando que não destrói os tecidos saudáveis ao redor do tumor, como faz a radioterapia que usa feixes de radiação. Ficamos à espera do futuro.

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